CRÓNICAS EM PORTUGUÉS

Todo lo publicado en esta revista esta sujeto la ley de propiedad intelectual de España” Ley 21/2014 de 4 de noviembre, por la que se modifica el texto refundido de La ley de Propiedad Intelectual, aprobado por Real Decreto Legislativo 1/1996 del doce de abril, y la ley 1/2000, de siete de enero de Enjuiciamiento Civil” todos los derechos están reservados .Luna Sol Internacional está registrada ante la propiedad intelectual de España y el copyright de Estados Unidos.

picture4a

O ANCIÃO

  Ontem de manhã vieram inusitadamente me apanhar sem eu saber pra quê. Além das visitas constantes, costumavam buscar-me para aniversários, páscoa, natal, passagem de ano e outras datas comemorativas e festivas. Deram-me banho mais cedo, colocaram-me fralda e me perfumaram como de costume, desjejum na boca e me vestiram com a roupa mais nova.  Delicadamente colocaram-me na minha cadeira de rodas e lá fui eu conduzido para destino por mim ainda ignorado.

  À distância, vi um homem idoso me esperando no portão da Casa de Repouso, onde eu sou hóspede; beijou-me na testa carinhosamente, pedindo-me a benção. Nada proferi, pois já de algum tempo deixei de falar, mas em pensamento respondi-lhe: Deus te abençoe! Ainda lúcido, minha mente funciona com sentimentos variadamente intercalados. Sinto quase todos, porém não exteriormente manifestados: alegria, tristeza, emoção, decepção, surpresa, piedade, desagrado, doces e amargas lembranças de um longínquo passado… Meu rosto sulcado por rugas penosamente adquiridas através de 102 anos, esqueceu-se de como se sorri…

  Chegado mais próximo senti a alegria de reconhecer meu filho mais velho, acompanhado de minha neta, ele com cabelos imaculadamente brancos e os dela grisalhos. A curiosidade despertada pelo inusitado passeio ainda permanecia em minha mente. Chegados ao carro, facilitados pelo meu pouco peso, fui cuidadosamente sentado no banco traseiro com o  cinto de segurança e carinhosamente aconchegado pela minha neta. Ao volante reconheci outro neto que beijou-me no rosto antes de iniciarmos a misteriosa viagem. Minha cadeira dobrável foi colocada no porta-malas.

  Durante o percurso todos falavam comigo e eu os escutava atentamente. Disseram-me que era o Dia dos Pais e eu seria a figura principal da festiva data. Curioso… quando se alcança uma idade avançada, deixamos de ser convidados e passamos a ser compulsórios participantes… intimados, sem opção!

  Em lá chegando fui festivamente recepcionado, abraçado, beijado, disputadíssimo, quase arrancado da minha confortável cadeira de rodas. Fotos e mais fotos foram tiradas, figurando eu em todas como personagem principal. O que mais me emocionou, mas lágrimas não rolaram de meus olhos secos, apenas umectaram meu velho e cansado coração: colocaram em meu colo um meigo anjinho para mais uma foto e ele, virando a cabecinha para cima, olhou-me com os olhos mais lindos que jamais me olharam e disse-me baixinho: “tatá…” Era o diminutivo de tataravô, o mais alto grau de parentesco que se possa alcançar. Eu fazia jus àquele jubiloso título, já que fui pai aos vinte e dois anos. Esse foi o momento marcante da “minha” festa, guardado no cerne do meu emocional.

  Das mais de sessenta pessoas presentes, de poucas me lembrava, mas sabia que eram meus rebentos ou parentes afins, a perpetuação de meu nome através de um duradouro, eterno porvir. Era eu, apesar de minha fragilidade física, o tronco daquela arvore genealógica, motivo de meu ufanoso orgulho. Quão generoso Deus me foi… e ainda o é!

  Às 18:00h resolveram levar-me de volta ao meu ninho, o local mais apropriado para passar o restante de meu caminhar aqui por baixo. Levava comigo um gostoso cansaço e a dúvida de se mais uma vez haveria tempo de virem buscar-me para outro evento. Se eu lograria esperar mais algum tempo por um novo “convite”.

