CRÓNICAS, ARTIGOS E OUTROS TEXTOS

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Marzo 2.020  nº 29

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AL SERVICIO DE LA PAZ Y LA CULTURA HISPANO LUSA

Acreditamos que outra pessoa por estar em piores circunstâncias econômicas que nós, merece isso que praticamente é lixo
Por: Ilka Oliva Corado

Muitas vezes nos sentimos derrotados, frustrados e dizemos uma e outra vez, molestos, furiosos, questionando: temos direito a uma vida melhor. Uma vida com direitos trabalhistas, com folga econômica. Direito a uma casa melhor, espaçosa, com grande quintal e outros móveis. A ter a geladeira cheia de comida. A poder comprar o que quisermos, a ter esse dinheiro extra para viajar e comprar um carro ou trocar o que já temos. Direito a um melhor trabalho… sim temos direito e esse mesmo direito têm outras pessoas nas quais não pensamos por estar ensimesmados no que pensamos que nos falta, sem nos dar conta de que outros estão passando muito mal.

A que terá direito o cortador de cana ao qual se vai à vida entre o sol, o lombo curtido e os sonhos rasgados? O boia-fria que vai de fazenda em fazendo colhendo frutas e verduras em troca de um pagamento que não dá nem para o básico? Esse boia-fria humilhado constantemente pelo capataz que pensa ser dono da fazendo. Não têm direito a uma cama esses boias frias que dormem amontoados no solo como lenha cortada? A que terão direito as mulheres que enchem as pernas de veias inflamadas em pé durante 16 e 18 horas trabalhando em fábricas e montadoras? A ir ao banheiro pelo menos? Operárias que saem de suas casas de madrugada e retornam à meia-noite, que não viram um raio de sol durante o dia, as que têm que trabalhar todos os dias do ano. As que não recebem as horas extras.

E as que são contratadas para fazer tortilhas? Nesses restaurantes de luxo, onde fazem as tortilhas ao lado das mesas, quanto ganham essas mulheres? Têm direitos trabalhistas? Não é só fazer tortilha, são as que cozinham e limpam quando o restaurante fecha. As que são bonitas para a foto folclórica que os comensais publicam nas redes sociais. A que terá direito o cortador de cana ao qual se vai à vida entre o sol, o lombo curtido e os sonhos rasgados

Os meninos que engraxam sapatos, que trabalham em lojas e armazéns, que carregam sacolas nos mercados. Que direitos têm? A que nós os utilizemos como burros de carga? A que altaneiros ponhamos os sapatos para que os façam brilhar, aos que exigimos ligeireza para atender-nos? A que têm direito os meninos que vemos todos os dias fazendo malabarismos nos semáforos? As famílias que vivem nos lixões? Terão direito a uma casa como a nossa, com móveis parecidos com os nossos, a nosso carro, a nosso quintal, a nossa geladeira? Ou que nós pertencemos a outro nível e a eles não é permitido um teto para dormir e ter uma cama, um abajur, uma mesa de noite?

Esses meninos não têm direito a uma bicicleta como têm os nossos? Não têm direito a ir à escola, a deixar de ser explorados trabalhando? Esse carregador de sacolas não tem direito a um trabalho que não lhe rompa a coluna vertebral? Não tem direito a ter uma casa com uma cadeira para sentar-se e descansar? Vamos, não têm direito ao lazer?

Essas meninas, adolescentes e mulheres sequestradas para exploração sexual acaso não têm direito a outra vida? E os idosos vendendo nas ruas, expondo-se a humilhações, a que lhes chamem de estorvo, a que sejam alvos de gozação e que lhes exijam descontos que jamais pediriam em um supermercado? Eles têm direito a que? 

Muitas vezes por estarmos imersos em nossa própria dor, em nossa própria cólera e frustração que, é claro, temos direito a ter e a sonhar com vidas diferentes, não vemos que há pessoas que estão vivendo uma vida de inferno, às quais poderíamos ajudar, porque sempre se pode ajudar, ninguém está realmente tão mal para que não possa ajudar outra pessoa em piores circunstâncias. Que tanto é nossa ira para exigir a um governo que transforme as condições de vida não nossas, porque teto para dormir nós temos, mas sim as deles, dos milhares que moram nos lixões? Que mudem as condições de trabalho dos cortadores de cana, dos boias-frias, das operárias? Que tanto estaríamos dispostos como sociedade a não utilizar o trabalho de carregadores de sacolas e a não explorar meninas e adolescentes em trabalhos de limpeza de casas? Que tanto faríamos para que essas meninas tenham a oportunidade de estudar? De que esses meninos que engraxam sapatos e fazem malabarismos nos semáforos estudem? E por essas meninas e adolescentes que deixam os braços nos fogões fazendo tortilhas para que outros encham os bolsos? Dos adultos idosos humilhados para se pôr na frente de uma casa para vender sua cesta de verduras? 

Sempre pensamos em direitos e benefícios para nós e os nossos, mas somos incapazes de pensar que outros em piores circunstâncias também os merecem.

Sempre penso nisto e é uma forma de medir nosso egoísmo humano ou nossa generosidade. Se tivéssemos dinheiro para comprar um par de sapatos novos, doaríamos os velhos para alguém que necessite e compraríamos os novos para nós, ou ficaríamos com os que temos e compraríamos os novos para alguém que necessite? É fácil desprender-se do que já não precisamos e está em mal estado, acreditamos que outra pessoa por estar em piores circunstâncias econômicas que nós, merece isso que praticamente é lixo, e para lavar-nos da culpa, o doamos. Mas somos incapazes de comprar algo novo e dá-lo a um completo desconhecido, mesmo sabendo que o necessita mais que nós. Não, não somos tão boa gente como aparentamos. E não, não estamos em tão más condições econômicas para não virar e ver ao nosso redor e saber que podemos ajudar alguém que realmente necessite. Se não é com dinheiro é com tempo, com o que sabemos fazer, mas que se pode ajudar, se pode.

O ALTAR DA MINHA CRUZ
Eugenio de Sá
(a todos nós, os poetas)

   Somos donos de um feixe de nervos, e, talvez por isso, embora apregoemos que buscamos a tranquila mansidão dos dias, só nos sentimos realmente vivos quando se tece em nós uma teia de emoções. E essa ânsia, essa necessidade, acaba por se tornar num vício que procuramos alimentar de exercícios espirituais sempre vez mais intensos.

   Daí, a tal solidão de que falamos quase como cousa almejada, pois só no isolamento a que nos votamos logramos enlear-nos na tal teia de emoções. E essa solidão não significa que tenhamos de estar fisicamente sós; pode haver gente à nossa volta, que a sempre esperada evasão espiritual nisso não encontra obstáculo.

   E é nesses momentos em que o tempo parece suspender-se, nesses momentos em que nos encontramos numa espécie de êxtase, que sentimos o impulso de escrever, de expor a alma à brancura da tela, que se nos oferece,  virgem, à voragem dos dedos que querem teclar sobre ela as palavras que reclamam por ser escritas.

   É desse íntimo “feelings storm” onde se debatem ideias e sentimentos, que acaba por brotar, espontânea, a nossa poesia, fundada na metáfora que cavalga a nossa expressão criativa.

Corre dentro de nós todo um processo de exacerbação de sentidos; são as estridências da lenha que crepita numa lareira, é o uivar do vento entre as enxárcias de uma nave, são os latidos dos cães que alertam os caçadores, é o rebentar do mar nas rochas alcantiladas de uma penedia, é o manso pranto de alguém em luto pelo ente querido…

   E então enchemo-nos de ruídos, de fantasias, de frases soltas…de histórias por contar.

   Respeitamo-nos, e sabemos que podemos contar com o respeito de quem partilha connosco a sua vida, com a compreensão das pessoas que amamos e que nos amam. É tudo uma questão de uma assumida separação de águas, como as de dois rios que correm paralelos até à foz sem que os seus leitos se misturem precocemente.

   E a vida vai correndo na bonomia da aceitação deste convívio inteiramente isento de crueldade. Quem nos conhece, aceita-nos como somos; às vezes evadidos da presença física que prova que ali estamos, mas só na aparência, porque o nosso espírito voga quiçá por outras latitudes onde até os horizontes são quiméricos.

TORRENTES DO DESERTO
Por: Santa Catarina Fernandes da Silva Costa

O solo ressequido do deserto clamava mediante o calor do sol. As montanhas avermelhadas mostravam, agoniadas, as suas rachaduras e eram tantas!

Por aqui passou Abraão? Cadê os poços que Isaque abriu e com entulhos foram cobertos pelos filisteus?  Agora entendo porque um poço gerava tanta confusão!

Perdida dentro do próprio olhar via os últimos raios de sol banhar as montanhas, pedindo talvez perdão por tamanha dor que provocava, devido à intensa sequidão.

Por seis anos Israel se debruçou perante D’us pedindo água, água que fosse suficiente para molhar a produção. A fonte do rio Jordão  estava   cabisbaixa pois as águas do Monte Hermon  eram tão poucas! O Mar da Galiléia olhava, com súplica, para cima, esperando que a nascente se manifestasse.  O orvalho do Monte Sagrado que descia dos céus, hesitava em levar vida ao Monte de Sião! Os rios estavam secos, retalhados. Eram marcas profundas entre as areias ardentes. Pacientemente esperava Israel.

Um oceano no céu estava sendo preparado e nos grandes montes seria derramado. Primeiro lavou com veemência o Monte Sinai  onde uma dia desceu fogo do alto e registrou nas pedras as leis sagradas.

Estávamos como quem sonha, dentro de um cenário lançado, quando a ordem foi parar. Por quê? As famosas e milenares torrentes se apresentaram nos montes! Lágrimas em abundância lavaram a terra, que se despia para receber a bênção que caia e era só alegria.  O Salmo 126 soou no meu coração “Restaura, Senhor, a nossa sorte, como as torrentes do Neguebe. Os que com lágrimas semeiam com júbilo ceifarão…”

A caminhada foi interrompida. Alegria para a terra que se lambuzava de prazer e murmuração pela interrupção.   Enquanto isso a água caia como se fosse resposta de uma longa oração. Que força tem o homem quando o Criador atua na sua criação? Ele dominou por horas e esperamos até que Ele nos abrisse+ as portas.

Enquanto o ônibus corria, víamos o que restou das torrentes, dos rios caudalosos que haviam formado nas areias secas. Registros de sua passagem violenta, das cachoeiras que despencaram dos montes e a tudo levavam à sua frente, sem pedir licença, soberanas como seu próprio Criador.

Pequenos lagos e o deserto estava todo molhado! Atípica visão! O Mar Vermelho, com sua água cristalina, azulada, era só festa. O Mar Morto estava vivo com tanta abundância do céu   misturada na sua salinidade, e tudo era felicidade! Rasgos nas montanhas onde despencaram as águas, ainda estavam molhados e escorrendo ainda as últimas gotas tão esperadas.  O caminho da descida é inesperado, é no momento criado.  O Mar da Galiléia se encheu de prazer e subiram suas águas antes tão cabisbaixas. Os barcos navegavam serenos sem ondas, e nesse deslizar, pessoas falavam de Jesus, que morreu na cruz.

O Rio Jordão se agigantou, se enfeitou de batismos de imersão, vozes de louvor e de oração.

Quando tudo cessou, a amendoeira ofereceu suas flores, nos jardins brotavam cores, cores variadas, vibrantes e tudo virou Primavera.

Retomo o Salmo 126, porque, como peregrinos à Terra Santa, vivemos esse lindo momento: “Quando o Senhor restaurou a sorte de Sião, ficamos como quem sonha. Então a nossa boca se encheu de riso, entre as nações que dizia: Grandes coisas o Senhor fez por nós; por isso estamos alegres. Restaura, Senhor, a nossa sorte, como as torrentes do Neguebe..”

Restaura, Senhor, o nosso coração, e nos dê a água da vida eterna, chamada “CONVERSÃO”.

PRIMAVERA E AS SEMENTES VOADORAS
Cema Raizer

Certo dia, resolvi cultivar  um cacto cuja muda, me foi dada ao acaso como sobra de  replantio… 

Sem saber se produzia flores, num vasinho comum, um pouco de terra, plantei o pequeno broto verde, de um cacto sem nome e com carinha de abandono…

O que eu sabia, é que, cacto é planta do deserto, e requer pouca água. Aos poucos, fui me acostumando com a presença dele, criei amor e carinho… coisa de poeta!  Amei de cuidar dele.
A gente  ama e acaba assumindo com muito carinho. E faz bem!  Esse bem  querer que traz alegria que  multiplica e permanece…  Dois anos passaram nesse cuidado, como se cuida, numa troca de confiança  e afeto de mão dupla…  Meu pé  de cacto desenvolveu muitos  ramos verdes, com espinhos suaves… e eu sempre cuidando, tirando uma ou outra erva daninha intrusa.

