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SEJAMOS JUSTOS
Eugenio de Sá ( Portugal)

POLITIZAÇÃO DA JUSTIÇA,
OU JUDICIALIZAÇÃO DA POLITICA?

– Nem uma coisa nem outra deve poder acontecer; dizem-nos as regras básicas da democracia, entre as quais se destacam os princípios éticos que regem o indivíduo e a sociedade!

É uma tentação irresistível dos dois poderes maiores de um estado de direito; a de um querer dominar o outro, embora ambos sempre o neguem à saciedade.

Vejamos:

 “O homem nasceu livre e em toda parte é posto a ferros.”

Com esta frase, Jean J. Rousseau começa por reflectir sobre o porquê dos homens deixarem o seu estado natural de vida para constituir-se enquanto sociedade civilizada.

E numa sociedade moderna, democrática, e justa, é indispensável que se promova um pacto social adaptado às características de cada povo, onde caibam os fundamentais princípios éticos que defendem cada cidadão, ou grupo de cidadãos dos “abusos” da politica e dos políticos. A esse pacto convencionou-se chamar-lhe: Constituição.

Quando o homem passa de seu estado natural (original) para um estado de membro de direito de uma sociedade civil, ele sofre mudanças muito significativas, como a substituição do seu próprio instinto (sentido) de justiça. A necessidade da observância dos princípios éticos e morais na sua conduta, faz com que passe a reger-se segundo outras regras que não as suas, e a dever usar a razão em vez de agir de acordo com os seus impulsos.

Ele perde assim a sua liberdade natural e o direito a tudo o que quiser alcançar a seu bel prazer, porém ganha a sua liberdade civil no seio da sociedade em que se inclui, que é limitada pela vontade e o bem geral, sendo impossibilitado de passar sobre o direito de qualquer outro indivíduo ou grupo de indivíduos.

Logo, a justiça existe exactamente para regular as condutas e sancioná-las, quando e sempre que necessário, de modo a permitir que a sociedade possa progredir, sem sobressaltos e atropelos. Tem ainda a justiça, na sua acção, objectivos pedagógicos a perseguir, que vão introduzindo melhorias tanto nos seus procedimentos, como, sobretudo nos comportamentos sociais, em geral.

Se há um tempo para tudo, este é, sem dúvida, o tempo dos juízes,

os super juízes da era moderna.

Assiste-se agora a um protagonismo político inovador por parte da magistratura, mormente nos países que nos tocam mais de perto; os latinos, a que pertenccmos, e onde é hoje exponencial uma (bendita) febre pelo controle da corrupção, tida como um cancro a extirpar da sociedade.

Daí, que se diga que a acção dos super juízes, os que se ocupam das grandes causas consideradas mais negativas pela sociedade – que as deve investigar e punir – assuma hoje uma especial importância, o que, por isso mesmo, os torna especiais objectos de uma grande exposição aos media.

De há muito está instalada no espírito das maiorias a certeza de que a justiça só funcionava realmente para castigar os pobres. O “sistema” parece agora ter acordado, e está a ponto de conseguir fazer inverter essa convicção colectiva. As polícias empenham-se, investigam e promovem acusações fundamentadas contra os mais poderosos, levando-os a à barra dos tribunais, que os condenam e os mandam para a prisão, como merecem. Políticos, gente da alta finança, presidentes e quadros superiores de grandes empresas, e até diplomatas de carreira, os que, invariavelmente, se sentiam imunes a investigações e processos jurídicos, agora sentem que lhes foge o tapete protector, e estão em pânico.

Parece que o “sistema” se está a querer regenerar a partir de dentro, e para isso conta com os tais super juízes, que parecem nada temer, a despeito das sérias e repetidas ameaças anónimas a que estão sujeitos.

Estes homens e mulheres corajosos e incorruptíveis, que sabem que a justiça tem de ser cega a outras razões que não as suas,  e já mostraram ser gente digna da admiração e do respeito de todos os que vêm na justiça uma ferramenta privilegiada para moralizar a sociedade, que disso bem carecida está.

Falta agora saber-se da vontade e da inerente e substancial resposta dos políticos, na expectativa de que esses assumam, de vez, a jura que um dia fizeram de defender a grei, ao invés de dela se servirem, como infelizmente muitos deles têm feito ao longo de muitas décadas.

