CRÓNICAS, ARTIGOS Y OUTROS TEXTOS

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Septiembre  2.019  nº 23
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AL SERVICIO DE LA PAZ Y LA CULTURA HISPANO LUSA

As insurgentes: Dona Julia
Ilka Oliva Corado
Uma personagem rebelde, inconformada, que não se dobrou diante do sistema patriarcal e depredador da classe operária.
Eu teria por volta de 8 ou 9 anos quando a conheci, ela por volta dos 70; seu local de trabalho era a parada de ônibus da Cidade Peronia; Dona Julia tinha olhos azuis de céu desnudo de verão e usava roupa de segunda mão que comprava nos brechós, sempre limpa, seu garbo natural fazia com que parece uma prenda fina recém comprada; seus vestidos longos de musselina e camurça que combinava com cachecóis e lenços de seda.
No começo da manhã sempre usava um gorro que tirava no meio da manhã quando o sol esquentava, então deixava ver seus cabelos brancos algodoados. Eu a recordo alta, muito alta, magra, apoiando-se sempre em uma muleta e na outra mão um bastão feito de galho de goiabeira. Tinha uma dentadura postiça que tirava quando tinha vontade e com ela na mão lançava impropérios a qualquer um que se atrevesse a olhá-la mal.
Foi na década de 90, quando no ponto só haviam 15 carros: Dona Julia chegava na alvorada e ia embora na hora da oração, aí pedia dinheiro, entre transeuntes e também tomava os ônibus que a deixavam no ponto seguinte, ela o fazia de forma não usual porque nunca baixou a cabeça, ela o exigia com a autoridade de sua idade e quando não lhe davam começava a praguejar contra tudo o que se movesse e a lançar bastonadas.
Quando fazia isso, as pulseiras de cigana que levava nos braços soavam, faziam música junto com as grandes argolas e seus múltiplos colares, porque era toda ela cheia de orgulho que fazia mover esse bastão que voava pelos ares.
Pendurado em um braço levava uma bolsa que ao subir nos ônibus passava ao primeiro passageiro para que a fosse passando de mão e mão e que lhe devolvessem na outra fileira, depois de seu extraordinário discurso explicando por que pedia dinheiro.
Dona Julia fazia isso, pedia uma colaboração, um ato humanitário e de solidariedade que o sistema chama de esmola. Era conhecida como a mulher que pedia esmolas no ponto de ônibus. Dona Julia tinha dois filhos que se drogavam e que ela os cuidava, em lugar deles cuidarem dela. Dona Julia, mulher de 70 anos, com uma perna doente – dizia ela que a ponto de gangrenar-se – nunca recebeu nenhum tipo de atendimento médico e muito menos pensão do governo, foi esquecida como milhões.
Impossibilitada de trabalhar, Dona Julia pegava sua muleta e seu bastão e ia para o ponto de ônibus pedir dinheiro, aí tomava seu café da manhã e almoçava e com sua boca de carreteira lançava tapas a torto e direito e à primeira provocação ia à bastonada pelos ares como látego. Muitos riam dela, a viam como louca, como uma mulher desequilibrada que ia a passar o tempo na parada porque não tinha o que fazer e aproveitava para pedir dinheiro.
Os dias não eram os mesmos por ali quando Dona Julia faltava, eram dias mortos, silenciosos, sem vida; ela, com seus vestidos de camurça, com suas pulseiras de cigana e seus impropérios que afiavam sua personalidade, dava vida à estação.
Eu via Dona Julia todos os dias, pois no mesmo lugar eu vendia sorvetes e passava boa parte da manhã observando-a; na convivência habitual dos vendedores ambulantes, havíamos nos acostumado uns com os outros que quando alguém faltava notávamos imediatamente; um dia Dona Julia faltou e a notícia chegou logo: havia falecido e no seu tugúrio encontraram dúzias de obras de arte, pinturas por todos os lados até debaixo da cama, tapizando as paredes; descobriu-se nesse momento que Dona Julia era artista, era pintora e boa parte do dinheiro que pedia no ponto de ônibus o utilizava para comprar utensílios para pintar. Ninguém nunca soube, ela nunca contou, foi seu segredo mais bem guardado. Não sei o que aconteceu com suas obras de arte, se jogaram fora ou as guardaram. Até o momento não se sabe delas.
Dona Julia foi uma personagem sempre, uma artista, desde sua vestimenta, personalidade e caráter até a forma de agarrar o bastão e lançá-lo pelos ares na melhor atuação de melodrama, porque não há melhor melodrama que a da própria realidade do abandono de nossos velhos. Desde esse dia eu a guardo na minha memória como “A artista do arrabalde” porque isso é o que ela é para mim, a artista da Cidade Peronia. Eu a nomeio e a reivindico e agradeço seu legado para todas as meninas, adolescentes e mulheres da Cidade Peronia.
Dona Julia para mim, foi insurreta por haver-se atrevido a fazer algo diferente ao que estamos destinadas às mulheres no arrabalde. Desconheço como foi sua infância e sua juventude, sua primeira idade adulta, mas na sua terceira idade ela foi uma mulher que se levantou, tomou sua muleta, apesar da sua doença, e seu bastão e buscou como pode, o dinheiro para sua criação artística. No processo se viu exposta a humilhações, burlas, a uma infinidade de apelidos depreciativos, por sua idade, sua aparência e seu caráter, por sua condição de ninguém; em um lugar de ninguéns ela se atreveu a ser alguém, a ser ela mesma, a ser “A artista do arrabalde”. Isso é o que fazem as mulheres rebeldes, as inconformadas, as que não se dobram diante do sistema patriarcal e depredador da classe operária, por mais injusto que ele seja com elas.
Por isso eu a nomeio e a reivindico, por isso agradeço seu legado de luta e desobediência. Dona Julia é parte da memória história da Cidade Peronia, e ganhou esse lugar por sua luta. Obrigada, Dona Julia, onde quer que esteja.

