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Febrero  2021 nº 40

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AL SERVICIO DE LA PAZ Y LA CULTURA HISPANO LUSA

Com talento sobrenatural, Clarice Lispector deu ao Brasil a maior das glórias em literaturaEste texto pertenece à série As Insurrectas
Ilka Oliva Corado

A grande Clarice Lispector completa 100 anos.

A escritora que nunca acreditou que fosse extraordinária, havia demasiada pureza em sua alma para caminhar pela vida com o ego da intelectualidade. Seus textos abriam passagem entre a vida diária, com a máquina de escrever sobre os joelhos enquanto cuidava de seus filhos pequenos. A casa própria de que fala Virginia Woolf foi para Clarice essa máquina de escrever que a salvou do vazio. 

Clarice, que cresceu na pobreza, emigrante desde criança, que falava o português com um acento raro, depois pode viajar pelo mundo e provar o mel da folga econômica, nunca esqueceu sua origem.  Mas, como alguém que conheceu lugares especulares, que se juntava com pessoas alta estirpe no mundo da política, da cultura e das artes, escreveu um texto a uma galinha? Sim, ao sentimento de uma galinha que fugia para não se converter no caldo do dia para uma família. 

Quem podia escrever sobre arranha-céus, vinhos caros, vistas surpreendentes, sobre casas com tapetes persas, escreveu um texto a um homem cego como muitos dos que vivem nas ruas e são invisíveis para a sociedade. E que dizer da história da menina malvada que se burlava da pobreza de sua amiga quando fingia que lhe emprestaria um livro para ler, só para vê-la chegar todas as tardes à sua casa e bater na porta com ilusão, para depois arrebatá-la dizendo que nesse dia, não. 

Clarice escrevia para respirar, isso eram as letras para ela, seu oxigênio. Por isso a profundidade e consistência delas. Afastada do bulício da fanfarra que secunda a muitos escritores gloriosos, Clarice em solidão criou um volume impressionante de textos, todos importantes, essenciais, com as emoções à flor da pele.

Uma só linha de qualquer de seus textos deixa quem a lê em êxtase, ido, submerso nas profundidades de sua própria alma. Clarice tem essa capacidade, um talento extraordinário para transpassar todas as camadas da pele e chegar diretamente ao espírito humano. Seus textos não caducam, são atemporais porque mostram a realidade da vida em infinidade de circunstâncias. Sua habilidade para relatar o dia a dia de uma mulher, que será excluída pelo mundo dos homens, criado para eles mesmos. Isso não mudou ou mudou, mas muito pouco, nestes últimos 100 anos.

Afastada das normas linguísticas, Clarice cria sua própria linguagem, sua própria forma de expressão e de escrita. Rompe com tudo o que era imposto, navega sem radar lançando-se à água do mar sem salva-vidas, caminha sem medir os passos, sem temor, só avança e se adentra nas profundezas da alma. De Clarice Lispector não se volta jamais. 

Também pintora, a menina de origem russa, Chaya Pinkhasovna Lispector deu ao Brasil a maior das glórias em literatura. E a nós, seus leitores em todas as partes do mundo, a alegria de poder desfrutar de seu talento sobrenatural e da essência selvagem dos seus textos. 

Por haver-se atrevido a ser ela mesma, rompido com as normas impostas em literatura, por haver criado sua própria linguagem e mundo, por haver sido fiel à sua essência humana, Clarice Lispector é uma insurrecta. E eu a celebro no centenário de seu nascimento e sempre. Porque com seu ímpeto abriu portas para gerações de escritoras não só na América Latina. 

VAGUEANDO PELAS TECLAS
Por: Eugénio de Sá
Portugal

Às vezes pergunto-me quanta dor haverá por detrás do punho que se esmaga contra a palma da outra mão, num enérgico gesto de incontida revolta. Será que a ampulheta do tempo nos vai limitando, aos poucos, a paciência, perante o que se passa à nossa volta, acrescido do que é inevitavelmente gradativo; um certo descontrole perante a assumpção da nossa limitada resistência aos excessos de toda ordem que vemos ser continuados, e que são causa maior de conflitos latentes nos relacionamentos, que, ao invés, se querem cordatos e profícuos?

Não sei onde me vai levar esta conversa consigo, caro leitor, não tenho em mente um objectivo preciso, nem um desfiar de ideias que o sirvam. Sei, isso sim, que me é imperioso tê-la, e por isso vou batendo nestas teclas na expectativa de ver até onde me leva o desabafo.

Gostaria de lhe falar de paz, daquela paz que Cristo invocou, quando disse: “Dou-vos a minha paz”, mas esse é dom que só mesmo Deus o tem. E, assim, tenho que me cingir a falar da paz que eu gostaria que o mundo alcançasse. Mas quem sou eu para o pedir com alguma esperança de fazer valer a minha fé, se o próprio Santo Padre a pede sistematicamente e não logra alcançar resultados?

Baixemos à crua realidade terrena e vejamos o que se passa no espírito dos homens. Falar em paz quando se assiste a uma tão desigual gestão da riqueza, quando se sabe que os índices de miséria são cada vez maiores entre as populações, quando é flagrante o êxodo massivo dos povos africanos, espavoridos pela guerra e pela fome, quando ainda subsistem no mundo países governados por ditaduras revanchistas e sanguinárias, quando o egoísmo colectivo dos mais favorecidos é tão ferozmente defendido, é uma utopia tão flagrante como aquela que é atribuída aos poetas, sempre acusados de querer o impossível.

Mas, caro leitor que ainda me atura, eu tenho um sonho que talvez não passe de um sonho de poeta; o de que as novas gerações de políticos que aí vêm queiram realmente mudar o mundo. Não passa de uma esperança, é verdade, mas há alguns indícios que me vão alimentando essa esperança. Esses indícios, tal como os que se manifestaram após o último conflito mundial, estão a produzir homens e mulheres mais conscientes dos que desprezaram os direitos deste planeta que habitamos, que agora ameaça virar-se contra os que tanto o agrediram e maltrataram. Estão á vista essas alterações climáticas, que agora são já um processo irreversível, segundo os mais eminentes cientistas.

Os indícios de que falo vêm de homens e mulheres mais altruístas, mais humanos para com o seu semelhante. Quem sabe se pensarão em vir a pagar, finalmente, o preço justo pelas matérias primas que as cadeias de produção ocidentais precisam para laborar, quem sabe se vão, finalmente, pagar o preço justo pela mão de obra emigrante que sempre foi explorada, quem sabe, enfim, se vão passar as respeitar mais sinceramente os seus valores culturais, sem que os tenham de assimilar e praticar, naturalmente.

Quem sabe se essa assumida decência não será o caminho mais curto para se alcançar a almejada paz?!

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