CRÓNICAS ,ARTIGOS E OUTROS TEXTOS

Todo lo publicado en  ARISTOS INTERNACIONAL está sujeto a la ley de propiedad intelectual de España

Julio 2.020  nº 33

La Dirección no se responsabiliza de las opiniones expuestas por sus autores. 
Estos conservan el copyright de sus obras

AL SERVICIO DE LA PAZ Y LA CULTURA HISPANO LUSA

 

As vendedoras da aldeia: Tímidas, falam pouco, apenas o absolutamente necessário
Ilka Oliva Corado
Brasil

Sempre vêm à minha mente quando as flores das dez começam a abrir suas pétalas nas manhãs tíbias de verão. E com a brisa tênue dos dias de sol e canícula, aparecem os baldes de água regando o pátio empoeirado daquela casinha que foi o ninho que abrigou a inocência da minha infância.

E o cheiro da terra molhada chega até a janela do meu quarto, aqui nesta terra longínqua onde hoje planto alhos, sementes de tomates e acomodo os ramos da erva cidreira que se expandem galantes como trepadeiras entre as flores, os vasos e meu pequeno terreno em minha cidade alugada. 

Aparecem entre a bruma fria dos últimos minutos do orvalho da alvorada, quando o calor começa a despontar para dar passagem ao meio-dia. Eu as vejo descer pela rua principal da aldeia, com seus chinelos empoeirados de tanto caminhar, com suas cestas na cabeça cheias de ervas, verduras e flores. Com queijo, creme, ovos de pata e galinha. São meninas e adolescentes que trabalham durante o dia para cuidar dos animais, moer milho na pedra, fazer as tortilhas, lavar a roupa, cuidar das plantações, estudar (algumas) e descer à Cidade Peronia, o bairro vizinho recém criado, para vender a colheita.

A imagem aparece em uma sequência de tempo, com a harmonia de seus passos equilibrando seus corpos que carregam as enormes cestas que branqueiam de flores de izotes, güisquiles maduros espinhosos e peruleros. Com raminhos de páscoas, véu de noiva, dálias e crisântemos. Medidas de nêsperas, limões frescos recém colhidos e goiabas de carne vermelha, galantes. 

As alfaces grandes que são plantadas nos terrenos que estão ao lado da casona do segundo tanque, que parece uma casa patronal de uma fazendona, sobressai entre as outras de adobe.

Com a loja ao centro, o balcão grande cheio de bandejas de pão, doces de rapadura com gergelim, de quatro por cinco bem postos em folhas verdes. E a geladeira na entrada com as águas frias e os refrescos de tamarindo. Os sacos de roscas, as espuminhas em pequenas cestas de vime e as tranças de cabeças de alho colocadas atrás da porta junto a uma ferradura de cavalo e um feixe de sete ervas para espantar as más vibrações.  Como pequenas fontes corre a água entre os sulcos de flores e verduras, as cenouras grandes e o coentro que espalha seu aroma até a aldeia do Calvário e Sorsoyá.

Elas são esperadas sempre como a água de maio em Peronia (um bairro que não tem ainda seu caráter e personalidade bem formados, mas que terá com os anos, devido à diversidade da origem de sua população), é suficiente que caminhem duas ou três quadras para que vendam o conteúdo de suas canastras. Depois descem ao mercado para comprar sal, açúcar, canela, azeite, velas, gás, retalhos de pano, as coisas que não podem produzir na aldeia. 

Não oferecem, não batem nas portas das casa, só caminham no meio da rua com suas cestas, com suas costas erguidas e seus grandes aventais. Bem asseadas, seus cabelos trançados, seus vestidos feitos pelas mulheres de sua família, tímidas, falam pouco, o absolutamente necessário para as vendas. Isso é suficiente para que se alvorocem as quadras e saiam as mulheres a comprar o que em um momento acaba. E ficam as pessoas com vontade de vê-las regressar com suas canastras cheias de beleza e essência da aldeia que em meus anos de infância foi o horizonte que deu liberdade às minhas asas de cigarra.

O ALTAR DA NOSSA CRUZ
Eugenio de Sá
Portugal

A todos nós, os que expressamos pela escrita os nossos sentimentos, mormenteos que, com eu o fazem em poesia.

   Somos donos de um feixe de nervos, e, talvez por isso, embora apregoemos que buscamos a tranquila mansidão dos dias, só nos sentimos realmente vivos quando se tece em nós uma teia de emoções. E essa ânsia, essa necessidade, acaba por se tornar num vício que procuramos alimentar de exercícios espirituais sempre vez mais intensos.

   Daí, a tal solidão de que falamos quase como cousa almejada, pois só no isolamento a que nos votamos logramos enlear-nos na tal teia de emoções. E essa solidão não significa que tenhamos de estar fisicamente sós; pode haver gente à nossa volta, que a sempre esperada evasão espiritual nisso não encontra obstáculo.

   E é nesses momentos em que o tempo parece suspender-se, nesses momentos em que nos encontramos numa espécie de êxtase, que sentimos o impulso de escrever, de expor a alma à brancura da tela, que se nos oferece,  virgem, à voragem dos dedos que querem teclar sobre ela as palavras que reclamam por ser escritas.

   É desse íntimo “feelings storm” onde se debatem ideias e sentimentos, que acaba por brotar, espontânea, a poesia, fundada na metáfora que cavalga a nossa expressão criativa.

Corre dentro de nós todo um processo de exacerbação de sentidos; são as estridências da lenha que crepita numa lareira, é o uivar do vento entre as enxárcias de uma nave, são os latidos dos cães que alertam os caçadores, é o rebentar do mar nas rochas alcantiladas de uma penedia, é o manso pranto de alguém em luto pelo ente querido…

   E então enchemo-nos de ruídos, de fantasias, de frases soltas…de histórias por contar.

   Respeitamo-nos, e sabemos que podemos contar com o respeito de quem partilha connosco a sua éxperiência de vida, com a compreensão das pessoas que amamos e que nos amam. É tudo uma questão de uma assumida separação de águas, como as de dois rios que correm paralelos até à foz sem que os seus leitos se misturem precocemente.

   E a vida vai correndo na bonomia da aceitação deste convívio inteiramente isento de crueldade. Quem nos conhece, aceita-nos como somos; às vezes evadidos da presença física que prova que ali estamos, mas só na aparência, porque o nosso espírito voga quiçá por outras latitudes onde até os horizontes são quiméricos.

Deja un comentario