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Enero  2021 nº 39

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AL SERVICIO DE LA PAZ Y LA CULTURA HISPANO LUSA

 

COLABORAN: Ilka Oliva Corado.-Eugenio de Sá.- Ary Franco.-

 

Três turnos por dia
Ilka Oliva Corado
Brasil

Tento abrir a porta da padaria e o vento que está contra o faz mais difícil, mas além disso é uma porta antiga, com dobradiças antigas sem manutenção que tornam a porta uma fortaleza; quando finalmente consigo me bate nas costas, saio revirada para a frente e mal consigo manter o equilíbrio. A moça que está no caixa sorri e também o senhor mestre padeiro, um senhor de uns 75 anos de idade. Cale-se que a bandida me pegou nas costas, digo como forma de responder à saudação. 

Busco pão francês, quero comer feijões coados com pão francês, mas o pão francês, francês da Guatemala, eu só encontro indo ao centro, digamos; nos arredores só encontro padarias mexicana, russas, polonesas e indianas, no supermercado compro baguete francesa, mas o pão francês da Guatemala só que se aprenda a fazê-lo e assim estou há vários anos que quero aprender a fazer pão e nada, a preguiça não me deixa. 

Nessa padaria fazem pão mexicano e guatemalteco, mas o guatemalteco é só imitação porque tem a forma, mas a farinha e sua preparação são de estilo mexicano e o pão tem o sabor de pão doce mexicano. Os donos são árabes que encontraram nesse setor operário sua mina de ouro, têm várias padaria de pão mexicano com trabalhadores mexicanos, que as pessoas pensam que é na realidade uma padaria de seus paisanos. Vende até piñatas. Os donos mal aparecem para que os pessoas não os vejam, os que dão a cara são os trabalhadores mexicanos. 

A tarde está fria, logo começará a nevar; os dias amanhecem nublados com capas de gelo fino sobre a grama e escarcha nas janelas dos carros. É outono e escurece na metade da tarde. Pego minha cesta e busco os pães franceses, pirujos, que os mexicanos chamam de bolillos; enquanto vou pegando um por um com a pinça é inevitável escutar o mestre padeiro tentando ter uma conversa com a jovem no caixa, que terá não mais de 20 anos, é uma menina, mal presta atenção; terá seus pensamentos em outro lugar, além de estar atarefada desinfetando o balcão, as pinças e as cestas onde os compradores põem os pães.

O padeiro insiste com grande necessidade, é como se tivesse sede e pedisse água. Já com o pão na minha cesta passo pelo caixa e enquanto a jovem faz a conta eu pergunto a ele: desculpe que me meta onde não sou chamada, mas foi inevitável escutar sua conversa; onde é que diz que quer ir passar suas férias quando for embora daqui? o mestre padeiro se compõe, ajeita a postura e torna a pôr o cotovelo sobre o balcão, imagino que está em seu tempo de descanso, porque está de uniforme com todas as medidas de higiene estabelecidas pelo estado em tempos de vírus. 

Ele tem o cabelo grisalho, é magro, tão magro que seu aspecto não é saudável, se mata de trabalhar. Se nota o cansaço, na voz, no rosto, em seu corpo. Olhe, me diz, quando for embora daqui vou passear nas praias do México, em todas, vou deitar na areia para me bronzear, vou andar de lá para cá, de norte a sul, de oriente a ocidente e vou conhecer meu país, que não conheci porque vim diretamente do rancho para cá. 

Quanto tempo faz que está aqui neste país? 25 anos e 23 nesta padaria. Aqui trabalho na parte da tarde e saio às 11:30 da noite e vou ao outro trabalho no hotel que está aqui perto, passando a rua vira à esquerda, conhece? Não. Bem, aí há um hotel e aí trabalho também das 12 às 6 de manhã e às 8 entro num restaurante para lavar pratos e saio às 12. Mas agora mesmo por causa do vírus não tenho tido trabalho no hotel nem no restaurante, apenas uma quantas horas.  

Olhe que trabalhava dormido e por pouco me dava diabetes porque tomava desses sucos energéticos, desses, olhe e mostra umas bebidas que estão em uma geladeira, mas me descobriram o açúcar a tempo e deixei de tomá-los; tenho economizados seis mil dólares. Já criei meus filhos e com esse dinheiro vou regressar a meu México, para morrer por lá, mas antes quero ir às praias comer mariscos. Vou me dar a grande vida no México. Não imagina o que me custou economizar esse dinheirinho. Sim, sim, eu imagino. E de que lugar você é? De Jalisco, de um rancho na periferia, era puro mato no meu tempo, mas já está asfaltado agora e a gente chega mais rápido. Dizem que há até autopistas. 

