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Noviembre 2020 nº 37  

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AL SERVICIO DE LA PAZ Y LA CULTURA HISPANO LUSA

 

 

 

COLABORAN: Ilka Oliva Corado- Eugenio de Sá

 

TRÊS TURNOS POR DIA
Ilka Oliva Corado
Brasil

Tento abrir a porta da padaria e o vento que está contra o faz mais difícil, mas além disso é uma porta antiga, com dobradiças antigas sem manutenção que tornam a porta uma fortaleza; quando finalmente consigo me bate nas costas, saio revirada para a frente e mal consigo manter o equilíbrio. A moça que está no caixa sorri e também o senhor mestre padeiro, um senhor de uns 75 anos de idade. Cale-se que a bandida me pegou nas costas, digo como forma de responder à saudação. 

Busco pão francês, quero comer feijões coados com pão francês, mas o pão francês, francês da Guatemala, eu só encontro indo ao centro, digamos; nos arredores só encontro padarias mexicana, russas, polonesas e indianas, no supermercado compro baguete francesa, mas o pão francês da Guatemala só que se aprenda a fazê-lo e assim estou há vários anos que quero aprender a fazer pão e nada, a preguiça não me deixa. 

Nessa padaria fazem pão mexicano e guatemalteco, mas o guatemalteco é só imitação porque tem a forma, mas a farinha e sua preparação são de estilo mexicano e o pão tem o sabor de pão doce mexicano. Os donos são árabes que encontraram nesse setor operário sua mina de ouro, têm várias padaria de pão mexicano com trabalhadores mexicanos, que as pessoas pensam que é na realidade uma padaria de seus paisanos. Vende até piñatas. Os donos mal aparecem para que os pessoas não os vejam, os que dão a cara são os trabalhadores mexicanos. 

A tarde está fria, logo começará a nevar; os dias amanhecem nublados com capas de gelo fino sobre a grama e escarcha nas janelas dos carros. É outono e escurece na metade da tarde. Pego minha cesta e busco os pães franceses, pirujos, que os mexicanos chamam de bolillos; enquanto vou pegando um por um com a pinça é inevitável escutar o mestre padeiro tentando ter uma conversa com a jovem no caixa, que terá não mais de 20 anos, é uma menina, mal presta atenção; terá seus pensamentos em outro lugar, além de estar atarefada desinfetando o balcão, as pinças e as cestas onde os compradores põem os pães.

O padeiro insiste com grande necessidade, é como se tivesse sede e pedisse água. Já com o pão na minha cesta passo pelo caixa e enquanto a jovem faz a conta eu pergunto a ele: desculpe que me meta onde não sou chamada, mas foi inevitável escutar sua conversa; onde é que diz que quer ir passar suas férias quando for embora daqui? o mestre padeiro se compõe, ajeita a postura e torna a pôr o cotovelo sobre o balcão, imagino que está em seu tempo de descanso, porque está de uniforme com todas as medidas de higiene estabelecidas pelo estado em tempos de vírus. 

Ele tem o cabelo grisalho, é magro, tão magro que seu aspecto não é saudável, se mata de trabalhar. Se nota o cansaço, na voz, no rosto, em seu corpo. Olhe, me diz, quando for embora daqui vou passear nas praias do México, em todas, vou deitar na areia para me bronzear, vou andar de lá para cá, de norte a sul, de oriente a ocidente e vou conhecer meu país, que não conheci porque vim diretamente do rancho para cá. 

Quanto tempo faz que está aqui neste país? 25 anos e 23 nesta padaria. Aqui trabalho na parte da tarde e saio às 11:30 da noite e vou ao outro trabalho no hotel que está aqui perto, passando a rua vira à esquerda, conhece? Não. Bem, aí há um hotel e aí trabalho também das 12 às 6 de manhã e às 8 entro num restaurante para lavar pratos e saio às 12. Mas agora mesmo por causa do vírus não tenho tido trabalho no hotel nem no restaurante, apenas uma quantas horas.  

Olhe que trabalhava dormido e por pouco me dava diabetes porque tomava desses sucos energéticos, desses, olhe e mostra umas bebidas que estão em uma geladeira, mas me descobriram o açúcar a tempo e deixei de tomá-los; tenho economizados seis mil dólares. Já criei meus filhos e com esse dinheiro vou regressar a meu México, para morrer por lá, mas antes quero ir às praias comer mariscos. Vou me dar a grande vida no México. Não imagina o que me custou economizar esse dinheirinho. Sim, sim, eu imagino. E de que lugar você é? De Jalisco, de um rancho na periferia, era puro mato no meu tempo, mas já está asfaltado agora e a gente chega mais rápido. Dizem que há até autopistas. 

Meu pacote de pão espera, já paguei à caixa e está entrando mais gente na padaria que não tem muito espaço e com isso da distância social, o mais recomendável é que saia para que eles possam comprar à vontade. Me despeço da jovem e do mestre padeiro, desejando-lhe sorte em seu retorno ao México, que não sei quando será e se será, porque isso de regressar á a ilusão e a esperança de tantas pessoas indocumentadas que ao assomar a alba do novo dia, é o primeiro em que pensam para conseguir escapar momentaneamente da realidade do aqui e agora.

E como não, com 3 turnos por dia! 

