POEMAS EM PORTUGÚES

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Febrero  2021 nº 40

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Estos conservan el copyright de sus obras
AL SERVICIO DE LA PAZ Y LA CULTURA HISPANO LUSA

 

COLABORAN ;Virginia Branco.-Regina Coeli Rebelo Rocha.-Eugenio de Sá.-Ary Franco (O Poeta Descalço).-Santa Catarina Fernandes da Silva Costa.-Celso Henrique Fermino.-José Ernesto Ferraresco.-Yvany Gurgel do Amaral.-Iran Lobato.-Amilton Maciel Monteiro.-Mario Matta.-Adão Wons.-

SOU MULHER NINGUÉM
Virgínia Branco

Marulho que se agiganta
com força dentro de mim.
Resposta à força que dança
no palco do exorcismo;

Sobre os fracos , o abismo !
Deles me sinto irmanada.
Destrinço o trigo do joio..
Embora em tempo serôdio,

não serei folha caída
e nunca darei guarida
à intriga planeada.
Nunca aceitei ser capote de tortura,

nem ter na boca armadura
nem criar o sobressalto.
Só quero cantar bem alto,
eu sou mulher ninguém!

ALERTA POETAS, ALERTA!
Virgínia Branco

Liberdade é pomba branca
rasgando o azul dos céus.
Mas o que encontram as pombas?
Da luz apenas as sombras
um amotinado de véus.
A neblina em protecção
o conflito, o atrito
a desilusão.
Na guerra a carnificina
na caserna a podridão!
Poetas erguei os braços
não somos como Pilatos,
meninos de olhos baços
feridos pelos estilhaços
da pólvora da confusão,
anseiam pelo nosso alerta.
Alerta Poetas, Alerta!
Lutemos com a baioneta das palavras
soltem-se aos quatro ventos,
num pedido de clemência
os sonhos…os  pensamentos.
Devolvamos aos nossos filhos
a  esperança dos ideais.
No pântano da violência
floresçam jardins.
E as pombas batendo as asas
em regresso primaveril
tragam aos filhos da dor
nos bicos;-Uma promessa anil
de Paz e Amor!


Digressões
 Regina Coeli Rebelo Rocha

Sou só um raio, e vou buscar um mundo
De farta luz a iluminar-me os passos;
No doce enlevo por fiéis abraços,
Vou ser mais forte no meu eu profundo.

A voz do vento eu hei de ouvir ao fundo
Cantando a vida em seus leais compassos
Fazendo coro a corações devassos
Que habitam, belos, um ser vagabundo.

Que vale a pompa, se a atitude é feia?
Pra que o discurso, se a palavra erra?
Não sente o mar quem fica só na areia…

Fazer silêncio ao desamor que berra
É a Luz do Tempo que o Saber clareia
Aos que não passam cegos pela Terra!

Fervendo, em décimas
Eugénio de Sá

A cem graus ferve a água e dá o mote
Às fervuras que temos nesta vida
Ferve em tristeza uma causa perdida
Ou de um perdido amor ferve o derrote
Fervem uns olhos lindos ao dichote
Ferve numa quezília o palavrão
Ferve uma mãe que morre d’aflição
Ao ver em perigo o filho desvalido
A raiva ferve aos atos sem sentido
Ferve o ouvido ao som de uma canção.

Ferve na carne o sol em combustão
Que nos dota de tom a branca pele
Ferve d’insuportável e repele
Uma mordaz e vil insinuação
Fervem no ar as notas da canção
Que nos recorda uma ilusão perdida
Fervem em pranto memórias da vida
Que nos trazem ruídos de saudade
Ferve o desejo num corpo sem idade
Pois sem idade é todo o coração.

E se o ciúme ferve e dói na carne
Ao falso anúncio de traição fatal
Mais ferve a injustiça de um Natal
Que um velho passa só e abandonado
Porque é dos velhos esse triste fado
Como dos jovens é a inconsciência
Quando lhes ferve o vício em consistência
Mas se ferve o amor não se derrama
Se o soubermos manter como uma chama
Que se alimenta da nossa paixão.


MARINGÁ VORTÔ!
Ary Franco (O Poeta Descalço)

Passei o dia interinho a esperá
Minha cabrocha logo vai chegá.
Como tá demorando a acontecê,
Meu coração tá cansado de sofrê.

Maringá, tô morrendo de saudade!
Quero ti beijá, quero ti abraçá.
Nunca mais ocê vai lá pra cidade.
É cumigo que ocê tem qui morá!

Já enfeitei a sala com nossas rosa.
Ôce vai gostá. Vai ficá toda prosa!
Sempre disse que ôce é minha frô.
Só ôce é qui manda no meu amô.

