CRÓNICAS,ARTIGOS E OUTROS TEXTOS

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Marzo  2021 nº 41

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Estos conservan el copyright de sus obras
AL SERVICIO DE LA PAZ Y LA CULTURA HISPANO LUSA

COLABORAN: Ilka Oliva Corado. Eugenio de Sá.-Magna Aspásia Fontenelle.-Ary Franco

Liliana Foresi: Censurada e perseguida há 30 anos, jornalista merece reparação pública
Ilka Oliva Corado

Liliana López Foresi, é uma referência do jornalismo comprometido, não com os que subornam, nem com os que destroem, mas com os que resistem e se irmanam quando as coisas andam mal. É um mito, uma lenda do jornalismo que muitos da oligarquia argentina através dos anos tentaram desvanecer. Quem pensa em jornalismo humano, indispensável, responsável, com enfoque de gênero e ético na Argentina sabe que tem uma representante: Liliana López Foresi. 

Mas, se Liliana é tão importante para os alicerces do jornalismo feminino com opinião política na Argentina, por que continua censurada depois de 30 anos? No dia 2 de maio completarão 30 anos que a profissional foi vetada nos meios públicos. Ela foi a primeira mulher a conduzir um programa de televisão de enfoque político idealizado por ela mesma, no canal 13. Revista 13, jornalismo de opinião, em 1991. Apresentou o Festival OTI da Canção. A primeira em apresentar o Festival de Cosquín em 1998, mesmo que tivesse que fazer isso com escolta policial pelas ameaças contra seu filho. Ganhadora de vários Martín Fierro e nomeada Mulher do Ano por votação pública e pela Fundação Konex como uma das cinco melhores apresentadoras da década. Em 1991, Liliana despontava, era a heroína, saída da classe trabalhadora que ia à frente, sozinha, abrindo caminho para outras no jornalismo de opinião política, e sozinha também se enfrentando ao Grupo Clarín e ao Menemismo.

Liliana López Foresi foi censurada por sua ousadia, em tempos de democracia.

Depois da censura na televisão continuou trabalhando no rádio e em canais via cabo autogerido; e teve que hipotecar sua casa em várias ocasiões. Em meados de 1994, tentaram suborná-la para que apresentasse um programa de televisão que ela mesma podia produzir, pelo qual lhe ofereciam milhares de dólares para a produção e para os salários, mas com agenda a favor dos que tinham ajoelhado a Argentina com o neoliberalismo. Liliana, estoica e honrada, respondeu que não, apesar de que nessa ocasião, pela necessidade econômica podia haver dito que sim, sem pensar duas vezes, mas preferiu aguentar, brigar contra a corrente antes de vender seus ideais e sua dignidade. 

Demasiado formosa fisicamente, porque a uma mulher se perdoa a beleza do corpo se a utiliza para escalar e arrebatar, para benefício próprio e de uns quantos, mas quando uma mulher questiona, analisa, encara e denuncia a esses quantos na televisão pública e, além disso, tem uma beleza física inverossímil com a qual não trafica, com o que não se sente superior a qualquer outra mulher, que não a faz ser arrogante ou soberba, então o ódio que provoca é muito maior. Porque se converte na indômita, naquela que o poder não pode ter em sua cama embora tenha milhões para comprá-la. E na inveja de outras mulheres que a partir do poder ou da mesma posição de trabalho querem eliminá-la da paisagem. Umas por sua inteligência e outras por sua forma física.

A ordem foi anulá-la do jornalismo para sempre, não só durante o governo de Menem. Mas antes desta censura, a perseguição contra Liliana já vinha sendo gestada, quando a despediram da Rádio Mitre em 1989, onde também tinha um programa de análise política. Para o Grupo Clarín e o Menemismo Liliana López Foresi foi mais que uma pedra no sapato, era a voz de um povo que se expressava nela. Não só a demitiram e lhe fecharam as portas em todos os lados, e para que não exercesse o jornalismo, começaram a fustigá-la com ameaças de morte. Chamaram-na por telefone ao trabalho para dizer que iam matar seu filho, em 1997.

Viveu atentados contra sua própria vida, cortaram os pneus de seu carro por duas vezes, entraram em sua casa 4 vezes quando ela não estava, mudando os móveis de lugar e deixando notas com as conversações telefônicas que tinha com sua mãe desde a costa, porque nesse verão Liliana havia ido trabalhar no interior, com custódia e tudo. Entre tantas formas de intimidação e tortura psicológica que viveu evidenciou-se que uma das policiais que a cuidava resultou ser informante dos mesmos que a tratavam de encurralar e isso se soube porque a outra companheira comunicou, preço que pagou com um balaço que lhe atiraram de um automóvel em marcha.  

