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AL SERVICIO DE LA PAZ Y LA CULTURA HISPANO LUSA

A chegada da aurora na vida de quem sempre confrontou o sistema: não tem sido fácil, mas sigo
Ilka Oliva Corado
Brasil

Os últimos três anos do curso primário, a hora de recreio eu passei com orelhas de burro, olhando para a parede na diretoria do colégio. Foi meu castigo em absolutamente todos os recreios, não houve um só que eu pudesse desfrutar.

Sempre desejei mais, ansiei mais do que minhas circunstâncias de vida permitiram, sempre sonhei com a liberdade e a equidade desde pequena. Então fui uma menina tremenda, que saiu da norma, cheia de energia, que acreditava ser uma cabrita a mais da manada que pastoreava que nunca chegou ao rebanho.

Nos recreios pedia para jogar quando os meninos, meus companheiros de classe, se punham a jogar futebol; não me deixavam jogar porque era menina, coisa que me enfurecia, então os desafios às trombadas e sempre terminava ganhando.

Quando o professor chegava já estava desmanchada a bainha do meu uniforme, rodado de avesso e direito na terra do pátio e me haviam despenteado toda das puxadas de cabelo que me davam os moleques, porque sempre tive o cabelo comprido. É outra das minhas rebeldias.

O professor me levantava puxando pela orelha e me levava assim à sala onde estava a diretora e lhe dizia que me havia encontrado brigando com os meninos; meu castigo: colocar as orelhas de burro que eram feitas de papelão e me diziam que ficasse de cara para a parede. Nunca levaram para o diretor nenhum dos meus companheiros, a castigada sempre fui eu.

Talvez se os meninos me tivessem dobrado nas brigas, a história teria sido outra? O certo é que nunca fui uma menina débil por fora, tudo ao contrário por dentro. Nunca escutei o professor ou a diretora dizerem que também tínhamos direito a jogar futebol, pelo contrário, quando sabiam minhas razões me diziam que as meninas brincavam com bonecas, loucinhas, coisa de menina, não de menino.

E eu sempre, toda a minha vida fiz coisas de menino porque nunca acreditei que exista algo que as mulheres não possamos fazer; o preço que paguei foi alto, mas continuo insistindo porque sou por natureza uma cabra louca e afinal de contas, as mulas sempre preferimos o campo.

Para os dias de fim de ano, em uma dessas tantas vezes que o professor me levantou pela orelha, em lugar de levar-me à diretoria para meu castigo com as orelhas de burro me levou ao salão, agarrou o gravador e colocou um cassete, me disse que escutasse a canção com atenção e quando me sentisse só e derrotada, quando sentisse fúria e dor escutasse essa canção; era o grupo Abba cantando Chiquitita.

Depois colocou outro cassete, do grupo Tormenta, a canção: Adiós chicos de mi barrio. Eu que nunca pude falar nem expressar meus sentimentos nem minhas emoções não lhe disse nada, fiquei em silêncio chorando a fúria de ser castigada por tentar jogar futebol com os meninos. Essa foi uma das primeiras derrotas que vivi. À infância não se cortam as asas, nem se subjugam por nenhuma razão.

Ao longo dos anos, quando escutava Chiquititas, chorava mares, nunca a procurei, mas aparecia em momentos inesperados, então chorava o fel da minha frustração. Sempre fui tratada como uma causa perdida, a última, a olvidada, pela qual não há que apostar nada porque se perde. Cheguei à adolescência e continuei debatendo-me em duelos de pancadas com os moleques, pela mesma razão: a equidade e meu direito de jogar futebol.

Era a única menina que jogava futebol no bairro nessa época. Para poder fazê-lo tinha que brigar com todo o time, isso a cada vez durante longos anos, até que um dia compreenderam que não podiam seguir negando-me o direito. Essa pequena vitória a celebrei com cerveja, é claro, como se deve, na periferia.

Nunca imaginei que chegaria aos 18 anos, sempre acreditei que morreria antes; os 18 anos estavam tão longe porque cada dia era um tormento de desejar morrer e não amanhecer. Nunca quis viver além dos 18 anos, minha vida era muito dura para desejar postergá-la mais.

Hoje, 11 de novembro de 2021 estou cumprindo 18 anos de ter chegado a esta minha cidade alugada, onde me converti em estrangeira. Como nada, se passaram 42 anos na minha vida. Este ano foi a primeira vez que celebrei meu aniversário, o fato de estar viva e foi o primeiro ano em que não pensei em me suicidar.

