EUGÉNIO DE SÁ

MANUEL EUGÉNIO ANGEJA DE SÁ
Nome literário: EUGÉNIO DE SÁ
Membro Efectivo da APP – Associação Portuguesa de Poetas; Académico da AVBL – Academia Virtual Brasileira de Letras; Académico fundador, vice-presidente, e editor de Poesia & Literatura da AVPB,  e da actual AVBAP – Academia Virtual Brasileira Arte e Poesia;  Fundador e presidente do Clube de Poetas (Colômbia); Embaixador do Circulo Universal de Embaixadores da Paz (Genebra – Suíça); Diploma de Mérito Literário e de Académico correspondente da APALA – Academia Pan-Americana de Letras e Artes (Rio de Janeiro); Prémio ZAP – Pela Paz/2010. Colaborar da revista literaria Aristos Internacional
Breve nota biográfica
Nasci em 1945, no típico bairro da Ajuda, em Lisboa, Portugal.
Lisboa está-me nas veias, tal como a literatura e a poesia, que sempre me cativaram o espírito.
Por circunstâncias da vida familiar, cedo conheci Sintra, onde vivi e estudei durante toda a fase do ensino secundário. Uma vila encantada, que ainda hoje visito regularmente, até porque vivo nas suas cercanias.
A frequência do Instituto Comercial levou-me ao quotidiano da capital, até que chegou o tempo de cumprir o serviço militar na Força Aérea Portuguesa, corria então o ano de 1963. Durante a guerra colonial fui destacado para a Guiné – Bissau como oficial de ligação e instrutor de radar de intercepção.
Hábitos de leitura, a que uma avó querida não é alheia, dotaram-me de vontade e gosto pelo conhecimento, que ainda hoje cultivo.
Trabalhei 37 anos em diferentes Órgãos de Comunicação e em duas Agências de Publicidade multinacionais. Toda uma vida profissional rica em experiências e relacionamento humano.
O deslumbramento pela poesia chegou-me em 1968, trazida num livrinho que recebi das mãos de José Saramago, então colaborador do Jornal A Capital, onde iniciei a minha actividade de comunicador, a que me dediquei largos anos. Todavia, só em 1999 comecei a escrever poesia.
Metade da última década foi passada na América do Sul, entre Brasil e Colômbia, onde reuni material e experiência para escrever um livro. Provavelmente será um livro de crónicas, género literário onde estou mais à vontade, e que permitirá reunir, num único volume, um conjunto de textos escolhidos que abordam o comportamento humano face às várias culturas que conheci na Europa, em África e na América do Sul.
Em Abril de 2011 regressei definitivamente a Portugal
No meu deambular pelo âmago dos sentimentos humanos – sem, naturalmente, ter a veleidade de os tentar explicar – sempre procurei denunciar as minhas preocupações existenciais tão comuns aos poetas do meu tempo que transitaram de um século de grandes e aceleradas transformações, também sociais; o século XX, para o sequente e actual, pleno de ameaças e de retrocessos, resultantes dos exageros e das desregras deste nosso tempo. 
Sou, como me têm caracterizado alguns poetas, meus pares, que admiro e respeito; “um poeta versátil”, baseando-se certamente  na profusão temática da minha poesia. Sirvo-me, para isso, de alguma cultura geral adquirida pela leitura e pela atenta e intensa vivência destas minhas sete décadas de existência. 
O jornalismo e a literatura habituaram-me a ser um analista; a estar atento, a separar o insólito do comum, a qualidade do que  é inferior, a avaliar, enfim, as situações e os homens e mulheres que as protagonizam. O sentido humanista da minha formação ensinou-me a ser justo e equilibrado nos meus julgamentos. A filosofia  ajudou-me a pensar melhor, a racionalizar. A poesia, decididamente, revelou-se o lado lúdico da minha existência. Leio-a e escrevo-a diariamente, e confesso-me apaixonado ao afirmar, com sinceridade, que já não saberia viver sem ela.
Eugénio de Sá
e-mail: meugesa1@gmail.com    
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A POESIA DE EUGÉNIO DE SÁ
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CRÓNICAS 