Passado muito tempo, deparei com  um botão, verde, em forma  de cone achatado…  Minha nossa!  Foi só alegria!  Nem esperava mais, que  esse cacto floresce-se ! Observando o botão dia a dia… Eu o vi Alcançar 4 cm de diâmetro… queria mesmo me surpreender! Em outro momento  deparei com uma flor de  5  pétalas que  me lembrava  uma  onça pintada  e, foi esse o nome que dei à flor! Aliás, passei a denominar meu pé de cacto, de «Oncinha…»

Oncinha foi  produzido muitas flores e eu plantando novas mudas… Há uns meses passados encontrei entre os ramos, uma haste diferente, parecendo um pequeno quiabo…  Achei estranha aquela bananinha rajada de tons verde e marrom, bem consistente! Com certeza  não estava oca.

Fiquei  intrigada, mas deixei quieto. Quinze dias depois, percebi que a tal bananinha desidratou e ia ficando desbotada e murcha…Mais uma semana, e abriu uma rachadura em todo comprimento! Estava  totalmente seca!

Curiosa, forcei a abertura. Que susto! Explodiu numa nuvem de mini paraquedas…  pequenas plumas levíssimas, brancas, suaves, em fiapos!  Eram muitas, voando e, cada  uma  carregando a sementinha marrom.Tantas, que me deixaram sem ação. Procuravam desesperadamente um lugar para agarrar, vi que se aquietavam quando se deparavam na terra dos cactos,e no grande vaso das Madressilvas… foi então que deduzi que estavam buscando terra para se fixar e renascer… Chorei de verdade, de alegria… Então comecei a recolher os pequenos paraquedas, guardando num pote, para encaminhá-los aos que amam a natureza que define a primavera. Nada é mais compensador!

Claro, semeei algumas, para acompanhar todo processo: Meu Berçário:plantei 9 sementinhas! Cuidei com muito carinho: nasceram todas! Estão com 5 cm serão adotadas por amigos que estão aguardando filhotes das misteriosas sementes da «Oncinha!»

Você segue seu “coração”? Cuidado!!!
Pelo Dr. Rubens Siqueira

Muitas pessoas fazem suas escolhas seguindo o que o seu “coração” diz.

A palavra coração nesta situação representa nossa consciência, ou seja, quando estamos diante de uma decisão, seguimos nossa consciência para decidir e assim acreditamos que estamos seguindo o caminho mais correto.

Porém, a credibilidade de nosso coração ou nossa consciência dependerá se temos uma visão humana do mundo ou uma visão construída pela fé, ou seja, se quem está guiando nossa consciência é Deus ou somos nós mesmos.

Quando somos guiados por nós mesmos, ao examinarmos nossa consciência, fazemos usando somente a luz da razão e não com o olhar de Deus com seus valores absolutos e então ficamos sujeitos a muitos desvios.

É importante saber que nossa consciência não cria a lei moral, não é ela que decide o que é certo ou errado; ela apenas julga se um ato concreto está ou não de acordo com a lei que está gravada dentro dela, que pode ser a lei de Deus ou uma lei inventada por nós mesmos.

Quando então alguém diz: “eu faço apenas o que diz minha consciência”, e não se preocupa e nunca se preocupou em querer saber com que valores está sendo formada sua consciência, está com alto risco de decidir pelo caminho errado. A consciência abandonada a si mesma é uma fonte de anarquia, e pode ser facilmente mudada pelo egoísmo, comandada pelo sentimentalismo ou mais comumente corrompida pelas ideias que “estão na moda”.

Neste caso, o nosso coração está sendo guiado por um “palpite”, ou pelo que é considerado pela sociedade como “normal” (todo mundo pensa isso) ou por fim o que a mídia e jornais falam. Desta forma, a chance de errarmos ao seguirmos nosso coração (consciência) será grande.

Há aproximadamente 2600 anos, o profeta Jeremias já alertava sobre isso: “O coração é mais enganoso que qualquer outra coisa e sua doença é incurável. Quem é capaz de compreendê-lo? (Jeremias 17.9).

O exame de consciência deve ser feito sob o olhar de Deus (quando somos realmente convertidos), pois esta é a única maneira de nos vermos de forma realista e com objetividade.

Quando olhamos somente com nossos olhos humanos, ficamos na superfície, pois “o homem vê o rosto, a aparência, mas Deus vê o coração (1 Sm 16.7).

A visão da fé alarga nossos horizontes e completa nosso próprio conhecimento. Diz São Paulo que “o homem animal não entende as coisas do espirito de Deus (1 Cor 2.14). O homem dominado por uma visão humana de si mesmo acaba caindo em uma cegueira, culminando em decisões erradas e caminhos tortuosos ocasionados por “seguir um coração” sem Deus.

Livro recomendado: conhecer-se do autor J.Malvar Fonseca.

3 comentarios en “CRÓNICAS, ARTIGOS E OUTROS TEXTOS”

  1. «VOCÊ SEGUE SEU CORAÇÂO?» Dr Rubens Siqueira
    TEM razão!Nem sempre podemos seguir o que dita «o coração»!
    Há muito que se pensar! reconheço perfeitamente os valores ,
    de teu texto! Obrigada!

    Responder
  2. Ilka Oliva Conrado – Verdade, um pensar egoísta não leva a lugar nenhum!
    Nessas comparações, oliva mostra o quanto nossa vida é melhor! Um texto
    que leva a meditar sobre o quanto é difícil a vida de muitos, em nosso entorno!

    Responder
  3. «O ALTAR DA MINHA CRUZ» : Eugénio de Sá – Bem enunciado o»vício bom»… de nossa vontade escrever poemas!
    Na verdade essa solidão nos torna uma ilha, bem servida, de um mar de inspiração, » No impulso de escrever
    palavras que reclamam por serem escritas!» Quem é Poeta, certamente, entra no teu texto, e se sente em casa!

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CRÓNICAS, ARTIGOS E OUTROS TEXTOS

Todo lo publicado en  ARISTOS INTERNACIONAL está sujeto a la ley de propiedad intelectual de España
febrero  2.020  nº 28
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AL SERVICIO DE LA PAZ Y LA CULTURA HISPANO LUSA

COLABORAN: Rubens Camargo Siqueira (Brasil)….Eugénio de Sá (Portugal)…Ilka Oliva Corado (Guatemala)…Mário Matta e Silva (Brasil)

TODA A ESSÊNCIA EM UMA FRASE
Autor: Rubens Camargo Siqueira

Hilel e Shamai eram os dois mais importantes lideres espirituais nos tempos de Jesus.

Certo dia perguntaram aos dois como eles poderiam resumir toda a lei de Moisés.

Shamai não respondeu, mas Hilel tentou resumir tudo em uma só frase: “Não faça aos outros o que não quer que façam a você. Aí está toda a Torá. O resto é mero comentário”

Esta frase mostra uma saída genial de Hilel com relação a resumir toda a “ética judaica” em uma só frase.

Entretanto, trata-se de uma ética passiva, ou seja , é como se eu ficasse sentado no sofá não fazendo mal a ninguém , quieto no meu canto.

Por outro lado , Jesus modifica esta frase da seguinte forma; “Assim, em tudo, façam aos outros o que vocês querem que eles lhes façam; pois esta é a Lei e os Profetas» (Mateus 7,12).

Jesus nos convida a “levantarmos do sofá” e irmos em direção ao outro, nos revelando que o amor de Deus é um amor ativo , é uma ação e que temos que tomar a iniciativa para que esse amor torna-se vivo dentro de nós e nos outros.

Nós podemos entender a diferença nestas duas frases da seguinte maneira: na visão de Hilel na qual “não devo fazer aos outros o que não quero que me façam” , eu posso ficar preso no meu egocentrismo , ou seja, trancado no “meu mundo”, na minha comunidade , na minha “redoma” e jogando sal e luz em mim mesmo. Entretanto na frase dita por Jesus, “faça aos outros o que gostaria que fizessem com você”, existe uma mudança do “centro de gravidade” que estava no eu e passa a ser no outro, assim de egocentrismo, passa a ser altruísmo, ficando o outro como o alvo central e será onde jogaremos sal a luz.

Altruísmo, (do latim alter, outro), é a devoção ao interesse do próximo, é a ação que não é motivada por razões pessoais e que realmente visa o bem-estar do outro. Já o egoísmo, é a idéia de que todos os atos de uma pessoa, bons ou maus, são sempre feitos por interesse próprio. O egoísta busca em primeiro lugar os seus próprios interesses. Uma pessoa egocêntrica é aquela que só é capaz de interagir com as pessoas e as coisas se absolutamente tudo girar em torno do seu “eu”

Já o altruísta serve com amor, doa-se sem estabelecer condições. Como disse o Apóstolo Paulo, “Não busca seus próprios interesses”. Na parábola do bom pastor, Jesus apresenta-se como Modelo de altruísmo. “Eu sou o Bom Pastor, o Bom Pastor dá a Sua vida pelas Suas ovelhas” (João 10.11).

Temos que nos conscientizar que o outro, está sempre nos esperando, mesmo que seja apenas para dizermos uma palavra, para ouvirmos ou apenas para darmos um abraço.

Pois será justamente no outro que encontraremos o amor de Deus e consequentemente encontraremos a nós mesmos.

Teorizando sobre um tema difícil
Eutanásia – ou morte assistida – sim, ou não?
Esc Eugenio de Sá

Cada caso é um caso!

– Embora constituindo um lugar comum, pode dizer-se que, realmente, é assim. A doença, ou outra qualquer causa que leve um ser humano a uma fase inapelavelmente terminal da sua existência, exige que, para a defesa de uma intervenção determinante na evolução desse processo, sejam tidos em conta uma série de pormenores relevantes.  

Desde logo, os envolvimentos afectivos dos entes queridos do paciente (ou vitima), os seus próprios hábitos culturais e religiosos, têm de ser tidos em conta e podem aconselhar a condicionar a acção que, a frio, poderia parecer a mais indicada para pôr termo a desnecessários sofrimentos, porque é disso que se trata.

Quando consciente, o alvo da acção para uma eventual suspensão artificial da vida, é o elemento determinante para a vir a potenciar e concretizar. Se a pessoa em causa está inconsciente e irrecuperável desse estado, deverão ser os parentes mais chegados a assumir essa decisão que não é, obviamente, obstaculizada, caso essa pessoa esteja dependendo já e unicamente de meios artificiais para a manutenção da vida, como já vem acontecendo, aliás.

Em qualquer caso, defendo que deverá caber ao próprio e, em ultima análise, à sua família, essa tomada de decisão, quando clinicamente estiver provado o esgotamento de todos os meios de salvamento dessa vida e que, prolongando-a, isso só poderá acarretar mais sofrimento ao individuo em apreço.

Querer continuar a impor regras a partir de legislação ultrapassada, ferida de influências e dogmas religiosos ou outros arrogados de moralistas, deve ser tido, em minha opinião, como obsoleto, desumano, e até caricato, portanto, passível de revisão à luz da clarividência e do espírito humanista que deve reger uma sociedade evoluída e civilizada. 

 

DISCURSO DO NOVO PRESIDENTE DA GUATEMALA REVELA QUE ELE É CRIMINOSO E TERRORISTA
Esc Ilka Oliva Corado

O país não precisa de violência governamental, nem ditadores, necessita de um governo que reconstrua o tecido social

Imagine que de um presidente recém eleito, no dia em que toma posse,  em seu primeiro discurso, aflorem ares de ditador e grite à cidadania que vai declarar as crianças e adolescentes do país como terroristas; pois isso aconteceu na Guatemala, lugar onde o romance de Miguel Ángel  Asturias – O Senhor Presidente – fica a dever ao dia a dia do país onde tudo acontece e as pessoas não estão nem aí, porque chegaram a assimilar o inverossímil com a naturalidade do realismo mágico das terra latino-americanas.