A Liliana López Foresi a tinham vigiada dia e noite, lhe seguiam os passos, no governo de Menem e de Fernando De la Rúa. Sim, em tempos de democracia. Mencionei neste texto só algumas das formas de tortura psicológica e atentados vividos por Liliana durante os anos posteriores à sua demissão, mas poderia escrever folhas e folhas porque o que buscavam era desesperá-la para que se suicidasse ou fosse embora do país. Mas não aconteceu uma coisa nem outra. Liliana, apesar da afronta, resistiu. Compreende-se perfeitamente o que pode fazer o neoliberalismo em tempos de democracia apenas no papel. Liliana López Foresi poderia ser uma desaparecida a mais em tempos de democracia e não teria acontecido nada, como nada aconteceu nesses 30 anos em que continua censurada.

Porque dos criminosos se entende o proceder, à forma em que controlam e manipulam o sistema e às pessoas que formam alianças com as máfias oligárquicas. Deles já sabemos suas técnicas e seus modos. Mas, e os humanistas, os progressistas, os que falam de dignidade, os jornalistas éticos profissionalmente e que estão do lado da verdade e do povo? Os que denunciam as injustiças? Deles é que eu falo ao me referir a estes últimos 30 anos. Liliana tem resistido com dignidade e caráter, tem sua própria página na internet e se denomina uma jornalista livre, e o é. Mas lhe arrebataram 30 anos de desenvolvimento profissional, de crescimento dentro da profissão, a isolaram, a deixaram de lado, a enterraram em vida, lhe negaram um desenvolvimento econômico ao não poder exercer sua profissão ganhando um salário.

Como mulher e profissional lhe negaram o direito à prosperidade e à realização. Porque quiseram matar sua alma, arrancar-lhe a sensibilidade, convertê-la em um ser sem sentimentos, ou melhor, em um ser com sentimento de autodestruição pela frustração e pela raiva. E é uma injustiça total. E o fizeram os bons, os consequentes, os humanistas, os que sonham e falam de um povo digno e em resistência, os que falam de memória histórica; com seu silêncio, com dar as costas nestes 30 anos.

Os grandes jornalistas humanistas reconhecidos em toda a Pátria Grande, os que abalam Cuba, a Chávez, os que adoram Dilma e Lula, os que gritam orgulhosos, viva o Che!, os que vêm às Mães e Avós da Praça de Maio como o exemplo mundial do que é a resistência e o humanismo. Os que chamam de irmão a Fidel, os que denunciaram o golpe de Estado na Bolívia, os que denunciaram a ditadura de Lenin Moreno, os que viram em Cristina e Evita a grandeza das mulheres na política argentina e latino-americana. Os que dizem, obrigado Perón, obrigado Nestor. 

Os que dizem que não é ódio, mas sim justiça, quando encarceram aos responsáveis de crimes de lesa humanidade em tempos de ditadura. Os que defendem a liberdade de expressão. Fizeram-no as feministas, as grandes feministas que são um farol na América Latina. Os humanistas que são um estandarte latino-americano. Acaso somos candil da rua e escuridão da casa? Como é possível que em 30 anos, a Liliana López Foresi não se peça uma desculpa pública em nome do governo e lhe devolvam seu trabalho nos meios públicos do país? Porque a Liliana não foi demitida por medíocre nem por falta de preparação ou capacidade para estar em um posto de trabalho, foi demitida por ter coragem, por se atrever a dizer em televisão nacional o que nesse tempo os outros ocultavam, foi demitida por levantar a cara, por oferecer o peito, solitária. 

Por não haver dito sim com submissão e voracidade. Por não ter ido para a cama dos que manejam as marionetes. Foi demitida porque outras mulheres de poder não puderam com sua beleza e inteligência. E calaram todas as que também com inveja desde sua mediocridade viram sua demissão e censura como uma enorme oportunidade para elas, para se levantarem mesquinhas todos os dias e traidoras de seu próprio gênero e da liberdade de expressão, de suas próprias profissões.

Dando uma punhalada em Liliana davam uma punhalada em si mesmas e nas que vinham atrás, por isso hoje, 30 anos depois, ainda não existe um movimento nem no jornalismo nem em direitos humanos, nem por artistas, intelectuais, escritoras, poetas, políticas que exijam a reparação pública a Liliana López Foresi. Liliana é demais, é uma mulher com a qual não podem, demasiado inteligente, humana, ética, digna, mas sobretudo com uma resistência inesgotável. Vale dizer que aqueles que a demitiram naqueles tempos estão hoje em importantes cargos em meios de comunicação. O que fizeram estes 30 anos foi evidenciar não o poder que têm os oligarcas neoliberais, mas a dupla moral e a mediocridade dos que viram esta injustiça e se acomodaram buscando seu benefício pessoal, que enquanto estejam bem em sua nuvem, dentro de sua bolha, que lhe arranquem a pele e a alma a quem seja.

