CRÓNICAS, E OUTROS TEXTOS EM PORTUGUÉS

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Octubre  2.020  nº 36

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AL SERVICIO DE LA PAZ Y LA CULTURA HISPANO LUSA

 

COLABORAN: Ilka Oliva Corado (Brasil).- Eugenio de Sá (Portugal).-

Nos EUA, europeus jamais realizariam trabalho que fazem os indocumentados nas construções
Por: Ilka Oliva Corado
Brasil

Não têm contrato, lhes dão trabalho só de palavra e lhes pagam o que o empregador quiser. São os que mais trabalham e os que menos dinheiro geram. São os latino-americanos que trabalham na construção nos Estados Unidos. Seus corpos são de meninos, de adolescentes recém desenvolvidos, a pele grudada nos ossos, de estatura baixa e até um pouco frágeis se olhamos bem.

Chegam em magotes para trabalhar nos tetos das casas em construção, como pontos finos se vêm à distância das alturas. Mas são inquebrantáveis os homenzinhos de lombo duro; quando menos esperam os demais deixam de estar de joelhos e se põe em pé.

Como os que colocam os carpetes no chão, metros e metros de carpetes. Estes homens que em sua maioria são indígenas saídos do campo latino-americano e trocaram o trabalho da terra pelo da construção pesada. Porque nos Estados Unidos ficou para trás a peneira, o cinzel, a colher e a espátula, entre a fumaceira da industrialização as ferramentas mudaram e os lombos dos migrantes indocumentados latino-americanos são os que carregam as grandes tábuas e os pacotes de telhas artificiais que adornam os tetos das casas quando o braço robótico da grua não alcança. 

Os empregadores que podem ser estadunidenses, anglo-saxões, latinos com documentos, europeus, asiáticos ou negros endinheirados, jamais levantam o peso que carregam os lombos dos homenzinhos.  Em construção, os lombos fornidos dos trabalhadores europeus, galantes, bem nutridos jamais realizam o trabalham que fazem os indocumentados latino-americanos. 

Entre o sol abrasador do meio dia se lhes vê trabalhando nas estradas em construção, nas temperaturas abaixo de zero no inverno, nos horários da madrugada, aí estão os homenzinhos latino-americanos fazendo o trabalho mais pesado porque a maquinaria, o braço robótico, a grua, o caminhão de carga, tudo isso é manejado pelo europeu, pelo anglo-saxão, pelo latino nascido no país; o latino migrante é o que se lança entre os esgotos para desentupi-los, é o que faz o sulco, o que tira a terra, o que carrega o balde cheio de cimento fresco. De estatura parecem meninos ao lado dos anglo-saxões e dos europeus, dos afro bem fornidos que jamais serão relegados ao trabalho do indocumentados. 

Saíram do campo latino-americano para trepar nos tetos dos arranha-céus, para colar paredes de elevadores, para cortar lâminas de vidro, para carregar pedaços de árvores que adornam os jardins das mansões. Para meter-se até o pescoço nos esgotos das estradas, dos restaurantes e desentupir banheiros nos estádios. Pequenos, insignificantes em estatura nesse país de homens altos e fornidos. Eles como os povos originários deste país, têm a estatura milenar e a força e a resistência milenar, que parecem não cansar nunca porque nunca descansam, trabalham de segunda a domingo até três turnos. 

Pelo trabalho que realizam poderiam ganhar o duplo ou o triplo do que ganham seus companheiros europeus ou afros, mas isso não acontece. E com regularidade o que mais se aproveita desse lombo curtido é o latino que já conseguiu ter seus documentos, ou o latino nascido no país que é prepotente igual ou pior do que o que já tem documentos. E não digamos se é originário do mesmo país, do mesmo departamento ou do mesmo povoado. E se é família esse lombo se descasca com sal e limão e esse espírito é humilhado até que perca totalmente as esperanças. 