MEU AMOR PELOS ANIMAIS
Ary Franco (O Poeta Descalço)

            Desde pequenininho sempre tive um amor enorme por animais, inclusive insetos. Relutava em matar moscas ou baratas, ajudava cães abandonados na rua livrando-os da “Carrocinha da Prefeitura”, alimentava gatos dos vizinhos, tive porquinho da índia, cágado, hamsters  (aqueles que ficam brincando numa rodinha giratória), mas o mais excêntrico de todos foi o “Tilico”.
            Não muito distante de onde eu morava, existia uma granja e fiquei sabendo que eles botavam no lixo pintinhos machos, sem não antes torcerem seus pescoços. Sempre que voltava do colégio, saltava do bonde um ponto antes e visitava o latão de lixo da granja. Lá estavam eles às dezenas, mortos após um simples sopro entre as patinhas que os identificasse como não fêmeas.
            Isso repetiu-se durante semanas, até que um dia eu vi no latão um pintinho vivo! Ele estava se mexendo!!! Apanhei-o como quem rouba um anel de diamantes e corri, corri com a pasta batendo em minha costas como que a empurrar-me, incitando-me a um galope desenfreado até adentrar em casa.
            Mamãe, preciso ir na venda do “Seu Carlos” comprar farelo e milho picado. Olha o que eu achei! Esvaziei uma caixa de sapatos e com um conta gotas, dei um pouco de água ao “Tilico” goela abaixo. Deixei-o aos cuidados da mamãe e fui comprar a ração para ele. Tudo fiz correndo, de uniforme do colégio; apenas me desvencilhei da pesada pasta nas costas.
            Uma lâmpada acesa próxima à caixa de sapatos dava ao meu adotado o calor suficiente como as asas de sua mamãe. Ele beliscava o farelo e os pedacinhos do milho picado. Chorei de alegria. Estava salvo o meu mais novo “bichinho de estimação”. Dormiu no meu quarto com a lâmpada acesa.
            Por sorte, dia seguinte era um sábado e não tive aula. Dediquei tempo integral ao meu amado pintainho. Retirei-o da caixa e deixei que passeasse pela sala, tendo cuidado para minha cadela não querer comê-lo. Dias depois já estavam amigos e “Diana” até deixava-o encostar-se nela quando estivesse deitada. Papai aprovou a minha mais nova adoção e eu estava feliz! Ele até trazia diariamente do moinho em que trabalhava, uma caixa de clipes cheia de insetos que lá infestavam os sacos de milho.
            “Tilico” já reconhecia a voz do papai quando chegava do trabalho e ia correndo ao seu encontro para comer os carunchos trazidos especialmente para ele. Os insetos, uma vez com a caixa aberta, começavam a se espalhar e o “Tilico” não deixava escapar um, ficando com seu papo estufado. Era uma farra!
            Ele cresceu e já era um frango da raça Legorne. Um dia voou para cima do muro divisório com a casa vizinha e eu atraí-o de volta espalhando milho no quintal. Quando papai chegou do trabalho, disse-me que teria que cortar um pouco das penas da asa esquerda para impedi-lo de novas travessuras.
__ Papai, ele vai sentir alguma dor?
__ Não, é só as pontas das penas para desequilibrá-lo, caso queira voar novamente.
            Em pouco tempo tornou-se um belo galo e, aos domingos, nós o levávamos à Quinta da Boa Vista (morávamos pertinho dela) para brincar no gramado. Aí aconteceu o que mudou o destino do “Tilico”. Logo ao clarear ele começava a cantar “cócóricóóóó!!!” e os vizinhos (morávamos em uma vila com casas juntinhas, umas das outras) sutilmente reclamavam do “importuno despertador”. Desesperado eu o trancava no banheiro da empregada, mas o canto dele ultrapassava as barreiras do som. Colocava esparadrapo na ponta do bico quando ia dormir, mas assim que retirava o “cala a boca” pela manhã, antes de ir para o colégio,  ele desandava a cantar.
            Papai me convenceu a dar o “Tilico” para um fazendeiro que comprava ração para o gado, lá no moinho. Quando chegou o derradeiro dia, eu mesmo levei meu galinho e entreguei-o (chorando) ao “Seu Valadão”, fazendo-o jurar que não iria matá-lo.
__ Pode ficar sossegado menino. Ele vai adorar ficar num galinheiro cheio de galinhas para “cobrir”.
            Não entendi muito bem e perguntei se ele iria “casar” com elas e ele disse-me que sim. Voltei pra casa triste e me agarrei à Diana que aguardava minha volta.
            Esta é a história do “Tilico” e nunca mais fui olhar no tal latão de lixo da granja, com medo de achar outro pintinho e que tudo recomeçasse e triste ficasse no trágico final de uma próxima adoção.