Liliana López Foresi merece a reparação pública em nome do governo e estar em um posto de trabalho à altura de sua capacidade e destes 30 anos de censura; me refiro a ser diretora de um meio de comunicação seja escrito, radial ou televisivo. Falo de que se reivindique o que lhe é devido. Se não for feito, os governos progressistas ficam com uma enorme dívida com o direito à liberdade de expressão, com os direitos humanos e com a resistência, lealdade dignidade de uma mulher que jogou sua vida exercendo o direito a denunciar e evidenciar com sua própria voz o que outros, inclusive os que nestes 30 anos, olharam com o rabo do olhos e viraram a cara para outro lugar.   

Por sua resistência, por seu profissionalismo ético, por sua visão de gênero, por seu humanismo e dignidade, Liliana López Foresi é uma das insurgentes da América Latina. Em vida, já é um mito. 

PELA PAZ
Carta aberta aos poetas e outros homens e mulheres de letras
Por: Eugénio de Sá

Meus ilustres Pares, alguns de vós também meus Amigos;
Não há paz sem justiça, não há justiça sem solidariedade. Considero, por isso, que cabe aos autênticos poetas e a outros homens e mulheres de letras que, porventura, hajam logrado merecer junto dos seus leitores o crédito que os torna lideres de opinião, a missão da defesa destes ideais maiores da sociedade civilizada.
Enquanto assumidos paladinos dos mais débeis e desprotegidos, devemos ter no horizonte como meta primeira a persecução de acções que nos fazem servidores destas nobres e encadeadas causas e, assim, definitivamente estaremos a colocar-nos ao serviço da paz
Estamos prestes a dobrar o quarto lustro do milénio terceiro da era Cristã. Nestes quase dezanove anos transcorridos tivemos já a lamentar inúmeras tragédias registadas um pouco por todo o mundo, com o seu cortejo de horrores, sempre mais nefastos para os mais humildes, os que menos têm para poderem ‘alevantar-se do chão’.

É pensando nesses e em tantos outros que ainda sofrem as muitas iniquidades que contra eles são perpetradas, voluntariamente, ou por criminosas incúrias e omissões, que temos de usar a nossa pena e torná-la eficaz na condenação dos culpados. E isto, meus caros Pares, é lutar pela paz com as armas que temos: a pena que tomámos com o dever de a honrar!
Não é nos salões, mais ou menos fechados à comunicação e frequentados por figuras de duvidosas convicções a respeito dos enunciados valores, que a justiça pode ser defendida. Seria pelo menos suspeita qualquer denúncia que de lá viesse pelos que mais a obstaculizam, porque isso seria um acto de gritante hipocrisia, face à manifesta conflitualidade de interesses.  Ao contrário; é tornando pública essa denúncia pela pena de quem nada tem a ver com as tais ‘conveniên-cias’ que melhor defenderemos quem de tal mais carece. E, se o fizermos com algum talento poético-literário, maiores e mais exponenciais e eficazes serão os resultados da comunicação.
Tenho consciência que, de uma forma ou de outra, todos vós quiçá tenham já vindo a contribuir para esta paz de que vos falo, através do apelo à razão para a consolidação dos valores da justiça e da solidariedade entre os seres humanos que ainda têm boa vontade e espírito nobre, altruísta e digno.
Todavia, nos tempos que correm é urgente que assumamos uma atitude ainda mais veemente e a proclamemos por todos os meios ao nosso alcance.
Temos de acreditar que a influência das nossas posições sistematicamente trazidas a público produzirá os seus efeitos.

 

A FESTA CIGANA
Por: Magna Aspásia Fontenelle

Uma família vivia na fazenda ‘Estrela no sul do Arizona’, composta pelo pai, a mãe e os irmãos (sendo dois filhos legítimos e um adotado), um cachorro, um gato e a governanta. Viviam do cultivo da agricultura e agropecuária. O pai, homem rico, austero, trazia todos sob seu comando. Tinham hora pra tudo: almoçar, jantar, brincar, estudar. Assim, a menina Melania crescia junto com seu irmão Haine, não muito felizes devido a austeridade do pai, senhor Nicanor. Um dia apareceu nas redondezas uma caravana de ciganos, com suas coroças puxadas por lindos e potentes cavalos. Montaram suas barracas enfeitadas com lindos tapetes e almofadas coloridas, alumínios brilhando e as crianças brincando. As mulheres, com suas roupas coloridas, anéis, pulseiras, brincos, dentes de ouro na boca, cabelos presos com lenços coloridos, vendiam tachos de cobre, panelas e liam as linhas das mãos das pessoas, orientando sobre presente, futuro e descortinando o passado. Os homens se encarregavam dos animais, da compra e venda de gado e do ouro. As crianças acompanhavam as mães nos afazeres domésticos e nas andanças para as leituras das linhas das mãos. Assim, viviam os ciganos nômades no seu destino, mas tradicional nos seus valores e cultura.