Um Giammattei recém ungido pela cúpula do crime gritou aos quatro ventos que vai “romper o cu” e vai desaparecer com quanta criança e adolescente que lhe cruze o caminho, e a qualquer um que ande querendo acumular, medalhas, palmadinhas nos ombros, aumentos salariais e posteriormente, patadas na bunda; simplesmente porque ele em sua posição classista, racista e de lambe botas decidiu declarar os brotos das periferias como terroristas, quando na Guatemala os bandos não são as crianças e adolescentes do país; as quadrilhas são outra coisa e não estão nas periferias , mas nas casas dos bairros chiques e no governo.

O contexto, o tom em que disse isso é muito claro, tal e como nos tempos da ditadura de Ríos Montt quando também as cúpulas criminosas no governo e as oligarquias decidiram que os povos originários eram “0s Terroristas” a ser vencidos e levaram a cabo o maior genocídio da América Latina. Embora as limpezas sociais na Guatemala tenham existido sempre, que um presidente fanfarrão venha a gritar aos quatro ventos em seu discurso de posse que vai exterminar aqueles que sistematicamente desde seu nascimento são violentados e têm negado os direitos ao desenvolvimento e uma vida integral, já é outra coisa. Porque esse é o significado de suas palavras.

Um panorama desolador espera os arrabaldes guatemaltecos, porque com as palavras do presidente qualquer um pode ser considerado criminoso (atenção, pertencer a um bando não significa ser criminoso, os bandos em si não são ninhos de criminosos, já vimos que as estruturas criminosas estão no exército, na polícia, no governo, nas oligarquias e são formadas em sua maioria por pessoas de terno e gravata) já que no país tudo é visto da perspectiva desse estereótipo. Tal como Otto Pérez Molina com sua famosa frase de “mão dura” este novo fantoche da criminalidade estrutural pretende seguir violentando a infância e a adolescência do país.

Aqui incluímos tatuagens, forma de vestir, cor da pele, estilo de corte de cabelo, linguagem, local da residência, se a pessoa estuda, trabalha, tem profissão ou ofício, gênero, etc.

O acontecido no Lar Seguro Virgen de la Asunción no governo de Jimmy Morales não será nada comparado com a quantidade de meninas e adolescentes que serão violadas e assassinadas por membros do exército, pela polícia e paramilitares que lavarão as mãos dizendo que eram de um bando. A comunidade LGBTI também está exposta a ser violentada por criminosos a partir do governo. 

Os criminosos, os terroristas, são aqueles que atentam contra a infância e a adolescência do país. Só por essa palavras Giammattei deve ser visto como o maior criminoso no governo atual e deve ser destituído imediatamente, porque a Guatemala não necessita violência governamental, nem ditadores, necessita de um governo que reconstrua o tecido social e que dê oportunidades de desenvolvimento àqueles que têm sido excluídos milenarmente.

E a sociedade continuará permitindo, fazendo revoluções somente nas redes sociais ou se atreverá a parar com essas quadrilhas de criminosos que tomaram o governo? Até quando?

Onde se fala de Cervantes e da sua obra «Don Quijote de La Mancha»
APRESENTAÇÃO AOS MEUS ALUNOS
Por: Mário Matta e Silva

Como forma de incentivar quem vem comigo de viajem por este percurso de Miguel Cervantes Saavedra, numa atitude de estudo histórico ou na descoberta de ambientes que o autor não só respirou, mas também descreveu na sua obra bem conhecida “Don Quijote de La Mancha” apenas pretendo inserir, em termos de mera explicação, um grupo de documentos que em anexo reuni. É mais pelo autor que fazemos este percurso e não tanto pela obra, na qual Quixote e Sancho são as figuras principais desses fantasiosos relatos de aventuras, caricaturando ironicamente, essa moda das bravuras de cavaleiros andantes, que corriam mundos novos e “davam novos mundos ao Mundo” como o fizera Amadis de Gaula, e muitos outros, como até o nosso Luís Vaz de Camões. Entrava-se já pelo século dezassete, mais propriamente 1606, e eis que um Dom, de ilustre fidalguia, saído da Mancha, se faz guiar por um “pangaré de Rocinante” depois de ter feito reluzir de novo as armas e armadura de seus bisavós e de tomar por escudeiro um homem do povo, seu vizinho, o bonacheirão Sancho Pança. Nada se conjugaria com a época sem que houvesse uma donzela, mesmo que do campo, e essa foi Dulcineia de Tomboso…que admira um “louco”, na busca ingénua da verdade, da lealdade, da quase infantilidade, de conquistar um quimérico império de Trapisonda. Este Castelhano, nascido em Alcalá de Henares, em 9 de Outubro de 1547, tentou ser um bravo soldado, mas na batalha de Lepanto, em 1571 – quando a cristandade volta a adquirir o controlo no Mediterrâneo  – Cervantes leva um tiro de arcabuz de um Turco que lhe iria ceifar a mão esquerda (pelo que passou a ser conhecido pelo maneta de Lepanto). Depois de capturado passou cinco anos em Argel e em 1580 é seu pai que o resgata. Atirou-se então às letras, interessando-lhe o desmistificar de uma sociedade de exploradores e falsos heróis. É apanhado pelas redes da Contra-Reforma e conhecerá a destruição da invencível armada, em 1588. Os espanhóis, e o seu Império, sofrerão grandes revezes e o mundo católico estava já dividido. Pelas suas leituras e escritos avulsos é preso em Sevilha, cerca de 1600, onde arquitectará a sua famosa obra. Tal como o fizera entre nós também Gil Vicente, saberá Cervantes escarnecer todos os males que uma sociedade tinha ainda das aventuras marítimas, dos ganhos fáceis, das bravuras contra indígenas índios do novo mundo, das pilhagens, da descrença que monges tinham semeado, dos perigos que vinham dos Otomanos e do Norte de África (onde já perdíamos importantes praças) ou da arrogância dos grandes senhores…Mas como fazer uma obra que escarnecesse de toda essa realidade? Ali estava, em 1606 o seu Don Quijote!

Entre nós o que se passava então? Quando se perde em batalha um Rei, em nome da Cristandade, D. Sebastião? Pois é, toda a  “epopeia” de Quixote se irá encaixar perfeitamente num período de grande frustração portuguesa: a época dos Filipes de Espanha, de 1580 a 1640! Se Cervantes, como Camões, fica ligado ao humanismo do Renascimento, ele tenta acabar com mitos antigos de bravura (leia-se a Arte de Bem Cavalgar de D. Duarte) para deixar perdurar outro mito: o de que um justiceiro, só o pode ser, se for louco! As boas intenções e a generosidade deste cavaleiro andante  vem de Alcalá de Henares, de Cuenca, de El Toboso, de Alcazar de San Juan, da Ciudad Real…A mensagem quixotesca, pode assim considerar-se uma mensagem ibérica, que arrastou as sombras do mal até aos nossos dias, já longe das narrativas fantásticas dos “piratas com pernas de pau e caras de mau”. O novo mundo, essa quimera, encarnada na ganância dos Reis Católicos e na avidez de D.João II e D. Manuel, mais uma vez separa duas linhas por mares e terras traçadas: a do Ocidente e do Oriente! Esses bravos

Que tinham linhagem não tinham a inocência irrequieta de um engenhoso Fidalgo como Quixote, visto também por Miguel de Unamuno. Espero que algo mais possa ser acrescentado com o que os guias nos irão mostrando… para melhor sentirmos o que nestes quatrocentos anos ficou dos escombros desse “glorioso” passado histórico, bem vivo ainda e para  perdurar, para além dos nossos tempos! Hajam muitos Cervantes meus amigos… embora a paz tenha de ser feita e não só prometida, falada, escrita! Mas se estamos aqui é porque o seu contributo para a História da Humanidade foi tão importante como o de Dante Alighieri, de 1265, in A Divina Comédia… essa viagem feita através do Inferno, o Purgatório e o Paraíso, 1313! Por certo Cervantes também o terá lido como a outros tantos. Foi com todos eles que o verdadeiro Humanismo se expandiu até chegar e ser esmagado pelos malefícios dos nosso dias. 

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enero  2.020  nº 27
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Romper com rivalidade entre mulheres imposta pelo patriarcado é nossa missão de gênero
Por Ilka Oliva Corado

Não podemos deixar às gerações que estão por vir um legado de indiferença, de rancores, de discriminação

O domínio patriarcal pensa que nós mulheres devemos sentir inveja entre nós, agradece quando nos odiamos, nos culpamos, quando nos dispersamos em lugar de unir-nos. Quando estamos distribuindo rasteiras para ver cair aquela que acreditamos ser nossa rival. A rivalidade entre mulheres é produto dos padrões patriarcais com os quais crescemos e que estão em todos os âmbitos da sociedade. Romper com isso é nossa missão de gênero.

Não podemos deixar às gerações que estão por vir um legado de indiferença, de rancores, de discriminação; essas meninas merecem crescer em uma sociedade onde as mulheres se comuniquem entre elas, onde se aplaudam as conquistas em lugar de se apunhalarem pelas costas. Uma sociedade onde se deem as mãos para avançar em busca de direitos, onde possam caminhar juntas e saber que qualquer mulher em qualquer lugar do mundo será uma aliada e não uma inimiga. 

Sim, eu sei, são sonhos muito grandes, mas os cumes mais altos são conquistados passo a passo; já fizeram tanto as nossas ancestrais e ainda não é suficiente. O que estamos fazendo nós para continuar na construção desse legado? O que é que vamos dar em troca desses direitos que nos deixaram nossas antecessoras?  Porque a muitas delas lhes custou a vida; foram humilhadas, ultrajadas, desaparecidas para que nós hoje tenhamos o direito de levantar a voz, o direito ao voto. As meninas não merecem que lutemos pelo direito ao aborto?

Uma boa forma de começar a romper esse esquema patriarcal que nos divide seria começar a dizer a outras mulheres que estão bem, que lindos são seus sapatos de tal cor, que sua blusa lhe cai bem, que se expressou bem em tal palestra, que seu trabalho é excelente. Que tal saia a deixa linda, que seu sorriso irradia. Que sua maneira de ser é contagiosa. Que seu humanismo é admirável, que suas ações convidam a imitá-la.

E não há nada de mal em dizê-lo, não há nada de mal que uma mulher diga a outra que está bonita, que lhe cai bem a cor do seu batom, que é linda até sem maquiagem. Isso não quer dizer absolutamente nada mais que isso, que é linda e há que dizê-lo. Há que dizer às pessoas que fazem bem as coisas, quando as estão fazendo bem. Há que dizer que as admiramos por seu empenho, por seu esforço, por seu profissionalismo. Não há nada de mal que outra mulher seja quem o diga. Romper com o padrão da inveja entre mulheres é vital para derrubar o patriarcado. E não, isso não significa que a outra mulher seja homossexual e que se está dizendo isso com outra intenção. Esse é o primeiro modo com que o patriarcado nos desafia; duas mulheres podem admirar-se mutuamente e isso não significa absolutamente nada mais que isso.

Que tal se nos desafiamos e começamos hoje mesmo, olhando ao nosso redor e dizendo às mulheres que nos rodeiam que estão lindas, que fazem bem seu trabalho, que são admiráveis? Talvez custe um pouco no primeiro dia, mas no terceiro eu lhes prometo que será como andar de bicicleta.

E pouco a pouco iremos entrando na luta dos direitos de gênero, e assim oxalá um dia saibamos todas as mulheres que não é necessário colocar o sobrenome do esposo para ser alguém, para mudar de status ante outras mulheres ou ante a sociedade, que isso não nos faz mais importantes, pelo contrário, nos coloca na situação de objetos propriedade de uma pessoa. Porque, onde existe uma lei comum, em que o esposo possa colocar o sobrenome da esposa e diga publicamente sou fulano de tal, da mesma forma que sucede com as mulheres? Sim, isso também é opressão do patriarcado contra as mulheres.

A solidariedade nos tempos que correm
Por: Eugénio de Sá

» Quando as pessoas se importam umas com as outras, sempre dão um jeito de fazer as coisas darem certo.»
( Nicholas Sparks )

Lembro-me, quando ainda era criança, de minha mãe me levar consigo a visitar uma amiga que morava num bairro antigo e pobre de Lisboa. Naquela casa modesta, mais muito limpa, reinava a harmonia. Via-se que o dinheiro não abundava pois o marido era um simples empregado fabril e D, Emília, a amiga da minha mãe, não passava de uma dona de casa com dois filhos pequenos para criar. De súbito, alguém bateu à porta; foram duas pancadinhas tímidas que fizeram a dona da casa ir abrir. Logo se deparou com uma vizinha que vinha anunciar a morte de um idoso que morava duas portas acima. Pedia para que ajudasse a pagar o funeral, pois a viúva não tinha posses e estava muito aflita sem saber como fazer face a essa inesperada despesa.