Mas são inquebrantáveis os homenzinhos de lombo duro; quando menos esperam os demais deixam de estar de joelhos e se põe em pé, não importa se ficaram ajoelhados a metade de suas vidas, um dia conseguem levantar-se e caminham com a dignidade, fortaleza e resistência milenar de seus ancestrais. 

O mar está-me nas veias
Por: Eugénio de Sá
Portugal

Desde sempre que a solidão é tida como algo que ninguém deseja, que a todos faz infeliz. Assim a cantam os poetas, assim dela falam os grandes prosadores. Não sou uma excepção à regra, mas há momentos que todos gostamos de os viver a sós. Bastam-nos para nos sentirmos felizes. No meu caso, falo do mar e dos momentos únicos, inesquecíveis que, a sós com ele, pude desfrutar plenamente.

Lembro-me das manhãs gloriosas de sol vividas a bordo do meu pequeno barco, deslumbrado com a luz “única” da minha Lisboa projectada nas águas do Tejo e os olhos postos no horizonte onde o Atlântico se mostrava esplendoroso, um par de milhas à proa.

E a minha gratidão à vida era então tanta que me perguntava se alguns dos meus sonhos não os teria herdado nos genes de remotos marinheiros, quiçá meus ancestrais…

Isto talvez explique a minha fixação por barcos, pela navegação, pela pesca, é antiga e foi desperta numa primeira vez quando um dos meus tios me convidou para um passeio numa velha canoa à vela que o seu pai, meu avô, mantinha há muito numa praia do estuário do Tejo. Foi um passeio um tanto conturbado, confesso, porque o meu tio dominava mal as técnicas de velejar, e no Tejo sempre se levantam nortadas lá pelas três horas da tarde. Mas aquele marulhar da água no casco e a brisa suave a acariciar-me a face fizeram com que ficasse desde logo apaixonado pelo mar.

Anos depois, já homem, comprei o meu primeiro barco. Passava horas mirando-o e remirando-o, dando-lhe retoques na pintura, azul e branca inventando detalhes para o tornar mais confortável, mais vistoso. Depois comprei-lhe um motor, e tive o cuidado de que à marca correspondesse uma cor que fosse bem com o azul e branco do barquito. Por fim fui pescar com ele, mas sempre soube que tudo o que fizera era o pretexto para voltar ao mar, para lhe respirar a maresia, para relembrar o marulhar na água no caso, para partilhar com as gaivotas toda aquela beleza.

Tempo correu, e eu voltei ao mar muitas mais vezes, com barcos diferentes mas sempre com a mesma paixão a mover-me em busca daquela desejada e falsa solidão, porque a companhia do mar não é imaterial; há algo naquela massa de água viva que dialoga connosco, os que a amamos. E depois, o mar de Portugal que se confunde com o belo recorte da costa lusitana é um deslumbramento!

Hoje já não saio do cais pela manhã, com brumas ou sem elas. Já não desfruto mais daquela imaginária solidão de que vos falei, mas ainda vivo em espírito as memórias desse mar que canto em muita da minha poesia.

Agora vocês sabem porque o faço.

 

1 comentario en “CRÓNICAS, E OUTROS TEXTOS EM PORTUGUÉS”

  1. Texto muito doído da escritora Ilka Oliva Corado. Ela monta a cena em nossa cabeça e nos faz sentir até o suor desses homenzinhos gigantes, insignificantes para alguns, mas aqui estão sendo lembrados e engrandecidos. Eles fazem parte do progresso com suas mãos calejadas e braços fortes, mesmo secos, afinal, precisam sobreviver. Quanta sensibilidade escondida atrás das frases!
    Eugênio de Sá perambulando pelas suas memórias nos falando do seu «mar» e do seu relacionamento com ele. Realmente as águas quando batem nas pedras, espancando-as, estariam falando de amor ou de soberania? Difícil sentir a solidão no mar, pois ele fala o tempo todo, ele canta e encanta e nos fala do seu poder e mostra a nossa limitação e insignificância. Lá está o poder pois foi sobre as águas, quando tudo aqui tudo era caos, o Espírito de Deus pairava – inicio de todas as coisas!

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