POR QUÉ ESCREVEMOS TEXTOS EM PORTUGUES

COLABORAN. Eugénio de Sá-. Ary Franco.-Albertino Galvão .-Gabriela País.- Daniela Storti.- Cema Raicer.- Carolina Ramos.

O PRAZER DA ESCRITA
Por: Eugénio de Sá

Isto de escrever para centenas de leitores, e fazê-lo com a consciência leve que só o sentido do dever cumprido nos traz, além de gratificante, é uma exigência do nosso EU interior que não deve ser refreada. Se o for, estaremos eventualmente a trair uma ou mais razões da nossa existência; o porquê de aqui estarmos.

Por isso, o falso pretexto da preguiça não é válido!

Não sei se o dom da escrita não transportará consigo alguma carga de dependência, porque, aos poucos, se vai convertendo numa espécie de indispensável opiáceo, um autêntico vício para o espírito.

Divaguei, é verdade, deixando à metáfora a explicação do muito que significa para mim “comunicar-me consigo”, e fazê-lo com a regularidade a que me acostumei, levando-o, querido leitor, a viver as minhas próprias preocupações, e outras cogitações que me afloram a mente.

Um dia, vivia eu então no Brasil, numa exaltação patriótica decidi escrever sobre a primeira grande batalha que o nosso primeiro rei Afonso Henriques travou contra cinco exércitos mouros concentrados nos campos de Ourique. E resolvi fazê-lo nos escassos catorze versos de um soneto, imagine-se. Dessa grande vitória nasceram as cinco quinas que ainda hoje constituem o motivo central da bandeira portuguesa.

Consciente da missão impossível a que me propusera, em comparação com as belas doze estrofes que Camões escreveu e integrou nos Lusíadas para contar a façanha, eis a quadra que produzi para anteceder e indultar essa minha modesta peça poética que se lhe segue:

Pobre o soneto, perante as doze estâncias
Que no camoniano e belo canto terço
Falam das Quinas, quando inda no berço
  Portugal verga ao mouro as arrogâncias…

Eis o soneto que então escrevi:

AS CINCO QUINAS
Eugénio de Sá
( À minha pátria bem amada )

As cinco quinas na saga portuguesa
Marcam uma memória imorredoura
Quando arrostada a enorme horda moura
Foi derrotada por heróica empresa

Eram cinco as flâmulas desses reis
E cinco as hostes da fera e maura gente
Mas tiveram Afonso pela frente
E um só exército soube valer por seis

E Portugal nasceu dessa conquista
O mouro debandou, perdeu-se à vista
Em Ourique ganhou-se o pátrio direito

De levar por diante o sonho português
A que outros reis de igual sangue e jaez
Souberam dar-lhe corpo em cada feito

ENDORFINA POÉTICA
Por: Ary Franco (O Poeta Descalço)
Brasil

Cheguei à conclusão que o Poeta sente necessidade incontida de escrever ou poetar em seu cotidiano existencial. poemas, poesias, crônicas ou contos são o alimento precípuo e indispensável à sua Quando tenho algum  escrevinhado em andamento, alço vôo às nuvens e por lá permaneço concentrado até a conclusão de uma quimérica inspiração. Uma vez terminada minha obra, sinto minh’alma invadida pela incrível sensação de ter adentrado numa alameda orlada de lindas e olorosas flores, que me aplaudem com suas veludosas pétalas e curvam-se em reverência, ajudadas pelo soprar de amena brisa.

Escrevo para mim e para uns poucos que me lêem. Sempre leio e releio o que escrevo como se fosse outrem que o tivesse feito. Colocando à distância minha modéstia, sou um admirador do que escrevo; se não me satisfaz, coloco-o na minha pasta de “poemas inacabados”. Tenho lá, sonhos pela metade, não concluídos, começados mas naufragados pelo esfumaçar da inspiração que inopinadamente deixou-me a meio-caminho.

Mormente em dias e clima não adverso, astral elevado, volto a essa pasta e reinicio com afinco uma poesia inacabada e geralmente logro êxito em meu intento. Após colocar um fundo musical adequado ao tema, amiúde, emocionado, choro de satisfação e gostar. Uma vez divulgado, não raras vezes, cai no carinhoso agrado de alguma Amiga que o formata para meu gáudio, massageando meu ego.

Escrevo, sempre escreverei, ainda que em linhas tortas, deixarei nas folhas brancas do papel, mensagens ditadas pelo meu indômito coração. Ora utopias, ora verdades passadas, alegres ou tristes, mas que mantêm minhas recordações acesas, qual chama tremeluzente que jamais deixa-la-ei apagar.

 O Poeta traduz seus sonhos em versos rimados.
Fala em seus poemas, de amores vividos e acabados.
Deixa em cada estrofe, doces lágrimas ou sorrisos.
Pode olvidar o inferno e viver num sublime paraíso.

