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REFLEXÕES
Por: Eugénio de Sá
(Portugal)

O homem é o predador do homem
( Homo hominis lúpus )

Num tempo em que a terra ainda estava preservada de agressões e se mantinha no estado mais puro, havia uma lenda tribal que dizia que se o homem bebesse da água onde o lobo saciou a sede, ficaria com os traços comportamentais daquele animal que fazem dele um animal temido mas respeitado no seio da alcateia.

Mas a natureza já não é a mesma e os homens já não bebem onde bebem os lobos. E o homem transformou-se no maior predador do próprio homem.

Esta afirmação revela que o ser humano é capaz de grandes atrocidades e barbaridades contra o seu semelhante, e, tendo em conta o que diz a tal lenda, conclui-se que poucos homens usarão hoje a mesma hídrica fonte de vida que a dos lobos, cujo comportamento em alcateia é marcado pela nobreza e pela lealdade com os da sua espécie.

Segundo Hobbes, “o individualismo  do ser humano compele-o a viver em guerra com os outros”. Esta frase expressa o conflito latente entre os homens, indicando que de todas as ameaças que um ser humano pode enfrentar, a maior delas é o confronto com os seus semelhantes.

Daí, que os maiores desafios que enfrentamos como espécie são criados por nós próprios, porque vemos que para o ser humano é comum os mais fortes explorarem os mais fracos, quando deveriam protegê-los. Isso revela que o Homem é o predador do próprio homem, constituindo-se um vilão para ele próprio.

O lobo solitário que vive em nós

Para quem o faz sozinho

a viagem pela vida pode ser bem dura

Embora durante largos períodos da nossa vida tenhamos a ilusão de que estamos acompanhados, é a solo que tomamos as grandes decisões, as que mais nos condicionam a existência.

Na realidade, poucos são os espíritos que um dia partilharam os seus dias no silêncio do entendimento absoluto com o companheiro. E esses terão de agradecer a Deus por lhes haver verdadeiramente mitigado a sua solidão.

Lembremo-nos que a própria morte é um acto solitário

“Pensando nos lobos solitários,

é impossível também deixar de mencionar a dita «Idade do Lobo», expressão usada para falar da fase da vida na qual certos homens, por volta dos 40 anos, entram na famigerada «crise de meia idade». A psicologia explica que na Idade do Lobo os homens percebem que não viveram as suas vidas conforme desejaram porque seguiram apenas as regras da sociedade. Isso os leva então a querer fazer tudo o que nunca fizeram, e com pressa, pois sentem que não lhes resta mais muito tempo de vida. A patologia a ser percebida aqui é a seguinte: o Lobo busca desesperadamente “fazer as coisas que não fez” em vez de simplesmente “fazer o que gostaria de fazer”.

Querermos converter o “homem lobo do homem” num ser incondicionalmente amigo do seu semelhante, é talvez o maior objectivo da civilização, mas infelizmente revela-se utópico nos tempos que correm.

Se o lobo solitário que vive em nós tomasse uma saudável consciência disso, perceberia que seria mais fácil desfazer a confusão e distorção das suas ideias e conceitos, e, com calma, poder tratar as suas mazelas pessoais, do que sair, solitária e desesperadamente, tentando mudar o mundo à sua maneira. Porque, afinal, obrigar os outros à “sua” mudança, além de ser despótico, é injusto, coactor, e inviabiliza a inversão das tendências negativas que apontamos

ILKA OLIVA CORADO
O germe do fascismo

Como um mal hereditário nas novas gerações se reproduz com facilidade porque são gerações desvalidas, deixadas à interpérie, carcomidas que, como bagaços, são lançadas às urnas, às ruas, à vida.

Infestadas desse gene que acaba com o cérebro em um piscar de olhos, essas gerações não conhecem as primaveras, viveram hibernando em quartos escuros desde sempre, não conhecem o calor do sol nem a alegria do canto das aves, são incapazes de sentir algo que esteja fora da margem de seu radar de fascistas. Inclusive não sabem o que são, porque carecem de raciocínio.

Essas gerações são como pacotes empilhados que os operários do mundo carregam e descarregam de seus ombros, como blocos de cimento, como quintais de ferro que formam colunas em que segue cimentando o germe do fascismo. Não têm vida, não cheiram o aroma das flores e não sentem a dor do outro e muito menos seu próprio fedor.

