CRONICAS-ARTIGOS E OUTROS TEXTOS

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Junio  2.020  nº 32

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AL SERVICIO DE LA PAZ Y LA CULTURA HISPANO LUSA

Não houve e nem haverá ninguém maior que Isabel de los Ángeles Ruano na Guatemala
Por Ilka Oliva Corado

Que a poeta guatemalteca Isabel de los Ángeles Ruano vive na miséria e necessita ajuda, bah!, já se sabia há décadas. Mas na Guatemala nos encantam as erupções de desejo. 

Nos encanta também aparentar, vivemos de aparências e do que dirão, e regemos nossas vidas em torno do que possam dizer de nós os demais. Então por isso vamos seguindo a corrente, e por isso é que se formam as grandes revoluções das redes sociais; baforadas, nada mais.

Por isso é que hoje o nome da maior poeta que teve Guatemala ressoa nas redes sociais, não porque nos importe, nem como poeta, nem como idosa, muito menos suas circunstâncias de vida. Porque a grande Isabel há décadas tem ido caminhando como caminham os que sobem nos ônibus para oferecer seus produtos, produtos que ninguém quer comprar, porque na modorra do cansaço, do desvelo ou da madrugada também está a angústia do dia a dia própria do operário sem dormir. Como caminham os que têm fome e estão há dias sem comer.

Como caminham e se atrevem a sonhar os vendedores de chiclete com a instalação de um armazém para não ter que andar tomando chuva, sol e frio para vender centavos a cada dia. Como caminham as mulheres junto às suas filhas e irmãs vendendo comida nas praças, sonhando um dia ter um restaurante. Mas, quem se importa com o que possa sonhar uma mulher de terceira idade que sobe em um ônibus para vender canetas e um folheto com poemas de sua autoria. 

Que coisas lindas poderia escrever uma velha que oferece seus desenhos em papel comum em um ônibus, em dúzias de ônibus durante o dia? O palhaço que conta suas piadas e ri para não chorar porque em casa o esperam seus filhos, com fome? O mesmo palhaço que implora que o deixem subir no ônibus, só um momento para ver se poder ganhar pelo menos o jantar de seus filhos, que amanhã será outro dia, outra rota, outros ônibus, outras humilhações, outra decepção. 

Hoje dói? Isabel de los Ángeles Ruano, só hoje, só umas horas enquanto dura a chama nas redes sociais, amanhã será outra a coisa, outro o lombo onde se suba os que se penduram de tudo, porque sozinhos não podem parar em pé. E os comentários vão e vêm com as conjeturas; será que é doente mental e por isso é assim? Esse ser assim, humano, de povo, de mulher à pé, de lombo curtido, de tornozelos inflamados de tanto caminhar. De mulher operária, com fome, sem dinheiro a não ser para um pouco de comida de vez em quando. De necessidades como todos. Tudo se reduz a que se é doente mental, a grande poeta, a maior poeta que pariu Guatemala, porque não houve, não há e nem haverá ninguém maior que Isabel. Mas, falar de uma poeta que caminha rua por rua, com orgulho, sem buscar aplausos, nem exigir reconhecimento, que caminha vendendo suas canetas e seu livros com seus poema, uma operária, uma vendedora ambulante. Como o vendedor de meias, como os que vendem balas, como os que vendem tesouras e oferecem batom e desodorantes. 

Uma vendedora ambulante como os senhores que carregam nas costas suas vassouras e rodos que vão oferecendo de cada em casa, que batem em portas que não se abrem nem para lhe oferecer um copo d’água, muito menos para dar um prato de comida, e não comprar uma simples vassoura não porque precisem, mas para ajudar. Ajudar a pobre economia desse vendedor, que descanse suas costas curvadas pelo peso. Mas a solidariedade de muito só existe nos sopros das redes sociais, onde se elogiam com as fotos e os aplausos dos iguais a eles que vão e vêm com a corrente. A solidariedade do povo, essa está descendo a ladeira. 

Há muito por dizer, pela situação de vida da maior poeta do país, pelo Estado ausente em todos os sentidos, pela sociedade desumana que somos. Porque Isabel de los Ángeles Ruano reflete a situação de milhares de idosos na Guatemala que são obrigados a expor-se de tal maneira para conseguir alguma coisa para comer.  Ela é poeta, mas há camponeses, operários, diaristas, aqueles que apodrecem cortando cana, esquecidos, os que sucumbem nas fazendas de café, os que moem as costas cortando hortaliças, plantando frutas para os fazendeiros endinheirados. Os que enchem as mãos de bolhas ordenhando vacas para que outros se engasguem e encham a boca de tanta coisa, da gula, do desperdício. 