Quando ocê foi embora i mi deixô,
Tudo aqui ficô triste, tudo si acabô.
Us pássaro calaram, o sol si apagô.
I cumigo só a tristeza é que ficô.

Desde cedo tô impé aqui na porteira
Mas já vejo ôce vindo chegandu.
Vem voando num cavalo galopandu.
Meu amô vêiu pra ficá a vida inteira!

Vortaram as estrela e a lua a brilhá.
Tô feliz cum a chegada da Maringá!
Meu peito outra vez já tá respirando
Meu coração novamente tá amando!

OLEIRA
Santa Catarina Fernandes da Silva Costa
Brasil

Na neblina do tempo a vejo, menina.
Menina- oleira, amiga do barro, mexendo com ele,
Fabricando tijolos, observando os esqueléticos cavalos,
Girando, girando, cansados, sem questionamento,
Sentindo o calor do forno,
e dentro dele, os tijolos em cozimento.

Cruze, descruze, os tijolos prontos, nas filas imensas,
As costas doem, mas nem conhece a palavra sofrimento.
Achava bonito aquelas fileiras imensas de tijolos prontos.
A menina do barro, dele fazia sua comida,
A comida lhe dava os sonhos
E os sonhos davam à menina –oleira
A direção dos dias

E os dias tiraram a menina do barro,
Suas mãos sujas encardidas, calejadas
Tornaram-se finas, suaves e delicadas.
No lugar da forma do tijolo, foi-lhe dada a caneta,
Do curvar das fileiras, deram-lhe gavetas,
Onde ela engavetou seus sonhos.
E com a caneta, leve, fina, enfileirou seus pensamentos
O papel substituiu o barro, que ficou no passado enterrado.

LABIRÍNTIMO
Celso Henrique Fermino

O mundo, com suas mais tênues cores, sorrindo-me
Os alvos dentes, o meu sorriso amarelo não o reflete
Talvez minha introspecção seu horizonte enegrece
Raios do sol, o arco-íris matizar não conseguem
Tudo ao meu redor de tintura monocromática tinjo
Da mesma cor dos irracionais pensamentos meus.
Depois do prazer, a madreperolada ostra surge
Hermeticamente fechada como minha boca
Em seu interior, não mais a laqueada pérola bela
Por uma amorfa ordinária pepita, cambeada fora
Vertigens desenham arabescos, o equilíbrio falta-me
Tonto, caio; em meus próprios labirintos perco-me
Cadê o barbante-guia? Negligente Ariadne!
A saída, a cada misteriosa curva não a encontro
Creio o caminho conhecer, contudo, equivoco-me
Como pode isso!? Se com minhas mãos o edifiquei!
O ar me falta. Desesperadamente o busco
A todo custo à realidade voltar para respirar preciso
Em meio à treva, ao longe, um raio de luz enxergo
Corro o mais rápido em sua direção que consigo
Cada vez mais distante parece-me, consumindo-se
Exausto, inundado de suor,  a visão turva, a ele chego
Cautelosamente aproximo-me. Caleidoscópio fúlgido
As pesadas pálpebras lilases já, de insônia, fecho-as
Manter-me acordado tento. Não consigo. Desmaio.
Em uma cama azul acordo. Paredes cor-de-rosa
Um ventilador preguiçoso no teto, devagar gira
À minha queda em espiral remeto-me. Infinita.
Aquela mesma que ao mais profundo eu levou-me
Mãos de seda trazem-me à verdade. Atordoado ainda
Aos poucos a figura iluminada de um anjo focalizo
Com um sorriso de boas-vindas e um tanto indagador
Ternamente beija-me nos lábios e meus cabelos afaga
Profundamente um bom bocado de ar puro inalo
Os pulmões, os inflo. As imagens, desfocadas até então
Nitidamente à minha volta desenham-se, e
Em meu nu peito, quente, convidativo e acolhedor
O anjo, vagarosamente, sua dourada cabeça pousa
E em um gesto pueril, fecha os olhos e adormece.

Martírio de poeta
Celso Henrique Fermino

O poeta agora estéreo,
agoniza.
A palavra relutante,
martiriza.
O medo invade-lhe o peito,
ojeriza.

Risca e rabisca um soneto
simbolista.
Não finaliza um quarteto
demonista.
Abandona tudo e foge,
escapista.

No ermo e sombrio retiro
estrangeiro.
Maldita constatação
derradeira:
Um poeta de talento
passageiro.

Já tem forjado seu nome
agourento
em lápide de granito
avarento
e em terreno excomungado
lamacento.

No lúgubre cemitério,
finalmente.
Lar dos malditos poetas
decadentes
de um mundo sem poesia
inocente.