Ary Franco (O Poeta Descalço)

ary-franco

DEMOCRACIA, AFINAL QUE DEMOCRACIA TEMOS?

Pensem comigo

Alguém um dia defIniu a democracia como a forma menos má de organização social.

Li algures que enquanto Vladimir Iliitch Ulianov, que ficou conhecido como Lenin, preparava numa pequena aldeia Suíça os estatutos do que viria a ser o governo provisório bolchevique, um dos seus colaboradores teria produzido a seguinte reflexão: “ é um acto democrático sujeitar a plebiscito uma inquirição de onde dever ser implantada uma fonte ou um campanário. Todavia, só pode caber às elites de um povo a declaração de um estado de guerra, por exemplo” ( Estaria a referir-se à intelectual, ou à politica? – É que ambas as qualidades raramente são coíncidentes).

E isto pareceu-me pelo menos surpreende, sublinho, até porque me parece mais que o tal colaborador certamente quereria aludir aos políticos, e consequentemente a pensar na futura «numenclatura». que se viria a constituir dominante, por troca com a oligarquia czarista.

Anos depois de haver ficado perplexo com este e outros duvidosos dogmas que fui intuindo pela leitura, e já senhor das minhas próprias ideias, numa conversa de amigos à mesa do café, atrevi-me a prever que um dia todos os cidadãos seriam controlados pelos estados na quase totalidade dos seus actos. Câmaras instaladas nas ruas, nas instituições, nas lojas, etc, permitiriam ver tudo o que se passava com as pessoas, onde quer que estivessem. Nas expressões dos meus interlocutores foi então comum a expressão de descrédito que lhes vi plasmada nos rostos. Mais adiantei então; que esse controle se iria estender aos depósitos bancários, gastos pessoais, etc.

Trista anos passaram, e os factos começavam a dar-me razão. Volvidos mais dois lustros, e hoje são as próprias pessoas que até agradecem ser vigiadas, tal a sensação de insegurança que entretanto se instalou na sociedade. Daí a escutarem-lhes as conversas vai só mais um passo.

Nestes últimos anos chegámos ao ponto de, perante ameaças latentes de implantação de regimes totalitários injustos e ultrapassados, neste ou naquele país, surgir neles um grande número de cidadãos a apelar à intervenção das suas forças armadas, não obstante as consequências que se sabem advir desse tipo de intervenção.

Pensem comigo: que democracia temos hoje? – A que se fundava nos estereótipos com que aprendemos a defini-la? – Certamente que não. Será que  queremos outra, porventura outra mais musculada, mas ainda nos limites do razoável?

Seja como for, não aceitemos mais demagogias baratas e sonhadoras utopias, venham elas de onde vierem, que as duras realidades sempre as desmentirão.

Não sou dono da verdade e será muito difícil que qualquer teólogo o possa ser nas presentes circunstâncias sempre aceleradas por acontecimentos inusitados. Falta-nos provavelmente um vidente de provados dons para nos poder adiantar qual o regime que poderá suceder à democracia, mas, com certeza, será algo que não se configura com a definição original:  Democracia é a forma de governo em que a soberania é exercida pelo povo.

Eugénio de Sá
Sintra, 7 de Outubro de 2016

eugenio

 

 

 