Porque a poeta com seus passos cansados leva o caminhar das famílias onde não chega a água, lá no oriente de crianças desnutridas, de avós morrendo de fome. De terras estéreis. Dói como uma ferida viva o esquecimento, o descaramento, o abuso e a indolência de uma sociedade incapaz de sair de sua bolha de comodidade para pôr os pés no chão e caminhar junto aos que caminharam sempre, descalços. 

Isabel sobe nos ônibus e anuncia seu produto, como anunciados são os migrantes deportados, sem ninguém por eles. Ela diante de um público morto em vida, os deportados à frente de uma sociedade podre. Não merecem a uma Isabel de los Ángeles Ruano, nem aos milhões de camponeses, diaristas, operários e migrantes que lutam dia a dia, carregando em seus lombos, lombos curtidos, uma sociedade canalha.

Sofrer por antecipação? – Um contra-senso
Um apontamento de Eugénio de Sá

E havia aquele senhor inglês, um capitão de industria, que tinha o salutar hábito de jogar golfe em Oxfordshire todos sábados.

Num desses sábados apareceu no campo de golfe, espavorido, um dos seus funcionários que lhe disse, ofegante: senhor Williams, a sua fábrica está a arder!

O fleumático homem parou, encostou-se ao taco número cinco que estava a utilizar, e respondeu calmamente: que pena, John, vou ter um enorme problema para resolver na…segunda feira!

Não defendo que todos tenham de ter o sangue frio próprio de um réptil ou de anfíbio, ou nem sequer a exagerada calma do tal senhor Williams, mas, como terá dito Jesus Cristo ao aperceber-se deste tipo de sofrimento humano: « Basta! – a cada dia seu próprio mal ».

Quem não sofreu já por antecipação perante a pendência do resultado de um exame médico, de uma decisão de um conflito laboral ou pessoal, pela anunciada e indesejável visita de alguém que o antagoniza, ou até de um caso de amor mal resolvido, ou ainda por muitíssimas outras situações que seria fastidioso continuar aqui a enumerar?

Na realidade, todos os dias o ser humano é confrontado com o conhecimento da proximidade de situações que, à partida, adivinha o vão incomodar, se não mesmo traumatizar. Todavia, também todos conhecem o conselho tido por acertado de que se deve dormir sobre um problema, porque esse problema no dia seguinte será visto de forma menos dramática, e, dia após dia, ver-se-á acentuar-se essa tendência, ou quiçá se resolverá por si mesmo, como pó que tempo diluiu.

A vida é algo maravilhoso que nos foi concedido para que a desfrutássemos o melhor que saibamos e possamos. E, embora a existência gere sofrimentos inevitáveis em consequência das perdas que sofremos e das doenças que nos afligem a nós e aos que nos são mais próximos – com o respectivo rol de afectações físicas e morais, como a amargura e a angústia – é grande a nossa capacidade de aceitação e de regeneração perante (quase) todas as contrariedades com que vamos sendo confrontados.

A questão está em que o ser humano tem uma natural tendência para o sofrimento, para a vitimização, mesmo antes que ocorram os factos que a tal possam levar. A tal ponto isto é verdade, que, se uma ameaça parece estar prestes a acontecer, e não sofremos por antecipação, algo nos parece estar errado connosco.

Sofrer, chorar, desesperar por alguém ou por alguma coisa, são sentimentos aceitáveis num ser humano, e é isso que faz de cada um de nós uma «pessoa”, com a sensibilidade que se pode esperar dessa condição civilizada. Mas ficar sofrendo antes da hora, antecipando um futuro que pode nem vir a acontecer, parece coisa doentia, passível de conduzir-nos a estados mentais muito negativos que nos podem impedir de gozar o que a vida tem de melhor para oferecer.

Aqui chegado, diria que todos devemos procurar viver em harmonia com a natureza e com os animais que a povoam, livres e felizes, sem complicar o que à partida é simples e natural, sendo tranquilos como os regatos que fecundam os campos e as flores que os decoram e nos encantam.

Seja optimista e positivista, leitor amigo. Deixe-se levar pela vida, embora procurando sempre conhecer o chão que pisa. 

O voo das gaivotas ausentes
Por:  Vera Lucia Magalhães de Araujo

Minhas gaivotas não vieram, mas é certo que voltarão. Foram em busca de outros céus mais azuis e de ares mais quentes. Contemplo o céu iluminado por um sol tímido e nele posso vê-las passando em câmara lenta na tela de meus olhos onde antes elas deixaram fragmentos de suas asas cintilantes, de seus bicos agudos, de seus movimentos ondulares.

Absorta nessa contemplação do vazio onde não há a representação das gaivotas é que melhor me comunico com elas. Na graça do seu voo invisível capto o mistério que não está nas asas nem no movimento, mas no imponderável, na beleza daquilo que não se corporifica porque o voo está dentro do olhar que o vê, como a beleza do amor não está no objeto do desejo, mas no coração de quem o sente.