VIVA LA MUERTE !
Um apontamento de Eugénio de Sá
Esta máxima é a (única) filosofia conhecida dos membros do auto proclamado “estado islâmico”, Isis ou Daesh, como também é conhecida a horda que instalou no Iraque e na Síria, onde logo deixou a sua marca de destruição.
Derrotados em batalha pelas forças libertadoras, foram obrigados a abandonar as cidades que haviam tomado de surpresa e que lhes serviam de base, e deambulam agora por áreas menos povoadas até à sua eliminação total.
Mas a sua acção, embora já não sirva uma estratégia global bem definida, continua a preocupar a sociedade civilizada ocidental, já que agora está concentrada nas grandes cidades europeias.
Uma vez inviabilizada a prossecução dos seus objectivos iniciais, censurados e renegados pelos próprios povos de que são originários, estes párias que se dizem de religião islâmica, lá vão, mesmo assim, perpetrando acções de matança indiscriminada no seio dos que os acolhem e alimentam.
Dão muito trabalho aos dispositivos policiais dos vários países onde operam, mas, aos poucos, estes vão-se concertando para os identificar e caçar, em acções preventivas, cuja malha é cada vez mais estreita.
Entretanto vão-se somando os mortos e os feridos, inocentes vitimas das suas investidas. É o preço a pagar pelas infiltrações que a generosidade europeia tem vindo a permitir.
23 Agosto 2017
Crónica
Por: Eugénio de Sá
Há quem acredite que o passado volta a cada passo da nossa existência.
Por mim, concluo que ele nos marca os passos, mas está na nossa mão deixá-lo para trás para que possamos viver o presente e alcançar o futuro libertos de poeira.
Chegar a cada novo ciclo da vida implica que deixemos pendente o que é simplesmente incómodo ou acessório.
Consideremos que cada dia do presente que vivemos é escrito numa ardósia, cujo espaço se esgota logo que esse dia se encerra. Logo, no dia seguinte teremos de apagar o que lá foi escrito para que possamos dispor de novo desse espaço.
Como disse William Shakespeare: “Lamentar uma dor passada, no presente, é criar outra dor e sofrer novamente”. E a reflexão do autor prossegue: “chorar sobre as desgraças passadas é a maneira mais segura de atrair outras. Isto porque o passado é só um prólogo de tudo o que se lhe vai seguir”.
Podemos procurar entender o que aconteceu olhando para trás, mas só podemos continuar verdadeiramente vivendo se olharmosem frente. Na realidade, a experiência adquirida é como uma lanterna cujo foco ilumina o caminho à nossa frente. O que ficou para traz é só escuridão.
De resto, assim referiu Confúcio; ”A distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão teimosamente persistente”.
Deixemos, pois, em paz o passado, não o julguemos nem nos julguemos a nós próprios, ou corremos o risco de acabar irremediavelmente presos ao que deve ser postergado porque se tornou obsoleto face às circunstâncias e aos padrões de avaliação, em constante mutação.
A este respeito, o malogrado presidente John Kennedy disse: “A mudança é a lei da vida. E aqueles que apenas olham para o passado irão com certeza perder o futuro”.
No nosso caminhar pelas veredas desta vida lembremo-nos das palavras sábias de Lao-Tsé: “É fácil apagar as pegadas; difícil, porém, é caminhar sem pisar o chão”. A que eu acrescentarei outra reflexão: pisámos o chão que tivemos de pisar, mas à nossa frente o chão está disponível para grandes caminhadas.
Sintra, 26 de Maio de 2015
O mar está-me nas veias
