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AL SERVICIO DE LA PAZ Y LA CULTURA HISPANO LUSA

 

É PRESICO MUITA CORAGEM PARA DEIXAR A PÁTRIA QUE NOS OBRIGA A EMIGRAR
Ilka Oliva Corado
Brasil

Depois da cerca a pátria se converte em saudade perene. Sabem-no os indocumentados mais do que ninguém. Converte-se nessa carta velha de papel rasgado por tanto dobrar e desdobrar. Está na lembrança dos dias de chuva, da plantação crescendo, das flores frescas ou do aroma do café torrado em panela de barro.

A névoa da terra que se deixou ao outro lado da cerca atravessa as fronteiras e se infiltra pelas frestas das janelas dos arranha-céus onde trabalham limpando os banheiros e os pisos as gerações que tiveram que emigrar porque na própria terra não encontraram nada mais que violência e fome; foram largadas ao esquecimento e obrigada a emigrar em massa. 

As flores tenras das goiabas vermelhas aparecem titilando entre a queimação do meio-dia nos sulcos da plantação onde trabalham em bandos milhares de indocumentados; sonham com a água fresca do rio e com a sombra das tamarindeiras; a pátria então é um delírio. Sentem-na os ombros dos pedreiros que carregam os sacos nas grandes construções, porque o indocumentado é sempre o último, o que carrega mais, o que trabalha mais horas, o que recebe menos pagamento, o que sempre diz sim, o que nunca pode dizer não; aí dói a pátria na ferida da alma. 

Dói nas mãos das mulheres que limpam casas, na artrite dos ossos, nos braços das babás que cobiçam crianças alheias, enquanto as próprias ficaram na terra longínqua ao cuidado dos avós ou das tias; a pátria então é um vazio insondável. Dói nas despedidas que não puderam ser dadas, nas notícias que chegam dos decessos dos seres queridos, nos abraços postergados, nas promessas, nos planos para o futuro, na necessidade do reencontro, nos adeuses definitivos quando se acende uma vela e se reza à distância pelo descanso da alma de quem morreu; aí no bulício de um quarto lotado de indocumentados. 

Dói na reclamação das crianças que exigem desde o outro lado da cerca, o abrigo e a companhia. Dói nos pés cheios de bolhas e na pele arrebentada dos que caminharam durante dias fugindo da fome e da exclusão, buscando em outras terras um respiro.

Dói no púbis terno das meninas manchadas que foram carne de canhão no caminho espinhoso por onde transitam os migrantes indocumentados nas corridas espavoridas em outros solos, onde são vistos como despojos; então a pátria é uma ferida em carne viva e um trauma por toda a vida.   

A pátria que exclui, que violenta, que mata de fome, que desaparece, que cospe, que humilha, que obriga a emigrar. Que separa famílias. É a pátria que dói, o pedacinho de sua terra que vai ancorada no peito, que emerge entre os poros, que palpita sem cansaço no coração ferido, que se curte na pele, que envelhece no cansaço dos anos e à qual desejam voltar um dia, é a pátria mal agradecida que recebe milhões de dólares em remessas dos filhos que obrigou a migrar e que jamais a esquecem: é a pátria do indocumentado e para amá-la assim há que ter coragem de saltar para o outro lado da cerca. Não é para qualquer um!

O QUE È AFINAL O SENTIMENTO DO AMOR?
Eugénio de Sá
Portugal

Sabemos que quando ele acontece tudo o mais passa a ser secundário. São então activadas várias áreas do cérebro e a concentração de hormonas aumenta sempre que estamos perto ou simplesmente pensamos na pessoa amada.
E esse tão agradável e sublime sentimento todos procuram vivê-lo, mas há que cuidado; além de complexo ele tem ser vivido a dois e ser acarinhado e alimentado no dia-a-dia do casal.
Ele é tão importante para o género humano que ao longo dos séculos poetas e cantares o enalteceram e honraram com as suas criações. Apesar das mudanças que a sociedade tem sofrido, o amor continua a caracterizar-se por desenvolver um intenso sentimento emocional nos apaixonados.
«O grau de activação cerebral durante as primeiras fases de uma relação romântica parece influir tanto no nosso próprio bem-estar quanto no nível de sucesso ou fracasso da relação. Por exemplo; a felicidade, o compromisso com o par e a satisfação com a relação têm a ver com a intensidade da activação do cérebro.»

