CRONICAS, ARTIGOS Y OUTROS TEXTOS

 

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Um molhinho de salsa, ou de tristeza?
Crónica de  Eugénio de Sa

Sentado na pastelaria, saboreava o meu primeiro café do dia, enquanto conversava, animadamente, com a minha mãe e a minha filha; três gerações em perfeita consonância de opiniões sobre o incontornável tema: o custo da vida

Tão embrenhado estava na conversa, que não intuí que a vozinha que balbuciava, baixinho, ao meu lado, me era dirigida. Foi preciso um gesto da minha progenitora para que disso me apercebesse

Olhei a autora da tal vozinha. Era uma senhora pequenina, dos seus sessenta anos, aspecto limpo e cuidado, que, delicadamente, repetiu: o senhor quer este molhinho de salsa que colhi esta manhã no meu quintal? – Olhe que está fresquinha, acrescentou. Sem saber bem que responder, surpreendido com o facto de ver uma pessoa com aquela aparência ( e que, decididamente, não tinha o “à vontade” nem a desenvoltura evidentes numa vendedora ) a tentar vender, ali mesmo, o produto do seu quintal, ainda tentei uma evasão: sabe, não vamos já para casa, por isso não dá muito jeito levar-mos a salsa… Mas a minha resposta soou-me a falso e corrigi, de imediato: não vamos já, mas… tem razão, parece tão fresquinha que, até lá, não há-de murchar, concluí aliviado

As “minhas duas mulheres” sorriam, em aprovação, o que veio aquietar-me a consciência que, entretanto, havia disparado todos os alarmes.

Diga-me quanto é, por favor, minha senhora. – Cinquenta cêntimos, respondeu ela, no mesmo tom baixo, como que envergonhado, enquanto retirava do bolso da larga saia um saquinho de plástico. Olhe, senhor: é melhor levar a sua salsa neste saquinho, referiu, enquanto me estendia ambas as coisas com mãos trémulas e um tanto desajeitadamente, o que parecia confirmar as minhas suspeitas.

Depois de pagar e agradecer, o mais delicadamente que pude, áquela vendedora improvisada, fiquei muito calado vendo-a afastar-se e sair. Aliás, calados ficámos todos, pelo insólito do que se passara.

Foi a minha mãe a quebrar o silêncio, tentando desanuviar o ambiente, referindo-se à frescura da salsa e à manifesta utilidade culinária do tempero. Não resisti, e confessei-lhes o sentimento de culpa que experimentara ao ensaiar uma negativa, felizmente corrigida a tempo. Elas sabiam ao que eu referia, porque todos nos conhecemos bem e riram-se do meu ar, que devia corresponder ao meu estado de espírito; entre a apreensão e o alívio.

Não cheguei a saber quem era a tal senhora, não podendo, pois, confirmar as suspeitas que tanto me haviam desassossegado. Não tenho, todavia, grandes duvidas que se tratava de uma daquelas pessoas que – dá para perceber –  tiveram uma vida razoável e que, por motivos que só elas sabem, mas que são, certamente, dolorosos, vivem agora com grandes dificuldades, sem se queixarem a ninguém e procurando sobreviver com a discrição imposta pela educação que receberam. Quanta tristeza

O VELHO E O IDOSO

(Conto de Ary Franco)

Dois antigos amigos encontram-se, casualmente, anos depois de um longo afastamento por razões alheias às suas vontades, levados que foram por caminhos diferentes, em busca de um sucesso profissional e outras aspirações não menos plausíveis.

O IDOSO estava com 85 anos de idade e o VELHO um lustro mais novo, com 80 anos de sobrevivência, digamos assim!

O encontro ocorreu na fila do caixa de uma farmácia. O IDOSO tinha comprado um complexo vitamínico para sua complementação alimentar. O VELHO comprara uma série de remédios preventivos para satisfazer sua incurável hipocondria.

Sentaram-se no banco de uma praça próxima  e começaram a falar sobre amenidades  das saudosas reminiscências dos tempos de outrora.

O VELHO usava um chapéu de abas mais largas que as normais, para resguardar-se do sereno da noite e queixava-se da friagem que sentia e lamentava não estar usando um agasalho mais espesso. Não poderia demorar-se por muito tempo por causa  do orvalho…

O IDOSO deleitava-se com a suavidade da brisa que a noite lhe soprava e contemplava o céu estrelado que emoldurava uma linda lua cheia,  prateando o chafariz que jorrava contínuos e alegóricos esguichos d’água.

O VELHO descobriu uma pequena e acanhada nuvem acomodada naquele cantinho celestial e temia que uma tempestade estivesse próxima a se desencadear. Ele, inexplicavelmente, carregava um guarda-chuva.

O IDOSO comentou sobre as roseiras que enfeitavam e perfumavam o jardim da praça. Eram rubras, amarelas, brancas, róseas… um florido arco-íris pintado em aquarela pelas mãos de Deus.

O VELHO lamentou que os galhos eram cheios de espinhos  que arranhariam aquele que das roseiras se aproximasse. Preferia manter-se distante e não podia sentir qualquer olor por estar constantemente resfriado, por uma crônica rinite alérgica que o acometera anos atrás. Sempre levava consigo um preventivo par de lenços.