Desde sempre que a solidão é tida como algo que ninguém deseja, que a todos faz infeliz. Assim a cantam os poetas, assim dela falam os grandes prosadores. Não sou uma excepção à regra, mas há momentos que todos gostamos de os viver a sós. Bastam-nos para nos sentirmos felizes. No meu caso, falo do mar e dos momentos únicos, inesquecíveis que, a sós com ele, pude desfrutar plenamente.
Lembro-me das manhãs gloriosas de sol vividas a bordo do meu pequeno barco, deslumbrado com a luz “única” da minha Lisboa projectada nas águas do Tejo e os olhos postos no horizonte onde se mostrava, esplendoroso, o Atlântico um par de milhas à proa.
E a minha gratidão à vida era então tanta que me perguntava se alguns dos nossos sonhos não os herdaremos nos genes e os trazemos no código do nosso ADN.
A minha fixação por barcos, pela navegação, pela pesca, é antiga e foi desperta numa primeira vez quando um dos meus tios me convidou Para um passeio numa velha canoa à vela que o seu pai, meu avô, mantinha há muito na praia de Algés. Foi um passeio um tanto conturbado, confesso, porque o meu tio dominava mal as técnicas de velejar e no Tejo sempre se levantam nortadas lá pelas três horas da tarde. Mas aquele marulhar da água no casco e a brisa suave a acariciar-me a face fizeram com que ficasse desde logo apaixonado pelo mar.
Anos depois, já homem, comprei o meu primeiro barco. Passava horas mirando-o e remirando-o, dando-lhe retoques na pintura azul e branca inventando detalhes para o tornar mais confortável, mais vistoso. Depois comprei-lhe um motor, e tive o cuidado de que à marca correspondesse uma cor que fosse bem com o azul e branco.
Por fim fui pescar com ele, mas sempre soube que tudo o que fizera era o pretexto para voltar ao mar, para lhe respirar a maresia, para relembrar o marulhar na água no caso
tal como o ouvira no barco do meu avô, para partilhar com as gaivotas toda aquela beleza.
Tempo correu, e eu voltei ao mar muitas mais vezes, com barcos diferentes mas sempre com a mesma paixão a mover-me em busca daquela desejada e falsa solidão, porque a companhia do mar não é imaterial; há algo naquela massa de água viva que dialoga connosco, os que a amamos. E depois, o mar de Portugal que se confunde com o belo recorte da costa lusitana é um deslumbramento, perdoem-me esse orgulho!
Hoje já não saio do cais pela manhã, com brumas ou sem elas. Já não desfruto mais daquela imaginária solidão de que vos falei, mas ainda vivo em espírito as memórias desse mar que agora canto em muita da minha poesia.
Agora vocês sabem porque o faço.
 23 de Setembro de 2014
Provavelmente
Provavelmente, os pais destes meninos  irão votar num país onde o voto é obrigatório mesmo. Isto é estranho,  já que, como é sabido, a normal conduta numa verdadeira democracia considera o voto unicamente como um direito e um dever cívico. Mas continuemos;  provavelmente os pais destes meninos serão levados a votar contra os seus próprios interesses e os dos seus filhos, iludidos pelas palavras doces que lhes prometem um qualquer cestinho de compras mensal, ou outro logro parecido. Se a isto juntarmos o induzido resultado dos (maus) exemplos que vêm na televisão, ou mesmo ao vivo, vindos de quem veio do povo a que eles pertencem e que hoje tem posição relevante, temos aí os ingredientes suficientes que podem justificar uma má opção.
Vejamos; sem educação não há discernimento correcto e, não o havendo, qualquer ser humano assim (im)preparado fica sujeito a toda a casta de manipulações perpetradas por gente ambiciosa, sem escrúpulos e faminta de poder, que precisa dos seus votos para levar por diante projectos que negam qualquer doutrina verdadeiramente empenhada em melhorar a existência dos que os puseram no poder, mormente a obrigação de lhes dar a educação que lhes falta.
