SER POETA NARRATIVA EM PORTUGUÉS

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Agosto  2.019  nº 22  

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AL SERVICIO DE LA PAZ Y LA CULTURA HISPANO LUSA

Pensando a criação literária
Um apontamento de Eugénio de Sá
«O escritor é um ser desgraçado, infeliz em relação aos objectivos traçados, espécie de abutre voraz pairando sobre as palavras mortas, e pretende – pelo menos pretende – dar-lhes uma vida que estabeleça comunicação com o seu o público e consigo próprio.»
Quem o escreveu foi Joaquim Evónio de Vasconcelos, um ilustre madeirense, coronel do exército português, contista, poeta, e “déclaimer”, como poucos, e meu admirado e saudoso amigo.
Embora considere significante esta reflexão, não concordo inteiramente com a afirmação do autor, que também foi um notável poeta. E não concordo porque o escritor não é coagido a criar, na maioria dos casos ele cria por impulso próprio, quiçá por uma questão de exigência do seu altar ego, e no fundo para se dar satisfação por considerar dever divulgar as suas ideias, sem, no entanto, as querer “impor” ao seu leitor.
Excluindo aqueles que vivem exclusivamente da sua escrita – e esses, sendo profissionais, tiveram de criar os seus métodos de trabalho – as ideias de uma autor, mormente as de um poeta, raramente correspondem a objectivos traçados. Ao contrário; elas flúem ao sabor da inspiração do momento, quantas vezes deixando o seu criador perplexo ao reler o que escreveu. Não falo de cátedra, mas por experiência própria, naturalmente. Embora admita que cada caso é um caso.
A este propósito diz-nos Kátia Rebello, mestra em Teoria Literária:“Os mistérios da criação literária surgem diante dos olhos dos próprios autores quando escrevem as suas obras. Alguns autores tentam explicar o modo como criam. Entretanto, às vezes, é difícil para os teóricos não ficcionistas absorverem tal compreensão pelo facto de não lidarem com a arte da criação”.
Na verdade, tudo o que alimenta os nossos sentidos e se projecta em sensações e sentimentos, as memórias que nos afloram, ou aquelas de que nos recorremos, os sonhos que nos povoam, tudo isso serve o crivo da imaginação. Numa palavra; além da sua experiência pessoal, o mundo inteiro e o que dele vai sendo conhecido, servem a inspiração de um autor.
Mas escrever é muito mais que plasmar palavras na tela de um computador. Desde logo é um acto de comunicação, e como tal tem de servir uma ideia consistente de uma forma disciplinada e responsável.
É, sobretudo, um acto de consciência que assiste a responsabilidade de transmitir a outrem algo que consideramos importante e valioso
segundo critérios de avaliação ditados pela nossa própria essência.
Continuando a apoiar-me na minha experiência pessoal, e sendo por hábito um homem atento à vida, quantas vezes me basta assistir ou tomar conhecimento de algo que considero insólito, ou que por algum motivo me chamou a atenção, para logo me inspirar a criar uma crónica, ou mesmo um breve apontamento. Já no domínio do conto, o género não costuma motivar-me, embora tenha escrito alguns no passado. É um tipo de prosa que funciona no estilo da  narrativa, e esta quase sempre exige a mistura de notas ficcionadas, e essa mistura francamente não me atrai. Mas sempre li alguns de bons autores, e faço-o com agrado, não o nego.  
A CRÓNICA
Por alguma razão, a ucraniana naturalizada brasileira Clarisse Lispector terá chamado aos cronistas os “espiões da vida”. Enfim, liberdades de expressão de que se servem nuitos escritores para melhor significar o que pensam.
Através da faceta opiniosa do escritor – preferencialmente desprovida de qualquer presunção – este tipo de texto foca-se bastas vezes numa atenta análise sobre uma qualquer questão momentosa, que recusa o tom meramente censório para preferir apoiar-se em princípios de pura racionalidade justa e (eventualmente) moralista.
Longe de se considerar um filho menor da literatura, a Crónica é hoje considerada uma obra muito valorizada em termos de comunicação moderna, e está provado que a sua linguagem sintética e objectiva é passível de poder captar melhor atenção dos alvos a que se dirige, e assim lograr os seus objectivos. Esta lógica funda-se no facto da sociedade actual apresentar uma acentuada perda de hábitos de leitura, por todas as razões por demais conhecidas.
Já na poesia, mormente a de autores que continuam a preferir a forma clássica para se exprimir, não é por acaso que o soneto sempre ocupou, e continua a ocupar um lugar privilegiado. Na realidade, não é simples, bem pelo contrário, construir uma história nuns breves catorze versos, em que a primeira estrofe propõe e lança o mote, a segunda desenvolve-o, a terceira prepara e justifica o desfecho a que quarta é destinada. E tudo isto respeitando métrica, rima, e ritmo de leitura. O resto depende da qualidade e inspiração do seu autor.
Acabo de defender as duas modalidades literárias que decididamente escolhi, depois de haver deambulado largos anos experimentando outras veredas da literatura,  quiçá também interessantes.
Que me seja perdoada esta tendência.

