POEMAS EM PORTUGUÉS

 

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Marzo  2021 nº 41

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AL SERVICIO DE LA PAZ Y LA CULTURA HISPANO LUSA

 


COLABORAN: Rose Arouck .-Virginia Branco.-Eugenio de Sá.-Abgalvão.-Gurgel do Amaral.-Iran Lobato.-Mario Matta da Silva.- Alfredo Santos Mendes

 

CARDÁPIO DE LETRAS
 Rose Arouck 
( A Poeta Trovadora )

Mastigarei o incerto
e o engolirei temperado
com o esperto.
Vou empanturrar-me do
caldo filosófico
ensopando minha alma
de toda espécie de tóxico.

Ofereço esse cardápio de letras
onde formo o dito desconexo,
para sensibilizar os
que se revoltam contra o amor,
depois vomitam biles, por complexo.

Ofereço mesa farta de eufemismo
com a iguaria inusitada
do paradoxo.
Servirei a tenra e salgada ilusão.
Substituirei a entrada
por sinuosa paixão.

Na taça enfeitada de emoção,
Colarei meus lábios ao vinho
bebendo o alcoólico tesão.

Após o lauto pasto
subirei de ré ao cadafalso.

Nada poderá me afetar.
Entregar-me-ei à sanha da crítica.
pois, o que me envolve
ninguém resolve
e muito menos se explica.

 
Aquela Voz
Rose Arouck
( A Poeta Trovadora )

Não foi enfático
nem exigente;
sua voz fluiu suavemente
penetrando nos vãos da porta
mistificando o poder de quem se importa
reforçada no seu apelo pra eu voltar…
Atravessou todo o meu eu sofrido
e despejou gotas de lamúrias no meu ouvido
desejando novamente me amar…

Só que aquela voz, que atravessava tantos fios,
chegou sonolenta alcançando o meu vazio,
penetrando entre as dobras do meu lençol…
Não pude identificar o que antes foi meu sol;
entendi que o antigo azul das manhãs
agora eram brumas temporãs,
cascata de resquícios de horas vãs
que se gastou…
Nem a música era a mesma que tocou.

Aquela voz esqueceu e cantou outra,
num tom amargo aprofundando a letra rouca,
querendo me convencer a acreditar…

Não pude aceitar e nem devia,
diante de tantas frases que ouvia,
formando um tudo que só me entristecia…
Percebi, antes que terminasse o dia,
que mais e mais aquela voz precisava se calar.

NUM COLORIDO VERDE-MAR
Virgínia Branco

Eram jogos e bailados,
eram corpos bronzeados
num colorido verde mar.
O teu brado inflamado
já me fazia sonhar.
A convite dos teus olhos
impulso do meu valsar,
fui dançar para os teus braços
noite e dia sem parar.
Os corpos enamorados
rodopiam em bailados
com o sol a acarinhar.
No carinho que trocámos
foi-se o sol …foi-se o dia,
veio a lua e a maresia!
E o bailado bronzeado
passou a ser prateado…!
Mas agora cinzelado
pelo teu rodopiar,
num colorido verde mar.

G A I V O T A S
Virgínia Branco

Desde ontem que andam gaivotas a voar
e poisar perto da minha janela… 
Assim vou lembrando o meu mar !

Magia no lusco-fusco ;
-Nas patas trazem-me estrelas…,
nas asas grãos de areias, para delas matar saudades!
No bico uma alga com perfume,
ao que fica depois das tempestades!

ENTRE O SONO E O SONHO
( Analogia ao Poema de Fernando Pessoa, datado de 11/09/1933.
O Poeta retrata o seu próprio Eu, dividido entre o SONO / a sua própria vida
e o SONHO /A vida ideal sonhada), onde corre um rio sem fim, impossível
de atravessar, que lhe dividia o seu hoje, do futuro. )

   A FORÇA DO MEU EU….!
Virgínia Branco

No sono reparador
que nos quebra e revigora
nasce o sonho que acalenta
e nos alivia a tormenta.
É bom acordar na hora.