A resistência dos açafrões
 Ilka Oliva Corado
@ilkaolivacorado contacto@cronicasdeunainquilina.com

Eles pensam que não tem mais falta, que conseguiram pulverizar os anseios e que eles rasparam as raízes dos açafrados do campo. Eles pensam que deixaram as árvores sem cascas, sem forças, em terras corroídas. Eles acreditam que tudo é uma avalanche. Mas todo cipreste selvagem, nascido nas rochas, mostra o contrário. Eles pensam que eles silenciaram a música do goldfinch, mas os rebanhos que atravessam o horizonte mostram que existem trinos impossíveis de matar e que há belezas e liberdades deslumbrantes que nenhum ódio pode obscurecer.

Eles pensam que conseguiram cercar as tempestades de vento, dobrar a força dos mares, que eles compraram a essência das tempestades por meio centavo, assim como as compraram. Porém; a brisa de água salgada que acaricia a costa, mostra-lhes que não há dinheiro que possa comprar a imensidão do mar.

Eles pensam que as cadeias de montanhas de mil anos da América de folhas verdes são arranha-céus concretos e presunção. Como as casas onde vivem, construídas com o suor e a dignidade do trabalhador. Comprou com a deslealdade e a traição daquele que foi vendido.

Que eles acreditam. Eles acreditam que tudo é vendido e tudo é comprado, como eles foram comprados deles. Eles acreditam que eles têm o poder de mudar a natureza do amor. Que eles conseguiram derrotá-lo, murchar e com isso para nos derrotar. Porque apenas aqueles que amam são invencíveis. Porque somente aqueles que sentem, amam, sonham e se entregam, se entregam à vida que é o estoque de povos. As cidades que são o frescor da América Latina original.

Eles pensam que eles conseguiram nos fazer esquecer, que eles apagaram nossa memória, que, como eles, vamos nos vender. Eles pensam que, como eles, nos tornaremos traidores, iremos a leilão e, também, apunhalaremos pelas costas com a deslealdade dos lacaios. Como eles.

Eles pensam que nos cansaremos de lutar e que nos viraremos as costas e que nossos gritos se tornarão murmúrios e que eles se acalmarão, se sobrepõem em silencio com traição e aproveitarão o defeito dos ingratos. E que seremos como eles: perversos e cúmplices.

Eles pensam que vamos terminar a rebelião, que faremos chinchilete ou que vamos deixá-lo deitado em qualquer elevador de arranha-céus, ou pior ainda que nós vamos criptografá-lo em algum seguro do banco de corruptos. Eles acreditam que vamos cuspir os rostos de nossos antepassados e que os nomes de nossos heróis e heroínas vão rolar na avalanche, em direção ao abismo, enterrando-os para sempre. Os despistando. Eles acreditam nisso. Eles querem isso.

Eles acreditam que nossa fogueira se extinguirá, como chamas de tussa, mas é a lava de um vulcão em erupção. Eles acreditam que nos empurram para um abismo onde vamos rodar para a morte, eles não sabem que somos feitos de barrancos e recifes. De lama de bajareque e adubo, que somos terra, Pachamama. Que somos feitos de raízes de conacaste e cacau-mãe. Que nosso canal é o eco da canção dos pintassilgos rompendo o silêncio nas cordilheiras da América milenar, que se recusa a renunciar a sua essência original e autônoma.

Eles acreditam que eles nos derrotaram: esfolando-nos, torturando-nos, intimidando-nos, nos aprisionando, nos desaparecendo, nos assassinando; mas ainda não conhecem a resistência dos açafrões que embelezam os campos abertos, que nenhum traidor jamais poderá secar.

 

 

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