Estruturalmente o fascismo está nas aulas escolares, como ferrugem nas paredes, na linguagem do docente, nos livros de universidade, na mensagem subliminar dos anúncios televisivos, na fila de espera de um hospital público, nas mãos do médico. Estruturalmente está no arquiteto que desenha mansões nas colinas, na sentença de um juiz, nas decisões da Corte Suprema de Justiça, nas barras de um cárcere, nos corredores de um centro de detenção para menores.

Está nos direitos negados, nas árvores que se arrancam para que jamais volte a primavera e as gerações que são alimentadas pelo germe do fascismo sigam hibernando em quartos escuros. Uma desnutrição que cria seres humanos insensíveis, egoístas, preguiçosos, machistas, racistas, homofóbicos, arrogantes e conservadores que, na menor oportunidade, tratar de eliminar quem representar um perigo para seu cativeiro e tente abrir as portas desses quartos escuros e lhes mostre o frescor do vento, o calor do sol e a neblina das madrugadas.

A quem se atreva a lhes mostrar as cores do arco-íris, das árvores no outono, a vibração das mariposas, a suave brisa do mar. O palpitar de um coração feliz, o sorriso das crianças, a quem lhes convide a sentir os abraços curadores dos avós.

Por tal, sempre estão os desadaptados, os loucos, os sonhadores. Por sorte sempre estão os atrevidos, os bobos, os imprudentes que se lançam de cabeça ao vazio sem recurso algum mais que o de um coração livre. Sâo eles os que milenarmente têm nutrido a resistência, e é a resistência a que segue embelezando as primaveras

 LUIS ALBERTO VILLAMARIN PULIDO
Brasil vitima dos clichés samba-coqueiros

Os meios de comunicação franceses têm uma visão folclórica do país de Jair Bolsonaro. Esses meios não têm remédio: dizem que o país do carnaval, do samba, do rei Pelé, elegeu um mandatário “fascista”, “racista” e “homofóbico”: Jair Bolsonaro. O radicalismo de tal rechaço à eleição pelo povo brasileiro só é comparável à tenacidade dos clichês que fabricaram para esse personagem.

      O Brasil talvez seja o único país do mundo que é conhecido por clichês e nada mais do que isso. É a terra do samba, dos mulatos sempre sorridentes e dos coqueiros. Como marroquino, sei algo do que são os clichês pois meu próprio país é objeto de clichês, todos tão inexatos e enganosos como aquele: “Marrocos, país da intolerância” ou “Marrocos, um país dirigido com punho de ferro”. Marroquino e residente no Brasil há sete anos, me permitirei romper ou, ao menos, matizar algumas das análises lidas e aqui e lá sobre as eleições brasileiras.

     Você disse “fascista”?

    Dizem-nos que Bolsonaro é fascista. Inclusive no tom mais sério. Desmontar essa enormidade merece todo um artigo que, sem dúvida, não será lido pelos aprendizes de inquisidores que proliferam na França. O deles é pura crença religiosa e isso é inquestionável. Me limitarei a enfatizar que Bolsonaro é um evangélico, quer dizer, um homem religioso afiliado a uma das muitas igrejas protestantes do Brasil. Sua esposa também é. A maioria dos seus eleitores também são. É necessária uma boa dose de má-fé e de preguiça mental para confundir um evangélico com um fascista. Eu não conheço um fascista verdadeiro (dos da época de Mussolini, por exemplo) que tenha sido um cristão militante. Pelo contrário, o fascismo italiano desprezava o Vaticano e os valores da Igreja (viam-nos como demasiado brandos, demasiado humanistas, demasiado burgueses). Entre os nazistas alemães houve uma tendência “católica” (peço desculpa aos católicos pelo abuso da linguagem mas tenho que ser rápido), porém ela nunca pesou nada ante Hitler, um pagão radical.