Na noite da chegada à referida fazenda, foi preparado uma festa para comemorar o aniversário da matriarca dos ciganos, dona Encarnação, com muitas comidas, bebidas, boa música, dança das mulheres com vestidos coloridos, lenços nos cabelos e pulseiras. Os homens tocando guitarras com músicas românticas de origem cigana. Os proprietários da fazenda Estrela e de outras fazendas das redondezas também foram convidados para a festiva.

Ao lado da carroça, dona Encarnação olhava a fogueira que soltava labaredas de fogo que subiam aos céus, como quem reverenciava a lua majestosa e as estrelas que brilhavam,  inebriando todos num misto de magia .

Inicia-se a festa com a apresentação dos irmãos ciganos Ray e Esmeralda. Ray, rapaz jovem de cabelos e olhos castanhos, sorriso largo, olhar penetrante; Esmeralda, menina moça de cabelos negros compridos, olhos negros, sorriso marota, andar brejeiro. Dançava ao som da guitarra de seu irmão, que tocava melodia típica do povo cigano. A leveza dos passos da dança de Esmeralda era como a leveza da brisa que balança as folhas das árvores em noite de primavera. Bebidas e comidas típicas eram servidas aos convidados e aos ciganos. A festa transcorria na maior alegria. Eis que, de repente, apareceu uma cavalaria de justiceiros que chegaram atirando pra tudo que é lado e colocando fogo nas carroças dos ciganos e roubando suas coisas. Muitos ciganos morreram sem nem sequer poder se defender. Alguns fazendeiros, mulheres e crianças também morreram.

Um menino cigano se escondeu e, ao término da matança, se viu sozinho no mundo e foi até a Fazenda Estrela, que ficava bem próximo ao acampamento. O senhor Nicanor acolheu o garoto, que passou a integrar a família. Porém, Haine, irmão de Melaine, não gostava dele, sentia muita inveja, pois o ciganinho, Jessé, era alegre, gentil e ensinara Melaine a cantar e dançar como Esmeralda, que fora morta com um tiro no peito na noite da festa.

O que parecia uma boa escolha de vida para Jessé tornou-se um pesadelo. Ele era humilhado, perseguido, ridicularizado e sujeito a outros danos emocionais e psicológicos. Não obstante isso, a amizade entre o ciganinho Jessé e Melaine  crescia a cada dia.

O ciganinho Jessé, com o passar dos anos, tornou-se um belo rapaz, e Melaine  uma bela dama. Às escondidas, tornaram-se namorados e juraram contrair matrimônio.  No entanto, a condição social entre ambos era gritante e os pais de Melaine jamais aceitariam essa união. Jessé, aconselhado pela governanta Maria, partiu em busca de melhores condições de vida para se tornar rico e merecedor do amor de Melaine . Jurou a ela  que voltaria:  — Minha amada, espere-me que logo voltarei rico para nos casarmos.

A primavera floriu, verão de sol brilhante e vento no rosto passou, as folhas das árvores outonais caíram, indicando o fim e o início da vida, as chuvas chegaram trazendo o frio e  a água para regar as plantações e encher os açudes. Era o ciclo da vida na sua plenitude mostrando que findara mais um ano.

Passaram-se muitas primaveras, invernos, outonos e verões e Jessé não retornara. Melaine, desesperançada, enamorou-se de outro rapaz, fazendeiro rico. Casaram-se, mas, seu coração nunca esquecera aquele ciganinho…

Eis que um dia à tardinha, estava ela, o esposo, seu pai, irmão e outros familiares sentados na varanda da casa grande de seu pai, quando chega um homem bem vestido numa carruagem acompanhado de um cocheiro. Desceu da carruagem, cumprimentou a todos, que não o reconheceram. Senhor Nicanor, pai de Melaine, muito solícito, perguntou o que o moço desejava. Jessé, todo imponente, respondeu: eu sou aquele ciganinho que vocês acolheram em vossa casa, e eu vim cumprir minha promessa: desposar com sua filha Melaine.