ARMENIA
Celso Henrique Fermino

Conduzem a musa verdes sapatos
degraus abaixo em minha direção
Flores no corpo, rosa em tua mão
Poucos passos acercam os hiatos

que nublavam os olhos dos literatos
Fiat lux! Luz para minha visão
Tempestade sem raio, sem trovão!
Somente brilho em trilhos abstratos

Versadora livre de rima pouca
Do lábio teu, palavras de ressaca
Náufrago à deriva, viagem louca
Rendo à fúria do punhal que me ataca!
Permita-me, oh musa, uma parva venia:
– Toda és Tu a luminescência Armênia!

MEU ANJO PROTETOR!
José Ernesto Ferraresso
Selva Negra-Brasil

Anjo adorado que me faz divagar
e me ensina a cantar e poetar.
E a discorrer sabiamente através da 
inspiração e do amor que vem do coração.

Sigo a Tua direção, obedeço
e conduzo a voz do meu coração,
no Teu compasso e com emoção,
sem saber onde o destino vai me levar.

Quero que este Anjo de candura,
sempre me aproxime de meu Jesus,
e me afaste os pensamentos ruins
e me preencha de verdadeira gratidão e amor.

Alegra-me e siga-me passo a passo,
pois sei que não caminho sozinho e
quando preciso encontro-TE do meu lado.
Não me deixes cair e sei que sempre terei
as Tuas mãos para me levantar e caminhar.

RETROVISOR
Yvany Gurgel do Amaral
Ceará – Brasil

Olhei pelo espelho retrovisor
E me vi com o mesmo rosto
Que outrora foi o divisor
Entre o charme e a beleza,
Mas hoje o vejo sem tristeza,
Apesar das delineadas rugas
Que o tempo pintou…

Vi meus primeiros escritos,
Meus poemas, meus contos,
Vi minhas cartas de amor
Que escondi tanto,
Vi antigos cartões postais
De coloridos cromos
Que não existem mais.

Vi uma rosa se despetalando
Nas páginas de um dicionário,
Quem sabe até procurando
O significado da paixão.
Ouvi o sino de um campanário
Chamando para o novenário,
Pronunciei palavras de oração.

Vi a ave legendária alçar vôo
E logo desaparecer na alvorada,
Enquanto eu fiquei sentada
Junto ao pássaro despreparado
Sem asas firmes para voar,
Senti, assim, minha vida passar
Sem ver meu sonho realizado.

Então ainda vi pelas calçadas
O vôo rasteiro de um bem-te-vi,
Lavei as mãos na fonte do devenir,
Novamente para o espelho olhei
Esperando que o retrovisor,
Num eventual passe de mágica,
Devolvesse para mim o meu amor.

AMOR PERFEITO
( Redondilha maior )
Iran Lobato

Pavo eu seria a semente
No teu jardim de afeto,
Ou o teu odor dileto
Que cultivas ao nascente,
Perfumando suavemente
Com todos os meus olores;

Onde esvoaçam beija flores
Com afagos e primores
Ante o beiral da tua janela…
Espargir-te a aquarela,
Sair da argila co’avidez
Colorindo-te a tez.

Com matizes e fragrâncias,
Tornar-te alegre às estancias
Ou quiçá a todas talvez;
Com a face rosa e pejo
E na boca, os teus beijos,
Ao cingir-me em teus cabelos.

Olente e incauto excedo
Indiscreto aos teus segredos
Indolentes em redomas,
A impregnar-me em aromas
No teu lenço azul de rendas
Que discreta afagas as prendas.

HORAS DE SOLIDÃO
( soneto inglês )
Iran Lobato

Por estas horas que a alma anseia a paz,
Apraz-me este enclaustro grato e ameno
Em que, por tua imagem me condeno,
Viver só do que a tua lembrança traz.

Teu ser que o meu infausto ser mendiga
Se me afigura na retina em treva,
Para o nirvana a alma se eleva,
Ao ouvir o canto de uma outra vida.

Cuido mirar-te com o olhar ameno
Tal como fosse real o enleio
Que me estremece um letal receio

Ante o incauto de um leve aceno,
– motive um espanto e te vás
– levando a imagem que me apraz.

ANTIGAMENTE
Amilton Maciel Monteiro

Valendo-se da fé, de adágios e oração,
e de uma bem fundada vida familiar,
antigamente os pais davam educação
aos filhos, com esmero, até bem os formar…

Limites definidos era a condição
da convivência amiga, sem tergiversar;
por isso a intimidade, por derivação,
se dava no respeito, mas sem sufocar…

A bênção pai; a bênção mãe; a bênção tia…
Em casa de meus pais a gente sempre ouvia
já de manhã cedinho e à noite ao ir dormir…

E, sem constrangimento, a gente então beijava
A mão que corrigia… e também afagava.
Mas desrespeito algum teimava em existir!

