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enero  2.020  nº 27
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AL SERVICIO DE LA PAZ Y LA CULTURA HISPANO LUSA

 

Romper com rivalidade entre mulheres imposta pelo patriarcado é nossa missão de gênero
Por Ilka Oliva Corado

Não podemos deixar às gerações que estão por vir um legado de indiferença, de rancores, de discriminação

O domínio patriarcal pensa que nós mulheres devemos sentir inveja entre nós, agradece quando nos odiamos, nos culpamos, quando nos dispersamos em lugar de unir-nos. Quando estamos distribuindo rasteiras para ver cair aquela que acreditamos ser nossa rival. A rivalidade entre mulheres é produto dos padrões patriarcais com os quais crescemos e que estão em todos os âmbitos da sociedade. Romper com isso é nossa missão de gênero.

Não podemos deixar às gerações que estão por vir um legado de indiferença, de rancores, de discriminação; essas meninas merecem crescer em uma sociedade onde as mulheres se comuniquem entre elas, onde se aplaudam as conquistas em lugar de se apunhalarem pelas costas. Uma sociedade onde se deem as mãos para avançar em busca de direitos, onde possam caminhar juntas e saber que qualquer mulher em qualquer lugar do mundo será uma aliada e não uma inimiga. 

Sim, eu sei, são sonhos muito grandes, mas os cumes mais altos são conquistados passo a passo; já fizeram tanto as nossas ancestrais e ainda não é suficiente. O que estamos fazendo nós para continuar na construção desse legado? O que é que vamos dar em troca desses direitos que nos deixaram nossas antecessoras?  Porque a muitas delas lhes custou a vida; foram humilhadas, ultrajadas, desaparecidas para que nós hoje tenhamos o direito de levantar a voz, o direito ao voto. As meninas não merecem que lutemos pelo direito ao aborto?

Uma boa forma de começar a romper esse esquema patriarcal que nos divide seria começar a dizer a outras mulheres que estão bem, que lindos são seus sapatos de tal cor, que sua blusa lhe cai bem, que se expressou bem em tal palestra, que seu trabalho é excelente. Que tal saia a deixa linda, que seu sorriso irradia. Que sua maneira de ser é contagiosa. Que seu humanismo é admirável, que suas ações convidam a imitá-la.

E não há nada de mal em dizê-lo, não há nada de mal que uma mulher diga a outra que está bonita, que lhe cai bem a cor do seu batom, que é linda até sem maquiagem. Isso não quer dizer absolutamente nada mais que isso, que é linda e há que dizê-lo. Há que dizer às pessoas que fazem bem as coisas, quando as estão fazendo bem. Há que dizer que as admiramos por seu empenho, por seu esforço, por seu profissionalismo. Não há nada de mal que outra mulher seja quem o diga. Romper com o padrão da inveja entre mulheres é vital para derrubar o patriarcado. E não, isso não significa que a outra mulher seja homossexual e que se está dizendo isso com outra intenção. Esse é o primeiro modo com que o patriarcado nos desafia; duas mulheres podem admirar-se mutuamente e isso não significa absolutamente nada mais que isso.

Que tal se nos desafiamos e começamos hoje mesmo, olhando ao nosso redor e dizendo às mulheres que nos rodeiam que estão lindas, que fazem bem seu trabalho, que são admiráveis? Talvez custe um pouco no primeiro dia, mas no terceiro eu lhes prometo que será como andar de bicicleta.

E pouco a pouco iremos entrando na luta dos direitos de gênero, e assim oxalá um dia saibamos todas as mulheres que não é necessário colocar o sobrenome do esposo para ser alguém, para mudar de status ante outras mulheres ou ante a sociedade, que isso não nos faz mais importantes, pelo contrário, nos coloca na situação de objetos propriedade de uma pessoa. Porque, onde existe uma lei comum, em que o esposo possa colocar o sobrenome da esposa e diga publicamente sou fulano de tal, da mesma forma que sucede com as mulheres? Sim, isso também é opressão do patriarcado contra as mulheres.