Tais manipuladores, falam, gritam mesmo as mentiras que mais lhes convêm, porque sabem que, se levassem a cabo um verdadeiro programa de ensino, alargado aos mais remotos recantos da pobreza, ainda e sempre maioritária, isso iria promover um verdadeiro “hara-kiri” político a médio prazo, o que lhes frustraria as intenções de se perpetuarem no poder e depois deles os seus designados delfins.
Esses meninos, tal como tantos outros,  irão, assim, manter e engrossar as estatísticas dos (dóceis) iletrados, ou pouco mais que isso, e o pior é que, provavelmente,  irão ver, num curto futuro, as suas liberdades coartadas por governos que se encaminham para um autoritarismo caduco, cuja (alegada) inspiração marxista permanece viva numa ilha que todos conhecem –  bem como o que lá se passa – mas que, na realidade, morreu de podre, faz tempo, na sua pátria natural. Há mesmo quem afirme que se hoje Karl Marx fosse vivo não seria marxista, simplesmente porque as realidades são bem diferentes das vividas então.
Esses meninos que aí vêm podiam ter sido fotografados num qualquer moceque, ou favela, dos arrabaldes de Quito, de Caracas, do Rio ou da Baía, de La Paz ou de Manágua, por exemplo (?). Sobre eles pairam idênticas ameaças, a juntar à sua desgraça natural; a miséria, semelhante em todo o mundo, mas esvaziada de esperança onde se nega a justa e merecida educação a povos inteiros. Porque, nos países geridos por uma verdadeira democracia, não se condenam ao ostracismo e à consequente desespero as novas gerações.
Estamos em tempo de crise e de desemprego, é verdade, mas onde impera a verdadeira democracia continua, de uma forma crescente, a destacar-se elevadas percentagens do PIB justamente para a educação, porque ela é considerada factor primordial para o desenvolvimento da sociedade. As tensões sociais que existem levam à prisão, é verdade, mas só de indivíduos acusados de delitos comuns, não de presos ditos politicos, só porque esses levantaram a voz contra o poder instituído. Os orgãos de comunicação agem livremente, e seria impensável ordenar o seu encerramento à força, porque não são a «his master’s voive» do governo, ou porque o criticam. Numa verdadeira democracia não se prometem «esmolas» enganadoras indiscriminadamente; entregam-se, a quem prove que realmente necessita e merece, meios do serviço social para que subsista com dignidade enquanto durar o seu desajustamento involuntário.
E numa verdadeira democracia não se impede ninguém de seguir viagem para onde acredita que terá melhor futuro.
Provavelmente, a grande maioria dos destinatários úteis deste e de outros alertas publicados na internet a eles não terão acesso e, mesmo que alguns o tenham, provavelmente não os vão entender ou, entendendo-os, decidirão fazer-lhes orelhas moucas. Mas, mesmo assim, vale sempre a pena!
24 de Julho de 2010
Sonetos Escolhidos
Eugénio de Sá
Desamor
Eugénio de Sá
Mulher que me rendeste aos teus caprichos
Preso nas malhas de um amor insano
Funéreo dia em que esse amor profano
Me deixou subjugado aos teus enguiços.
Das cinzas desse amor o céu me prive
Que o meu peito renega essa pendência
E a razão mais me avisa ser demência
Insistir na desordem que em mim vive.
Pugno pela vontade que me falta
Para expulsar, quem dera, o teu feitiço
Mas neste palco ainda és a ribalta.
E assim, é nesse fogo em que me atiço
– Ardendo em chama cada vez mais alta –
Que me consumo, sempre mais comisso.