No sono somos crianças,
mas criança é já pessoa.
Nas crises da existência
nascem sonhos, a alma voa.

Este limbo pertinaz
é diário e refaz
as ânsias que o homem sente.
Mesmo o melhor conselheiro
dizem ser o travesseiro,
onde  descansa o guerreiro.

As sedes que  me atormentam
vão das artes às ciências.
Os humanos  com carências,
para o planeta, clemência!

O sonho voa no espaço
mas acordou minha mente.
O que hoje me rouba o sono
é somente a internet.

Como hidra se agiganta
mitigando as minhas ânsias.
Sonhando o mundo tem esperança.
Bola de neve que avança
neste rio com outro céu.

O destino está traçado
mas pode ser modificado
pela força do meu Eu.

Louca, cega, iludida Humanidade
Miserável de ti! Não consideras
Que o barro te gerou, como que esperas
Evadir-te à geral fatalidade!

( Bocage, in: sonetos heróicos “Louca, cega, iludida Humanidade
– 1ª estrofe)

 Glosando Bocage
 Por: Eugénio de Sá

Louca, cega, iludida Humanidade
Que o fel de mil demónios libertaste
Reconhece de ti a atrocidade
Nos actos, nas sevícias que criaste.

Dos teus génios, aqueles que premeias
– Miserável de ti! Não consideras –
Que há outros, solidários, mas que odeias;
Os paladinos das causas sinceras.

Vives só de aparências e quimeras
Longe das realidades, sempre esqueces
Que o barro te gerou, como que esperas
Que do frio voltarão os que arrefeces?

Ouve as trombetas do final dos tempos
Atenta ao que levou a leviandade
Não há como indultar-te com lamentos
Nem evadir-te à geral fatalidade!

Há…
Abgalvão

Há mãos sensíveis à espera
De quem as possa afagar

Dedos com laços à espera
Sem dedos ter p’ra enlaçar

Braços carentes de abraços
Sem quem os queira abraçar

Olhos olhando o vazio
Sem outros p’ra quem olhar

Lábios em bocas de amor
Sem lábios ter p’ra beijar

E há ventres gerando esperança
Com fé de não abortar


Vazio…
Abgalvão

Qual astro mudo, enfeitiçado,
paro num tempo inconsistente…
Sou pelas sombras interpelado,
vejo o silêncio correr p’ra mim…

Passa um olhar, intermitente,
frio e cortante que então senti…
Visto o desgosto negro e ruim
gemo o vazio que não pedi!

SEDENTA
Yvany Gurgel do Amaral

Tens água suficiente
Para tua ânfora encher?
Podes saciar a sede
De quem te escolher?

Tens consciência de que
Numa pedra cinzenta
Pensar que és a única
É estar sedenta?

Sabes multiplicar ânforas
E enchê-las de carinhos?
E brindar o teu amor
Com beijos de arminhos?

Pensas em vender a água
Ou a ânfora dourada?
Sabes dormir com sede
Em plena madrugada?

E se a fonte secar
Perto da árvore ressequida?
De nada adiantará
Tua ânfora no chão caída.

Então bebe e divide
A tua límpida água
Enquanto não chega
A seca esturricada

Quem sabe se o vinho
Ainda adocicará tua boca
E assim permanecerás
Apaixonada e louca…

INSÔNIA
Iran Lobato

Parceira que chega se o sono não apea,
Trazendo os rabiscos da arte que faz
Inflama o sentido a vibrar-me loucaz,
Causando emoções, e a razão incendeia.

Afaga-me a alma sem medo, co’ardor,
Induz fantasias com toda malícia
Na estrofe heroica que implora carícia,
No ébano que a solidão traz pavor.

Por que só me chegas quando assim o queres?
Malgrado o desprezo, que a mim dissolve.
Preciso de ti, por que a musa dorme?

O que te faz ser como as mulheres?…
Vem poesia, sem pejo e sem pudor,
Nesta escuridão de extremo torpor.

MUSA PROCURA-SE…
Mário Matta e Silva

Nas noites escuras de insónia desesperada
Vagueio pelo Olimpo, com Zeus no pensamento
Na cama aconchegado em cálido tormento
Em busca de palavras, espero a alvorada.