Alcança estrelas, afaga a lua, sem tirar os pés do chão.
Não tem vontade própria. É cativo do que dita o coração.
Alhures, nunca se prende onde está. Vive à mercê do sonhar.
Em meio à bruma, vislumbra onde melhor poder amar.

Nômade liberto, sem grilhões, segue para onde sopra o vento.
Perenemente em busca do amor, de um poema, seu alimento.
Uma folha caída ao chão, o inocente sorriso de uma criança.
O olhar de uma bela mulher, que acaba com sua temperança.

Ser Poeta! Divina dádiva concedida pelo nosso Amado Deus.
Consegue esconder lágrimas e sorrir até em um dorido adeus,
Só para não entristecer o coração de sua amada que parte.
Quando perdida de vista, chora todo seu pranto, toda sua arte!

TODO SONHO SE ACABA, QUANDO REALIZADO!

PORQUE ESCREVO?..
Por: Albertino Galvão 

À pergunta porque escrevo respondo de forma simples e concisa! 

Porque quero, porque devo, porque me dá prazer e porque escrevendo mitigo as dores e rasgo-me em sentimentos. Se escrevo bem ou mal…não sei! Sei que não me cresce o ego com os elogios nem me perturbam as críticas negativas porque não escrevo para vender, mas sim para me valorizar e evoluir culturalmente. 

Em tempos, fui  “acusado”, ou melhor, criticado, por escrever, (segundo o crítico), poemas feios. Referia-se ao facto de eu versar, com insistência, o lado feio do Mundo. Respondi-lhe que escrevia sobre o que via, ouvia e sentia, porque a alma a isso me obrigava; mas fiquei a pensar no assunto e concluí que muitos dos poemas que escrevo poderão, efetivamente, ser feios; não pela rima ou métrica porque nessas vertentes me esmero, mas porque os temas que abordo são, realmente, feios. 

Não faço poemas “feios” por decreto, imposição, loucura ou masoquismo! Escrevo-os porque muito do que o mundo me mostra é feio e porque, como poeta que tento ser, os devo a mim próprio e à humanidade.  

Preferia, pois claro que preferia, fazer poemas arrebatadores com metáforas invulgares a enfeitá-los, assim como quem faz um arranjo com flores diversas e lindas! Poemas com palavras rebuscadas, onde a rima fosse amor, cada verso conquista e cada estrofe paz, mas não sou capaz! 

Os meus poemas são “feios” porque é feio este mundo onde vivo, (ou vegeto), e onde sou baralho sem azes, tendo apenas, como trunfos, os meus poemas “feios”! São “feios” porque denunciam coisas feias como guerras, droga, miséria, prostituição, e a escravidão que hoje se pratica de forma dissimulada, “sofisticada” e cínica!  À espada e chicote, agora, dão-se nomes como banca, finanças, economia, política, euros, dólares! Honra, glória, dignidade e respeito, andam perdidos entre religiões, seitas e políticas dúbias! Como poderei fazer poemas bonitos se há Nações manipulando e dominando outras Nações mais frágeis e pobres, roubando-lhes a identidade e a independência?!… Como poderei fazer poemas bonitos quando se violam e assassinam crianças; quando fome e doenças vitimam, diariamente, em África e um pouco por todo o mundo, milhares de inocentes cujo “pecado” foi o de terem nascido neste mundo feio?!… É por elas e por eles que escrevo e escreverei poemas “feios” até que me doam os dedos e o papel sangre! Impossível, pelo menos para mim, denunciar, com seriedade e realismo, coisas feias de forma floreada e bonita. Desculpem!   

ESCREVO PORQUE AMO
Por: Gabriela Pais
(Portugal) 

Porque será que escrevo, às vezes não sei, parece um chamamento, algo que me impulsiona a deitar para fora a repulsa que sinto, por certas vicissitudes, circunstâncias, comportamentos ignóbeis difíceis de compreender. O que considero não ter coerência, fazer sentido, o que está mal e não aprovo, segundo os meus conceitos de verdade, morais e cívicos.

Embora seja por vezes difícil de expor as razões e escolher os termos, palavras mais macias que não magoem, para não ferir suscetibilidades. A palavra representa o que se sente, revela um pensamento, podem ser beijos de amor onde a lua com seu manto de luar acaricia ou ser o sol que acalenta e me transporta a um mundo mágico.

Também a existência de palavras cruas, alucinantes, transmitem noites gélidas, um vazio, um silêncio que fere. Escrever é narrar algo com o coração e com verdade.