Mea culpa
Ah, se esta contrição tornasse leve
As culpas de te haver ignorado
Mas sabes tu, mulher, é este o fado
De quem despreza o bem, e a quem o deve.
Chamas-te tola porque idealizaste
O que se pode querer de quem se ama;
O fulgor do desejo, aquela chama
Que, como é justo, tu sempre sonhaste.
Mas nada foi secreto e eu senti
Que perdera – imbecil – todos os créditos
Ao ler no teu olhar tudo o que li.
E se hoje já não ouves os meus éditos
Não posso censurar-te, pois eu vi
A desistência, nos teus ombros trépidos.

Livrai-nos deles, Senhor
Oh Deus do mundo, Senhor do universo
Desce os Teus olhos aos míseros terrenos
Mostra de Ti o sacrossanto anverso
Às ímpias almas que em Ti crêem menos;
Aqueles pra quem só conta o que é perecível
Os que condenam débeis e indefesos
Ao despotismo vil, à fúria incrível
Que lhes servem interesses sempre acesos.
Piores pecados que a Teus olhem fulgem
Sem expiação possível, sem perdão,
Nem o indulto pio da própria Virgem.
Molda essas almas, Deus, e só então
Merecerão retornar à sua origem
Mas deste mundo não tenham fruição.

Alma imortal
Quando esburgada desta pele que a cobre
A minha alma ao etéreo se elevar
Nas cerúleas alturas alguém há de mandar
Que outra vida eu cumpra, vil ou nobre
E este mundo de novo me terá
De bom ou mau vestido, a acobertar
Uma alma dormente que a penar
Outro provável corpo buscará
Ninguém voltou do Além memorizado
Daquilo que o Pai nos tem já reservado
Que pudesse contar seguramente
Mas manda o nosso cerne acreditar
Que nesta terra há muito a caminhar
E que esta chama viverá pra sempre

Amar é tudo
Não há sentir maior que nos preencha
Nem há na vida nada que se iguale
A esta sensação de bem querença
De só de amor viver logo se instale
E se sabemos que ao contentamento
Corresponde outro tanto em desencanto
Cremos também ser do amor sustento
Depois de um beijo ver brotar um pranto
É pois feito de grandes controvérsias
Este amar tão declarado humano
Vencedor de procelas e inércias
E se este sentimento for de engano
E transformar em mágoa o que era festa
Nunca é irreparável esse dano

As dobras do tempo
Verga-se-nos a vontade, a energia
A alguns momentos que o tempo suspende
O amor e a morte exercem tal magia
Que o tempo pára, e a eles se rende.
Somos obra de Deus e a Ele se deve
– Como o exemplo que nos deu Jesus –
Que o nosso tempo seja intenso e breve
Feliz às vezes, outras uma cruz.
É o destino que todos carregamos
Neste deambular por que passamos
Qual asserção a que há que aquiescer;
Experimentando venturas, se amamos
Ou sofrendo atrozmente, se matamos
As mil razões que temos pra viver.

Bárbaro tempo
Espanta-se a sociedade segregada
Perante o fausto elogio contra natura
Falsa doutrina, podre, malfadada
Parto maldito de uma causa impura
Abrem-se as salas dos notariados
E em breve as naves dos templos de Deus
Incensarão iguais apaixonados
Escárnicos pares que o fado inverteu
Que pais darão estas aberrações
Que a lei uniu e as bênçãos dotaram
Que poderá esperar-se dessas adopções?
Que será das crianças que privaram
No dia-a-dia c’o as contradições
Que lhes fará aquilo com que lidaram?

Chãos de Guerra
Não há altares que valham, que se bastem
Nem d’Allah as bandeiras esverdeadas
Que o sangue é negro e corre plas estradas
Não há mais dor que as orações resgatem.
Que céus são esses que a fumaça esconde?
Que estrondos colossais, que vil fragor,
Ofendem tanto a terra do Senhor
Que procura o amor, sem saber onde!
Ódios à solta por trás dos canhões
Meninos-homens, raivas sem idade
Chãos semeados só de humilhações.
Pasma-se o mundo de incredulidade
Esgrimem-se vozes, gritam-se razões
Mas estes chãos são de infertilidade!

De fé perdida
Cheiros de ti ficaram na almofada
Que junto à minha, alva, permanece
E enquanto me tarda a alvorada
No frio da noite só ela me aquece
As saudades são tantas, e a dor
Da tua ausência nos nossos lençóis
Trazem memórias vivas do amor
que tal como a minh’alma tu destróis
Surgem alvores do dia e dou comigo
Remoendo as razões deste abandono
Mas mais do que abismar-me não consigo
Porque te dei de mim todo o meu sono
Se o que investi em ti estava perdido
Até a fé, que agora não tem dono!
Meu amor não tem dono
Meu amor não é teu nem de mulher nenhuma
É barco sem amarras, sem um porto de abrigo
Eterno navegante, talvez por meu castigo
Tem destinos de vento nos mistérios da bruma!
Por isso terna amada, não me prendas ao leme
Que eu triste morrerei gemendo males d’amor
Perdida a liberdade, mais sentirei a dor
E saudade de amar, que meu peito mais teme!
Procura-me no mar, e lá me encontrarás
Entre as névoas da costa, e então me verás
acenando-te ao longe, para além do farol…
Tristeza não te trago, trago-te cheiros de mar
Nem saudade de mim, que me dou ao chegar
Descansos, esses sim, que me canso de sol!

