CRÓNICAS, ARTIGOS Y OUTROS TEXTOS

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Nada é para sempre !
Uma crónica de Eugénio de Sá

… porque fluiu, “como tudo flui ” 

Dizia Heraclito de Efeso que as constantes transformações eram justamente a característica mais fundamental da natureza e do homem. “Tudo fluí”*, concluia o filósofo, depois de haver referido que “ não podemos entrar duas vezes no mesmo rio”. Considero caber aqui – como reforço de razão – o argumento complementar: porque, embora possamos entrar duas vezes no mesmo rio, não devemos esperar sentir da segunda vez as mesmas sensações que sentimos na primeira.

De mudança, em mudança…

Civilização ocidental andada, houve um tempo em que o pensamento humano como que cristalizou, espartilhado e condicionado pelas múltiplas convenções e preconceitos gerados por crendices repetidas por pensadores de duvidoso crédito, já que eles próprios se condicionavam a rígidas éticas fundadas numa religião católica eivada de falsos conceitos e de hipocrisias, ou noutras balizas estabelecidas pelos senhores do poder, a quem sempre interessava manter tudo como estava.

Mas as revoluções sociais ao longo da história vieram moldar as sociedades fazendo com que o que parecia ser rígido e permanente se viesse a mostrar mais flexível e propenso à aceitação, e a consolidar alterações e mudanças.

Com a passagem dos séculos, foi então tempo da liberdade de pensamento se mostrar como objectivo maior a atingir, vindo a ganhar por fim o estatuto de direito inalienável do cidadão.

Até que em Maio de 1968 a revolta de Paris acabou de vez com os restos dos preconceitos e abriu caminhos insuspeitados até aí. Hoje, as mulheres tem direitos iguais aos dos homens (pelo menos é isso que está estabelecido), as greves são vistas como uma natural forma de reivindicar direitos laborais, a o racismo e a xenofobia são sentimentos condenáveis e condenados. O voto derruba governos e governantes e a corrupção é finalmente levada aos bancos dos tribunais.

Só um punhado de ditadores – que se agarram a argumentos caducos para se manterem e continuarem a escravizar os seus povos, resiste ainda, mas mesmo esses têm, inevitavelmente, os seus dias contados nas respectivas cadeiras do poder.

Tarde, e geralmente a duras custas, descobrimos que nesta vida nada é para sempre, mormente o nosso bem-estar.

Resta saber se todas estas conquistas irão persistir, e, quiçá, aperfeiçoarem-se num futuro que se adivinha breve, já que a terra se debate com grandes e graves  problemas, fruto dos excessos do homem, que a desprezou, desconsiderando a sua própria sobrevivência, ao queimar-lhe as florestas purificantes, ao explorar-lhe as entranhas até à exaustão, ao poluir-lhe os mares e os rios.

A continuada e desregrada queima dos fósseis, deixando que os venenos dessa queima fossem criminosamente enviados para atmosfera, é uma das maiores ameaças para as populações de todo

o mundo, já que está a alterar gravemente as condições de vida da humanidade, pelas mudanças operadas no clima e na camada do ozono que nos protege das perigosas radiações solares.

Tudo isto, enquanto os oceanos estão invadidos de artefactos produzidos com base no mais popularizado dos subprodutos do petróleo; o plástico, em quantidades que se diz pesarem já tanto como boa parte da fauna marinha do planeta, ou seja; mais de 150 milhões de toneladas.

Haverão mudanças a curto, e cada vez mais graves a médio prazo.

E todas elas são já tidas como irreversíveis e devastadoras.

Quanto à continuidade da espécie humana, e das demais, só Deus o sabe, porque na mão do homem, apesar de todo o seu desenvolvimento científico, parece já não estar. E, acredite-se, ou não, os conflitos bélicos sempre latentes, e os que se perfilam no horizonte, vão ser os nossos menores problemas. A menos que sejam nucleares.

E assim se provará que nada é para sempre!