Vi a preocupação na cara da cara da D. Emília, mas logo limpou uma lágrima rebelde e correu ao quarto para ir buscar parte das suas certamente parcas economias, que então se guardavam em casa. E lá contribuiu como pode deixando duas notas no saquinho que a outra lhe estendia, e que acto contínuo agradeceu. E lá partiu em demanda de outras ajudas para completar o valor necessário.

Aquilo marcou-me para a vida inteira e aprendi que mesmo do pouco pode fazer-se muito para ajudar os outros, os que ainda menos têm. Comecei então a entender o queria dizer a palavra solidariedade.

São difíceis os tempos que vivemos, por isso muitos dizem que são tempos de crise. Mas uma crise é também uma oportunidade de renovação, de projecção de uma nova oportunidade de vida, de procurar ir mais longe…

O mundo está de facto perante a oportunidade de mudar os seus arquétipos que levem à recuperação de valores humanos, e que essa recuperação promovam e assegurem a dignidade da Pessoa e a reencaminhem para a sua condição natural no centro da sociedade.

Entre esses valores avulta a solidariedade, como qualidade  genuína e verdadeira antítese ao individualismo, que assenta no princípio do «salve-se quem puder».

«Eu não acredito em caridade, eu acredito em solidariedade. Caridade é tão vertical: vai de cima para baixo. Solidariedade é horizontal: respeita a outra pessoa e aprende com o outro.

A maioria de nós tem muito o que aprender com as outras pessoas”, escreveu Eduardo Galeano.

Felizmente, longe vão os tempos em que se combinavam acções de «caridadezinha» à mesa de um qualquer chá-canasta de gente bem na vida, que o fazia para sua promoção pessoal, através de iniciativas politicamente correctas mas totalmente desprovidas de reais sentimentos solidários e de empatia para com quem mais deles necessitava. Lá apareciam os jornais e as televisões e lá se projectavam as ditas iniciativas dos tais cidadãos invariavelmente conotados com a política, a alta finança, a indústria, e seus afins.

Que nos lembremos, a melhor definição de solidariedade deu-a João Paulo II ao deixar escrito: “a solidariedade não é um sentimento de compaixão vaga ou de enternecimento superficial pelos males sofridos por tantas pessoas próximas ou distantes. Pelo contrário, é a determinação firme e perseverante de se empenhar pelo bem comum, ou seja; pelo bem de todos e de cada um, porque todos nós somos verdadeiramente responsáveis por todos”.

Acreditamos que as novas gerações – que, apesar dos muitos defeitos que se lhes apontam –  parecem constituir-se por gente mais sincera e decidida,  num futuro próximo não irão consentir hipocrisias nem aturar manobras que venham continuar a aviltar o relacionamento social, envenenando-lhe a natural bondade e a desejável genuinidade.

Neste mundo ocidental a que pertencemos, é sabido que as populações estão cada vez mais envelhecidas, atendendo à quebra da natalidade. Por outro lado, graças aos avanços no campo da investigação, as populações do hemisfério norte vão ganhando uma maior longevidade, factor que vai envelhecendo a respectiva sociedade, tornando-a mais vulnerável às alterações climáticas, e consequentemente carenciada de maiores atenções e cuidados. Daí, que se espere que a solidariedade não se fique por meras acções individuais, sempre de louvar, mas escassas quando se trata de acudir a largas franjas da comunidade. E assim, cabe naturalmente aos estados, e, a uma escala alargada, aos esforços conjugados de um ou mais conjuntos de nações promoverem a solidariedade, que é “o sentimento que melhor expressa o respeito pela dignidade humana”, assim o afirmou Franz Kafka.

Obviamente corroboro dessa definição.

Solidariedade ou fraternidade?
|Dr Rubens Siqueira

É fundamental diferenciarmos solidariedade de fraternidade. Solidariedade é a ação de ser bondoso com o próximo, assumindo uma função de colaborador. Portanto, ser solidário consiste em ajudar o outro, com boas intenções e generosidade. Já a fraternidade consiste em uma responsabilidade recíproca, que emerge quando o ser humano não pode mais fundar sua vida no controle que tem sobre o seu ambiente, mas á obrigado a fundá-la sobre a relação com outro ser humano.

A solidariedade é um processo de via única, na qual doamos, mas sem esperar reciprocidade. A fraternidade por outro lado apresenta uma via dupla, ou seja, existe uma reciprocidade.

Diante desses conceitos, podemos concluir inicialmente que a solidariedade é uma atitude emergencial, mas não provoca mudança positiva no receptor, mas pelo contrário, o receptor acaba ficando aguardando a próxima “solidariedade” para beneficia-lo e continua na mesma condição. Esta postura acaba levando o receptor a tornar-se acomodado e sem uma solução ou perspectiva para tira-lo daquela condição. O continente africano sofreu deste grande mal com as inúmeras organizações de solidariedade enviando doações de alimentos, vestuários, medicamentos e acabou educando muitas comunidades africanas a uma cultura de receptores sem mudança de realidade e continuamente dependentes.                                                                                

Portanto a solidariedade é um sistema vertical (doação de cima para baixo sem reciprocidade) e a fraternidade, um sistema horizontal (sistema com reciprocidade e ação bilateral).

Apesar da solidariedade ser uma atitude que gera mais um cuidado emergencial do que uma solução social, não deixa de ter seu grande valor, especialmente por estar vinculada ao conceito de caridade.

E nessa questão temos que estar cientes que existe uma diferença entre ser solidário e ser caridoso.

 A solidariedade é um estímulo, uma maneira maravilhosa de expressão do bem, para tornar o ambiente em que vivemos um local menos desigual, socialmente falando. Já a caridade, vai além… A caridade vem de dentro e, normalmente, é invisível perante os olhos da sociedade.

A solidariedade modifica o ambiente exterior, tornando o mundo um lugar melhor para viver, mas não deve ser confundida com caridade, que é uma modificação do universo interior refletida em singelos gestos cotidianos, que não espera recompensas (nem divina), nem agradecimentos.

Portanto a caridade consiste no amor incondicional, compaixão e empatia e subentende um valor muito acima de apenas um ato de solidariedade, mas vazio de amor, apenas uma ação social.

A caridade acaba participando ativamente do processo de transformação do coração do doador, tornando-o uma pessoa mais humana, altruísta e que de certa forma acaba funcionando como uma luz para uma nova humanidade centrada no amor ao próximo. Assim a solidariedade com caridade apesar ter pouco poder de transformar interiormente o receptor, trata-se de uma poderosa terapia para a mudança do doador.

Caridade não é doar o que tem, é se doar… Caridade é amar.

 

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CRÓNICAS, ARTIGOS E OUTROS TEXTOS

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Noviembre   2.019  nº 25
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Romper com rivalidade entre mulheres imposta pelo patriarcado é nossa missão de gênero
Ika Oliva Corado

Não podemos deixar às gerações que estão por vir um legado de indiferença, de rancores, de discriminação

O domínio patriarcal pensa que nós mulheres devemos sentir inveja entre nós, agVista previa (abre en una nueva pestaña)radece quando nos odiamos, nos culpamos, quando nos dispersamos em lugar de unir-nos. Quando estamos distribuindo rasteiras para ver cair aquela que acreditamos ser nossa rival. A rivalidade entre mulheres é produto dos padrões patriarcais com os quais crescemos e que estão em todos os âmbitos da sociedade. Romper com isso é nossa missão de gênero.

Não podemos deixar às gerações que estão por vir um legado de indiferença, de rancores, de discriminação; essas meninas merecem crescer em uma sociedade onde as mulheres se comuniquem entre elas, onde se aplaudam as conquistas em lugar de se apunhalarem pelas costas. Uma sociedade onde se deem as mãos para avançar em busca de direitos, onde possam caminhar juntas e saber que qualquer mulher em qualquer lugar do mundo será uma aliada e não uma inimiga. 

Sim, eu sei, são sonhos muito grandes, mas os cumes mais altos são conquistados passo a passo; já fizeram tanto as nossas ancestrais e ainda não é suficiente. O que estamos fazendo nós para continuar na construção desse legado? O que é que vamos dar em troca desses direitos que nos deixaram nossas antecessoras?  Porque a muitas delas lhes custou a vida; foram humilhadas, ultrajadas, desaparecidas para que nós hoje tenhamos o direito de levantar a voz, o direito ao voto. As meninas não merecem que lutemos pelo direito ao aborto?

Uma boa forma de começar a romper esse esquema patriarcal que nos divide seria começar a dizer a outras mulheres que estão bem, que lindos são seus sapatos de tal cor, que sua blusa lhe cai bem, que se expressou bem em tal palestra, que seu trabalho é excelente. Que tal saia a deixa linda, que seu sorriso irradia. Que sua maneira de ser é contagiosa. Que seu humanismo é admirável, que suas ações convidam a imitá-la.

E não há nada de mal em dizê-lo, não há nada de mal que uma mulher diga a outra que está bonita, que lhe cai bem a cor do seu batom, que é linda até sem maquiagem. Isso não quer dizer absolutamente nada mais que isso, que é linda e há que dizê-lo. Há que dizer às pessoas que fazem bem as coisas, quando as estão fazendo bem. Há que dizer que as admiramos por seu empenho, por seu esforço, por seu profissionalismo. Não há nada de mal que outra mulher seja quem o diga. Romper com o padrão da inveja entre mulheres é vital para derrubar o patriarcado. E não, isso não significa que a outra mulher seja homossexual e que se está dizendo isso com outra intenção. Esse é o primeiro modo com que o patriarcado nos desafia; duas mulheres podem admirar-se mutuamente e isso não significa absolutamente nada mais que isso.

Que tal se nos desafiamos e começamos hoje mesmo, olhando ao nosso redor e dizendo às mulheres que nos rodeiam que estão lindas, que fazem bem seu trabalho, que são admiráveis? Talvez custe um pouco no primeiro dia, mas no terceiro eu lhes prometo que será como andar de bicicleta.

E pouco a pouco iremos entrando na luta dos direitos de gênero, e assim oxalá um dia saibamos todas as mulheres que não é necessário colocar o sobrenome do esposo para ser alguém, para mudar de status ante outras mulheres ou ante a sociedade, que isso não nos faz mais importantes, pelo contrário, nos coloca na situação de objetos propriedade de uma pessoa. Porque, onde existe uma lei comum, em que o esposo possa colocar o sobrenome da esposa e diga publicamente sou fulano de tal, da mesma forma que sucede com as mulheres? Sim, isso também é opressão do patriarcado contra as mulheres.

 ALTAR DA MINHA CRUZ
Eugénio de Sá

( A todos os que consagram à poesia boa parte de si mesmos )

   Somos donos de um feixe de nervos, e, talvez por isso, embora apregoemos que buscamos a tranquila mansidão dos dias, só nos sentimos realmente vivos quando se tece em nós uma teia de emoções. E essa ânsia, essa necessidade, acaba por se tornar num vício que procuramos alimentar de exercícios espirituais sempre vez mais intensos.

   Daí, a tal solidão de que falamos quase como cousa almejada, pois só no isolamen-to a que nos votamos logramos enlear-nos na tal teia de emoções. E essa solidão não significa que tenhamos de estar fisicamente sós; pode haver gente à nossa volta, que a sempre esperada evasão espiritual nisso não encontra obstáculo.

   E é nesses momentos em que o tempo parece suspender-se, nesses momentos em que nos encontramos numa espécie de êxtase, que sentimos o impulso de escrever, de expor a alma à brancura da tela, que se nos oferece,  virgem, à voragem dos dedos que querem teclar sobre ela as palavras que reclamam por ser escritas.

   É desse íntimo “feelings storm” onde se debatem ideias e sentimentos, que acaba por brotar, espontânea, a nossa poesia, fundada na metáfora que cavalga a nossa expressão criativa.

   Corre dentro de nós todo um processo de exacerbação de sentidos; são as estridências da lenha que crepita numa lareira, é o uivar do vento entre as enxárcias de uma nave, são os latidos dos cães que alertam os caçadores, é o rebentar do mar nas rochas alcantiladas de uma penedia, é o manso pranto de alguém em luto pelo ente querido…

   E então enchemo-nos de ruídos, de fantasias, de frases soltas…de histórias por contar.