MÃES TRISTEZA
Atrozes são as dores de uma mãe
que castigado vê o seu rebento
porque é só dele o visceral alento
que lhe sustenta a alma e a mantém
Ao ver extinguir-se o elo que acarinha
como ente desgraçado a dirigir-se
ao nada de um futuro magro e triste,
a mãe mais envelhece, mais definha.
Será que lá do céu Deus se apieda
e vê no periclitar daquele credo
o mal que toma o ser que a dor carrega?
Que desespero é, que mete medo
Este vazio de fel que até sonega
um pouco de doçura ao gosto azedo?

No amor, o que mais querer
No amor o mais querer por melhor sorte
Que alguém que ama pode auspiciar
É ver o ser amado alçar-se forte
De volta à vida, a se regenerar
Assim se apoucam preocupações
Assim se aplaca a dor que nos doeu
Assim nos voltam gratas orações
Assim se louva o que se recebeu
Ceguemo-nos ao mal que nos afronta
Quando outro mal ao outro mais molesta
Porque essa dor é sempre a que mais conta
E submissos ao que não se contesta;
O princípio de amar e o que ele aponta
Façamos do bem querer a nossa gesta!

( morte na aldeia)
Triste morrer
Com um ruído de bengala gasta
P’la calçada se arrasta o velhinho
Move-o a morte que lhe foi madrasta
Ao levar deste mundo o seu vizinho
Porque no abandono pelos seus
Mais lhe não resta que amar os amigos
E os lembrar chorando os apogeus
Que como os seus se vão quedar esquecidos
Vela o velhinho e chora o companheiro
Que ali cumpre já frio preceito antigo
Até que o dia nasça soalheiro;
E à terra torne que em pó o tornará
Como destroço inútil desta vida
Porque valor não tem quem cá não está!
Desconfie-se dos auto-proclamados ‘eruditos’.
Por norma, o seu espírito não excede os limites
da banalidade e as restritas aspirações do acessório.

A rejeição do imperfeito
O teu saber, e o meu; ambos restritos
– Que do saber, da fama não me fio –
Se de ‘eruditos’ está cheio o vazio
Que me preencham sedes d’infinito!
E assim, postulo a causa da poesia
– que ao douto não deve explicação –
Como valor maior da exaltação
Que o espírito liberta, em extasia.
Essa poesia que canta o amor,
Que, solidária, ampara cada dor,
Esse encanto que vem do coração.
Que os ‘eruditos’ falem dela a eito,
Alucinados em tornar perfeito
O que imperfeito é, pla rejeição!

Dolorosa intimidade

Quem não se tenta perante o magnetismo
De um encontro com a sua solidão?
Quem pode resistir à tentação
De desvendar o seu próprio hermetismo?
Passamos toda a vida a distrair-nos
Tudo é pretexto pra não estarmos sós
Porque há receios, há pavores em nós
Do que possamos ser se o descobrirmos
Mas um dia quebramos os tabus;
Seja o que Deus quiser! – e decidimos
Despir as protecções e ficar nus
E aberto o nosso cerne então surgimos
Perante todas as dores da nossa cruz;
As que, mesmo escondidas, mais sentimos!