O mar ronca e o estrondo das ondas batendo na praia faz o coro nesta sinfonia nostálgica de uma manhã sem gaivotas. É Mahler impregnado nos ouvidos que distinguiram na trilha sonora de “Morte em Veneza” a estonteante representação do belo. O mar executa a dança das gaivotas ausentes e, nessa partitura feita de notas contrastantes entre sol menor e dó maior, a arte resvala para os labirintos cavernosos, pois sem a dor, a beleza não se mostra.

A caminhada é longa com o frio nas costas e os pés afundados na areia úmida enquanto os olhos vagueiam no azul do céu salpicado de asas cada vez mais próximas, mais nítidas, mais perfeitas. Os violinos plangem no Adagietto da 5ª Sinfonia de Mahler e meu coração clama pela volta das gaivotas, nem que seja por uma só, desgarrada de seu bando, solitariamente perdida no céu de águas.

A voz rouca do mar cada vez mais grave e soturna anuncia o Rondo Finale. É hora de partir, sair, despedir, fugir. É hora de libertar as gaivotas da retina para que elas se soltem à procura de novos saberes em outros céus. Talvez demorem a regressar, talvez voltem mais velhas, menos afeitas a voar sobre as cordilheiras, mas sempre serão livres para decidir rumos e, se voltarem, terão histórias de agonia ou de folia para contar aos olhos de quem pacientemente vive em seu afã de encontrar a beleza, seja na arte, seja no amor.    

 

EU, A PONTE E A LUA
Por: Cema Raizer

É noite. Hora de realizar meu sonho: chegar até a Ponte de Ferro e observar a lua cheia. Decisão tomada, saio do meu bairro, a pé, no frio de inverno. Muito movimento de carros e pedestres, dirigindo-se para casa após a jornada de trabalho! Quase não acredito! Em trinta minutos, chego ao meu destino! Estou diante de uma visão acima do tão esperado momento! Melhor impossível! AH! Minha amada inspirada Lua!

Lá está ela, esperando por mim. Que emoção, estar cara a cara com a ponte,  sob um céu todo estrelado e uma lua gigante, empolgada me olhando! Tão perto, que se eu tivesse uma escada de cinco degraus poderia tocá-la. Acho que, por isso, os gatos costumam passear na lua cheia. Não querem perder tamanha beleza!

Olho a ponte de ferro. É estreita, feita pra trem! Para o trem que, há muitos, anos foi embora pra sempre! O trem 333 que imortalizei em óleo, numa tela!

Agora está adaptada para carros que passam voando…

A ponte tem um corredor para pedestres, por onde eu ando. O visual me fascina. A lua está refletida no rio, junto aos prédios da avenida, tão nítidos em luzes e cores dentro da água, na noite. Uma visão que impressiona, parecendo que a cidade caiu dentro do rio.

Ouço um barulho estranho. São as capivaras e seus filhotes que se movimentam, pastando no barranco. A ponte é enorme! Olho para o alto e vejo as vigas de ferro, gigantescas, dispostas de maneira decorativa e que personalizam a obra feita de  ferro…Isso me faz pensar nas fotos antigas que vi. Fotos que documentam os trabalhadores construindo o que vejo agora como um «Monumento Histórico » : Cartão- postal e atração turística da cidade.

Não tenho como não me comover! Fecho os olhos, ouço o apito e sinto o cheiro inconfundível da máquina a vapor. Enquanto a lua segue o seu trajeto, retorno à minha realidade, feliz por ter cumprido o meu desejo de visitar a Ponte de Ferro numa noite de lua cheia.

1 comentario en “CRONICAS-ARTIGOS E OUTROS TEXTOS”

  1. Ilka Oliva Korado: ANDEI DESCALÇA, pelas linhas e entrelinhas de teu relato e senti o ardor de tua alma e o arder teu relato,do mesmo modo com arde teu coração e essa dor de um povo amargurado, ali, aqui e acolá…Um cenário de vidas em sofrimento,onde
    a miséria ultrapassa o entendimento, pois é possível sentir perto, mesmo à distância, a angústia e a dor do teu relato.
    Eugénio de Sá : SOFRER POR ANTECIPAÇÃO?» : «Viver um dia de cada vez»… «Amanhã é outro dia…» Deixa a vida te levar…» cresci
    ouvindo essas frases e, devo ter incorporado alguma coisa, pois desde criança ouvi isso e, diziam que meu nome devia ser «Paciência»… «Nada como um dia após o outro…» Gostei do seu texto ! Sim ,com bom senso e moderação a vida será melhor!
    Vera Lúcia M. De Araújo :»O VOO DAS GAIVOTAS AUSENTES» : Que agradável e melancólico é teu texto!Criar gaivotas em pleno voo, sentir e ver o mar ondulante e majestoso, o pio tão familiar e o cheiro da maresia… e esse final que confirma a validade e
    desse exercício de uma ausência, que alimenta a inspiração!

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