 

A Amazónia arde
mas o mundo ainda não despertou!
Por:Eugénio de Sá
E o mundo acordou estremunhado nessa manhã de Agosto, espreguiçou a sua proverbial indiferença,mas sobressaltou-se com o que lhe chegava pela televisão; a Amazónia estava a arder! Mas umas horas depois já esquecera a notícia.
Os sinais da desgraça estão aí; No topo do mundo os gelos cedem à continuada subida da temperatura provocada pelas emissões dos gases venenosos para a atmosfera.
As florestas – pulmões do mundo – ardem sem contenção. Os oceanos que cobrem a maior parte da terra, têm jazidas de plástico que,
medidas em toneladas, pesam já mais que os peixes que neles existem.
Como preconizou Álvaro de Campos em 1917; os mandarins do mundo precisam que lhes seja emitido um mandado de captura, tal a sua insensibilidade, a sua cedência à ganância que entã já grassava nos países que julgavam dominar.
Hoje, volvido mais de um século, eles aí estão, com os vícios atávicos perpetuados pelos que lhes sucederam.
Serão só gente fraca, ou inconscientes mentecaptos que estão a condenar ao aniquilamento todos os seres vivos do planeta?
Diz-se, com inexplicável utopia, que as ameaças que pairam sobre a humanidade ainda podem ser reversíveis. Já não são, infelizmente.
Aliás, quando se reúnem, no rosto dos mandantes do G7 (os sete países mais poderosos do planeta), há sempre um conjunto de estranhos sorrisos, a roçar o estulto, de pessoas que querem passar ao mundo uma mensagem de paz e de tranquilidade, que não corresponde, de todo, ao que se passa.
Mas eles parecem indiferentes às catástrofes que se vão multiplicando, expressas no agravar dos fenómenos meteorológicos, como os grandes furacões que assolam a terra em quase todas os quadrantes geográficos.
Entretanto, o cronista baixa a guarda, desiste de continuar, consciente da inutilidade do seu insistente alerta.
E adormece num sono intranquilo, sofrido.

 

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