Meu pacote de pão espera, já paguei à caixa e está entrando mais gente na padaria que não tem muito espaço e com isso da distância social, o mais recomendável é que saia para que eles possam comprar à vontade. Me despeço da jovem e do mestre padeiro, desejando-lhe sorte em seu retorno ao México, que não sei quando será e se será, porque isso de regressar á a ilusão e a esperança de tantas pessoas indocumentadas que ao assomar a alba do novo dia, é o primeiro em que pensam para conseguir escapar momentaneamente da realidade do aqui e agora.

Pedaços de vida
EVOCAÇÃO DE AMOR
Por:  Eugénio de Sá

De visita à ilha da Madeira, ao desembarcar do velho Angra do Heroísmo, lá estava no cais a me esperar um velho amigo das andanças jornalísticas de Lisboa em que ambos militáramos anos a fio. Arnaldo Barão, o Arnaldinho, como a rapaziada da arte carinhosamente o tratava, mantinha-se o “malandro” de sempre: longa madeixa, já sal e pimenta, a tombar-lhe, rebelde, pela testa e um sorriso gaiato que lhe rasgava o rosto, de orelha a orelha.
Após os exuberantes abraços que a saudosa ausência justificava, Arnaldo disse-me, com o entusiasmo pela vida que o caracterizava: nem penses ir para algum hotel ! – Ficas lá em casa. A patroa já tem tudo pronto para te receber. Calei-me e segui-o, ambos ajoujados ao peso das duas pesadas malas que trouxera comigo (um delas com presentes para ele e para a tal «patroa», como ele lhe chamava, com ternura).
Ainda no caminho para o carro, Arnaldo foi-me dizendo que nessa noite iríamos a uma festa que o seu amigo, um tal Alexandre dava em sua casa, para comemorar o aniversário do seu neto mais velho.   Mas se ele é teu amigo e não meu, ía eu a retorquir… – Nem penses que te baldas, cortou o Arnaldinho, sem me dar mais hipóteses. E continuou: aqui na ilha os nossos amigos são recebidos como família pelos que cá vivem e que assim  nos consideram.
Depois de um bom duche e de um reparador almoço, fomos até ao café da Sé, mesmo no centro do Funchal, matar o vício do cafezinho. Vício que alimentáramos ambos quando, frente a frente, nos noturnos frios do gabinete da redação, lá íamos batendo o queixo, enquanto alternávamos as pancadas na velha máquina de escrever com o entornar das canecas cheias do negro, aromático e precioso liquido, mantido quentinho na velha garrafa térmica que partilhavamos

Dois dedos de conversa e lá se nos foram chegando, com pretextos diversos, amigos e conhecidos do Arnaldo, curiosos pela visão do desconhecido personagem que o acompanhava.
Falámos, rimos e contámos anedotas picantes, novas e antigas. Enfim; o trivial em reuniões despreocupadas de homens vividos e bem dispostos.
Caía o dia e tomava forma a conhecida beleza da noite naquela bela urbe que é a capital madeirense.
Um passeio pela marginal – que entretanto se  iluminara de vistosas e coloridas luzes – emprestou delícias ao caminho percorrido a pé até à casa do Alexandre, uma belíssima vivenda de dois pisos, feérica e festivamente iluminada. Na soleira da porta, lá estava o anfitrião; um simpático senhor de alvas cãs a ornar-lhe as têmporas, a cruzar o limiar do último quartel (teórico) da existência humana.
Estranha empatia se gerou, de imediato, entre mim e o ancião.
Mal nos conheceramos e já ele me apresentava calorosamente à família como «o amigo de Lisboa». Falamos um pouco mais e Alexandre pediu-me que descesse com ele à cave do edifício, onde guardava uma esplêndida garrafeira, que reunira, com paciência e determinação, durante longos anos.