Interessando-me apenas pelo que a minha consciência valoriza e por essa, julgo eu que estaria um mundo muito melhor, onde o respeito, numa só palavra, dignidade, todos estaríamos a viver em harmonia. Claro que todos temos defeitos e qualidades, onde estou incluída, mas há inúmeras atitudes que podiam ser limadas. Os tempos atuais são difíceis virando o mundo de cabeça para baixo, por culpa de uns tantos incapazes sem escrúpulos.

Ao escrever sinto que navego no espaço. Amo demais o meu País, suas gentes seus usos e costumes sua história!  Enfim, tudo o que nos rodeia! Um diamante bem lapidado, repleto de brilho e muito mais, onde podíamos ser um torrão açucarado.

Escrevo igualmente pela ardência que sinto pela natureza, cores, formas aromas, a existência de todos os seres, torna-se contagiante. Uma embriagadora maravilha, que nada se lhe igualha (a não ser o grande amor pelos filhos).

A beleza dos rios no seu deslizar, a sua morfologia tão especial, a fauna e flora ribeirinha, alguns de um encanto tamanho, que a razão adormece e a alma rejuvenesce. A importância na sua preservação, deveria ser intensamente valorizada, não esquecendo os benefícios que oferecem. Como se poderia viver sem água, o seu aproveitamento para a sobrevivência na terra é essencial.

O mar, beleza ímpar outro fascínio, o mar é paz, é amor pela vida, olhá-lo até onde a vista o alcança, sente-se o espírito relaxarO sol reflete seus raios pela superfície das águas cerúleas, tornando-as num espelho de prata.

Suas ondas se elevam em dança de espuma, são pérolas que acariciam espraiando-se no areal. A cor do mar quando está como a do azul do Céu, eles se tocam se beijam, envolvidos em abraço adormecem…

Quando encapelado ouve-se seu bramir de dor quando sem dó nem piedade tudo leva, destroçando vidas causando pesar, perdendo assim todo o encanto. Como na vida, sempre depois do tumulto, da dor e sofrimento, vem a calmaria, apreciando-se com maior amenidade, o bem com que a vida nos mimoseia…

Pergunto vezes sem conta, quando aprecio o campo e o que nos rodeia, quem foi o autor deste prodígio, desta tela pintada sem tintas, mas de um colorido sem igual, obra de arte cuja mão só podia ser Tua, meu Deus. 

Expressar os sentimentos é um refúgio, escrevo porque sinto que é um lenitivo para a alma. Julgo que através da prosa, da poesia, possa contribuir para um mundo melhor, onde a paz, a harmonia e a compreensão entre os humanos, seja uma esperança.

Há palavras que fazem sofrer, outras são doces palavras de amor, são expressivas, quando escritas com o coração, são pedras preciosas, são jardins floridos que desabrocham de entre sonhos.

POR QUE ESCREVEMOS
Por: Daniela Storti

A escrita surgiu por volta de 3200 A.C na Suméria no Sul da Mesopotâmia, diferente das representações rupestres da pré-história que eram desenhos sem padronização, os pictogramas. Esta nova descoberta alavancou o desenvolvimento dessa civilização que tinha a necessidade de organizar sua economia, registrar os fatos e preservar as informações, fazer cálculos e se comunicar, através da escrita denominada cuneiforme.

A escrita sempre acompanhou o desenvolvimento humano, atravessou todas as eras, culturas, línguas e extratos sociais, até chegarmos aos tempos contemporâneos onde vivemos a era da informação digital, das mídias sociais, nunca se escreveu tanto como na era da internet, teses, artigos, blogs, jornais, livros, estão todos a disposição na rede mundial de computadores. Hoje de alguma forma todos somos escritores.

Mas afinal, o que nos leva a escrever, penso que escrever seja uma forma de organizar ideias, desejos e encaminhá-los, escrever é algo que podemos transmitir ao outro e tentar sermos minimamente compreendidos, pois pensamos de uma forma semelhante apesar de sermos diferentes em vários aspectos vivenciais, pois falamos a mesma língua e esta deve fluir através da escrita, senão não existiria cultura em seus mais variados aspectos.

O escritor, é alguém que escreve para sobreviver, pois isto faz parte da sua essência, é algo como andar de bicicleta uma vez que se aprende nunca mas se esquece como fazê-lo e  isto lhe dá uma sensação de liberdade, ele o faz para conhecer a si mesmo e aos outros, ultrapassar seus limites, mitigar suas dores, descrever suas memórias combater injustiças; escritores são almas solitárias, fantasiosas, apaixonadas, outras vezes soltam as palavras para se livrar de seus fantasmas.

Sendo assim, creio que o mais importante na árdua jornada  de um escritor seja sua paixão pela literatura, a necessidade de ver sua obra criar cognição em outros seres através de novos olhares e de vê-la ganhar vida e movimento em outras mãos, o seu encantamento pelas histórias, notícias, personagens seu amor pela vida e sua poesia, a superação de suas próprias limitações na busca de um sentido para sua alma que lida constantemente com a angústia o prazer e a inquietude do viver, sem nunca desistir escrevendo para sobreviver e perdurar rumo ao infinito.