Ontem à noite, enquanto pintava, liguei o rádio em meu celular e de repente o inesperado, que foi como um sopro de vida, a canção do Abba, Chiquitita, e a chorei e a dancei com meus pincéis na mão, mas pela primeira vez não chorava de dor, nem de frustração, nem de fúria; chorei de alegria, de esperança, de agradecimento.

Porque sendo estrangeira, neste meu caminhar migrante, neste pedaço de terra que aprendi a querer, em um de meus tantos labirintos e peregrinações emocionais, deduzo que algum dos meus desvarios a chamou com tanto afinco que ela escutou e teve a humildade desde aquela altura de baixar a essa lonjura de ladeira onde me encontro.

É a Nuvem Passageira que me abrigou, que me escutou, com a que posso falar, a que me fez sentir querida e valorizada, a que não me julga nem me faz sentir envergonhada de quem sou e como sou, a que me fez criar e escrever além de minha torpeza e aridez. A que me fez pintar e assim realizar meu sonho de menina. 

E a que neste momento está aqui comigo, nesta garoa que vejo cair através da janela do meu ninho-estúdio. Porque há dias que a converto em chuva, em névoa, em sol, em folha de bordo, em ramo de pinheiro, em taça de vinho, em cores das minhas pinturas, em letra de minha poesia. No ar que respiro.

O caminho não tem sido fácil, mas hoje desde minha fortaleza, não desde meu ser roto, porque pouco a pouco foi se curando, posso dizer àquela menina que sempre se sentiu uma causa perdida, à que punham orelha de burro na diretoria do colégio e que castigavam na hora do recreio, olhando para a parede, à qual todas as portas foram fechadas na cara, que valeu a pena resistir porque hoje está aqui finalmente a aurora.

E que me sinto sumamente orgulhosa de sua tolice, de sua aridez, de sua rudeza, da sua essência caipira, de seu cabelo despenteado, de sua cor da pele, de seu cheiro de negra, de seu nariz de negra, de suas bobagens, de seus desvarios, de suas decisões algumas vezes não tão acertadas, de seus retrocessos, de sua forma de querer, porque tudo, absolutamente tudo a levou a ser o que é hoje em dia. E a celebro e a abrigo e a quero e a admiro, cada dia um pouquinho mais.

E lhe digo que, sem lugar a dúvida, continuarão existindo dias difíceis, que são na verdade a maioria, mas que com sua fortaleza saberá superá-los como tem feito sempre e com seu sorriso os saberá agradecer porque trazem consigo o aprendizado.

! NADA É PARA SEMPRE!
Uma crónica de Eugénio de Sá

A minha infância morreu há muito tempo; e eu vivo ainda.
Mas não viverei para sempre. Fecho os olhos ainda que por
um momento, e desse lapso de tempo nada ficou a lembrar-mo.
Santo Agostinho