A solidariedade nos tempos que correm
Por: Eugénio de Sá

» Quando as pessoas se importam umas com as outras, sempre dão um jeito de fazer as coisas darem certo.»
( Nicholas Sparks )

Lembro-me, quando ainda era criança, de minha mãe me levar consigo a visitar uma amiga que morava num bairro antigo e pobre de Lisboa. Naquela casa modesta, mais muito limpa, reinava a harmonia. Via-se que o dinheiro não abundava pois o marido era um simples empregado fabril e D, Emília, a amiga da minha mãe, não passava de uma dona de casa com dois filhos pequenos para criar. De súbito, alguém bateu à porta; foram duas pancadinhas tímidas que fizeram a dona da casa ir abrir. Logo se deparou com uma vizinha que vinha anunciar a morte de um idoso que morava duas portas acima. Pedia para que ajudasse a pagar o funeral, pois a viúva não tinha posses e estava muito aflita sem saber como fazer face a essa inesperada despesa.

Vi a preocupação na cara da cara da D. Emília, mas logo limpou uma lágrima rebelde e correu ao quarto para ir buscar parte das suas certamente parcas economias, que então se guardavam em casa. E lá contribuiu como pode deixando duas notas no saquinho que a outra lhe estendia, e que acto contínuo agradeceu. E lá partiu em demanda de outras ajudas para completar o valor necessário.

Aquilo marcou-me para a vida inteira e aprendi que mesmo do pouco pode fazer-se muito para ajudar os outros, os que ainda menos têm. Comecei então a entender o queria dizer a palavra solidariedade.

São difíceis os tempos que vivemos, por isso muitos dizem que são tempos de crise. Mas uma crise é também uma oportunidade de renovação, de projecção de uma nova oportunidade de vida, de procurar ir mais longe…

O mundo está de facto perante a oportunidade de mudar os seus arquétipos que levem à recuperação de valores humanos, e que essa recuperação promovam e assegurem a dignidade da Pessoa e a reencaminhem para a sua condição natural no centro da sociedade.

Entre esses valores avulta a solidariedade, como qualidade  genuína e verdadeira antítese ao individualismo, que assenta no princípio do «salve-se quem puder».

«Eu não acredito em caridade, eu acredito em solidariedade. Caridade é tão vertical: vai de cima para baixo. Solidariedade é horizontal: respeita a outra pessoa e aprende com o outro.

A maioria de nós tem muito o que aprender com as outras pessoas”, escreveu Eduardo Galeano.

Felizmente, longe vão os tempos em que se combinavam acções de «caridadezinha» à mesa de um qualquer chá-canasta de gente bem na vida, que o fazia para sua promoção pessoal, através de iniciativas politicamente correctas mas totalmente desprovidas de reais sentimentos solidários e de empatia para com quem mais deles necessitava. Lá apareciam os jornais e as televisões e lá se projectavam as ditas iniciativas dos tais cidadãos invariavelmente conotados com a política, a alta finança, a indústria, e seus afins.

Que nos lembremos, a melhor definição de solidariedade deu-a João Paulo II ao deixar escrito: “a solidariedade não é um sentimento de compaixão vaga ou de enternecimento superficial pelos males sofridos por tantas pessoas próximas ou distantes. Pelo contrário, é a determinação firme e perseverante de se empenhar pelo bem comum, ou seja; pelo bem de todos e de cada um, porque todos nós somos verdadeiramente responsáveis por todos”.

Acreditamos que as novas gerações – que, apesar dos muitos defeitos que se lhes apontam –  parecem constituir-se por gente mais sincera e decidida,  num futuro próximo não irão consentir hipocrisias nem aturar manobras que venham continuar a aviltar o relacionamento social, envenenando-lhe a natural bondade e a desejável genuinidade.