AS VALQUIRIAS

As Valquírias eram mulheres de controvertido significado, assim como as mulheres de agora. Poderosas para uns, de nem tanta valia para outros, pois à época podiam ser mensageiras de bons augúrios como da morte.
Vestiam armaduras, cavalgavam lindos corcéis. Hoje vestem uma armadura de coragem para vencerem os obstáculos existentes na sociedade que as contemplam com menores salários e mais tarefas pela eficiência que apresentam nos mais diversos campos profissionais.
Era tradicionalmente cantada pelos poetas assim como as mulheres de hoje, cuja beleza é fundamental, como já cantou o poeta; são porta-vozes de boas novas- quando agradam ao seu homem, marido, companheiro ou senhor- ou malditas quando os condenam ao degredo emocional, quando não mais os amam, fazendo-se por isso, segundo o entendimento masculino, merecedoras da morte, da tortura, do cárcere privado. Pobre deus de pés de barro que não suporta uma negativa feminina e que não percebem que “quem ama não mata”. Quem ama cuida.
Sempre estavam inseridas nas descrições de batalhas, Também o estão agora, pois se fazem presentes no lar, nas escolas, onde preponderam, nas mais variadas atividades, inclusive no judiciário sendo responsáveis pela sentença de quem tem razão ou não, quem é condenado à morte (de uma vida encarcerada) ou não.
Eram protetoras, traziam encantamento, sorte e eram ligadas a certas famílias.
Descrição esta que se enquadra aos espíritos femininos ao longo da história da humanidade, inclusive na atualidade,
Existe alguém mais protetor que uma mãe amorosa e fervorosa dedicada a proteger sua cria encaminhando-a para o bem para o sucesso e para o caminho da felicidade?
Eram companheiras, mulheres dos heróis. E o homem honesto, parceiro honrado, protetor, amigo que procura dar amor, segurança, e bons exemplos para a sua família não é também um herói, em uma sociedade consumista, com valores pervertidos, onde impera em muitos locais a violência, a corrupção e a droga que destrói famílias inteiras não é também um herói?
Não vive a Valquíria hodierna em uma guerra constante? Mora em ambientes de permanente guerra nas comunidades de periferia nas quais quem sai de casa para ganhar o pão ou para estudar são abatidos por bala perdida, ficando o culpado à solta e a justiça desacreditada?
E, o encantamento que eram capazes de produzir? De libertar, de prender, de curar. Não são os mesmos encantamentos que as mulheres promovem encantando os homens e aprisionando-os através do amor e sedução vivendo juntos ano após ano, de darem à luz, promoverem a vida, sendo verdadeiras divindades ou fadas para seus filhos pequenos, para quem só importa a mãe, que prove o seu sustento através de seu próprio corpo? Não é mágica quando alivia dores a um simples afago?
E quando entoam cânticos de louvor a Deus, de amor à vida ou cantigas de roda para trazer alegria para as crianças?
Valquíria não tem idade. Elas podem ser os espíritos que habitaram corpos nórdicos, como podem ser espíritos que habitam corpos nos países infestados pelo ódio onde não querem deixar que os espíritos femininos evoluam não as deixando frequentar escolas, como podem ser espíritos que habitam corpos nas comunidades indígenas pelo mundo, ou que habitam corpos de mulheres envelhecidas pelas agruras da vida na campanha ou nas palafitas, ainda de mulheres jovens que buscam sucesso e são massacradas pela mídia produzindo um estereótipo de mulher perfeita que elimina todas as outras provocando uma eterna insatisfação das quais só não sucumbem por terem forças dentro de si para superar essa masmorra invisível e emocional.
Valquirias existem hoje e estão em constante vigília para promover equidade e justiça. Basta querer enxergá-las, compreendê-las.

Isabel C S Vargas
Pelotas-RS-Brasil

 

2 comentarios en “CRÓNICAS EM PORTUGUÉS”

  1. Uma vez mais, e com muito prazer e agrado, vejo incluído neste prestigioso orgão um texto de minha autoria. Inda mais
    estando tão bem acompanhado pois dois ilustres escritores, como são os ilustres Ary Franco e Isabel Vargas.
    Cumprimento Cristina Oliveira Chavez e Eunate Goikoetxea por contiunuarem a conferir tanta qualidade ao projecto que assumiram na LunaSol.

    As minhas fraternas saudações

    Responder
  2. Pela mente de escritores,
    conduzidos pelo escrito,
    é que nós, os bons leitores,
    viajamos no infinito!
    *
    Da experiência de um Ancião,
    das Valquírias, com magia,
    eis que, sem Constituição…
    O éden da Democracia!

    Com o brilho da Revista Lunasol, editada por Cristina e Eunate, tendo ao fundo a melodia musical que une os povos e as gerações, pelas suas crônicas, parabéns Ary, Eugénio e Isabel.

    Fraternas saudações
    Nei Garcez
    Curitiba/Paraná/Brasil

    Responder

Deja un comentario