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Um Apontamento de Eugénio de Sá

 

Será possível o regresso ao passado de dois seres que já partilharam a vida?

Querer recuperar uma antiga relação pode ser um erro, um erro que pode custar-nos caro, mormente em termos emocionais.

A experiência e o conhecimento do comportamento humano diz-nos que não é raro, bem pelo contrário, cultivar uma ilusão; a de querer reviver o passado através do reatar de um relacionamento que outrora nos foi grato porque nos trouxe prazer sob vários aspectos, mas que, noutros, acabou por revelar-se penoso, porque o desgaste tudo foi transformando em dor, a ponto de nos levar a rompê-lo.

Na realidade, pensar que tudo pode repetir-se tal qual ocorrera antes, e prolongar no tempo um forçado – mas só aparente – conserto de vontades, pode descambar numa grande frustração de efeitos imprevisíveis, mas invariavelmente nefastos. Mesmo preparados para o impacto à vista das mudanças entretanto operadas no ser que amámos; depressa lhe detectamos novos hábitos, ou mesmo vícios, que, aos poucos, nos vão desgostando e afastando dele, tal como certamente acontecerá ao invés, não o esqueçamos.

Por outro lado, embora hajam esforços mutuos e assumidos para que «as coisas» corram bem, a breve trecho qualquer azedume ocasional – ainda que ditado por fortuita circunstância – precipitará o regresso de velhas mágoas e constrangimentos, e uma imparável chuva de acusações, que vão condenar a tentativa de reatar essa relação a um novo e doloroso ponto final, porventura ainda mais traumático que o anterior.

E aí, cada um se fará a si mesmo a pergunta: terá valido a pena arriscar?

A resposta virá imediata, trazida nos ventos da tempestade que assola cada alma: Não!

Mas muitos dirão que se não tivessem tentado nunca o saberiam. É a natureza humana, e há que aceitá-lo.

Sintra, 22 de Dezembro de 2017

Ary Franco (O Poeta Descalço)

THOR

         Filhote ainda, com a devida autorização do Comandante do meu batalhão, levei Thor para o quartel em que prestava meu serviço militar como 1º Tenente na Companhia de Comando.

         Adotado como Mascote, era respeitado e admirado por toda a Tropa. Maior parte do meu tempo era dedicada ao seu adestramento. Amigos incondicionais, ele aprendeu com facilidade tudo que lhe foi por mim ensinado. Quando em forma, durante todo o tempo da execução do Hino Nacional permanecia ereto ao meu lado, sentado sobre as patas traseiras. Olhar firme para a frente, imóvel, boca fechada e peito inflado.

         Brincávamos muito nos tempos vagos e eu, na hora do rancho, comia com ele fora do refeitório, sentado no meio-fio do pátio. Várias concessões me foram dadas pelo Comando, diretamente da Casa das Ordens. Essa era uma delas.

         Um dos grandes momentos era na solene grande Parada de 7 de Setembro. Na frente da tropa, em carro aberto, em pé, ia o nosso Comandante.  De um lado, ambos a pé,  seguia   o seu Ajudante de Ordens e do outro o Cabo Corneteiro. A seguir, uns oito metros de distância atrás, marchava eu levando na guia o Thor trajando um colete verde e amarelo. Ele aprendeu a obedecer todos os  comandos da corneta. Até o “olhar à direita”, quando passávamos frente ao Palanque Presidencial, ele sabia fazê-lo com um sutil sinal dado por mim na sua coleira. Aplausos ele arrancava do público quando de sua passagem, principalmente das crianças que assistiam ao Desfile, levadas pelos seus pais. De longe, poucos notavam as lágrimas de emoção rolando em minha face. Minhas botas batiam mais fortes no asfalto, mais fortes que todas as outras, assim sentia eu!

         Thor, pastor alemão manto negro, não aceitava fardamento que não fosse o verde oliva. Quando em meio a “estranhos” (Bombeiro, Marinha e Aeronáutica) costumava rosnar e eu me via em palpos de aranha para conter suas investidas àqueles que dele eventualmente se aproximassem.

         Eclodiu a 2ª Guerra Mundial e fomos convocados para defender nossa Pátria. Por decisão unânime, aprovada pelo nosso Comando Maior, levamos conosco o valente e inseparável Thor, nosso amado mascote.  Durante a viagem de dias, em navio de guerra, ele repousava sob a rede em que eu dormia. Éramos inseparáveis, na Paz e na Guerra.

         Na primeira batalha, entrincheirados, trocamos tiros e granadas arremessadas por obus, com o belicoso inimigo. Na ausência da resposta de fogo de nosso antagonista, dei ordem de ATACAR e Thor adiantou-se a todos em desabalada carreira. Chamei-o de volta em vão e, ao chegar no campo adversário, já estava ele estraçalhando com suas mandíbulas o corpo exangue de um soldado estranho trajando fardamento não verde oliva.

         Inopinadamente veio um tiro em nossa direção atingindo mortalmente o nosso Thor. Gritei o mais alto possível admissível pelos meus pulmões: SEM PRISIONEIROS!!! Sem qualquer outra baixa aliada, dizimamos nosso inimigo e carregamos de volta para nossa base avançada o corpo inerte de Thor.