SER POETA
Regina Carvalho
Ouço falar que fazer poesia é um dom e uma arte.
Eu já acredito que a poesia em um presente de Deus, presente para a
Humanidade descrente e carente. E, assim sendo, quem faz poesia nada
mais é do que um Braço de Deus, quem sabe, Sua própria Mão segurando
a caneta! Ou, no mundo virtual, digitando teclas com o coração. Quem é
poeta? O que é ser poeta? Para mim, ser poeta é ser vestido de sonhos, se
conceber como melodia, se desvestir com coragem, ouvir os axiomas do
coração para descrevê-los em versos, prosa de pura emoção. 
Para mim, ser poeta é procurar a dor ou a angústia, o amor ou o desamor, o encanto ou o desencanto, a alegria ou a tristeza que habitam o seu coração e deixar sair todo o sentimento que existe dentro dele que se abre e se deixa ver para derramá-los no papel, em forma versos de poesia e canção. 
Para mim, ser poeta é saber que sua poesia poderá servir como modelo,
ser vista como cristalino espelho ou guardada simplesmente no coração. Ou se alastrar, despedaçada em pedaços que, como folhas mortas, jazem
espalhadas pelo chão…
Para mim, ser poeta é ter essa mágica habilidade de ser o que jamais se
imaginou ser e, de repente, passar a ser o astro-rei, o sol, ou ser a lua, a
brilhante dama da noite ou ser cada uma das rutilantes estrelas ou ainda,
quem sabe, ser o mar nas ondas que vão e vêm… Para mim, ser poeta é
ser alegria, ser fantasia, ser sonho, ser verso e prosa, ter vírgulas e
reticências sem jamais ser um ponto final. E assim o poeta vai fazendo
versos, tecendo e poetizando a vida…
LAMENTOS DE POETA
Regina Carvalho 
Há tanto tempo não pensava em ti!
Há tanto tempo não te sentia nem te sonhava e, quando sonhava, era nos teus braços que eu estava… Meu pensamento em ti descansa e se desnuda com alegria como corpo satisfeito esparzindo preces, ternas cartas perfumadas, juras de amor eternizado em sonetos…
Os astros me falaram dos teus passeios vadios, da tua insaciável procura como balsa no oceano do tempo perdida do amor, amor que tu não me tens.
Esquecestes que sou tua fome, que sem mim tu nada és, mas em mim tu és poeta, poeta que no amor me decreta ser poesia e encanto, versos e
sedução…
Agora sentes o chamado da natureza reclamando os teus gemidos e os meus em horas de lascívia, de volúpia … O teu desejo desperto como incenso a queimar… A fonte da tua semente inteira, ereta, altiva e sorrateira que tanto me encanta ainda passados já tantos anos… Mas outras musas te acenam, se embalam ao teu passar e te oferecem olhares dramáticos como operetas, arrebatados no teatro do jardim do Paraíso. Foi a mim que, no entanto, foi dado desenhar-te em palavras e poemas.
Sou assim a musa dos teus sonhos. És tu o meu universo, meu tálamo, meu lamento, minha estrofe, minha música, meus versos e meu poema.
Sei que vivo por ti e para ti, Poeta da minha afeição, da minha ternura…
Possuo-te nas letras que junto e articulo. Contigo fiz amor na poesia que
concebo, pois és genuinamente o meu senhor, nos meus poemas de amor.
Lírica chamam à poesia que teço. Nela descrevo com tuas mãos sobre o meu corpo firme, fértil de sonhos, pois é nos sonhos que existo. Confesso-te que como musa me dou a ti por inteiro e, em cada olhar que tu pões em mim sou Vênus e me devoras. Sou eu que te arquiteto e te amo, sou eu que te faço viver no sonho que existe em cada homem. Fui eu que, me inventando, inventando, criei toda a mulher em mim, mulher que te quere e te venera. Sem mim a tua existência não teria sentido nem trilha, seria escura e sem brilho, pois não teria sol e não teria estrela, nem poente para o ocaso, nem horizonte para a aurora, nem o céu para o luar. És fruto da poesia da minha alma que em doce entrega ao céu te fez nascer. Amo-te assim como sendo tua musa. Ou como sereia, fada ou deusa para te encantar. Minha poesia é alimento de amor que ardente a ti entrego e tu soubeste refletir em poemas… Poemas do teu amor e do meu… 

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