Esperançosa morte
Alma de mim metade, onde vós estais
Sabei-me nesta terra um penitente
Pois só por vós e para vós somente
Eu vivo das memórias que lembrais
Aí, ao pé de Deus, estais abrigada
Dos males desta vida de tormentos
E por meu mal vazio estou d’alentos
C’o a esperança de a mim vos ver chegada
Vos peço que por isso prepareis
Um cantinho no céu ao vosso lado
E assim chegada a hora sabereis;
Que nessa esperança durmo sossegado
Por saber que a certeza em vós poreis
Que o nosso amor será perpetuado!
Ditos de circunstância
No velório de um cidadão qualquer,
Mesmo que em vida ele haja sido um traste,
Sempre se ouve – baixinho – alguém dizer:
Que perda irreparável, que desastre!
Mas, pós três badaladas e uma pá de cal,
No alisar das rugas que imitam o chorar,
Alguém dirá – baixinho – que fulano tal;
Bruto, arrogante e mau, «as foi pagar»!
Coitado, outros dirão, lá foi pra Deus…
São os que não tiveram que aturar
Aquele que foi o demo para os seus!
Faltou-lhe conhecer que o verbo amar
– Mesmo pra quem é laico ou é ateu –
É o que mais importa conjugar!

OS QUATRO ELEMENTOS
Da filosofia do conhecimento, avultam
Quatro elementos nesta natureza
Sempre latentes e dos quais resultam
Irrefragáveis; vontade e… incerteza.
Do ar, o caos do pensamento humano
Do fogo, os mistérios recônditos do ser
Da água, o que é sublime, o que é mais sano;
A convicção que a fé há de prover.
Da terra, o simbolismo é da razão;
Personifica a concretização
Da vontade surgida numa mente.
Mas é no éter que tudo se mistura
E as respostas que o homem mais procura
Estão onde a luz é mais resplandecente!

Os traços de Deus
Em vez de um conformismo exasperante
Ou de viva revolta amarga e dura
Pegamos numa pena, e num instante
Damos à dor o gosto da doçura
É assim o poeta verdadeiro
O que sabe expurgar de si a raiva
E escolhe como alvo o mundo inteiro
Para oferecer o amor pela palavra
Esta é nossa bandeira que drapeja
Sobre a poesia que nos varre a alma
Como um astro bendito que flameja
Ergamos, pois, a Deus os nossos braços
A Ele que nos quis dar este poder
Pra transmitir aos outros os Seus traços

O plagiador
Anacronismo puro e execrando
Que rouba o original ao seu autor
O plágio é dos males o mal maior
Pois brota de quem cria, invejando
E assim o medíocre se projecta
Num mundo que não pode ser o seu
E que cedo lhe extingue o apogeu
Mostrando-lhe o caminho da valeta
Incapaz de assumir-se, o desgraçado
Rumina, mói injúrias, recalcado
Pla sua obsessão persecutória
Até que, finalmente derrotado
Se esconde qual ralé, dissimulado
Apontado por todos como escória!

O templo dos amantes
A natureza e eu, binómio antigo
Que me não canso de ver renovado
E sempre dou comigo deslumbrado
Plas ternas sensações do seu abrigo
É um campo que ondula à suave brisa
Pejado de papoilas escarlates
São as nobrezas do pastel dos mates
Nas belas folhas que o orvalho frisa
E se aos sentidos isto não bastasse
Inda os gorjeios de aves esfusiantes
Me faz querer que o tempo ali parasse
Por isso ali é o templo dos amantes
Como se nela o amor se sublimasse
No respirar dos ares purificantes

O silêncio dos ofendidos
Viver acompanhado, e todavia
Sentir-se só na casa que é de dois
É comum nestes tempos, e depois
De tristeza se vive o dia-a-dia
E este sentimento de impotência
Vai macerando a alma, e assim
Cada um se pergunta: que há em mim
Que mais não sou que uma transparência?
E eis que chega a vez de responder
Com o silêncio que há nos ofendidos
Deixando ao outro vez de se doer
Que ao silêncio não quis dar ouvidos
E um dia escutará a porta, que ao bater
Com o fragor, abafa alguns gemidos!

