POEMAS EM PORTUGUÉS


FERVENDO
Eugénio de Sá

A cem graus ferve a água e dá o mote
Às fervuras que temos nesta vida
Ferve em tristeza uma causa perdida
Ou de um perdido amor ferve o derrote
Fervem uns olhos lindos ao dichote
Ferve numa quezília o palavrão
Ferve uma mãe que morre d’aflição
Ao ver em perigo o filho desvalido
A raiva ferve aos atos sem sentido
Ferve o ouvido ao som de uma canção.

Ferve na carne o sol em combustão
Que nos dota de tom a branca pele
Ferve d’insuportável e repele
Uma mordaz e vil insinuação
Fervem no ar as notas da canção
Que nos recorda uma ilusão perdida
Fervem em pranto memórias da vida
Que nos trazem ruídos de saudade
Ferve o desejo num corpo sem idade
Pois sem idade é todo o coração.

E se o ciúme ferve e dói na carne
Ao falso anúncio de traição fatal
Mais ferve a injustiça de um Natal
Que um velho passa só e abandonado
Porque é dos velhos esse triste fado
Como dos jovens é a inconsciência
Quando lhes ferve o vício em consistência
Mas se ferve o amor não se derrama
Se o soubermos manter como uma chama
Que se alimenta da nossa paixão.

BUSCANDO OS CÉUS
  Thalma Tavares

Minha alma anseia pelos versos puros
que convidam à paz e à oração,
que deitam sol nos páramos escuros
mudando em luz a própria escuridão…

Versos que sobem dos prosaicos muros
para colher estrelas na amplidão,
que comparados aos meus versos duros
são vozes de anjo em celestial canção.

Minha alma busca o Céu, mas presa à Terra,
faz rimas dos contrastes que ela encerra
e olhar para o infinito já não ousa.

Mas sempre que a envolve a nostalgia,
ela percorre os céus na companhia
dos versos siderais de Cruz e Souza…

CÉU DE AMOR
Carolina Ramos

Bastava o manto azul da fantasia
a oferecer à vida luz e cor…
Bastava uma semente de Poesia
para, de sonhos, um jardim compor!

Bastava acreditar que ainda viria
nos meus braços pulsar um grande amor.
O que nunca, meu Deus, pressentiria,
é que a vida guardasse tanta dor!

E se a angústia aceitei por companheira,
sinto, agora, feliz, por vez primeira,
a doçura de obter, sem pedir nada!

Que importam rumos que o destino assume,
se, sobre mim, há um céu que se resume
nesta glória de amar e ser amada!

 

EM BUSCA DE TI
Ary Franco (O Poeta Descalço)

Este luar que agora me prateia
É o mesmo luar que me pranteia.
Todas as noites vagueio a tua procura
E sem ti chego às raias da loucura.
 
Rasgo brumas nevoentas, tresnoitado.
É este afã que me mantém acordado.
Cada esquina dobrada é uma esperança.
A paixão me impele, mas não te alcança.

Sei que és amante da boemia noturna,
Mas para mim vales imensurável fortuna.
 Inda que sem teu amor, quero de novo te amar.
Sigo com a desdita de procurar sem te achar.

Se amanhã te encontrar, sem qualquer rejeito,
Sem maiores reservas, ter-te-ei em meu leito.
Submissa, indiferente, deixarás que te afague
E poderei novamente possuir-te, desde que te pague.


ALFA E ÔMEGA
Alba Helena Corrêa

Tudo que existe tem começo e fim.
O dia tem crepúsculo e aurora;
também com o ser vivo é sempre assim:
tem prazo de chegar e de ir-se embora.

Em nossa aurora há luz, tudo é festim
e a vida, com prazer, se comemora:
trabalho, estudo, amor, vive-se enfim
a doce primavera em cada hora!

Eis que chega o crepúsculo afinal,
o fim da linha, como é natural:
a estrada, boa ou má, foi percorrida!

É o ponto final… rumo a outros planos
onde , por certo, não há desenganos
e a vida eterna então, será vivida !

CREPÚSCULO E AURORA
Professor Garcia

Quando a luz do arrebol rasga a cortina,
e o clarão da manhã, o céu decora,
todo o orvalho respinga da campina
matizando de prata a luz da aurora!

A tristeza do sol se descortina,
ante a tarde que chega, e se apavora;
o crepúsculo triste na retina,
diz que um velho gigante também chora!

Ao nascer chega ungido de esplendor,
traz na luz, esperança, paz e amor,
mas à tarde começa a entristecer;
desse jeito caminha o sol do esteta:

De manhã, é feliz por ser poeta,
e à tardinha, é a luz do entardecer!

A CIDADES ATRAVESSA O DIA 
Armand Freitas Filho

A cidade atravessa o dia
engatilhada.
Anônimo, mata ao acaso
e escapa, acossado
atirando para o alto
no alvo do sol certeiro.

Antes da pena d’água
o mar aberto se debate
inumerável, perdido
diante de palmeiras selvagens
temperado em heróica
e lírica consonância
com a lagoa inesperada
na boca seca do túnel
com o céu
reagindo no reflexo
tentando subir se salvar
mas resvala na pedra
isolado.

A noite afinal dispara.
Vou no vácuo, no intervalo
harmônico
entre dor e nada
acuado em corpo único
vivendo do próprio fígado.

ALENTO
Caio Fernando Abreu

Quando nada mais houver,
eu me erguerei cantando,
saudando a vida
com meu corpo de cavalo jovem.

E numa louca corrida
entregarei meu ser ao ser do Tempo
e a minha voz à doce voz do vento.

Despojado do que já não há
solto no vazio do que ainda não veio,
minha boca cantará
cantos de alívio pelo que se foi,
cantos de espera pelo que há de vir.

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas.

O CÄO SEM PLUMAS
João Cabral de Melo Neto

A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.

O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.

Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.

Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.

Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos povos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.

Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.

 

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