 

DO POSCÊNIO AO PROSCÊNIO

Ary Franco (O Poeta Descalço)

         Passamos boa parte de nossas vidas, da infância à puberdade, procurando aprender aquilo que os mais experientes nos ensinam, seguindo bons exemplos daqueles que nos cercam, sonhando sonhos a serem alcançados, tentados a valorizarmos mais o ter do que o ser… A esse preâmbulo existencial  chamamos sucintamente de berço, mas na verdade é o poscênio (bastidores) onde é forjado nosso caráter, donde saímos para enfrentar as imprevisíveis vicissitudes da vida que nos esperam lá fora. Uns se maquiam aparentando ser o que não são; outros suficientemente alicerçados para enfrentar eventuais agruras e percalços que surjam em seu caminho, imbuídos e fortalecidos pelo que de bom assimilaram.

         Uma vez preparados ou não, atuaremos no proscênio (palco) diante de uma plateia que nos ovacionará ou apupará, dependendo do agrado ou desagrado que causarmos com nosso desempenho, até que as cortinas se fechem definitivamente após o último ato.

         No que me concerne, maior parte de nossa vida é passada num palco sob as luzes da ribalta que poderão iluminar uma peça teatral entre a Tragédia e a Comédia, dependendo exclusivamente daquilo que aprendemos a

SER!!!

 

As párias da sociedade antes, durante e depois do 8 de março

Ilka Oliva Corado 

Tradução do Revista Diálogos do Sul 

A empregada doméstica continuará sendo empregada doméstica, sem direitos trabalhistas nem direitos humanos. Todo os dias humilhada, na merda.

A boia-fria seguirá sendo boia-fria, excluída e violentada, trabalhando com as costas doendo de sol a sol, os 7 dias de semana. O feminismo não chega até os galpões onde dormem no chão.

A tecelã continuará sofrendo em uma fábrica, sem direito nem para ir ao banheiro em horas de trabalho.

E em 2017, o feminicídio de 41 meninas do abrigo Lar Seguro na Guatemala, violentadas sexualmente e torturadas pelo governo.

A cozinheira queimando a vida e os sonhos na frente de um fogão. Será a artrite que a consumirá no esquecimento da sociedade.

Antes, durante e depois do 8 de março, a pária seguirá sendo pária. Porque até o esgoto não chega o feminismo das redes sociais, o das exposições de arte e muito menos o de ação que é o consequente, o que transforma.

A mulher negra, indígena e transexual seguirá sendo excluída pelo feminismo burguês e branco. Porque este também tem seus limites quando se trata de romper com o patriarcado, com o racismo e com a diferença de classe.

Mulheres são as mais afetadas pela falta de políticas públicas | Imagem: Pixabay

Para a vendedora do mercado não existe o Dia Internacional da Mulher, tampouco para a analfabeta que lava roupa alheia, nem para que se esgota limpando quartos de hotel.

Não existe para aquela que vive em um lixão nem para a que faz malabares em um semáforo.

Não há 8 de março para as meninas, adolescentes e mulheres que são violentadas nos bares e nos bordeis, nem qualquer direito antes, durante, nem depois.

Não há marchas feministas mundiais que façam uma paralização mundial exigindo a eliminação de bares, a eliminação da exploração sexual, do tráfico de pessoas. Não há, porque até aí não chega o feminismo. Quem levanta a voz por uma pária? O que é uma pária no marco feminista?

Não haverá 8 de março nem antes, nem durante, nem depois, até que sejam as párias, desde suas entranhas que parem por si mesmas e ocupem o espaço que lhes foi arrebatado por falsas feministas, burguesas e oportunistas que só veem na ideologia feminista a oportunidade para sobressair individualmente levando vantagem da marginalização e do abuso de outras.

Serão as párias, indígenas, negras, transexuais, marginalizadas e operárias que reescreverão o feminismo mundial, serão as que como Rosa Luxemburgo, Clara Campoamor e Emma Goldman irão além do que é politicamente correto e derrubarão os muros e saltarão as cercas e borrarão todos os sinais do feminismo de ocasião.

Um dia, antes tarde do que nunca, sairão das entranhas do esgoto as mulheres que com voz de trovão lutarão por seus direitos, sem permitir que nenhuma oportunista as represente.

Nesse dia, cairá a farsa que hoje vemos como feminismo de salão, de etiqueta, o feminismo intelectual para as fotos, oportunista e burguês: o feminismo de enxadão.

E nesse dia, nesse dia, será o esgoto que vai falar e o mundo terá que escutá-lo.

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