Melaine, não acreditando no que vira e ouvira, desmaiou e foi socorrida pelo o esposo. Senhor Nicanor, diante da revelação, caiu sentado na cadeira atordoado, pois pensava que o ciganinho tivesse morrido. Haine ficou de boca aberta e mais uma vez invejou Jessé. Afinal, quem tinha carruagem e cocheiro era muito rico, enquanto ele vivia à custa do pai.

Os demais parentes ficaram admirados…

Somente a governanta Maria deu um forte abraço em Jessé, pois fora ela quem o encorajara a ir em busca de melhores condições de vida. Senhor Nicanor, já recobrado do susto, participou para Jessé a triste notícia de que Melaine estava casada com outro. Jessé, muito   decepcionado e magoado, imediatamente voltou para a cidade com o coração despedaçado, pois acabara de perder o amor de sua vida.

Melaine viveu infeliz com seu marido. Nunca esquecera aquele ciganinho alegre, gentil que a ensinara a dançar, que ficava nos campos, nos rios, nas árvores brincando, sorrindo, com a ternura da infância e o esperançar da vida. Mas, a condição social de Jessé os separou para sempre…

 

 

A CONTROVERTIDA RAÇA HUMANA
Crônica de Ary Franco (O Poeta Descalço)

Mobiliza-se uma centena de pessoas, pede-se auxílio ao Corpo de Bombeiros, para ajudar a um gatinho que subiu em uma árvore mas não consegue descê-la. O vizinho do lado envenena a minha gata porque o incomodava à noite, miando no telhado, quando estava no cio.
Dezenas de pessoas se esforçam para devolver ao mar baleias encalhadas na praia. Outros matam-nas com seus arpões para industrializar seus despojos.
Um cavalo atolado num pântano, até quase o pescoço, é retirado de lá após muitas horas de esforço por um mutirão de voluntários que o socorreram a tempo. Outros açoitam-no impiedosamente, obrigando-o a galopar mais rápido ou a transportar cargas pesadas, que ultrapassam sua capacidade física de levar a cabo tal tarefa.

Uma nação é massacrada com bombardeios constantes. Mais tarde, outros enviam “piedosamente” suprimentos para os sobreviventes.
Uns pesquisam em laboratórios curas para males e vacinas contra o vírus Covid 19 que ameaça dizimar a Humanidade , outros criam armas com capacidade, cada vez maior, para destruição em massa de seus semelhantes.

Como poderemos tipificar o chamado racional Ser Humano? Deus nos envia para cá, todos iguais à sua semelhança. O que nos faz optar por caminhos tão diferentes?
Aí fica a pergunta que não quer calar-me: “Quem somos, afinal?!”
Saibamos usar o Livre Arbítrio que Deus nos deu!

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CRONICAS,ARTIGOS E OUTROS TEXTOS

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Febrero  2021 nº 40

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Com talento sobrenatural, Clarice Lispector deu ao Brasil a maior das glórias em literaturaEste texto pertenece à série As Insurrectas
Ilka Oliva Corado

A grande Clarice Lispector completa 100 anos.

A escritora que nunca acreditou que fosse extraordinária, havia demasiada pureza em sua alma para caminhar pela vida com o ego da intelectualidade. Seus textos abriam passagem entre a vida diária, com a máquina de escrever sobre os joelhos enquanto cuidava de seus filhos pequenos. A casa própria de que fala Virginia Woolf foi para Clarice essa máquina de escrever que a salvou do vazio. 

Clarice, que cresceu na pobreza, emigrante desde criança, que falava o português com um acento raro, depois pode viajar pelo mundo e provar o mel da folga econômica, nunca esqueceu sua origem.  Mas, como alguém que conheceu lugares especulares, que se juntava com pessoas alta estirpe no mundo da política, da cultura e das artes, escreveu um texto a uma galinha? Sim, ao sentimento de uma galinha que fugia para não se converter no caldo do dia para uma família. 

Quem podia escrever sobre arranha-céus, vinhos caros, vistas surpreendentes, sobre casas com tapetes persas, escreveu um texto a um homem cego como muitos dos que vivem nas ruas e são invisíveis para a sociedade. E que dizer da história da menina malvada que se burlava da pobreza de sua amiga quando fingia que lhe emprestaria um livro para ler, só para vê-la chegar todas as tardes à sua casa e bater na porta com ilusão, para depois arrebatá-la dizendo que nesse dia, não. 

Clarice escrevia para respirar, isso eram as letras para ela, seu oxigênio. Por isso a profundidade e consistência delas. Afastada do bulício da fanfarra que secunda a muitos escritores gloriosos, Clarice em solidão criou um volume impressionante de textos, todos importantes, essenciais, com as emoções à flor da pele.