   Respeitamo-nos, e sabemos que podemos contar com o respeito de quem partilha connosco a sua vida, com a compreensão das pessoas que amamos e que nos amam.

É tudo uma questão de uma assumida separação de águas, como as de dois rios que correm paralelos até à foz sem que os seus leitos se misturem precocemente.

   E a vida vai correndo na bonomia da aceitação deste convívio inteiramente isento de crueldade. Quem nos conhece, aceita-nos como somos; às vezes evadidos da pre-sença física que prova que ali estamos, mas só na aparência, porque o nosso espírito voga quiçá por outras latitudes onde até os horizontes são quiméricos.

Um pouco mais, sobre a mulher…

Carolina Ramos

O assunto mulher é inesgotável! Tenho netas e bisnetas e penso nelas, em particular, ao abraçar o tema.

Nós, mulheres, que ao mundo já mostramos do quanto somos capazes, fazendo jus às nossas reivindicações, precisamos reconhecer estar na hora de dar um passo atrás! Ponderemos:

 Desde a conquista do direito de votar, já avançamos muito, e, por certo, muito ainda nos resta a conquistar, contudo é preciso reconhecer que, em alguns pontos, fomos além do pretendido! Reitero o que já disse publicamente, há algum tempo, em palestra sobre a mulher, ante um auditório plenamente feminino.

 Esse “além”, avançado após a corrida em prol das nossas justíssimas reivindicações, absolutamente não nos foi útil! Um pequeno passo atrás, em nossas andanças, não faria mal algum à conquista de direitos e nossa feminilidade até muito se beneficiaria com isto! Em virtude desse extrapolado avanço, nós, mulheres, de certa forma nos descaracterizamos um pouco, ultrapassando, por vezes, limites do bom senso. Exemplo: – Se a mulher atual conquistou seu merecidíssimo “lugar ao sol”, isto não quer dizer que se deva desnudar perante o “astro rei”, ou quase! Se vivemos numa cidade praiana que, idealisticamente, oferece o que há de melhor para repouso, diversão, inspiração, etc., nossas praias, a exemplo das demais do mundo, mercê desses avanços, transformam-se em vitrines abertas que exibem joias da beleza feminina, sem isentá-las da cobiça do sexo oposto.  Ou será justamente isto o que a mulher pretende, com essa exibição pública … alçada ao exagero?!

Negando-me a ser retrógrada ou puritana,  o que, no presente, até seria desculpável, asseguro, com apoio em longa vivência, que se conscientemente abrandada a atual exposição feminina e também um pouquinho contida a avidez de tentar ombrear-se, ou até sobrepujar, certos valores masculinos, haveria, hoje, um pequeno retrocesso altamente benéfico à mulher, que recuperaria valores perdidos, firmaria as bases da sua feminilidade e ainda o respeito daquele que a venha cobiçar, ou melhor,  amar como  de fato ela merece!

Os homens não precisam de iscas! Eles chegam em cardume, a valorizar muita coisa mais importante que simples atrativos físicos exibidos às escâncaras a céu azul! Esse mesmo céu azul, que, aos poucos, se tornará cinzento, dando a tais atrativos, de forma implacável, o brilho efêmero de um relâmpago!

  A dignidade de um homem não exige que a mulher perca a sua, para conseguir chegar até ela. Não é preciso ir tão longe!

Pensemos nas gerações vindouras, que, uma vez chegadas a este mundo, se defrontarão com portas e janelas escancaradas! Que saibam usá-las com critério, sem ousar avançar ainda mais, expondo-se ao risco de encontrá-las fechadas, quando tentem um retrocesso, tão logo reconhecidos os limites ultrapassados. Pode não haver caminho de volta!

            O homem, quando realmente quer, sabe como conquistar a mulher que almeja. Foge daquelas que, velada ou ostensivamente, leiloam predicados em hasta pública. Estas, só interessam por pouco tempo – festa para os olhos, não para o coração!

            Para a mulher, nada melhor que ser a escolhida! E, dentro da mais autêntica feminilidade, ter o direito de aceitar, ou não, quem a escolheu – quem sabe, até por ela já escolhido, como na maioria das vezes acontece.

Com base no amor e no respeito mútuo, formam-se pares felizes, que embarcam seus sonhos num mesmo navio, livres de amarras, prontos para, ao aceno do amor, iniciarem aquela viagem, nem sempre fácil, fiéis ao lema, “até que a morte nos separe”, ou, tão somente, ao sabor do “infinito enquanto dure”, como poeticamente dizia Vinícius. O que é sempre lembrado, quando alguém, consciente, pretende falar de amor.

1 comentario en “CRÓNICAS, ARTIGOS E OUTROS TEXTOS”

  1. Ika oliva – Gostei demais de tua Narrativa! Do início ao fim, concordo com tua explanação! Parabéns!Lembro
    de uma amiga, pintora, que veio de outro país e se estabeleceu na minha cidade… não falava a nossa língua.
    Artista consagrada… se associou ao grupo de artistas do qual eu era secretária. Ela enviava e-mails e eu tinha
    que adivinhar a linguagem que ela «tentava» produzir . Então eu devolvia cada e mail, traduzindo em português,
    o que ela «queria me dizer» durante muito tempo.
    Ela passou a ser minha maior amiga…tempos depois ela me segredou : – Cema eu adoro você! eu perguntei
    – Como assim? E ela esclareceu:
    -Quando cheguei aqui , eu não sabia falar tua língua e, devolvias todos os meus e-mails traduzidos, aprendi maior
    parte contigo! Isso nunca vou esquecer!
    Hoje Somos amigas irmãs…falando a mesma língua e a mesma linguagem…
    Falei demais,Ika mas concordo com você: Amizade não tem preço: É , e pronto!

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CRÓNICAS, ARTIGOS E OUTROS TEXTOS

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Octubre  2.019  nº 24
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As insurgentes: Alice Munro e a falta de glamour que levou o Nobel da Literatura
Olivia Corado
“A questão é ser feliz. A todo custo. Tente. É possível, e logo se faz ainda mais fácil”
“Escrevi meu primeiro romance porque queria lê-lo”. – Toni Morrison. 
 A agudeza da escrita de Alice Munro está marcada pela simplicidade e naturalidade com que conversaria qualquer dona de casa com suas amigas na cozinha enquanto prepara o almoço para os filhos.  Alice escreve com a inocência com que falam as mulheres que trabalham limpando quartos de hotel e das que nos povoados inóspitos passam as tardes lavando roupa nos tanques públicos. 
Escreve assim, porque Alice é assim. Alice escreve o que é. Não há glamour em sua escrita nem palavras rebuscadas, não existe o alarde académico que busca impressionar o leitor, mas tem honestidade e é isso juntamente com a genialidade de seu talento o que faz das suas letras a excelência que a levou a ganhar o Nobel de Literatura.
A escritora estadunidense Paule Marshall, explica isso muito bem no seu texto, “Dos poetas na cozinha”, publicado em 9 de janeiro de 1983. Neste texto ela conta que enquanto dava aulas em um seminário de ficção na Universidade de Columbia, chegou um escritor convidado para fazer uma palestra para seus alunos; esse homem lhes disse que as mulheres escritoras têm muito mais sorte que os homens escritores porque elas, desde crianças, passavam muito mais tempo com suas mães e amigas na cozinha e isto as enriquecia em linguagem e na hora de desenvolver as diálogos, coisa que não sucedia com os homens. Não era uma afirmação sexista, como ela imaginou no primeiro momento. 
Pensou então na linguagem cotidiana e na sabedoria que dá o dia a dia e que um escritor pode explorar muito bem em suas histórias. Todos os sentimentos profundos e a complexidade das ideias são expostas com facilidade na linguagem simples da convivência diária. A escritora Grace Paley em suas aulas de escrita recebe seus alunos novos com esta frase: “Se você diz o que pensa no idioma que chega de seus pais e seus amigos e sua rua, provavelmente dirá algo bonito”. 
Também o afirma Alice Munro em 2013, em uma entrevista televisada para o Nobel de Literatura, quando conta que em no seu povoado, em sua adolescência, as mulheres eram as que liam e contavam histórias porque os homens estavam fora fazendo coisas importantes. E onde as mulheres escrevem com mais facilidade, mas onde os escritores mais importantes são homens, porque é um agravo e um descrédito que seja uma ocupação de homens e as mulheres sejam as renomadas. 
As letras chegaram à vida da Alice logo cedo e começou a escrever quando era criança e leu um conto de Hans Christian Andersen, “A sereiazinha”, mas não gostou o final porque achou muito triste; para ela a sereiazinha não merecia tanto sofrimento nem tanto sacrifício, tampouco um final tão trágico que a deixasse esquecida e inominável; por essa razão, ao terminar a leitura deu várias voltas em torno da sua casa pensando e decideu escrevê-lo, mas com o final diferente que fosse digno do seu sacrifício, fez justiça à heroína, porque isso era para ela a sereiazinha, uma heroína.  
Alice fez com esse conto o que diz Toni Morrison que devemos fazer. Se há um livro que desejamos ler e que ainda não está escrito, devemos escrevê-lo. E foi assim que sua literatura se encheu de heroínas às quais queria fazer justiça, enaltecer e imortalizar. Sem conhecer a palavras feminismo, era uma feminista.
Escreveu no princípio de sua obra literária muitas histórias com finais felizes, de propósito, porque queria dar felicidade às heroínas de seus relatos, mas pouco a pouco foi transformando seus contos e lhes deu finais que estão longe da alegria, mas que são parte da experiência humana.
Era uma dona de casa que em seus  momentos livres escrevia, deixava seus textos pela metade quando chegavam suas filhas da escola, textos que retomava depois de passar roupa, de preparar o jantar; nunca teve tempo suficiente nem a privacidade do quarto próprio do qual fala Virginia Woolf,  para sentar-se a escrever e esmiuçar um texto até que ficasse perfeito, levando todo o tempo que fosse necessário. Ela rompe com o molde do que deve ser e fazer um escritor, segundo os estereótipos. 
Alice tampouco passou a vida metida no mundo cultural da cidade na qual vive, não comparece a eventos sociais porque se sente alheia, como também no mundo dos escritores, poetas e no dos intelectuais. Diz que é uma dona de casa que optou por escrever para matar o tédio do trabalho doméstico. 
É por essa razão que a literatura de Alice Munro está limpa de todo viés acadêmico porque não pisou na universidade, porque não a perseguem os fantasmas que aprisionam os escritores titulados que sentem que devem se meter dentro de um paletó perfumado para escrever com as fanfarras da academia ou minar um campo com palavras rebuscadas para impressionar o leitor. 
De fato, Munro nunca soube que seus texto podiam ser vendidos, isso veio muito depois quando já havia jogado no lixo centenas deles. Também a venda de seus livros chegou de surpresa, como o Nobel de Literatura, que nunca acreditou ganhar, não por falta de capacidade, mas por ser mulher. Alice é muito sincera com as suas colocações, franqueza que não está manchada pelo status das classes sociais, da academia, nem pelas loas do mundo artístico. 
Alice, por essa razão, é uma mulher insurgente, porque se atreveu a romper com o protótipo da esposa e mãe que deve se dedicar de corpo e alma ao seu esposo e seus filhos, e deixar de viver para viver por eles, através deles, esquecendo de si mesma. 
 É uma insurgente que com sua resistência como escritora deixou um legado às gerações de mulheres que, como ela, são esposas e mães, e as convida a não desistir, chama-as a atrever-se, a sonhar, lhes dá a mão e as convida a caminhar em busca de outros horizontes para sua realização pessoal. Fala a todas nós sem distinção alguma.
 Convida-nos à expressão, a sair do silencio, do fastio. Nos apela para nos pronunciarmos das formas que encontremos para nosso próprio desafogo. Não tem que ser com a escrita, mas tem que sem, sim. Devemos revelar-nos, devemos levantar-nos.
 Alice é a mulher comum vivendo uma vida comum, que escreve na linguagem habitual da qual falam Grace Paley e Paule Marshall, que decidiu fazer algo fora da norma como o fez Toni Morrison, para poder respirar e buscar sua própria felicidade. Felicidade que ela descreve muito bem neste trecho:
“A questão é ser feliz. A todo custo. Tente. É possível, e logo se faz ainda mais fácil. Não tem nada que ver com as circunstâncias. Você nem pode imaginar até que ponto funciona. Aceitam-se as coisas e a tragédia desaparece. Ou pesa menos, em todo caso, e de repente você descobre que está em paz com o mundo”.