Neste mundo ocidental a que pertencemos, é sabido que as populações estão cada vez mais envelhecidas, atendendo à quebra da natalidade. Por outro lado, graças aos avanços no campo da investigação, as populações do hemisfério norte vão ganhando uma maior longevidade, factor que vai envelhecendo a respectiva sociedade, tornando-a mais vulnerável às alterações climáticas, e consequentemente carenciada de maiores atenções e cuidados. Daí, que se espere que a solidariedade não se fique por meras acções individuais, sempre de louvar, mas escassas quando se trata de acudir a largas franjas da comunidade. E assim, cabe naturalmente aos estados, e, a uma escala alargada, aos esforços conjugados de um ou mais conjuntos de nações promoverem a solidariedade, que é “o sentimento que melhor expressa o respeito pela dignidade humana”, assim o afirmou Franz Kafka.

Obviamente corroboro dessa definição.

Solidariedade ou fraternidade?
|Dr Rubens Siqueira

É fundamental diferenciarmos solidariedade de fraternidade. Solidariedade é a ação de ser bondoso com o próximo, assumindo uma função de colaborador. Portanto, ser solidário consiste em ajudar o outro, com boas intenções e generosidade. Já a fraternidade consiste em uma responsabilidade recíproca, que emerge quando o ser humano não pode mais fundar sua vida no controle que tem sobre o seu ambiente, mas á obrigado a fundá-la sobre a relação com outro ser humano.

A solidariedade é um processo de via única, na qual doamos, mas sem esperar reciprocidade. A fraternidade por outro lado apresenta uma via dupla, ou seja, existe uma reciprocidade.

Diante desses conceitos, podemos concluir inicialmente que a solidariedade é uma atitude emergencial, mas não provoca mudança positiva no receptor, mas pelo contrário, o receptor acaba ficando aguardando a próxima “solidariedade” para beneficia-lo e continua na mesma condição. Esta postura acaba levando o receptor a tornar-se acomodado e sem uma solução ou perspectiva para tira-lo daquela condição. O continente africano sofreu deste grande mal com as inúmeras organizações de solidariedade enviando doações de alimentos, vestuários, medicamentos e acabou educando muitas comunidades africanas a uma cultura de receptores sem mudança de realidade e continuamente dependentes.                                                                                

Portanto a solidariedade é um sistema vertical (doação de cima para baixo sem reciprocidade) e a fraternidade, um sistema horizontal (sistema com reciprocidade e ação bilateral).

Apesar da solidariedade ser uma atitude que gera mais um cuidado emergencial do que uma solução social, não deixa de ter seu grande valor, especialmente por estar vinculada ao conceito de caridade.

E nessa questão temos que estar cientes que existe uma diferença entre ser solidário e ser caridoso.

 A solidariedade é um estímulo, uma maneira maravilhosa de expressão do bem, para tornar o ambiente em que vivemos um local menos desigual, socialmente falando. Já a caridade, vai além… A caridade vem de dentro e, normalmente, é invisível perante os olhos da sociedade.

A solidariedade modifica o ambiente exterior, tornando o mundo um lugar melhor para viver, mas não deve ser confundida com caridade, que é uma modificação do universo interior refletida em singelos gestos cotidianos, que não espera recompensas (nem divina), nem agradecimentos.

Portanto a caridade consiste no amor incondicional, compaixão e empatia e subentende um valor muito acima de apenas um ato de solidariedade, mas vazio de amor, apenas uma ação social.

A caridade acaba participando ativamente do processo de transformação do coração do doador, tornando-o uma pessoa mais humana, altruísta e que de certa forma acaba funcionando como uma luz para uma nova humanidade centrada no amor ao próximo. Assim a solidariedade com caridade apesar ter pouco poder de transformar interiormente o receptor, trata-se de uma poderosa terapia para a mudança do doador.

Caridade não é doar o que tem, é se doar… Caridade é amar.

 

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