     Entre os meus (não posso votar no Brasil porque sou estrangeiro), vejo minha empregada doméstica (uma mulata do nordeste) votar em Bolsonaro, meu zelador (um negro do nordeste) votar em Bolsonaro, minha esposa (brasileira de sangue judeu-austríaco) vota em Bolsonaro, um amigo gay vota em Bolsonaro. Em São Paulo, 68% dos votos válidos foram para Bolsonaro. No Rio de Janeiro, uma cidade 50% negra, 67% dos votos foram para Bolsonaro. Portanto, será necessário me explicar que vírus sado-masoquista empurrou as “minorias” a se jogar nos braços de um aprendiz de fascista! Também terão que explicar à minha esposa como o único candidato abertamente pró-Israel pode ser fascista.

     A esquerda, campeã da corrupção

     Se tomamos cinco minutos para ser sérios, podemos abrir os olhos e aceitar ver dois dos principais fatores que explicam a votação por Bolsonaro. Por uma lado, minha empregada doméstica e meu zelador são evangélicos como Bolsonaro. Seguiram as instruções de votação aprovadas pela igreja. Por outra parte, minha esposa e meu amigo homossexual estão fartos da esquerda brasileira, que levou o país à ruína, fazendo ambos perderem seus empregos. Não insistirei no tema, só lembrarei que a esquerda brasileira protagonizou o maior escândalo de corrupção da história do mundo: Petrobras! O saque do gigante brasileiro de hidrocarbonetos levou todos os tesoureiros do Partido dos Trabalhadores (PT) à prisão: são quatro os tesoureiros que estão atrás das grades.

     O rechaço à esquerda é muito mais que um fenômeno ideológico (minha esposa sempre votou no centro-esquerda e meu amigo homossexual é de esquerda). Porém, é preciso ver o tipo de campanha liderada pelos opositores de Bolsonaro. Seu lema era: “Lula é Haddad”. Em outras palavras, Haddad se apresentou como a encarnação de Lula. Este último era o verdadeiro candidato para as eleições presidenciais. Lula está na prisão condenado a doze anos (por corrupção). O objetivo declarado da esquerda brasileira era eleger Haddad e libertar Lula no ano seguinte, mediante um indulto presidencial. Então, Lula seria nomeado ministro para evitar qualquer investigação judicial futura (ganharia imunidade). Isso se chama obstrução à justiça. Pode-se reprovar muitas coisas de tipo moral no Brasil, mas ainda não é uma república bananeira. O Brasil nega-se a sê-la.

     O verdadeiro fascismo é o crime organizado

     Também li que “Bolsonaro será um presidente autoritário de direita”. Espero que isso seja só uma piada! Como estabelecer um regime autoritário com uma polícia que é incapaz de controlar áreas inteiras do território? A metade da população do Rio de Janeiro vive sob o jugo das quadrilhas. Em São Paulo, onde vivo, todos os subúrbios estão nas mãos do PCC (Primeiro Comando da Capital, a máfia do estado de São Paulo. São amigos das FARC que lhe vendem cocaína e armas), uma máfia que tem 10.000 combatentes. Todo o sistema penitenciário está controlado pelo crime organizado. Sob estas condições, Bolsonaro necessitará de muita motivação e esforços para estabelecer um regime autoritário no Brasil.

     No Brasil já vivemos sob uma ditadura: a do crime organizado. Eles são os fascistas. São os culpados pela morte violenta de mais de 62.000 brasileiros no ano passado. Eles cortam os cabelos e raspam a cabeça das mulheres que se atrevem a dizer não a seus “guerreiros”, eles queimam vivos os homossexuais e jornalistas que têm a desgraça de entrar em uma favela sem sua permissão. Eles cortam as cabeças de seus oponentes na prisão. São os narco-fascistas que estão convertendo o Brasil num inferno. Quantas mortes e massacres mais serão necessários para que os observadores estrangeiros entendam com que monstro o Brasil está lidando?

     O carnaval continuará

     Não se preocupe, com Bolsonaro ou sem ele, haverá carnaval em fevereiro próximo e os biquinis microscópicos continuarão florescendo em Ipanema. Os clichês serão salvos. Inclusive é muito provável que as quadrilhas retenham o controle das favelas sem se importar com o que Bolsonaro diga. Esse clichê também sobreviverá e sempre haverá “analistas” que falarão sobre o fracasso do Trump brasileiro. Qualquer que seja a votação, os clichês ganham sempre.

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