Falemos do teatro da vida
Uma Crónica de Eugénio de Sá
Nesta época dita da comunicação, somos quotidianamente tomados de assalto por todos os meios que difundem noticias e actualizam toda uma vasta panóplia de matérias cuja absorção inconscientemente limitamos ao consumo do que consideramos essencial.
Ouvimos, vemos, lemos muita coisa de muita gente; repórteres, governantes, cronistas e pretensos formadores de opinião com variadas visões sobre a sociedade e os seus mecanismos técnicos, sociais e culturais, religiosos, etc. Enfim; tudo o que à vida diz respeito.
O curioso é que nos esquecemos de comunicar connosco próprios, de conhecer o que sentimos e sobretudo o que sentimos sobre o “outro”; o nosso irmão, o nosso vizinho, o nosso companheiro(a).
Em segundo plano, vamos colocando o humor, a fantasia, enquanto subalternizamos a verdadeira cultura, na qual se inclui a boa leitura, a poesia e o teatro, tão importantes no equilíbrio de um espírito saudável e de um carácter bem formado.
Assumimos os nossos papéis ao ponto de os auto teatralizar, de tal modo que depois nos esquecemos do ser quem realmente somos, ou seja; de gerir, com realismo, as nossas próprias emoções. E o pior é que nos esquecemos também de tentar entender o “outro”, com consequências muito negativas em termos da nossa intervenção na comunidade a que pertencemos fisicamente, mas sem nos envolvermos em termos sensoriais e intelectuais, e até deixamos cair sentimentos como os da verdadeira amizade, da partilha, do altruísmo, da solidariedade, ou mesmo os de um sincero amor.
Hoje em dia fala-se muito em “presentismo”, termo inventado que pretende significar o estar-se fisicamente presente, mas sem o estar realmente de espírito pleno. Refiro-me à vida familiar, social, e ao próprio emprego, onde se espera de nós a disponibilidade de todas as nossas capacidades mentais e caracteriais, e, naturalmente, o nosso justo e total empenho.
O fenómeno tem tanto mais razão de ser quanto é verdade que o nosso cérebro absorveu demasiada informação para cuja adequada gestão não está, obviamente, preparado.

Parece que assim estaremos a pôr “a carroça à frente dos bois”, o que decididamente não nos leva a lado nenhum, a não ser a um perigosa anarquia de sentidos potenciadora de perigosas patologias do foro neurológico.
Contrariar este processo que ameaça tornar-se irreversível, não é fácil, mas é forçoso que o tentemos, sobretudo a bem dos mais jovens, que contam que sejamos os seus heróis, as suas referências, tal como nós contámos com os nossos progenitores e outros familiares.
Talvez uma boa terapia seja mesmo a de ir ao teatro, e, uma vez lá, deixemo-nos penetrar pelo mundo encantado, esse sim; do faz de conta. Mas, uma vez de volta à vida real, sejamos autênticos num mundo que bem precisa do nosso realismo.

2 comentarios en “CRÓNICAS, ARTIGOS E OUTROS TEXTOS”

  1. » AS INSURGENTES»:
    Gostei muito do que li! Seria monótono se todos fossem iguais na maneira de relatar… Concordo e acho muito especial sua narrativa : ALICE, faz lembrar que escrever é maravilha, que realiza sonhos. O texto me prendeu ao Tema, do começo no meio…
    e no final, que ficou especial! Prabéns Olivia…eobrigada!

    Responder
  2. » FALEMOS DO TEATRO DA VIDA»:
    Para mim comunicação é como uma Roda Gigante, que nos faz girar em altos e baixos de diversas maneira, entre elas, a «Cronica»! Lendo ou ouvindo, vamos tendo uma visão geral sobre o tema proposto! Dá vontade de escrever também!
    A leitura de uma crônica, é atraente pelo conteúdo, geralmente intenso e condensado.
    Nessa Roda Gigante, ventos às vezes interferem, mas cabe sempre ao escritor dosar, o conteúdo da melhor maneira
    possível no sentido de manter o interesse no leitor. Gostei da crônica sobre o teatro da vida, que precisa tender para o
    realismo do qual muitas vezes temos que enfrentar além de, ventos e tempestades! Belo e assertivo trabalho,Parabéns!

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CRÓNICAS, ARTIGOS E OUTROS TEXTOS

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Agosto  2.019  nº 22
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O desnudar da alma
Uma Crónica de Eugénio de Sá
Uma alma pobre acaba por desfalecer, esvaziar-se de vontade, e morre antes do corpo que a acompanha nessa viagem até à eternidade. Porque a verdadeira riqueza de um espírito é aquela que se funda no amor, no amor por si própria e pela humanidade.
A propósito, cito um trecho da página 38 da obra
“Meditações de Dom Quixote”, de José Ortega y Gasset:
 – O amor é um divino arquitecto que baixou ao mundo – segundo Platão – a fim de que tudo no universo viva em conexão». A inconexão é o aniquilamento. O ódio fabrica inconexão, isola e desliga, atomiza o orbe e pulveriza a individualidade.
A alma, essa desconhecida.
Esconde-se do mundo, e até de nós, a verdade de quem somos, realmente. E o que somos, para além de uma cúmulo de dogmas e conceitos, crenças e emoções, que nos condicionam e formatam o carácter? – Para os outros, somos a aparência que transmitimos pelas formas da nossa anatomia física, da máscara composta das nossas feições, enfim; do nosso aspecto geral, a que se soma o estatuto social, fruto das nossas conquistas e méritos, e ainda pelos comportamentos e atitudes que vamos assumindo em relação ao mundo que nos rodeia e nos acolhe, e que está bem carente de exemplos e referências de propósitos nobres e de acções de louvável sensibilidade humanitária.
Alguém – que não consegui identificar – escreveu esta sábia reflexã
 “ Não se deixe enganar pelo rosto que eu uso, porque é apenas uma máscara, uma das máscaras que tenho medo de tirar e nenhuma delas sou eu. Aparentar é uma arte que domino. Quero dar a impressão de ser forte, que dentro e fora de mim há um dia ensolarado e pacífico, que o mar é sereno e eu sereno ao leme, não preciso de ninguém. Mas não acredite em mim; o meu exterior reflecte serenidade, mas é apenas uma máscara, sempre a mudar, sempre a esconder o que realmente se passa cá dentro. Atrás dela há confusão, medo e solidão, mas isso eu escondo, e não quero que ninguém saiba que estou em pânico, porque assim a minha fraqueza e o meu medo ficariam expostos. Mas se insistir em viver a partir da mentira e do medo estarei a ser conveniente com o engano e a vergonha de não ser capaz de ser eu próprio “.
Embora se reconheça que a natural tendência do ser humano civilizado e actual corresponde a boa parte destas afirmações, temos de pugnar, isso sim, por ser fieis à verdade daquilo que somos, e deixemos aos demais a avaliação que quiserem conferir à nossa acção neste mun
Na realidade, uma consciência íntegra recusa a ostensiva ostentação de bens materiais e atitudes arrogantes, em detrimento de outras mais reflexivas, moderadas, e consentâneas com as de um espírito bem formado.
Não é, infelizmente, este o espelho do que vemos nos média, que vivem a bajular toda a sorte de vaidades e exibicionismos de gente que “eles” qualificam de VIP’s, ou seja: aqueles que, de alguma forma, se encaixam nos padrões ditos mais elevados da sociedade, mas que quase só consideram o que toca à vida material, porque outros, os que se vão distinguindo por actos valorosos e méritos próprios, e que porventura mereceriam mais ser objecto desse natural relevo, são por norma ignorados pelos senhores dos jornais e das televisões. Com excepção dos craques interventores no chamado desporto-rei: o futebol, e nalguns outros desportos de elite.
 Dentro de nós há todo um mundo dual que se move em direcções opostas, raramente convergentes, mundo que não revelamos, optando por manter a “fachada perfeita”. E isso basta para que vivamos confundidos, evitando quaisquer auto-análises que acabariam inevitavelmente por se revelar auto-censórias e, portanto, dolorosas.Todavia, contamos com a nossa vertente espiritual para nos alertar e conduzir ao equilíbrio e necessaria-mente à verdade, essa verdade que é mister que defendamos a todo o custo, dentro de nós para que a possamos levar aos outros.
E fiquemos com estas incontornáveis verdad
Podemos esconder-nos atrás da máscara mais sorridente, enquanto o nosso coração chora de dor; podemos adoptar o ar mais seguro, mas em nós poderá estar tremendo de medo a criança indefesa que somos; podemos disfarçar-nos sob um esgar ameaçador e até violento, mas não deixaremos de ser um ser rejeitado sofrendo a solidão mais profunda.
Podemos ser tudo isso, mas sempre teremos a opção de assumir a verdade em tudo o que somos e sentimos, e não nos envergonhar-mos de o parecer.

Atrever-se a curar a ferida
Ilka Oliva Corado
Não importa se a primeira expressão surge com medo, raiva, raiva, impotência ou frustração e é por isso que ela ressoa e lança chamas ou queima como brasas; se ele arranhar, se gritar, se chorar de forma lamentável ou se der um soco no vazio; realmente isso não é o importante, o importante é que a ferida começou a cicatrizar.
Não importa se os degraus são vacilantes, se são três para frente e um para trás, se vai para o lado ou em ziguezague, o que realmente importa é ficar de pé e tentar andar mesmo que a princípio você só possa engatinhar ou engatinhar; Em algum momento, a força e o equilíbrio virão e os passos serão precisos.
Não importa se a crítica vem como ondas, como lava, como um baque ou uma chuva, crítica não é importante, o que não é importante de fora, o que realmente importa é a metamorfose que está ocorrendo dentro, quando começa a se curar ferida.
Não importa se a mão treme e o pulso puxa com os fios da escova, um caminho curvado em vez de um caminho reto, o momento virá quando a calma fará com que a tela seja um jardim cheio de girassóis. E se o jardim não ocorre e se em vez de girassóis são pedras, rosas ou vestígios de uma cabana, onde é alcançado por um caminho inclinado, não importa, o primordial nunca foi o pino da janela, mas a própria janela mesmo que permite ver tudo o que quatro paredes não. A expressão é essa, é a janela da alma e ao abri-la a ferida é curada.
Não importa se o texto de uma matéria, artigo, ensaio ou poema não tem o contexto, a profundidade e a gramática apropriados, chegará a hora em que eles serão apropriados para os outros, ou talvez nunca aconteça, mas isso não é importante, o importante é que eles são o caminho para reduzir a necessidade de quem escreve naquele momento, porque é vital curar a ferida. O importante é curar a ferida, não o que os outros pensam. Tudo o resto é secundário.
Porque só curando a ferida a expressão se torna alegria, calma e felicidade. Chegará o tempo em que não vai doer mais, será então …, mas ainda que doa, a resistência está em atrever-se a curar a ferida.

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Junio   2.019  nº 20

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O
BURACO DE ESTIMAÇÃO
Por:Eugenio de Sá
  Isto, meus amigos, há buracos e há buracos; os da rua e os da estrada, na sua grande maioria são autênticas ratoeiras para peões e automobilistas. Mesmo os mais
atentos caem neles, para logo amaldiçoarem os respectivos responsáveis que têm de os reparar, seguindo-se  as incontornáveis invectivas com os mais feios palavrões, pelo seu desleixo.
  Mas, todavia, há outros buracos, os de «estimação», aqueles a que nos vamos acostumando com o tempo, e quem sabe se, por sermos seres controversos, não lhes sentiríamos a falta depois de devidamente tapados.
  É o caso deste, que mostra o asfalto mergulhando no vácuo, ali bem perto do estádio dos leões, no cosmopolita bairro de Alvalade da nossa elegante e turística Lisboa.
  Quem siga pela Alameda das Linhas de Torres em direcção ao Lumiar e volte à esquerda na rua António Stromp, basta-lhe andar 50 metros e logo dá com ele à sua direita, mesmo à porta de uma casa de comeres e beberes.
  Pois este buraco que está completamente cercado de protecções, e bem sinalizado, faz tempo que completou um ano de existência, e os lojistas locais tal como os transeuntes e automobilistas que por ali passam habitualmente, já se acostumaram à simpática fenda rodoviária, e até se lhe afeiçoaram, como eu.
  Ainda vou dar-me ao trabalho de saber quando é que o buraquinho completa o segundo aniversário, para juntar uns quantos compinchas e, aproveitando o bar-restaurante que lhe é vizinho, far-lhe-emos um brinde e cantar-lhe-emos todos os “parabéns a você”.
  Porque isto, meus amigos, sempre há buracos com muita sorte !