Uma só linha de qualquer de seus textos deixa quem a lê em êxtase, ido, submerso nas profundidades de sua própria alma. Clarice tem essa capacidade, um talento extraordinário para transpassar todas as camadas da pele e chegar diretamente ao espírito humano. Seus textos não caducam, são atemporais porque mostram a realidade da vida em infinidade de circunstâncias. Sua habilidade para relatar o dia a dia de uma mulher, que será excluída pelo mundo dos homens, criado para eles mesmos. Isso não mudou ou mudou, mas muito pouco, nestes últimos 100 anos.

Afastada das normas linguísticas, Clarice cria sua própria linguagem, sua própria forma de expressão e de escrita. Rompe com tudo o que era imposto, navega sem radar lançando-se à água do mar sem salva-vidas, caminha sem medir os passos, sem temor, só avança e se adentra nas profundezas da alma. De Clarice Lispector não se volta jamais. 

Também pintora, a menina de origem russa, Chaya Pinkhasovna Lispector deu ao Brasil a maior das glórias em literatura. E a nós, seus leitores em todas as partes do mundo, a alegria de poder desfrutar de seu talento sobrenatural e da essência selvagem dos seus textos. 

Por haver-se atrevido a ser ela mesma, rompido com as normas impostas em literatura, por haver criado sua própria linguagem e mundo, por haver sido fiel à sua essência humana, Clarice Lispector é uma insurrecta. E eu a celebro no centenário de seu nascimento e sempre. Porque com seu ímpeto abriu portas para gerações de escritoras não só na América Latina. 

VAGUEANDO PELAS TECLAS
Por: Eugénio de Sá
Portugal

Às vezes pergunto-me quanta dor haverá por detrás do punho que se esmaga contra a palma da outra mão, num enérgico gesto de incontida revolta. Será que a ampulheta do tempo nos vai limitando, aos poucos, a paciência, perante o que se passa à nossa volta, acrescido do que é inevitavelmente gradativo; um certo descontrole perante a assumpção da nossa limitada resistência aos excessos de toda ordem que vemos ser continuados, e que são causa maior de conflitos latentes nos relacionamentos, que, ao invés, se querem cordatos e profícuos?

Não sei onde me vai levar esta conversa consigo, caro leitor, não tenho em mente um objectivo preciso, nem um desfiar de ideias que o sirvam. Sei, isso sim, que me é imperioso tê-la, e por isso vou batendo nestas teclas na expectativa de ver até onde me leva o desabafo.

Gostaria de lhe falar de paz, daquela paz que Cristo invocou, quando disse: “Dou-vos a minha paz”, mas esse é dom que só mesmo Deus o tem. E, assim, tenho que me cingir a falar da paz que eu gostaria que o mundo alcançasse. Mas quem sou eu para o pedir com alguma esperança de fazer valer a minha fé, se o próprio Santo Padre a pede sistematicamente e não logra alcançar resultados?

Baixemos à crua realidade terrena e vejamos o que se passa no espírito dos homens. Falar em paz quando se assiste a uma tão desigual gestão da riqueza, quando se sabe que os índices de miséria são cada vez maiores entre as populações, quando é flagrante o êxodo massivo dos povos africanos, espavoridos pela guerra e pela fome, quando ainda subsistem no mundo países governados por ditaduras revanchistas e sanguinárias, quando o egoísmo colectivo dos mais favorecidos é tão ferozmente defendido, é uma utopia tão flagrante como aquela que é atribuída aos poetas, sempre acusados de querer o impossível.

Mas, caro leitor que ainda me atura, eu tenho um sonho que talvez não passe de um sonho de poeta; o de que as novas gerações de políticos que aí vêm queiram realmente mudar o mundo. Não passa de uma esperança, é verdade, mas há alguns indícios que me vão alimentando essa esperança. Esses indícios, tal como os que se manifestaram após o último conflito mundial, estão a produzir homens e mulheres mais conscientes dos que desprezaram os direitos deste planeta que habitamos, que agora ameaça virar-se contra os que tanto o agrediram e maltrataram. Estão á vista essas alterações climáticas, que agora são já um processo irreversível, segundo os mais eminentes cientistas.

Os indícios de que falo vêm de homens e mulheres mais altruístas, mais humanos para com o seu semelhante. Quem sabe se pensarão em vir a pagar, finalmente, o preço justo pelas matérias primas que as cadeias de produção ocidentais precisam para laborar, quem sabe se vão, finalmente, pagar o preço justo pela mão de obra emigrante que sempre foi explorada, quem sabe, enfim, se vão passar as respeitar mais sinceramente os seus valores culturais, sem que os tenham de assimilar e praticar, naturalmente.