O IDOSO convidou o VELHO a dar umas voltas pelas cercanias para andar um pouco e manter a forma física em dia. O VELHO disse que não se sentia disposto e preferia manter-se sentado, alegando que se andar fizesse bem, todos os carteiros só morreriam depois dos cem anos. O IDOSO desistiu de explicar-lhe que os carteiros carregavam malotes pesados com correspondências e encomendas postais, subiam ladeiras sob sol ou chuva, usavam roupas inadequadas ao clima que fizesse, qualquer que fosse ele, quente ou frio. Isso não era saudável e em nada contribuía para suas longevidades.

O VELHO disse que passava a maior parte dos dias de sua aposentadoria, aboletado em uma cadeira de balanço assistindo televisão, beliscando variados tipos de petiscos, tomando cafezinhos e pitando seus cigarros. Pouco comia às refeições, talvez por isso sentia-se constantemente cansado.

O IDOSO pertencia a um clube social em que fazia hidroterapia, frequentava uma escola de danças todas as tardes, exceto às segundas e quartas-feiras quando tinha aulas de violão. Adorava a vida, ouvir boas músicas, encantava-se com o sorriso de uma criança, as carícias de uma mulher, a chilreada dos pássaros, o verde das matas, os animais, o sol, a chuva, a primavera, o verão, o outono, o inverno e todas as outras benesses e criações de Deus!

O VELHO não ligava muito pra “essas bobagens”, pois tudo estava lá por obra do acaso. Não tinha tempo de admirar estes “simples detalhes” que iam e vinham sem influenciar em nada no seu modo de viver e ver as coisas. Apertou-me a mão sem muito vigor e despediu-se dizendo que já era tarde e que tinha que retornar à sua casa, pois estava na hora de tomar seus remédios, antes de deitar-se.

Mostrei-lhe o bebedouro ali perto, caso quisesse tomar algum comprimido que comprara na farmácia e, assim, poderíamos permanecer mais tempo o nosso “papo”. Disse-me que já se acostumara a engolir os comprimidos a seco, pois nunca sentia sede e pouca água bebia.

Desejei-lhe felicidades e aconselhei-o que parasse de olhar tanto para o chão, pois lá no alto é que estavam as coisas boas para serem apreciadas, inclusive nosso Divino Deus para conduzir nossos passos e iluminar nosso caminho com sua Divina Luz.

Fez um muxoxo de descrença, tirou um pigarro da garganta e afastou-se meio curvado, alquebrado…

Pobre VELHO de 80 anos, jamais conseguirás  ser um IDOSO de 85 como eu. De bem com a vida, de bem com o próximo, sufocando  eventuais prantos, contornando ou arrostando problemas, desenhando um sorriso constante em meu semblante, distribuindo otimismo ao meu redor, sempre que possível! E, nos intervalos, escrevinhando uns poemas, crônicas e contos. Receita para uma saudável longevidade, com a ajuda da Graça Divina!

CONFORMO-ME EM SER UM IDOSO, MAS JAMAIS QUERO ENVELHECER! QUANDO CHEGAR-ME A DERRADEIRA HORA, QUE LEVE COMIGO UM JOVEM CORAÇÃO, INDA CHEIO DE AMOR PRA DAR!

O cansaço com a política não pode significar um salto para o abismo como Nação

Por Grazielle David

As pesquisas que tentam entender os votos em branco, nulos, indecisos e o absenteísmo no dia da eleição têm indicado um sentimento de “cansaço com a política”. Ainda que não possa ser naturalizado, esse é um sintoma previsto de todo o processo que foi imposto ao país e seu povo nos últimos quatro anos.

A largada desse período foi o dia seguinte à última eleição presidencial (2014), quando o candidato perdedor, Aécio Neves (PSDB), em atitude não apenas imatura, mas antidemocrática, disse que não aceitava o resultado da eleição. Ainda mais grave é que não foram apenas palavras, mas o anúncio de ações que de fato foram executadas.

Até mesmo o atual presidente do PSDB reconheceu em recente entrevistaque “o partido cometeu um conjunto de erros memoráveis: questionar o resultado eleitoral e as instituições; não respeitar a democracia; votar contra princípios básicos do partido, sobretudo na economia, somente para ser contra o PT; entrar no governo Temer; ser engolido pela tentação do poder”.

Foram diversas as estratégias até a concretização do golpe que impediu a presidente eleita. Isso em si já gera uma desmotivação na população: “para que votar se meu voto não será respeitado? ”. Depois com Temer (MDB) assumindo o governo foram ainda muitas ações de redução de direitos, entre elas: reforma trabalhista, tentativa de reforma previdenciária, teto dos gastos sociais e de investimento, privatizações com entrega do patrimônio nacional. E tudo isso sem que a população pudesse opinar, com os espaços de participação social limitados; ou sequer saber o que estava ocorrendo, já que a transparência reduziu, com dados antes públicos deixando de ser publicados.

Vivenciar cada uma dessas situações e perdas de direitos cansa. Cansa muito. Ainda mais às pessoas que são diretamente afetadas em suas vidas com cada uma dessas ações. Era esperado tanto o sentimento de cansaço quanto sua verbalização pelas pessoas quando questionadas pelas razões pelas quais não querem ir votar ou não sabem em quem votar.

 

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