Passamos em revista as garrafas cuidadosamente guardadas. Todas tinham uma história, de todas Alexandre ia falando com pormenores; a origem, as castas, o previsível paladar do precioso nectar mantido à temperatura ideal….
Depois dirigimo-nos a numa pequena sala intima vizinha à adega, que decorara com simplicidade, mas também com conforto. É aqui que me retiro para meditar, para ler um pouco, para ouvir música e relembrar a minha vida, confessou-me Alexandre.
Sentemo-nos, meu amigo, convidou ele. E, depois de abrir um garrafa que escolher cuidadosamente e dela nos servir dois copos, ligou um gira-discos onde pôs a tocar um velho 45 rotações. Começaram a ouvir-se os acordes de uma elha canção brasileira; “se esta rua fosse minha, eu mandava-a ladrilhar com pedrinhas de brilhantes para o meu amor passar….”.
Olhei o rosto de Alexandre; duas lágrimas rolavam lentamente pela sua face, marcada pela vida. Quedei-me num silêncio respeitoso. Aos poucos, o meu anfitrião foi recuperando da emoção experimentada e confessou-me: sabe, Eugénio, meu novo e já querido amigo; vez por outra assalta-me uma grande nostalgia e lembro-me, com grande carinho, de uma namorada que tive, jovem ainda. Ela morreu muito nova, de uma doença incurável. Era uma menina de 19 anos. Amei-a muito e esta era «a nossa música».
Regressei a Portugal dias depois e os primeiros passos que dei em Lisboa levaram-me diretamente a uma discoteca onde pedi o disco, explicando ao vendedor: olhe, meu amigo, a letra da música é assim: “se esta rua fosse minha…..”
Saí feliz com o disco embrulhado debaixo do braço.

O QUE ESPERO PARA O ANO NOVO
Ary Franco (O Poeta Descalço)
Brasil

Como aposentado, espero ter um aumento na minha aposentadoria de 300%, para equiparar-me ao que deveria estar recebendo, proporcional ao quanto recebia ao me aposentar, isto é: a mesma quantidade de salários mínimos. Não quero mais precisar ser ajudado pelos meus filhos para poder sobreviver.
Como brasileiro, espero que os “donos da Lei e da Justiça” deixem de legislar em causa própria, abram mão de seus polpudos ganhos e os revertam a favor de nossos hospitais, segurança pública e educação. Tenhamos assistência médica, sem necessidade de pagarmos planos de saúde caríssimos e sermos atendidos e tratados com dignidade e respeito pelo SUS e Hospitais Públicos.
Como cristão, solidariedade para com os menos favorecidos e ajuda ao próximo, amando-os como a nós mesmos.
Como cidadão, quero poder sair à noite em segurança, sem risco de ser assaltado ou assassinado. Dormir sem ter que trancar minhas portas; com as janelas abertas no calor e sem grades de proteção, alarmes ou cercas eletrificadas.
Como chefe de família, quero contar com boas escolas e faculdades públicas para as gerações futuras estudarem, sem necessidade de ter que pagar colégios particulares. Depois de formados, quero empregos para todos poderem trabalhar e constituir suas famílias.
Como trabalhador, receber salário compatível com meus serviços prestados e poder cuidar condignamente de meus dependentes, dando-lhes o conforto necessário, sem que nunca passem privações.
Como ser humano, quero todas as ruas calçadas, com saneamento básico, escoamento perfeito de águas pluviais, livres de enchentes e/ou alagamentos. Coleta de lixo regularmente para evitar proliferação de doenças.
Quero ver minhas florestas e matas realmente protegidas, fazendo-se apenas cumprir as leis já existentes apenas no papel.
Quero o fim dos corruptos e dos corruptores. Quero que o funcionário público deixe de nos olhar de cima e passe a ser um servidor público, como na verdade o é.
Não quero esmolas do Governo, como cestas básicas, seguro desemprego ou terras para plantar (quero ganhar o suficiente para comprá-las). Não quero ganhar peixes para aplacar minha fome; quero ter condições de comprar minha vara de pescar. Quero deixar de ter que pagar impostos exorbitantes para sustentar políticos com padrões de vida nababescos.
Quero DIGNIDADE, RESPEITO E CIDADANIA DE FATO! Não quero sentir-me um palhaço escutando falácias dos políticos! Quero fazer parte de um povo educado, bem informado e culto. Não quero ver a ignorância ser fomentada pelos interessados em que o Brasileiro fique cada vez mais inculto e que ele só possa pensar e votar com o estômago e não com o cérebro! Hoje, causa-me vergonha, ao ver um caminhão acidentado, ter sua carga saqueada por um bando de pessoas famintas e desassisadas.
Finalmente, quero poder escrever uma crônica no dia 31 de dezembro de 2021, dizendo que tudo isso foi alcançado ou que, pelo menos, NÃO PIOROU!
QUERO, CADA VEZ MAIS, CONTINUAR A TER ORGULHO DE SER BRASILEIRO!   PELO MENOS ISSO, NÃO ME TIREM, POR FAVOR!

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