Quem sabe se essa assumida decência não será o caminho mais curto para se alcançar a almejada paz?!

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O TER, O SER, E O PARECER
Um Apontamento de Eugénio de Sa

  Na sociedade actual prevalecem desejos cada vez mais associados ao «Ter» como a   crescente ambição de posse de bens materiais, de par com um irreprimível desejo de consumismo, e sede de poder, em detrimento dos maiores valores reais da vida, o que coloca a humanidade no abismático caminho da destruição social, psicológica e ambiental. 

  Ah, mundo, para onde vais,
  se a minha visão distante
  se perde na cinza das brumas
  de um horizonte inconsequente,
  e triste.
  E.Sá

Vejamos o que nos diz o filósofo e sociólogo Erich Fromm: 

  “A relação das pessoas com a Natureza tornou-se profundamente hostil. Sendo, como somos, «fenómenos da Natureza», existindo dentro dela pelas próprias condições do nosso ser e transcendendo-a pela dádiva da razão, tentamos resolver o problema existencial desistindo da visão messiânica da harmonia entre a Natureza e a Humanidade, optando por conquistá-la, transformá-la, de acordo com os nossos interesses, até que essa conquista se tornou cada vez mais semelhante à destruição. O nosso espírito de conquista e a nossa hostilidade cegaram-nos para os fatos de que as fontes naturais têm os seus limites e podem eventualmente esgotar-se, e de que a Natureza pode voltar-se contra a violação humana.

  Somos uma sociedade de gente visivelmente infeliz: sós, ansiosos, deprimidos, destrutivos, dependentes – gente que se alegra quando matou o tempo que tão desesperadamente tenta poupar.”

O “TER”, o “SER”, e o «PARECER»

  Para muitos, possuir bens materiais parece ser hoje o único meio de valorização pessoal. Este conceito encontra nos seus defensores a justificação de que para se ser reconhecido e ganhar notoriedade, é necessário “Ter”. Para esses, a procura da felicidade parece passar exclusivamente pelo Ter e/ou por aparentar “Ter” (o querer “Parecer”).

  Uma manifestação do “Ter” é o da apropriação. E o detentor do bem obtido quer ser reconhecido com vencedor. Porque nenhum desses indivíduos quer sequer aceitar que pode vir a perder aquilo que conquistou. Se me alargasse um pouco mais, iria indubitavelmente cair numa caracterização próxima do neo-liberalismo mais ou menos selvagem – com o seu cortejo de práticas condenáveis – onde o meu contumaz espirito analítico e, eventualmente, censório. me levaria. Mas, decidida-mente, não foi isso que hoje aqui me trouxe.

  No fundo, a grande diferença entre o “Ter” e o “Ser” equivale à diferença entre uma sociedade centrada nos bens materiais, nas coisas, e outra que se foca nas pessoas, porque deve ser para isso que nos organizamos enquanto sociedade dita civilizada.

O “Ser” é o assumir a consciência da realidade, do que se é, e de que existem os outros num mundo que a todos abriga, e, como tal, que deve se respeitado.

Ao “Ser” estão subjacentes os conceitos da independência e da liberdade, a nossa e da pátria que nos reconhece como seus filhos. Negar-lhe esse mór direito seria traí–la e,consequente, trai-nos a nós próprios.

  Para mim, sermos felizes é sentirmo-nos em paz, e isso implica estarmos de consciência tranquila, de bem connosco próprios e com os demais, porque, na justa medida das nossas possibilidades, contribuímos para o bem colectivo.

PORQUE SERMOS SÓ O QUE TEMOS, É POUCO, É MUITO POUCO!

As meninas também jogam (e entendem de) futebol
Ilka Oliva Corado

Cheguei aos “campos do lago”, assim são chamados os campos de futebol que estão em frente à praia da Rua Montrose, e minha grande surpresa foi ver times mistos de meninas e meninos; não pude conter o pranto pela emoção, aquele instante para mim foi catártico. Na minha infância, tinha crescido brigando com moleques, desafiando-os com socos para lutar por meu lugar no campo.

Diziam-me que o futebol não era coisa de meninas, que fosse brincar com bonecas e lavar pratos. Eu em resposta os desafiava e dizia que iam ver que eu não estava brincando; o primeiro que falasse veria o sangue pingar. Foi assim que me tornei especialista em brigas de rua: um soco direto no nariz e voavam os pingos de sangue, o que me assegurava o lugar no time. Dentro do jogo, a coisa era outra, rasteiras a toda hora; ignorada, ninguém queria me passar a bola, ninguém confiava que uma menina pudesse marcar um gol. Fui cavando meu lugar à custa de boladas e pontapés. A vingança eram as técnicas de paredão, até que já não fiquei em último lugar e não puderam “fuzilar-me” com boladas.