Dizia Heraclito de Efeso que as constantes transformações eram justamente a característica mais fundamental da natureza e do homem. “Tudo fluí”*, concluía o filósofo, depois de haver referido que “ não podemos entrar duas vezes no mesmo rio”. Considero caber aqui – como reforço de razão – o argumento complementar: porque embora possamos entrar duas vezes no mesmo rio, não devemos esperar sentir da segunda vez as mesmas sensações que sentimos na primeira.
A verdade, leitor amigo, é que nada se repete de forma exactamente igual.
De mudança, em mudança…
Civilização ocidental andada, houve um tempo em que o pensamento humano como que cristalizou, espartilhado e condicionado pelas múltiplas convenções e preconceitos gerados por crendices repetidas por pensadores de duvidoso crédito, já que eles próprios se condicionavam a rígidos princípios éticos fundadas numa religião eivada de falsos conceitos e de hipocrisias, ou noutras balizas estabelecidas pelos senhores do poder, a quem sempre interessava manter tudo como estava.
Mas as revoluções sociais ao longo da história mais recente vieram moldar as sociedades fazendo com que o que parecia ser rígido e dogmático se viesse a mostrar mais flexível e propenso à aceitação, e a consolidar alterações e mudanças.
Com a passagem dos tempos, foi então vez da liberdade de pensamento se mostrar como objectivo maior a atingir, vindo a ganhar, por fim, o estatuto de direito inalienável do cidadão.
Até que em Maio de 1968 a revolta de Paris acabou de vez com os restos dos preconceitos e abriu caminhos insuspeitados até aí. Hoje, as mulheres tem direitos iguais aos dos homens (pelo menos é isso que está estabelecido), as greves são vistas como uma natural forma de reivindicar direitos laborais, a o racismo e a xenofobia são sentimentos condenáveis, e condenados. O voto derruba governos e governantes e a corrupção é finalmente levada aos bancos dos tribunais, que a julga e castiga.
Só um punhado de ditadores, que se agarram a argumentos caducos para se manterem e continuarem a escravizar os seus povos, resiste ainda.  Mas, mesmo esses, têm inevitavelmente os seus dias contados nas respectivas cadeiras do poder.
Tarde, e geralmente a duras custas, descobrimos que nesta vida
nada é para sempre, mormente a sobrevivência colectiva.
Resta saber se todas estas conquistas irão persistir, e, quiçá, aperfeiçoarem-se num futuro que se adivinha breve, já que a terra se debate com grandes e graves problemas, fruto dos excessos do homem, que a desprezou, desconsiderando a sua própria sobrevivência, ao queimar-lhe as florestas purificantes, ao explorar-lhe as entranhas até à exaustão, ao poluir-lhe os mares e os rios.
A continuada e desregrada queima dos fósseis, deixando que os venenos dessa queima fossem criminosamente enviados para atmosfera, é uma das maiores ameaças para as populações de todo o mundo, já que está a alterar gravemente as condições de vida da humanidade, pelas mudanças operadas no clima e na camada do ozono que nos protege das perigosas radiações solares.
Tudo isto, enquanto os oceanos estão invadidos de artefactos produzidos com base no mais popularizado dos subprodutos do petróleo; o plástico, em quantidades que se diz pesarem já tanto como boa parte da fauna marinha do planeta, ou seja; mais de 150 milhões de toneladas.
Haverão mudanças a curto, e cada vez mais graves a médio prazo.
E todas elas são já tidas como irreversíveis e devastadoras.
Quanto à continuidade da espécie humana e das demais, só Deus o sabe, porque na mão do homem parece já não estar, apesar de todo o seu desenvolvimento científico. E, acredite-se, ou não, os conflitos bélicos sempre latentes, e os que se perfilam no horizonte, vão ser os nossos menores problemas. A menos que sejam nucleares.
E assim se provará que nada é para sempre!

4 Horas da Manhã
JJ. Oliveira Gonçalves
Brasil
 

4 horas da manhã. Madrugada fria e muda. Não há Estrelas. Nem Lua. Ouvi cachorros uivando. Ouvi cachorros latindo. E ouvi três tiros na rua. Nesta madrugada de sábado, não há poesia. Há só rumores de carro. Um silêncio enorme e largo. Meus gatos dormem. Meus cães dormem. O sono angelical dos inocentes. Há estes meus olhos gastos e indormidos. E 1000 Lembranças: bailarinas na Memória aguda e espichada do Tempo. E há esta velha mania de escrever, quando o sono se vai… E a Saudade, trazida pelas ramagens das Lembranças, chega e fica. Fica deitada ao meu lado. Na cama. Como se fora uma sensual Amante de minha leda e ousada juventude. Ao meu lado, ela se espicha e se encolhe. Nua e bela. Que a Saudade não tem falsos pudores. Nem preconceitos. É uma Saudade antiga e adolescente. Murmuro para mim mesmo o apaixonado e dorido tango “Cuartito Azul”. 

Não há Poesia. Nem Esperança, nestas horas mortas. Mas eis que assoma outra melodia de meus ais de dentro. Há uma letra. E há uma voz romântica e dorida que me acompanha desde que eu era garoto, em Bagé. É Anísio Silva cantando seu “Abismo”. Há Paixão em sua interpretação. E há largos suspiros pelos desvãos do peito. Então, para que Anísio não fique cantando sozinho, minh’Alma lhe faz dueto e cantarola, (baixinho!), esse abissal e perigoso “Abismo”. Mas, não acordo ninguém. Nem meus cães que fazem a ronda no quintal. Nem meus gatos que fazem a ronda espiritual no interior da casa. Não perturbo ninguém. Nem as flores e folhagens no pequenino jardim da “Branquinha – a Kika”. Sou só eu e a palavra. Só eu e a insônia que pesa em minhas pálpebras. Sou só eu e este diuturno cansaço existencial.