Nada me ocorre, a lua vai difusa
A mente está lenta e a alma pouco sadia
Não encontro mote, nem verso, nem poesia
E na escuridão da noite não vislumbro a Musa.

Ai dor sórdida que me desfalece
Horas de angústia que jamais se esquece
Sem Poeta à vista, em febril ausência.

A manhã se descobre e o sono então apetece
Num fechar d’olhos o coração se aquece
E a Musa retorna na sua grata inocência.

PLANO 80
 Mário Matta e Silva

Cheguei hoje aqui cheio de esperança
Fazendo um balanço da caminhada
Revendo esta idade que se alcança
De uma forma por certo apaixonada.

Cheguei ao remoinho, ao plano inclinado
Sugado pelos anos, pelas vicissitudes
Memórias recônditas, elos do passado
Histórico de amor, luta em tempos rudes.

Franqueza do olhar, do gesto, da teimosia
Na passagem dos anos, dia após dia
Até estas suadas oitenta primaveras.

Incógnitas de futuro, exaltando a beleza
Exposto desde a nascença à mãe-natureza
Em tantas realidades, sonhos e quimeras.  

EU SOU DO BANDO DE POETAS
( No Dia Mundial da Poesia )
 Mario Matta e Silva

Eu sou do bando de poetas inspirados
Que cantam o sol, a lua e o mar
Girando livremente pela brisa, pelo ar
Rodeado de musas e deuses apaixonados.

Eu sou do bando de poetas, de olhar sedutor
Vibrando nas florestas e nos montes
Desbravando com o olhar os horizontes
Espalhando róseas canções de amor.

Eu sou do bando de poetas e gaivotas
Respirando avidamente a maresia
Canto a tristeza e canto a alegria
E o cantochão das peregrinas devotas.

Eu sou do bando de poetas e pardais
Num chilrear estridente e vibrante
Numa doçura corporal de eterno amante
E vou percorrendo por ai os arraiais.

Eu sou do bando de poetas e letrados
Mestres das serenatas e desgarradas
Sem esquecer cantigas das desfolhadas
Pelos campos de papoilas, pelos prados.

Eu sou do bando de poetas, romanceiros
Dos clássicos, românticos, realistas
Vibro com os poemas modernistas
 E gosto dos surrealistas, esses aventureiros.

Eu sou do bando de poetas do passado
Trazendo versos ao entardecer
E vou nos sonhos, com a lua a crescer
E no encantamento de um tempo renovado.

TERCEIRA IDADE
Alfredo Santos Mendes

Curvado pelo peso da idade.
Sua mão estendida à caridade…
Lá vai o pobre velho caminhando.
Enquanto a multidão algo apressada,
naquela mão tremente, calejada,
a sua esmola vai depositando!

O velho balbucia um obrigado.
Não é mais que um soluço envergonhado,
simples sussurro, em forma de oração!
E recorda que foi homem do mar.
Que nunca uma procela o fez vergar;
hoje se verga à sua condição!

Condição de mendigo, que tristeza.
Para quem teve um lar com farta mesa,
teve leito macio p’ra descansar.
Agora tem por casa o meio da rua…
E como companhia a luz da lua,
e de um rafeiro cão, p’ra acarinhar!

Em vez de ter um quente cobertor…
Tem um jornal do dia anterior,
que o vai resguardar da noite gelada.
Também o seu cão procura um abrigo.
Se enrosca a seus pés, dormita consigo.
Dá-lhe seu calor, que sorte malvada!

Passa no céu uma ‘strela cadente.
Deixando ao passar um rasto luzente,
que logo se esvai e desaparece.
E lembro que ouvi ainda criança:
Ver estrela cadente, é esperança.
Formula um desejo, e ele acontece!

Então formulei a minha ambição:
Que a ninguém mais falte um pouco de pão,
possua seu lar tenha seu cantinho.
E quando chegada a terceira idade,
que viva feliz, não de caridade.
Não lhe falte amor e muito carinho!

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