Palavras secas
Secaram-se as palavras nestes dedos
Que outrora as faziam deslizar
Lestas, fluídas, querendo poetar
As idéias, os sonhos, os segredos…
Talvez que um dia voltem a brotar
Nestas mãos de poeta, entorpecidas
Plos desencantos desta e d’outras vidas
Que aos poucos as fizeram bloquear…
E ao fixar o espaço ora vazio
Que, sem palavras, triste se apresenta
O meu olhar é cada vez mais frio
Lembro então a sentença bolorenta
Velha, qual côdea que fede a bafio:
A poesia perdida não mais acalenta!

A NAU QUE NAVEGUEI
Da minha nau restam quilhas na lama
E uns quantos madeiros arqueados
Das côncavas cavernas dos costados
Nada que lembre o que lhe deu a fama.
Com ela naveguei tendo a bombordo
Toda a costa africana ocidental
Depois de haver deixado Portugal
Meu adorável reino, que recordo.
Fui penejando versos na amurada
No coração; a saudade da amada
No horizonte; o olhar deslumbrado.
Todas as tardes, no castelo da popa
Sempre pousava uma branca gaivota
Na espera de escutar de novo um fado.
De fé perdida
Cheiros de ti ficaram na almofada
Que junto à minha, alva, permanece
E enquanto me tarda a alvorada
No frio da noite só ela me aquece
As saudades são tantas e a dor
Da tua ausência nos nossos lençóis
Trazem memórias vivas do amor
que tal como a minh’alma tu destróis
Surgem alvores do dia e dou comigo
Remoendo as razões deste abandono
Mas mais do que abismar-me não consigo
Porque te dei de mim todo o meu sono
Se o que investi em ti estava perdido
Até a fé, que agora não tem dono!

Eu te nomeio, mágoa
Eu te nomeio mágoa, que não sabes
ver neste porto o cais de uma saída
quisera dar-te a ordem de partida
pois tu recusas ver que aqui não cabes
Nesta tristonha nau da minha vida
que tenta enfunar velas e lograr
Ganhar destreza e fazer-se ao mar
Encontrar noutras águas melhor lida
Sigo a ternura nova de uma esperança
que me traga venturas e bonança
Eu te renego mágoa, vai-te embora!
Que os ventos estão hoje de feição
Eu te maldigo mágoa, vai-te agora!
Já se enche de maresia o coração

Fado Maior
É lá, nesse recanto da saudade
Que mora o fado antigo, marinheiro
Aquele fado de sempre, sem idade
Que numa voz maruja foi primeiro
Do Gama as caravelas foram palco
Dessa canção tristonha, perturbada
Que brota das gargantas em socalco
Com em soluços d’alma esfarrapada
Falo de Portugal, emocionado
De lá trouxe o meu fado, alegremente
Numa esperança de vida, engalanado
E inda o escuto ao longe, sobre o mar
Como se os ecos seus fossem presentes
No luso coração nele a vibrar

Evoco Esparta
Por ver tanta ganância neste mundo
Eu evoco de Esparta os sóbrios usos
Leônidas relembro, rei facundo
Que só esbanjou coragem c’os intrusos.
Conjuro a educação n’essa urbe antiga
Onde o respeito aos velhos era lei
E quem malbaratasse era banido
Como gente mal querida pela grei.
Aos jovens competia a contenção
Como princípio mor a respeitar
E a conduzir na vida a sua acção,
E cedo o seu dever era zelar
Plo sossego das gentes e do chão
D’amada pátria, o seu cimeiro altar.

2 comentarios en “EUGÉNIO DE SÁ”

  1. Aprecio muito sua maneira de dizer, e os diversos temas abordados, que me fazem refletir e trazem uma
    agradável maneira de entender a palavra que tem sentido em cada texto! Não temo expor meu pequeno
    entendimento pois sei que sou igualmente compreendida ante minha vontade de saber.O que a gente faz
    com o coração é a melhor maneira trazer entendimento. Que se multiplique a palavra escrita com
    seriedade, pois, dela colheremos frutos!

  2. Reler, é aprender em dobro… Há sempre um pouco da vida da gente no
    espaço delineado por um escritor… é como estar dialogando sobre sonhos,
    ideias, vida e realidade! Como descortinar o palco de vidas..

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