Todavia, todo esse cenário faz parte do jogo. Um jogo feroz e bruto! Um jogo de cartas marcadas. Um jogo sem piedade. Sadicamente desigual! Um jogo onde o outro blefa. Gargalha e ganha. Em momentos absolutamente solitários como este, a vida se me assoma na trágica metáfora de uma gaiola. Gaiola que me enclausura Sentidos e Sentimentos. E eu fico assim: a ver navios… Apesar da Dor da Cruz que me destrói os ombros, quero acreditar que, do Outro Lado, viceje a Fragrante e Verde Flor da Liberdade! É preciso que essa Flor exista. Porque, sem ela, esta vida, aqui, não terá sentido! Não valerá a pena ser vivida. Que as Lágrimas iriam para o ralo. As Lembranças para a lata de lixo. E as Saudades seriam ilusões (cruéis!), a nos torturar a Alma! E a nos adoecer o corpo. Quimeras a nos morder os Sonhos!

Há momentos, em mim, em que sinto uma grande vontade de ir embora… Para onde? Não sei. Talvez, para uma Estrela. Talvez, para a Estrela de onde vim. Voltar, quem sabe, para a Nação Upi. Com meu Coração (selvagem!) de Lobo. E minha Alma (nervosamente!) Felina. 

São cinco e vinte da manhã. Meus olhos continuam inexplicavelmente acesos. Quem sabe, fazendo a ronda de mim mesmo… De minhas palavras. De meu Emocional intenso! É breu a madrugada. Na rotineira escuridão que irá parir um outro dia. Nascido da escuridão. (Para quê??)

“Minhas palavras são como as Estrelas… Jamais empalidecem! (Grande-Chefe Seattle)

Menina Paulinha!!
Prosa poética
Por: J.J. Oliveira Gonçalves
Brasil

Minha sempre meiga e terna menina Paulinha… Menina delicada, doce… Desabrochada num gracioso e feminino corpo de mulher… Hoje, bateu-me à porta do coração, uma Saudade enorme, também doce e delicada. De tua voz um tanto rouca, sutilmente sensual… De teus cabelos pintados de Aurora… De teus olhos: pirilampos travessos que iluminavam meu Céu-Interior… De tuas mãos, com textura de pétalas e de Carinho… De teus pés pequeninos, níveos e belos… Enfim, Saudade de ti… Da cabeça aos pés! (Até do beicinho que fazias, pintadinho de batom!), quando estavas chateada – não comigo – mas com vieses no trabalho ou na família. Quantos recuerdos nos escaninhos d’Alma, Paulinha! Fui o Outono do sazonal Amor em tua vida. E, em minha vida, foste a Primavera cheirosa, revigorante e colorida!

Guardo teu perfume na memória inesquecível do olfato. E a alegria do teu sorriso nas janelas já cansadas de mesmices e de spleens… da Alma! Vontade de te ver, de novo… O andar vaidosamente feminino de guria… O olhar profundo de teus olhos cor-de-mel e amorosos… Teus dengos – que eras, por natureza, frágil e dengosa… Eras Flor viçosa e gentil desabrochada para encantar a vida! Ah, minha vida sei que encantaste –  por certo tempo, é verdade. E sabes que, em meus versos, eras a melodiosa cotovia empoleirada n’Alma – que me fazia cantar o coração!

Trabalhavas e estudavas. Porque não querias ser apenas uma empregada numa loja. Querias ter uma profissão e ganhar a vida exercendo profissão que escolheras. Um dia, te formaste. Lamento não ter podido ir à tua formatura. Mas, como diz a letra de um samba-canção que sei de cor, desde menino: “o coração tem razões/que a própria razão desconhece.” Não sei se me esqueceste. Sei que foste trabalhar em tua nobre profissão. Isso é o que sei. Sei que és dedicada, séria e muito competente. Ah, e tenho certeza de que continuas bela e feminina! E de que continuas menina, Paulinha!

Eu? Eu continuo, aqui: algumas rugas e alguns sulcos a me envelhecerem – impiedosamente! – a face. Que o Tempo é bárbaro e indiferente escultor – com seu Cinzel afiado, furioso e penetrante! Eu? Continuo o mesmo homem pequeno e tímido. O mesmo poeta maluco, ingênuo… Teimosamente romântico e apaixonado! (Lembras da tarde em que te disse que, se pudesse, daria uma de Vinícius e fugiria, contigo, para Paris?) Sabes, Paulinha?  A Lua enluarou-me os cabelos. Pois que a Lua é minha ebúrnea e sensual Madrinha! Ah, e o Vento é o irmão que – enquanto escrevo – me traz sutis lembranças de menina-primavera… Com tua fragrância flor-de-laranjeira. E a Alma sedutora de Mulher!!
“Minhas palavras são como as Estrelas… Jamais empalidecem!”
(Grande-Chefe Seattle)

BICADAS DO MEU APARO
A CALDEIRADA
Por: Artur Soares

Como pertenço ao grupo dos “técnicos de lazer”, minha mulher, democraticamente só, decidiu que eu devia colaborar na elaboração dos serviços culinários de casa. Assim, tocou-me preparar uma caldeirada de peixe e uma sopa. Meti pés ao caminho e já na rua liguei à minha comadre Ortelinda para me dar umas dicas sobre a caldeirada, p’ra fazer figura perante minha mulher, como jeitoso cozinheiro.