EU E O LIVRO
Mário Matta e Silva

Há entre nós uma relação
de empatia e de carinho
que exalta de emoção
e em sentida exaltação
leio-te calmo, baixinho.

Prendo-me a ti, ao luar
à luz do meu candeeiro
horas longas a folhear
com um só dedo a apontar
cada parágrafo certeiro.

Teu texto leva-me ao espanto
dá-me ânimo para avançar    
em cada página o encanto
de eu te querer tanto, tanto
num espasmo de te abraçar.

A história que me vens contando
preenche-me o tempo, as horas
sentindo que vou  passando
letra a letra, me aconchegando
pois vives comigo, aqui moras

Fazendo tu parte da vida
onde me enredo e respiro
sinto a alma preenchida
chegando ao fim, a obra lida
a outro livro me atiro.

À ESPERA DOS AFETOS
Mário Matta e Silva

Nesta falta cruel dos abraços
Aos pais, aos filhos e netos
Há tormentas e cansaços
Na ausência dos afetos.

A espera vai-se alongando
Nos dias de sombras cruas
E em cada família chorando
Cresce a inquietação nas ruas.

Numa imensa escuridão
Há quem consiga sorrir
E faz-se disto uma canção
Para a tristeza fugir.

Sem saberes pra onde vais
Neste turbilhão profundo
Enchem-se os hospitais
Morrem milhões por esse Mundo.

Virá uma Lei um dia
Que decrete que em cada regaço
Nos liberte em euforia
E nos devolva o abraço.

ABSOLUTAMENTE
Mário Matta e Silva

Há um vaguear sem rumo
ir ao encontro do nada
no desvendar do absoluto
sem repouso de caminhada
um agigantar o peito
sem descanso e sem jeito
já cansado de fugir
neste ir mas nunca ir
grande voo ao passada.
Há tanta esperança perdida
tanta gaivota no ar
onde o grito vai ecoando
e as passadas são sentidas
em cada luz do luar
aqui e além um bulir
da folhagem desses prantos
há um ir e um não ir
réstias de outros encantos
e bem cá dentro de nós
soa o aviso em sirene
de que ficaremos sós
quando o corpo já só geme.
Há o compasso de espera
de esperar não sei o quê
um cheiro acre a Primavera
e já em nada se crê
num seguir sempre em frente
em busca do que se não vê
e o resto que se teme
está sempre perto da gente
mesmo que seja passado
na vitória de ser hoje
arremesso desalmado
já sem loucos para amar
de tudo o mais esvaziado
ou prestes a esvaziar.
Há um ponto de partida
outro haverá de chegada
neste contestar a vida
onde se aponta o inocente
na raiva sobressaltada
ser tudo e não ser nada
um fim do Ser…absolutamente.

Abissais
Adão Wons

Pés descalços na areia
Sobre as ondas, murmúrios delicados
Espumas esbranquiçadas, dançam
Ao léu de brisas, cais que ancoram
Na amplidão, solidões marinhas ateiam
No leito longínquo, infinita imensidão
Mergulhando luares que habitam
Em profundos oceanos abissais

ADÁGIO PARA UMA NOITE
Adão Wons

Em cada noite adormecida
em cada porto que atracar
em cada oceano que navegar
em cada sonho que estar
quando meu olhar procurar
horizontes vão afundar além mar
traduzindo versos eloquentes
ofuscando enigma no meu olhar
moldando encontros, sorrisos, abraços
voos além dos céus, além dos mares
ocasos abrolharem desnudos
noites acenderem luas grandes
e no existir das horas
manhã toscas nascerem
vestindo véus de neblinas
com sonoros cantos de pássaros
despertando emersas vidas.

Fotossínteses
Adão Wons

A manhã lenta, densa
Vaza pingos de chuva
Desenha vida orquestrada
Chegando pronta, escancarada

Na morada translúcida
Com sombras na varanda
Numa existência outonal
Consumindo sorrateiramente

Matizes, sabores, amores
E nesta manhã lenta, densa
Na agreste emoção da natureza
Quero tempo, aconchego

Fotossínteses do cotidiano
E neste descompasso do relógio
Sufocar, alimentar
Docemente a palavra

Para amanhecer poeta novamente.

 

1 comentario en “POEMAS EM PORTUGÚES”

  1. Há um pouco de Deus em cada poeta que ama o que faz… a poesia ensina!
    Parabéns ao belo e significante empenho dos autores!

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