EM DIAS DE CHUVA
Lika Oliva Corado
Meus pés caminham outras terras, mas meu espírito em dias de chuva, volta a chapinhar nos lodaçais dos caminhos que abrigaram minha infancia.
Sim, sim, sim, regularmente fumigo meu quarto, como nesta manhã de chuva. O aroma da folha de tanchagem me faz recordar o cheiro dos fogões acesos na Guatemala popular. Aqui não há fogões, nesta enorme urbe industrial só há fábricas enfileiradas no Bairro das Empacotadoras, embora uma outra vez vi um forno em uma chácara fora da cidade e fiquei sem fôlego e não podia respirar; um forno!
Gritei e corri desde o pequeno estábulo onde estavam as cabras e cruzei a horta e cheguei no telheiro que no centro tinha um forno artesanal. Um forno! Tornei a gritar emocionada e meu grito foi escutado pelas cabras, tomates, alfaces e macieiras e pereiras que começam a se encher de frutas tenras. Sentei-me a chorar na sombra do telheiro enquanto o imaginava fumegando, com salpores, quesadillas, marquesotes e semitas da minha Comapa natal.
Sim, sim, sim, em dias de chuva, como hoje, Guatemala me brota pelos poros, inunda meu quarto, sua névoa entra pelas frestas da janela e se balança nas teias de aranha que nunca limpo, e eu perco a noção do tempo e confundo as árvores, e nas tulipas vejo flores de maio, nas cerejeiras em botão, flores de chacté e a grama que começa a reverdecer parece o resto da arada em meu Grande Amor. Tudo se distorce nos dias de chuva, como hoje
Sirvo-me o café fervido em um caneco de barro da aldeia Las Crucitas, a paisagem do rio Paz se estampa nas paredes sobre meus abstratos e o som da água caindo desde La Joya nas pedronas da quebrada se harmonizam com o gotejar desta manhã. Os dias de chuva têm um estranho encanto, um poder subliminar que faz com que Guatemala brote por meus poros e plante no jardim os ciprestes, os tanques, as semeaduras da Maria do tomatal; as páscoas, as cepas, as ameixas, o caminho e o caminhão, e estampa como uma  enorme pintura impressionista as memórias mais felizes da minha infância na Ciudad Peronia.
Sim, sim, sim, me fui de corpo não de alma, meus pés caminham outras terras, mas meu espírito em dias de chuva, como hoje, volta a chapinhar nos lodaçais dos caminhos de terra que abrigaram minha infância. Eu o observo, sorvendo meu café fervido e saboreando imaginariamente no paladar uma semita das da Adelona. Tempos de flores de izote e dos últimos jocotes vermelhos de Jalpatagua, tempo de semear o milho para que a semente germine com os primeiros aguaceiros de maio. Tempo das últimas mangas, de pashte ou de brea e tempo também aqui, nesta enorme urbe industrial, da primavera que em seus dias de chuva faz com que Guatemala brote por meus poros e o gramado verde do jardim se converta em um livro de histórias dos que nunca acabo de escrever. 
Sim, sim, sim, continuo fumigando meu quarto, porque o cheiro da tanchagem me fez recordar os dias em que cortava chipilín e escobillo no campo recém arado, em meu Grande Amor, em dias de chuva, como hoje. 

2 comentarios en “CRONICAS, ARTIGOS E OUTROS TEXTOS”

  1. A grande beleza dois textos emocionaram minha alma. A deliciosa ironia do «Buraco de estimação» do Amigo Eugénio de Sá e a ternura das lembranças da Lica Liva Corado. Um abraço carinhoso para os dois

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  2. BURACO DE ESTIMAÇÃO : EUGÈNIO DE SÁ : Gostei da escolha… sem dúvida, esses da Rua tem fama em mmmmuuuuitttass cidades mundo afora! Tem uns até que são de estimação, nas estradas bucólicas de pouco movimento onde, quando chove, as crianças brincam com barquinhos de papel….( brinquei muito) Mas… dos buracos mundialmente, mais famosos e mais falados eu escolho o » mágico » pois por ser o mais famoso,recebe cerca de proteção dos pedestres, e ele se torna mascote e é lembrado até pelo aniversário! Gostei muito desse espírito de bom humor nessa aventura de descrever e colecionar esses estimados e bem amados buracos…
    EM DIAS DE CHUVA : LIKA OLIVA CORADO : Amei seu texto, Lika! Amei , pois acabas de me reportar à infância… esses momentos que o tempo não apaga… em que os cheiros as cores as texturas ficam gravados na memória, em detalhes minuciosos e nunca,nunca apagarão, pois, detalhes minuciosos descrevem a vida livre e simples da infância… uma joia rara na vida da gente! Reparto contigo, meu pé de caqui, a ameixeira, o parreiral, a goiabeira, o rio, os pássaros, meu perfumado pé de madressilvas… Brindo contigo esse momento de recordar! Beijos1

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CRÓNICAS, ARTIGOS E OUTROS TEXTOS

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Enero 2.019  nº 15 

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COLABORAN: Luiz Gilberto de Barros (Rio de Janeiro  Brasil).. Regina Carvahlo (Portugal )…Susana Custodio ( Sintra-Portugal)… Eugenio de Sá ( Portugal ).. Ary Franco ( Brasil) ..Nidea Vargas Potsch ( Brasil) .. Carolina Ramos ( Brasil ) 

E-MAIL DE UM PAI DO SÉCULO 21
Luiz Gilberto de Barros
Rio de Janeiro, Brasil

Queridos filhos…

Papai vai sair de casa.

Não se preocupem, pois não vou usar crack nem as drogas convencionais da década de 70; afinal, sou bem grandinho para esse tipo de decisões…adultecentes.

Vendi minha guitarra importada, o baixo, o teclado e os instrumentos de percussão, que por falta de amigos velhoscomo eu, só ocupavam espaço no meu pequeno quarto que sobrou da posse de cada um de vocês.

Levarei apenas o meu velho violão Di Giorgio, aquele dos tempos de faculdade, que me deu sua mãe de presente, quando toquei “Eu sei que vou te amar“ para ela, olhando bem dentro dos seus olhos. Naquela época eu tocava no… deixa pra lá ( vocês não se interessariam por minhas tolas redundâncias amorosas ).

Mas também não vou morar na rua. Como sabem, além dos remédios que compro com o dinheiro da aposentadoria, ainda me sobrará algum para uma hospedagem num hotel vagabundo ou numa quitinete para solteiros. Afinal, estou só sem estar, porque vocês estão sempre ocupados com seus tablets e afins eletrônicos –  acho inclusive que os celulares  tiveram uma expressiva porcentagem na minha decisão de abandoná-los – se bem que vocês já o fizeram há algum tempo com seus fones de ouvido, impedindo qualquer aproximação da minha parte e ser um incômodo estava me provocando diversos picos hipertensivos.

A propósito, joguei meu celular fora, mesmo porque já estava muito velho para tanta modernidade e o passado sempre teve mania de me visitar costumeiramente.

Se tiverem, ainda, algum resquício de sensibilidade e preocupação com a minha vida, e caso não tenham nada mais importante que ela nas redes sociais, procurem-me no google. Pode ser que eu esteja morando em alguma ilha desabitada, perdida em alguma parte solitária do Atlântico. Afinal, o google tem resposta para tudo e é possível que mesmo sem pistas ou comunicação, alguém me rastreie.

Ah, quando fizerem isso, não se esqueçam dos filhos de vocês. Lembrem-se de que as redes sociais são como fios de tomada nas mãos de crianças inocentes e talvez eu não tenha sido um bom pai, presenteando-os inicialmente com videogames e depois com computadores, entendendo que isto os tornaria agradecidos pelo pai que tiveram.

Deixo-lhes – desta vez – os copos que usaram e jogaram dentro da pia, bem como os talheres e pratos que nunca lavaram, nem quando promoveram suas festas e convidaram diversas pessoas como vocês.

 O lixo também ficará nos cestos – inclusive o do banheiro, cujo odor talvez os faça prestar atenção neles.  Se o vaso sanitário mais uma vez entupir por um absorvente desprezado, chamem um encanador e provavelmente ouvirão dele o que cansei de dizer a todo momento.

Podem ficar com a casa – e com as contas ( afinal, todos trabalham e ganham bem mais do que eu quando tinha suas idades ) porém prestem atenção nos gastos com a energia elétrica e com a água, pois o tempo que ficam no banheiro e com os secadores de cabelos quase me levou à falência.

Quanto ao telefone, à internet e à TV alternativa, não se esqueçam de olhar nas caixas de correio, pois já não estão mais no meu débito automático.

É bem provável que minha ausência mate minhas roseiras, orquídeas, violetas, samambaias e louros-de-jardim ( estou muito triste por isso ) porém, se tivesse algum animal, sofreria muito também por ele.

Desculpem a prolixidade – pelo menos desta vez apenas lerão, não ouvirão minha voz e nem reclamarão da repetição das palavras experiência e provação. 

Outra coisa: embora há algum tempo não me tomem a bênção por acharem “démodé”, apesar de irem à igreja todos os domingos – mais para paquerar e namorar do que para louvar ao Senhor, sou teimoso e os abençoo assim mesmo.

Portanto: Deus os abençoe.

Assinado: Você

Desculpem – tornei-me o mais banal dos pronomes de tratamento – há muito tempo não me chamam de pai.

APENAS UM PAPO COM VOCÊS
Regina Carvalho

 

Há pouco tempo uma Amiga me pediu uma foto, e eu disse que não a tinha… sou holográfica…

Depois resolvi procurar na gavetinha das lembranças uma foto e descobri surpresa que realmente não a tenho. Foto decente, que me fizesse justiça. Afinal, na minha idade (não adianta especular, pois não confirmo) e dizem as más línguas que sou um pedaço de mulher. Sei não… Foto de mim na meninice, mocidade, na maturidade… Naqueles tempos ter máquina fotográfica era um luxo… Revirei a gaveta e não encontrei nada que prestasse para dar à Amiga. A única melhorzinha que encontrei é de quando eu tinha 33 anos e essa já foi foto do meu perfil no Facebook.

Fiquei perdida em pensamentos olhando aquela foto e uma tristeza grande me assaltou. Refleti então porque ter fotos de um passado que já tão longe ia, da juventude que já acabou, da beleza que feneceu e algumas rugas deixou como sulcos na minha face, se esta foto traria lembranças da primavera da minha vida e acabei sentindo as lágrimas pelo meu rosto descendo. Desviei os olhos daquela foto e meu olhar pousou um pouco acima numa foto do meu filho e com minha neta.

E neste instante reconheci o quanto Deus é bondoso para comigo.

Ele sabia que no inverno da minha vida eu poderia olhar minha bisneta e iria ver nela a minha eterna primavera… E sorrir novamente.

A VERDADE DA MENTIRA
Susana Custodio ( Sintra- Portugal )

Elsa estava feliz, ali em casa sozinha, com as recordações, pensava como tinha sido o percurso da sua vida.

Já tinham passados tantos anos desde o dia em que o tinha conhecido, apaixonaram-se de imediato, não tiveram culpa, coisas do destino, ele homem estrangeiro de diferente cultura, outra religião, mas nada os deteve, nem o facto de lá longe ele ser casado.

Engendraram uma história, mudaram de cidade variadissimas vezes, Ah! As casas, umas grandes, outras pequenas, mas, o amor de ambos era assaz maior.

Pensativa, levantou-se, foi buscar um copo de água sorvendo-o em grandes goles.

Elsa estava de semblante deveras triste! Tantos anos depois e ele teria que voltar de vez para o seu País, uma história tão linda tinha chegado ao fim, que dizer aos amigos? Impossível contar a verdade, depois começou a rir às gargalhdas:

 – Matei-o!

Pronunciou em voz alta a respeitada e inconsolável viúva!