Deslocado à peixaria, disse à “técnica da carne do Mar” – assim se intitulou – que pretendia peixe para caldeirada e que chegasse para dois. “Pois sim senhor” – respondeu a técnica.

– “Pode levar um pouco de Perca do Nilo, que é do Uganda e também uma rodela de pescada do Chile; posso-lhe cortar uma lasca desta Dourada grande, que é da Grécia e, também fica divinal a caldeirada se lhe juntar uns cinco ou seis camarões e uma pernita de polvo, que são de Marrocos. Também tem aqui truta salmonada, embora não fique bem, é portuguesa, ali para os lados de Paredes de Coura”.

A “técnica da carne do Mar” deu-se conta que eu estava absorto, olhando para o gelo que envolvia o peixe e alertou para que me decidisse. E trouxe toda a peixeirada que selecionou.

Nas compras para a sopa, não deixei de pensar que sou pouco apto. Vou comer caldeirada com peixe de vários países e não os conheço, pensei. O Uganda, o Chile, Marrocos aqui tão perto e a Grécia… hei, caramba, a Grécia!!! E Portugal, país que vou conhecendo, onde nasci, que amo, que tive várias ocasiões para ter de dar a vida por ele, não me dá peixe para a minha caldeirada a não ser a truta de Paredes de Coura!

Frente aos expositores que continham os legumes para a sopa, podia escolher couve-galega, alho e batata franceses, grelos, nabos portugueses e, melão para sobremesa, de Espanha.

Melão de Almeirim ou melão “casca de carvalho” do Minho, zero! Procurei tomates para a caldeirada, havia alguns de tamanho normal e muitos dos pequeninos, mas tomates portugueses não. Permaneci triste e pensativo dentro do hiper.

Sem me aperceber da sua chegada, tocou-me o Abrantes no ombro e perguntou se estava perdido. Que não, que pensava em nabos.

Foi-se o Abrantes e ruminando a situação de semiperdido no híper dizia a mim mesmo: convidam na televisão ao consumo de bens nacionais. E onde estão os pescadores, os barcos e o mar para termos peixe como os outros? Tem de ser mesmo uma caldeirada internacional ou então feita com os velhos chicharros e tirones (verdinhos).

Mas então a sopa também ter de ser internacional? Pois tem, uma vez que os donos dos hípers não têm tempo de ouvir na televisão o “consuma o que é nacional”. Então, comprei apenas nabos para a sopa e calda de tomate para a caldeirada.

Nabos, pois cheguei à conclusão de que nabos em Portugal é o que mais há. A calda de tomate, porque tomates a valer é o que menos temos e são pequeninos e, os tomates grandes que existiam eram estrangeiros, muito berrantes, de pouco miolo e de aspecto duvidoso.

Quanto ao grelo havia às resmas, não sei donde eram, muitos maltratados e o grelo fresco que se podia adquirir já era doutros clientes. Assim, para além do problema de não termos mar para pescar, temos também um problema agrícola.

Voltei a ligar à comadre Ortelinda para me dar os retoques finais. Fiz a caldeirada e a sopa e disse à mesa que iríamos um dia aos países que pescaram o peixe que estávamos a comer. Era nossa obrigação fazê-lo.

Quanto à sopa, se a agricultura estivesse organizada, é verdade que teríamos nabos a menos no país, mais tomates e os grelos escusavam de aparecer maltratados.

Ainda procurei bananas da Madeira – que são pequeninas e muito saborosas – e ananás dos Açores. Mas eram do Equador, grandes como pepinos e, o ananás da Costa Rica, mais caro do que o nosso açoriano. Nada disto trouxe, pois eram já internacionalizações a mais.

Logo, é importante que haja mar e agricultura organizados no país, para que os peixes grandes e maléficos não comam a raia miúda e para que nabos, tomates e o grelo existam com equilíbrio.

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