POR QUE ESCREVEMOS?
Cema Raizer                      

Pensando bem, o tempo voa…  e vale à pena pensar nisso : é muito bom fazer sempre o que gostamos! É isso que me fez pensar sobre o tema: Estou aqui, no alto de um prédio, e vejo o mundo através de um grande vitral, muito feliz, tomando uma  coca – cola, relembrando os tempos de  juventude!

Ouço uma canção saudosista… dessas que marcaram época!

Sim! O tempo voa e  a vida segue…  A gente fica  com  muita saudade do tempo que  passa! Fazer o que?  Nós não podemos segurar o tempo! E a vida segue até onde é possível. É claro, temos saudade dos bons tempos, sempre!

Ficamos inquietos com doces lembranças. É assim mesmo… faz parte da vida!

Sentada, na lanchonete,  observando  através da imensa parede de vidro: vejo um lindo céu azul claro, imensas nuvens brancas que seguem num suave movimento, e, como numa magia, desenham figuras gigantes no céu !

Observando as imagens de nuvens, vejo nelas um belo jovem, abraçando uma jovem, e também vejo um urso, uma criança, e uma linda e suave silhueta de mulher… e um barco num suave navegar… Momentos relaxantes!

Bom recordar o tempo em que me perdia, observando a arte das nuvens!

Aqui, nem sinto o tempo passar… escrevo esse texto com entusiasmo!

Momentos de meditar, num cantinho agradável onde ninguém interrompe minha inspiração! O tempo voa, eis porque escrevemos: É muito bom registrar esses momentos inesperados… qualquer pedaço de papel aceita  essa vontade de registrar simples  momentos de  valor, que como as  nuvens que despertam em mim, um saudosismo ligado à infância, e me e levam a escrever!

.O LEITOR…
 Carolina Ramos (Brasil)

Quando alguma ideia pula da mente para o papel, ou, melhor dizendo … quando algumas frases aparecem na tela do computador, clicadas por dedos, não tão ágeis às vezes, quanto as ideias que fluem, os primeiros leitores serão sempre os olhos do autor, críticos ávidos, prontos para descobrir o que pode ser dito de melhor maneira, o que pode ser cortado como supérfluo, ou, tão-somente, o que pode ser amenizado com um pouco mais de bom senso. E como são exigentes estes dois leitores que, analisam com rigor aquilo que a mente deixou passar sem cuidados maiores, sem analise ou filtro, mantendo ainda a pureza de um retrato sem retoques, nata do que foi dito, sem alcançar ainda forma definitiva!

 Só depois desse elaborado encontro com o autor, o texto, viabilizado, terá passagem liberada para chegar a outros olhos, talvez até mais benevolentes do que os primeiros!

 As páginas, os livros e os versos, levam dentro de si, a alma de quem os escreveu. Toda obra, em geral, tem o efeito de catarse, nem sempre buscada, mas incontida sempre. Isto porque, a sinceridade de quem escreve, é sempre difícil de ser controlada, e ainda mais, de ser disfarçada.

 O leitor, tem em mãos uma obra qualquer. Poderá folheá-la com certo interesse. Como poderá relega-la, após esse folheio. Poderá ainda, deixar-se prender, quase que inconscientemente, por aquele fio invisível que conduz a narrativa até o ponto final – marco inconfundível de vitória do autor! A sintonia que une a mente de quem escreve à mente interessada de quem lê, é o objetivo principal daquele que nasce fadado a fragmentar-se, a cada dia, em letras e sinais gráficos que espelham o que pensa, expõem o que deseja, na entrega da alma inteira a seres que sequer conhece, mas cuja existência o ajuda a manter viva aquela chama criativa que lhe garante a sobrevivência do impulso indispensável à ação de escrever. E é justamente aí, que a importância do leitor mais cresce! Quem escreve quer ser lido.  E, portanto, quem lê é complemento indispensável ao estímulo e à perpetuidade da difícil arte da escrita.

  O leitor é testemunho público de que, aquele escritor por ele prestigiado, faz jus ao título que carrega, podendo, até mesmo depois de morto, ser considerado imortal, uma vez que suas páginas palpitam ainda em mãos de quem as encontrou numa estante, em formato de livro. E esse alguém, ao ler aquele livro com carinho, salva o autor da triste penumbra do esquecimento, cruel e contumaz apagadora de nomes e memórias, a cada dia que passa.

Assim sendo, respondo, sem maiores pretensões, à pergunta feita por Aristos: – Por que escrevo?

– Simplesmente porque gosto de escrever.  E, também, porque meus leitores parecem gostar daquilo que escrevo.

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