A POLÍTICA, OS POLÍTICOS, E A CULTURA DA MENTIRA 
Eugenio de Sá ( Sintra-Portugal)

Desconfie-se da mão que se esconde atrás dos arbustos;
o seu afago será sempre duvidoso.
… Porque “até o diabo pode citar as escrituras quando isso lhe convém”,
disse-o William Shakespeare.

…. …. …. …. …. ….

As novas técnicas de comunicação, servidas por gente impreparada, hipócrita, e de duvidosos princípios éticos, ameaçam transformar o conceito original e nobre da política numa feira, onde tudo se promete para nada, ou quase nada, se vir a cumprir.

Tanto assim é, que há quem defina hoje o homem e a mulher comuns de uma sociedade dita democrática como “optimistas que afinal não passam de pessimistas confundidos e enganados”.

Numa recente ‘mesa redonda de comentadores da maior estação de televisão portuguesa, alguém falou na “espuma da politica” para significar os resíduos emergentes da inutilidade da acção dialética dos que se dedicam aquilo que é tido por indispensável num país gerido por uma típica democracia representativa; o diálogo político-partidário.

É claro que, compatibilizando a expressão com a analogia do que acontece com um mau vinho, chegaremos à triste conclusão que estamos perante uma grosseirazurrapa palavrosa, cujos resultados são certamente inaproveitáveis. Fala-se demasiado, para nada de significativo se dizer realmente.

No oportunidade, um dos interventores adiantou mesmo que, na sua opinião – e estas são palavras próximas das suas – se fossem tidas em devida conta, e sancionadas, as mentiras de quem anda na politica, grande parte dos políticos seria erradicada de funções.

E assim vai a política, eivada de hipocrisias, plena de vazios de ideias e de conceitos, alimentada unicamente pela vaidade e pelos interesses privados de quem por lá anda.

Há mais gente nas faculdades, é verdade, mas poucos são os que saem de lá com uma real vontade vontade de servir a cousa pública, e sem nenhum talento ou vontade para o fazer realmente.

Longe vão os tempos dos grandes pensadores e brilhantes oradores, cheios de fervor patriótico que iluminaram as bancadas do parlamentarismo constitucional no tempo da monarquia, e para além dele, já século XX adentro, e já em plena república.

Foi então tempo dos intelectuais, dos poetas, dos escritores se vestirem de altruísmo e se fazerem cidadãos comuns, assumindo o interesse colectivo como seu; querendo ir, como Eurípides e Sófocles na antiga Hélade, pátria da democracia, solicitar com eloquência, na praça pública, os sufrágios populares, para gáudio da grei,  sempre ávida de conhecer as ideias que consecutivamente fluíam, com entusiasmo, de numerosos cérebros privilegiados.

Em Portugal, tal como em muitos outros países, da Europa e fora dela, ainda há quem lembre, saudoso, esses muitos notáveis da palavra nobre e do gesto honrado, tal como o foram também alguns dos políticos emergentes do pós guerra, cuja profícua acção ainda nos foi dado conhecer no nosso tempo de vida. Esses “grandes” homens e mulheres que um dia sonharam criar um mundo novo; mais são, mais justo, e mais solidário.

Quase que o conseguiram, mas, uma vez desaparecidos, tudo se transformou e entrou em retrocesso.

Mesmo assim, a esses poucos ficámos a dever a criação da Organização das Nações Unidas (ONU), um concerto alargado de nações, que, mesmo com as limitações conhecidas, tem permitido conter ou minorar alguns dos muitos conflitos que entretanto tiveram lugar.

Aos outros, os actuais, tenho sérias dúvidas que lhe fiquemos a dever alguma coisa, a não ser o arrependimento de haver votado neles.

 

DEUS, AGRADEÇO-TE A PAZ!
Ary Franco (O Poeta Descalço)

         Sentado no banco da imensa praça, à sombra de uma frondosa árvore, abro os olhos e “vejo” através das escuras lentes dos óculos, todos igualmente vestindo roupas brancas, imaculadas. São semeadores da união entre os homens de boa vontade.

         U’a música suave me enternece entre sorrisos e falas mansas dos passantes. Sinto no ar uma brisa amena e refrescante. A Humanidade de mãos dadas preserva a Natureza e Deus nos mandou chuva abundante para reabastecer nossos mananciais, sol para aquecer-nos no frio e tetos para abrigar-nos das intempéries consolidando nessas benesses a felicidade reinante no universo.

         Não mais existem guerras, lutas ou disputas pela Paz  mundial, pois ela graça abundantemente entre nós. Meus irmãos em Cristo labutam ajudando-se mutuamente, sem a ambição de ter e preocupando-se apenas em ser aquele que Nosso Divino Criador espera que sejam.

         Crianças brincam nos gramados entre flores e revoadas de pássaros me encantam com suas evoluções e melodias canoras. Todos usufruem da colheita daquilo que semearam e falam um único idioma, sem barreiras, muralhas e coesos, abençoados na convicção cristã de que DEUS ESTÁ ACIMA DE TODAS AS COISAS.

         Cantarolando, levanto-me, fecho minhas pálpebras, empunho minha bengala branca e volto para casa levando em minhas adormecidas retinas todo o esplendor deste mundo maravilhoso do qual, agraciado por Deus, faço parte.

O Valor da Palavra
Carolina Ramos  Brasil

            Dizer que o silêncio é ouro é lugar comum. Máxima aceita sem restrições, embora não totalmente correta. Em muitos casos, nem sempre o silencio substitui a palavra sem os deméritos que apontem para a fuga, para  o subterfúgio, para a dissimulação, sem passar de  cômoda abstenção que não define e nem compromete a quem lança mão deste artifício.

Nada substitui o valor de uma palavra em situações em que ela  assume a postura de marco entre o tudo e o nada. Entre a verdade e a mentira. Entre aquele o Sim e aquele Não, quando sequer é admitida a intrusão indecisa de um débil Talvez.

         Um Sim  define duas vidas ante um altar. Um Não separa dois corpos e arrasta duas almas rumo a destinos divergentes, à mercê dos tropeços que a vida trama ao reescrever o incógnito roteiro de seus novos passos.

         Há palavras frias, ferinas, afiadas como lâminas cruéis! Palavras que ferem, que castigam que matam! Amargas e cheias de veneno, tais como – raiva, ódio, medo, corrupção, vingança, guerra etc.!

         Em compensação, outras palavras há, belíssimas, de aura luminosa, de conteúdo imenso e transcendental! Amor é a maior delas!

 Amor! Palavra que deveria ser sempre escrita com maiúscula e que,  urdida dentro de suas reais dimensões, não caberia numa página, pois tem valor de imensidão!

 Una, sem sinônimos, a palavra Amor é de uma riqueza impar, embora continuamente desgastada e ultrajada sempre que, com vileza,  for dimensionada fora do critério divino com que foi criada.

Amor…é o começo dos começos! Palavra ilimitada em cuja dimensão infinita cabe um Deus!

O Amor não tem preço – Ele é o Tudo!

No entanto, sem que se entenda o porquê, Amor é a palavra menos usada e também a mais desgastada pelo desprezo da humanidade que, em sua constante rebelião interior, a ignora, trocando-a pelo apego às mazelas que paradoxalmente a conduzem ao Nada!

Vão-se os tempos, vão-se as gerações enoveladas nas teias que elas mesmas tecem, sem que consigam encontrar o fio condutor que as liberte do labirinto criado por suas próprias mãos, movidas por paixões dominantes que as arrastam, quando tinham tudo para conduzir, sem serem conduzidas. Dominar sem serem dominadas e, vencer, ao invés de serem vencidas.

Entretanto, assim como não há causa sem efeito, assim como um veneno fatal pode ainda ter um antídoto, há também uma palavra terna, que parece fraca, frágil… mas absolutamente, não é nada disto.

A palavra é Esperança – que tem força desmedida e se abastece na alma de cada ser, a ajuda-lo a sonhar… e sonhar sempre… uma vez mais!

E essa palavra, verde como um tenro broto que viceja, cresce e rasga nuvens densas do horizonte azul da Terra do Sonho, aponta confiante para outra palavra soberana, tão pequenina, três letras apenas que traduzem o coletivo anseio, acenando de longe num fraterno apelo: – PAZ!

 Há, entretanto, uma última palavra a ser anexada. Menor ainda, mas tão grande e poderosa, que é capaz de envolver todas as palavras do mundo, porque abraça o Amor, abraça a Esperança e abraça, também, a Paz! Essa palavra poderosa  e ilimitada tem apenas duas letras que a tornam dona do Universo.

– Essa palavra é – FÉ!

Lembranças de Outras Primaveras…
Nidia Vargas Potsch

Ao cair da tarde amena, as recordações e o perfume de muitas flores me chegam às narinas como se estivessem plantadas em pequeninos vasos ou no jardim abaixo, que avisto aqui da sacada. Seus diversos coloridos me encantavam deveras! Principalmente as orquídeas rosadas, os pequenos miosótis, as viletas africanas,  as rosas multicoloridas. Neste esplendoroso entardecer de poucas nuvens e firmamento muito azul, onde apontam as primeiras estrelas, volto meu pensamento a um passado não muito distante; vejo, como num filme, passeios de automóvel ao longo de belas e verdejantes estradas, pequenos barcos navegando por mares calmos ou aviões repleto de passageiros e muitas malas a caminho de merecidas férias… Férias estas, que nos levavam a brincar como se fôssemos crianças, bálsamo para esta vida atribulada, na qual nos divertíamos a valer… Os dias passavam rapidamente e sem que percebêssemos  já era hora de voltarmos. O sentimento de alegria e de felicidade permaneciam intactos ainda por algum tempo depois do regresso, porque preenchiam nossos corações reconfortando nosso espírito. Ficava tudo banhado com mil cores, como se um arco-íris enfeitasse nossas almas, iluminando tudo ao redor… É a Primavera reativando energias, reavivando o sentido de Viver!

 

7 comentarios en “CRÓNICAS, ARTIGOS E OUTROS TEXTOS”

  1. MARAVILHOSO AMIGOS. ESTÁ AQUI UM POUQUINHO DE TODOS VÓS. OS MEUS PARABÉNS!!! VALE A PENA VISITAR O ARISTOS INTERNACIONAL, DESCOBRIMOS SEMPRE ALGO QUE NOS ENCANTA. ABRAÇOS.

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  2. Fiz apenas um «reconhecimento da área» ,Encontrei aqui escritores que já li e reli, nos caminhos virtuais…por isso mesmo , voltarei
    para ficar em dia com novos temas, aprender mais, viajando pouco à pouco, no mundo encantado da leitura!
    Com afeto Cema Raizer.

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  3. LUIZ GILBERTO DE BARROS ( BRASIL) E-MAIL DE UM PAI DO SÉCULO 21 : Belo! Um pai bem brasileiro, emocionando com uma
    carta magna de independência! Adorei ver essa magia de tirar a carga pesada dos ombros… Uma carga que pesa de montão, sobre os «milhones de ombros», mundo afora! Divertida maneira de expor, claro! Desabafo e sem rodeios e expressão «matreira » !

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  4. NIDIA VARGAS POSTSCH » LEMBRANÇAR DE OUTRAS PRIMAVERAS: Lembrar é reviver… sentir os bons momentos
    que a memória dita! Inundar-se de tardes, de manhãs de noites… lembranças nos devolvem bons momentos e nos
    fazem sonhar o passado! Lindo o seu relato, Nídia… Aninhei-me em tuas lembranças sem pedir permissão …Mas nas
    lindas lembranças, cabe todo mundo, e sei que quem ama a natureza … é generosa! Beijos, Cema Raizer.

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  5. ARY FRANCO (O POETA DESCALÇO) «DEUS AGRADEÇO-TE A PAZ»: Maravilha Ary Franco, esse texto já estava dentro de ti,
    acumulado nas «visões» de uma vida…Esse é o Ary que nasceu Poeta e de «pé no chão,’ sente o mundo !
    Franco poeta, eu te reverencio!!!

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  6. Luiz Gilberto de Barros Emocionada com o texto! Belíssima mensagem! Se permites vou publicá-na minha página no Facebook Belo coração o teu que assessora tua bela alma meu conterrâneo

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  7. » O VALOR DA PALAVRA» Carolina Ramos Brasil: Bem claro o teu parecer!
    Um motivo que define valores no uso de palavras…Faz realmente pensar
    no cuidado que devemos ter na escolha! AMOR…Esperança… palavras
    que nos impulcionam à FÈ, e criam juntas , a PAZ! PARABÉNS!

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