Isto, quando o Cupido decide esgrimir o seu arco e disparar a flechada, não há nada a fazer; os seus alvos sempre sucumbem.
É o chamado amor â primeira vista que a todos encanta e que parece prometer durar pela vida inteira. Este tipo de amor começa por envolver ternura, paixão e arrebatamento. E além de arrebatar os amantes deixa deliciados quantos os rodeiam.
Mas o sentimento do amor também conhece outra forma de nos inundar o coração; pode chegar de mansinho, sequer sem se anunciar, até que damos por nós apaixonados, e então ele se vai tornando cada vez mais forte.
Tantas vezes ele está como sói dizer-se: ao nosso lado e nem tínhamos dado por isso.
No fundo, não importa como o sentimento do amor nos invade, o importante é que o casal tenha consciência de que ambos deverão cuidá-lo e preservá-lo como o sentimento maior que une os corações humanos.
Escrito para o dia 29 de Setembro de 2021,
Dia Mundial do Coração

 MUDANÇAS DE ESTAÇÃO
José Ernesto Ferraresso
Brasil

Percebo a natureza quando se modifica a cada muda de estação. O ar e o tempo que vão recriando a atmosfera e trazem consigo a criatividade e a Inspiração dos artistas, gente cuja sensibilidade é tangida por novas emoções.
A natureza regenera-se paulatinamente, numa formosa mutação.
Que cena encantadora; surgem novas flores e novas paisagens multicolores. Chega a inspiração dos artistas; dos pintores escritores e outros, que Deus premiou com dons para que deslumbrassem o seu semelhante.   
E essas cenas que acabam de chegar fazem-nos encantar com a poesia e emoção incrível, num principiar de siclo sermpre inesquecível.
Poetas meditam, direcionam o olhar e procuram palavras para divagar e cantar os méritos e as glórias que se abrem
aos seus olhos. Apenas  belezas, magia da natureza e palavras que vão ensaiando versos, rimas, estrofes e metrificações. Instantes que os poetas criam e que saltam para as telas dos pintores e as pautas dos compositores.

 

!VENHO DE OUTROS VALORES NÃO DESTES DE AGORA !!
Por: JJ. Oliveira Gonçalves
Brasil

Preparas uma mesa perante a mim na presença dos meus inimigos, unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda.”  (Salmo 23)

Venho de outros tempos. Venho dos tempos de lá. Me estranham estes tempos. E movimentos. Pois são tempos vis de cá. Naqueles tempos, a Verdade era Verdade. E a mentira era mentira. Correto era apenas o correto. O certo. O direito. E o decente. Hoje, o correto está errado. E do errado fez-se o correto. São tempos medonhos os tempos a que sobrevivo. Nasci, lá, em Bagé. Nas terras de Ibagé. Terra de coxilhas, arroios e varzedos. Sinto Saudade daqueles céus. E dos frondosos e esmeraldinos arvoredos. Se o Cacique era lenda ou não era, à Alma isso pouco importa. Sou fronteiriço com o pensamento empoeirado de andarilhas Distâncias… Sou poeta e sofre-me o coração de Nostalgias… Naqueles tempos? O homem era homem. E a mulher era mulher. Casal era um macho e uma fêmea. E a Família geralmente era Christã. E a Bíblia um complexo e sábio Catecismo. Que exorcizava o diabólico comunismo! A gente? Era a ovelha do Rebanho (sem preconceitos!) do Senhor. De Jesus. Do Bom Pastor. Lá, então, Deus era Deus – Onipotente, Onisciente, Onipresente. Cá, nestes tempos sórdidos, desregrados, maculados, o que é ou quem é Deus – aos vendilhões do Templo?

O Tempo é um potro enigmático! É o mais velho dos potros e sempre o mais jovem. Mas sempre o mesmo potro! É um potro de longas crinas negras. E de longas crinas brancas. Um dia, o Potro – que é o Tempo – passou e me disse que eu seria professor. E mandou que me preparasse. E fui. Cumpri longa Jornada. Durante 30 anos. Sempre em sala de aula. Ostentei a Cruz em minha mão direita. E em minha mão direita, também, esgrimi com minha Excalibur. No magistério, nunca fui rei. Por causas óbvias. Pois como pode ser rei quem combate a matrix, o establishment – mais conhecidos por sistema? Fui odiado. Caluniado. Perseguido. Mas, em doses homeopáticas, também fui amado. Eis que, se não fosse, não teria vencido. Lutei batalhas de ferro e aço. Contra corações de pedra! Ah, ferimentos e feridas! Contendas em visível desvantagem. (Eu fui um cusco brigando com cachorros grandes!) Minha vida defendi contra as tocaias do negro astral! Seja como for, jamais desisti de lutar o Bom Combate! Trago nas Dores do corpo e nos ais da Alma as marcas daquele aguerrido Bom Combate! Onde a Cruz e a Espada me salvaram. A Cruz Christã. E a Espada Excalibur. A Crença e a Honra venceram. Aliadas à Coragem, à Persistência e à Justiça!

15 de outubro de 2021. Mais um Dia do Professor. Falar nisso, aonde foi parar o professor? O que aconteceu com ele? Não sei. Mas, com certeza, governadores e prefeitos escravagistas devem saber! Quanto a mim, estou aqui. Com esta esmola a que os donos de senzala chamam de salário! Sei: cumpri minha jornada com denodo, dedicação e bravura. E com muita luta. Mesmo com as garras em pedaços, contra um inimigo visível, abjeto, cruel e desumano! Fui professor. Honesto. Dedicado. Digno! Cumpri (e cumpri bem!) essa Jornada belíssima e inegavelmente dolorida que Deus me mandou cumprir!