         Antes de ser sepultado foi pendurada em seu pescoço a medalha da Grande Cruz por Bravura, enquanto o corneteiro tocava a marcha fúnebre em homenagem ao nosso Herói. Para amenizar minha dor, tinha o consolo em saber que ele morreria de saudade se o deixasse a sós no frio aconchego do quartel. Mas pequei quando o ensinei a atacar e esqueci-me de ensiná-lo a se defender, recuar…

         A cada batalha seguinte parecia que ele nos guiava nos combates encarniçados e  sua lembrança redobrava nossas forças, fazendo-nos ganhar a guerra!

GRATO, VALENTE THOR PELO MUITO QUE NOS ENSINASTE!

         

 

Fernando Oh Fernando!

Rejane Machado

O belo poema de Fernando Pessoa sob inspiração de Horácio, Vem sentar-te comigo, Lidia, à beira do rio”- provoca-nos reflexões profundas sobre a natureza do Ser, e principalmente acerca de nossas certezas e dúvidas mostrando reações instigantes diante de certos estímulos e suas consequências.

Após o lírico e amável convite, atendido prontamente, posta-se o poeta à contemplação do rio a correr eternamente, inalterável e sereno. Há uma sugestão de que o eu lírico-humano se deixa levar em um breve momento pela paixão, quando repara que não estamos de mãos enlaçadas, propondo então: enlacemos as mãos. Por um instante estão aproximados, porém a intensa racionalidade do poeta recusa-se a continuar em direção ao jogo amoroso e capitula diante dos gestos que os poderiam levar ao clímax do sentimento despertado por uma paixão irracional. Para evitar que mais tarde aquela lembrança “lhe arda” Analisando: poderíamos se quiséssemos/ trocar beijos, abraços e carícias / mas seu intenso pessimismo o adverte: mas não vale a pena/ porque o rio sempre correrá. Neste momento não se mostra a controvérsia que permeia toda sua poiesis – será ele, o mesmo poeta, que ainda um dia desses nos dizia que /Tudo vale a pena / se a alma não é pequena?/ E vence o racional: desenlacemos as mãos/ Melhor deixar-se ficar a contemplar o rio que está a correr: amemo-nos tranquilamente/ sossegadamente/ fitemos o seu curso e entendamos que a vida passa./ nada deixa e nunca regressa/ vai para o mar, / passamos como o rio. Mais vale saber passar como o rio, sem paixões,” sem ódios/ que faça levantar a voz – parece hesitar: Pensando: se quiséssemos/ podíamos trocar beijos e abraços… Mas /não vale a pena./ Melhor deixar-se ficar a contemplar o rio a correr sossegadamente/: fitemos o seu curso e entendamos / que a vida passa/ Sem cuidados/ porque se os tivéssemos os rios sempre correriam/ amemo-nos tranquilamente, pede.

Sugere-lhe colher flores, colocá-las no colo, proporcionando-lhe uma lembrança de um momento simples e duradouro de que jamais se apartará: Evitando o sofrimento que a lembrança desta cena lhe trará: /eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti/ (…) pagã triste/ sentada com flores no colo/. E reforça: Quando se lembrar da cena: ser-me-ás suave à lembrança/ sem expectativas/ nem sofrimentos /talvez decepcionantes, que façam levantar a voz. / Sugere-lhe apagar as lembranças: Nunca enlaçamos as mãos / nem nos beijamos/ nem estivemos sentados à beira do rio/ nem fomos mais do que crianças/.Porque jamais se entregaram à paixão que torna irracionais os vitimados por ela. Não cremos em nada/pagãos decadentes/.

Ao fitá-la triste comove-se, mas não cede à emoção; pensa no dia em que deverá /levar seu óbolo ao barqueiro sinistro/ e ela não lhe será então mais do que uma lembrança sofrida. Tudo o que ficará dela será aquela imagem persistente, viva na recordação: /uma pagã triste com flores no colo/ sentada à beira do rio/ vendo-o correr, tranquilo/.Como a vida da gente.

Por todo o poema a sensação de que nada vale a pena.(duvidamos ao ler:  realmente voltamos a duvidar: será dele aquela famosa conclusão de que se alma não é pequena, etc , etc?) O fingimento sendo o estado natural do poeta,- serão mentirosas todas suas impressões? Será mentirosa sua vontade de enlaçar as mãos com a moça bela e triste a quem convida para vir sentar-se a seu lado, a ver correr o rio da vida?

Quem pode saber? Ou afirmar coisa alguma, diante de tanto ceticismo?

Realmente o amor não vale a pena? Nada fica dessas lembranças, senão o gosto amargo do que poderia ter sido e que não foi?

A confirmação de que terá valido a pena, e que valeria muito mais é esta: nada se perde. Em algum canto absconso da realidade que nunca se esvai, está registrado o fato, o acontecimento ou a sua possibilidade. Influenciando o ânimo do poeta, fazendo brotar a semente da sensibilidade que não se perdeu através do tempo – que nos importa se houve ou não um momento em que o ímpeto amoroso venceu as resistências e a racionalidade do poeta? Importante é que a poesia aconteceu. Um território poético se instalou no ânimo do poeta, fazendo-o digno do epíteto nobre.

Em algum momento estiveram sentados à beira do rio, as mãos enlaçadas olhando as águas que correm eternamente…

E, o mais importante, apreendeu-se um momento de intensa beleza. Congelou-se o tempo naquela belíssima imagem: uma pagã triste/ sentada à beira do rio portando flores no colo.

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