Eu apanhava em dobro, porque já sabia da surra que minha mãe daria porque eu pulava a cerca e ia jogar futebol com os moleques, além dos encontrões para ganhar o posto na partida. Mas todo o sacrifício valeu a pena e muito mais a alegria, porque o futebol se converteu na minha paixão. Então, ao terminar o jogo, saía com o sangue quente pelas brigas e ia pra casa, para receber a surra de todos os dias, porque todos os dias, fosse como fosse, eu saía para jogar futebol.

Nesse dia de abril, eu chorei de alegria, com o pranto acumulado de toda uma vida que não pude conter, porque essas meninas não tinham que brigar para jogar futebol e, além do mais, em equipes mistas, coisa que eu nunca havia visto na Guatemala.

Uma parte de mim sentiu-se realizada. Depois de 15 anos vivendo nos Estados Unidos ainda não me acostumei: cada vez que vejo jogos mistos sinto a mesma emoção daquele primeiro dia e fico com os olhos cheios d’água, e lhes grito emocionada: passa a bola! Abra o jogo! Pare! Chute agora! E grito como louca em qualquer gol, como se fosse eu mesma que tivesse feito. É uma emoção indescritível ver meninas jogando futebol e muito mais quando os times são mistos e demonstram que elas de sexo débil não têm nada, porque dão fintas, amortizam, conduzem e anotam com a habilidade, a excelência, a magia e o estilo que não tem nada a ver com o gênero.

Como árbitra, tampouco o caminho foi fácil. Creio que sofri muito mais que como jogadora, porque ser autoridade e fazer valer o regulamento em um jogo de homens era desafiar o machismo e os estereótipos. E a única forma de demonstrar minha capacidade era agindo de acordo com a lei e, para isso, tinha que saber o regulamento de ponta a ponta e, além disso, entender o jogo e marcar uma falta no instante preciso. Ser árbitro não é qualquer coisa, é preciso saber aplicar o regulamento. Jamais vão perdoar a um árbitro uma falta mal marcada e um cartão que não foi dado a tempo.

No dia 10 de março, sábado, mais sonolenta que acordada, depois de ver um filme, mudei de canal e na Univision estavam passando um jogo da Liga Mexicana: América contra León. Eu não vejo futebol televisionado, mas chamou minha atenção escutar que quem narrava o jogo era uma mulher; no primeiro instante não acreditei, fiquei escutando, porque sei que há mulheres que participam como comentaristas, mas jamais como narradoras. Para narrar futebol é preciso ter uma habilidade de poucos e uma paixão inconfundível. Para narrar um jogo há que viver em tempo real, como vivem os jogadores em campo.

Fiquei escutando enquanto no coração começava a acelerar as palpitações. Está narrando? Perguntei-me. Uma mulher está narrando o jogo? Tornei a me perguntar, emocionada. Tão emocionada como quando vi naquele abril as meninas jogando em times mistos e como quando vi uma mulher receber as Olimpíadas da Grécia, cem anos depois que saíram daquele lugar, quando sabemos que no seu início as mulheres não podiam participar nem como espectadoras e muito menos nas disciplinas esportivas.

Repito, não vejo futebol televisionado, mas no sábado, 10 de março, fiquei grudada no televisor, deleitando-me com a qualidade de Íris Cisneros, jovem de 28 anos, mexicana, de pais salvadorenhos, que há pouco tempo forma parte da equipe de Univisión Deportes. A quem aplaudo por ser a primeira mulher de língua espanhola a narrar um jogo de futebol em Estados Unidos, não sei se no continente Americano, mas é a primeira vez que escuto a uma mulher narrando uma partida de futebol de homens de liga maior. Que tenha sido no jogo do América, resultou uma plataforma extraordinária para que sua estreia chegasse a milhares de lares.

Iris Cisneros, então, com isso, abriu uma porta enorme, para que mais mulheres sigam o caminho da narração esportiva, em qualquer disciplina, derrubando com isso o patriarcado e os estereótipos, e muito mais no futebol por razões óbvias. É uma pioneira e eu reconheço seu trabalho, a importância de sua projeção e o orgulho e a alegria de vê-la como mulher narrando jogos de futebol de homens.

Por Íris e por todas as mulheres que através do tempo abriram caminhos para nosso gênero nos esportes. Que venham mais!

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