O MUNDO VIVE HORAS DIFICEIS
Um Apontamento de Eugénio de Sá
Portugal

Em todas as latitudes deste planeta que habitamos vivem-se horas difíceis, muito difíceis. Desde logo, pela disseminação da pandemia assassina que a todos assusta e debilita, e por isso está a causar sérios danos também no que diz respeito à saúde mental das maiorias que são conscientes e responsáveis, embora os há também que teimam em ignorar as reais consequências do que se está a passar. Entre esses, contam-se alguns cujas responsabilidades que lhes estão cometidas os deveriam sentir-se responsáveis pelas condenáveis atitudes que lhes têm caracterizado a acção, ou a ausência dela. Alguns deles insistem mesmo em omitir-se das suas responsabilidades, esquecendo que os que deles dependem continuam a morrer às centenas de milhar. Felizmente que um desses irresponsáveis maiores acabou de ser erradicado.

Lembro que…

“A incompetência é a inabilidade de alguém desempenhar adequadamente um determinada tarefa ou missão”, assim a definiu Laurence J. Peter, na sua “Teoria Estruturalista”.

A certa altura, eu que tanto protestei contra os tiranos e incompetentes que mandam neste mundo, desesperado, escrevi estes versos:

…Pouco me reconheço no que vejo:
Néscios mandantes ditando a desdita
Já hesito em escrever aquilo que almejo
Plo limitado préstimo da escrita
( do meu soneto “A hora da partida” )

Entretanto, foi anunciado que os laboratórios da Pfizer estão a ultimar uma vacina contra o sars cov 2 que já provou ser eficaz em 90% dos casos. Imediatamente as bolsas europeias disparam para ganhos de 8%, e o mesmo aconteceu na América e na Ásia, o que revela a confiança dos mercados no que irá passar-se possivelmente já a partir de Dezembro próximo.

Outros laboratórios certamente se seguirão com idênticos anúncios para alívio dos sistemas de saúde um pouco por todo o mundo e tranquilidade das populações, até aqui ameaçadas e sacrificadas com tantos confinamentos que sempre implicam a limitação das liberdades individuais e colectivas, além das medidas restritivas que sempre limitam o funcionamento das empresas, com inerentes e significativas perdas das economias e com o inevitável aumento do cortejo de desempregados.

Vamos ver se finalmente se inverte a tendência tão negativa que nos trouxe este ano de 2020 e entramos em 2021 com o pé direito. Todos o merecemos.

O TER, O SER, E O PARECER
Um Apontamento de Eugénio de Sá

Na sociedade actual prevalecem desejos cada vez mais associados ao ‘ter’ como a crescente ambição de posse de bens materiais, de par com o consumismo e a sede de poder, em detrimento dos maiores valores reais da vida, o que coloca a humanidade no abismático caminho da destruição
social, psicológica e ambiental. 
Ah, mundo, para onde vais,
  se a minha visão distante
se perde no vazio das brumas
de um horizonte inconsequente
e triste.
Vejamos o que nos diz o filósofo e sociólogo Erich Fromm:
“A relação das pessoas com a Natureza tornou-se profundamente hostil. Sendo, como somos, «fenómenos da Natureza», existindo dentro dela pelas próprias condições do nosso ser e transcendendo-a pela dádiva da razão, tentamos resolver o problema existencial desistindo da visão messiânica da harmonia entre a Natureza e a Humanidade, optando por conquistá-la, transformá-la, de acordo com os nossos interesses, até que essa conquista se tornou cada vez mais semelhante à destruição. O nosso espírito de conquista e a nossa hostilidade cegaram-nos para os fatos de que as fontes naturais têm os seus limites e podem eventualmente esgotar-se, e de que a Natureza pode voltar-se contra a violação humana.
Somos uma sociedade de gente visivelmente infeliz: sós, ansiosos, deprimidos, destrutivos, dependentes, e gente que se alegra quando matou o tempo que tão desesperadamente tentamos poupar.”

O “TER”, o “SER”, e o «PARECER»

Para muitos, possuir bens materiais parece ser hoje o único meio de valorização pessoal. Este conceito encontra nos seus defensores a justificação de que para se ser reconhecido e ganhar notoriedade é necessário “Ter”. Para esses, a procura da felicidade parece passar exclusivamente pelo Ter e/ou por aparentar “Ter”

( o querer “Parecer”).

Uma manifestação do “Ter” é o da apropriação. E o detentor do bem obtido quer ser reconhecido com vencedor. Porque nenhum desses indivíduos quer sequer aceitar que pode vir a perder aquilo que conquistou. Se me alargasse um pouco mais, iria indubitavelmente cair numa caracterização próxima do neo-liberalismo mais ou menos selvagem – com o seu cortejo de práticas condenáveis – onde o meu contumaz espirito analítico e, eventualmente, censório. me levaria. Mas, decidida-mente, não foi isso que hoje aqui me trouxe.

No fundo, a grande diferença entre o “Ter” e o “Ser” equivale à diferença entre uma sociedade centrada nos bens materiais, nas coisas, e outra que se foca nas pessoas, porque deve ser para isso que nos organizámos enquanto sociedade dita civilizada.

O “Ser” é o assumir a consciência da realidade, do que se é, e de que existem os outros num mundo que a todos abriga, e, como tal, que deve se respeitado.

Ao “Ser” estão subjacentes os conceitos da independência e da liberdade, a nossa e da pátria que nos reconhece como seus filhos. Negar-lhe esse mor direito seria trai-la e, consequentemente, trai-nos a nós próprios.

Para mim, sermos felizes é sentirmo-nos em paz, e isso implica estarmos de consciência tranquila, de bem connosco próprios e com os demais, porque, na justa medida das nossas possibilidades, contribuímos para o bem colectivo.

PORQUE SERMOS SÓ O QUE TEMOS, É POUCO, É MUITO POUCO!

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