É isso. Indeléveis resquícios das andanças de um professor honesto!!

 

O BARQUEIRO E O DOUTOR
Marilza Pereira Calsavara
Brasil

  
Um doutor precisava atravessar um rio até a outra margem e contratou um barqueiro, simples e humilde.
Durante o trajeto o doutor entabulou conversa com o barqueiro:
-O senhor sabe ler e escrever?
-Não senhor
-Então você está perdendo uma parte da sua vida.
– O senhor conhece MOZART?
Nessas alturas já estava na metade da travessia, e o barqueiro perguntou:
-Doutor o senhor sabe nadar?
-Não senhor…
Então o senhor perdeu a vida inteira, porque o barco furou, está entrando água e vai afundar…
Como dizia o meu sábio avô PORTUGUÊS:
“MAIS VALE UM ANO DE TARIMBA, QUE TRÊS OU QUATRO DE COIMBRA”.

O BURRO DA PALESTINA
Por: Artur Soares
Portugal

Conheço uma lenda que diz que “o burro da Palestina é muito vigoroso, aguenta o calor, alimenta-se de cardos; a forma dos seus cascos torna segura a sua marcha; enfim, embora lento, a sua manutenção é pouco custosa. O único defeito é a teimosia”.
É verdade, lento e teimoso!
Como o burro – peço perdão – parecemos nós também.
Urramos em casa, nos supermercados, no comércio, nos estabelecimentos de ensino, às portas e nos corredores hospitalares, nos combustíveis – nestes, Deus malivre! – e já não temos voz que se oiça nos restantes locais da urração. Somos roubados pelos políticos que governam o país, pagamos facturas da destruição que fizeram aos bens nacionais, engordam-se com a pele e os ossos de quem trabalha e, nós, como o burro da Palestina, comemos cardos e somos lentos na marcha. Pior: não marchamos e não fazemos a estes ensebados o que eles fizeram aos monárquicos em 1910.
Avançamos no ritmo que nos é próprio: lentos a pensar, calmos na acção da vida presente e receosos do futuro. Aceitamos e trilhamos os caminhos pedregosos e nada fazemos para melhorar a via de uma vida social digna a que temos direito. Avançamos no silêncio e deixamo-nos “comer” por uns confeitos que nos atiram aos pés, que só os vigairos distribuem.
Como o burro, teimam em nos oferecer um jugo e um fardo que, mostrando-nos sistematicamente a mentira e os assaltos aos bolsos vazios, ainda nos mostram farrapos de atitudes sem sentido, que nos enfraquecem e nos sujeitam. E, ao contrário do burro da Palestina, as mulas existentes a quem damos o voto, causam manutenção elevada ao País e, os seus cascos, tornam débeis a nossa marcha: o futuro, rigor, disciplina social, educação verbal e alegria de ser português.
Por isso, paciente leitor, recorda que nasceste Homem!
Mesmo que sintas ou se não tens a sorte de crer que foste feito “à imagem e semelhança de Deus”, deves recordar pelo menos que a tua sorte é inestimável.
Podias ser uma criatura viva, mas condenada ao torpor cruel da vida ferina, ao mecânico acanhamento do instinto, à muda e obscura reclusão das tocas, dos remoinhos e das fossas!
A tua sorte podia ser a do burro teimoso da Palestina que se alimenta de cardos, ou de uma cobra que se enterra no lodo, ou uma toupeira que se movimenta nas trevas, ou de uma infeliz rês destinada à tosquia e ao matadouro. Mas ao contrário, és um Homem, um ser que caminha na vertical e que olha o céu, iluminado pelo espírito, capaz de ser purificado e redimido pela própria dor!
A tua alma é, apesar de tudo, tão nobre que pode vencer o génio e desejar a santidade! Tu és co-proprietário de um planeta! O vento é teu servo, o fogo é teu escravo, a força das águas ilumina-te e aquece-te, todos os poderes da natureza estão sob as tuas ordens; percorres o firmamento, descobres o infinitamente pequeno, descobres o mistério dos germes e dissolves o átomo; sabes revelar o passado, pensar o presente e programar o futuro!
As palavras podes transmiti-las com sinais e sons e, o pensamento, com todos os seus tormentos e paixões, é a tua nobreza, o teu penhor de passagem para lá dos seus próprios limites! És mortal como os burros e as éguas de toda a Terra, mas somente para ti, resplandece a esperança – que para certos é certeza – da vitória final sobre os teimosos e os adeptos da normose. Tu és, mesmo no cárcere da carne e do tempo, o impaciente “sopro” de um Criador, que não se fez e/ou desejado foi para comer cardos e ser lento na caminhada. Acorda homem de Deus! Não permitas que te saquem a espiga!
(O autor não segue o novo Acordo Ortográfico)