CRÓNICAS, ARTIGOS E OUTROS TEXTOS

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Octubre  2.019  nº 24
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AL SERVICIO DE LA PAZ Y LA CULTURA HISPANO LUSA

As insurgentes: Alice Munro e a falta de glamour que levou o Nobel da Literatura
Olivia Corado
“A questão é ser feliz. A todo custo. Tente. É possível, e logo se faz ainda mais fácil”
“Escrevi meu primeiro romance porque queria lê-lo”. – Toni Morrison. 
 A agudeza da escrita de Alice Munro está marcada pela simplicidade e naturalidade com que conversaria qualquer dona de casa com suas amigas na cozinha enquanto prepara o almoço para os filhos.  Alice escreve com a inocência com que falam as mulheres que trabalham limpando quartos de hotel e das que nos povoados inóspitos passam as tardes lavando roupa nos tanques públicos. 
Escreve assim, porque Alice é assim. Alice escreve o que é. Não há glamour em sua escrita nem palavras rebuscadas, não existe o alarde académico que busca impressionar o leitor, mas tem honestidade e é isso juntamente com a genialidade de seu talento o que faz das suas letras a excelência que a levou a ganhar o Nobel de Literatura.
A escritora estadunidense Paule Marshall, explica isso muito bem no seu texto, “Dos poetas na cozinha”, publicado em 9 de janeiro de 1983. Neste texto ela conta que enquanto dava aulas em um seminário de ficção na Universidade de Columbia, chegou um escritor convidado para fazer uma palestra para seus alunos; esse homem lhes disse que as mulheres escritoras têm muito mais sorte que os homens escritores porque elas, desde crianças, passavam muito mais tempo com suas mães e amigas na cozinha e isto as enriquecia em linguagem e na hora de desenvolver as diálogos, coisa que não sucedia com os homens. Não era uma afirmação sexista, como ela imaginou no primeiro momento. 
Pensou então na linguagem cotidiana e na sabedoria que dá o dia a dia e que um escritor pode explorar muito bem em suas histórias. Todos os sentimentos profundos e a complexidade das ideias são expostas com facilidade na linguagem simples da convivência diária. A escritora Grace Paley em suas aulas de escrita recebe seus alunos novos com esta frase: “Se você diz o que pensa no idioma que chega de seus pais e seus amigos e sua rua, provavelmente dirá algo bonito”. 
Também o afirma Alice Munro em 2013, em uma entrevista televisada para o Nobel de Literatura, quando conta que em no seu povoado, em sua adolescência, as mulheres eram as que liam e contavam histórias porque os homens estavam fora fazendo coisas importantes. E onde as mulheres escrevem com mais facilidade, mas onde os escritores mais importantes são homens, porque é um agravo e um descrédito que seja uma ocupação de homens e as mulheres sejam as renomadas. 
As letras chegaram à vida da Alice logo cedo e começou a escrever quando era criança e leu um conto de Hans Christian Andersen, “A sereiazinha”, mas não gostou o final porque achou muito triste; para ela a sereiazinha não merecia tanto sofrimento nem tanto sacrifício, tampouco um final tão trágico que a deixasse esquecida e inominável; por essa razão, ao terminar a leitura deu várias voltas em torno da sua casa pensando e decideu escrevê-lo, mas com o final diferente que fosse digno do seu sacrifício, fez justiça à heroína, porque isso era para ela a sereiazinha, uma heroína.  
Alice fez com esse conto o que diz Toni Morrison que devemos fazer. Se há um livro que desejamos ler e que ainda não está escrito, devemos escrevê-lo. E foi assim que sua literatura se encheu de heroínas às quais queria fazer justiça, enaltecer e imortalizar. Sem conhecer a palavras feminismo, era uma feminista.
Escreveu no princípio de sua obra literária muitas histórias com finais felizes, de propósito, porque queria dar felicidade às heroínas de seus relatos, mas pouco a pouco foi transformando seus contos e lhes deu finais que estão longe da alegria, mas que são parte da experiência humana.
Era uma dona de casa que em seus  momentos livres escrevia, deixava seus textos pela metade quando chegavam suas filhas da escola, textos que retomava depois de passar roupa, de preparar o jantar; nunca teve tempo suficiente nem a privacidade do quarto próprio do qual fala Virginia Woolf,  para sentar-se a escrever e esmiuçar um texto até que ficasse perfeito, levando todo o tempo que fosse necessário. Ela rompe com o molde do que deve ser e fazer um escritor, segundo os estereótipos. 
Alice tampouco passou a vida metida no mundo cultural da cidade na qual vive, não comparece a eventos sociais porque se sente alheia, como também no mundo dos escritores, poetas e no dos intelectuais. Diz que é uma dona de casa que optou por escrever para matar o tédio do trabalho doméstico. 
É por essa razão que a literatura de Alice Munro está limpa de todo viés acadêmico porque não pisou na universidade, porque não a perseguem os fantasmas que aprisionam os escritores titulados que sentem que devem se meter dentro de um paletó perfumado para escrever com as fanfarras da academia ou minar um campo com palavras rebuscadas para impressionar o leitor. 
De fato, Munro nunca soube que seus texto podiam ser vendidos, isso veio muito depois quando já havia jogado no lixo centenas deles. Também a venda de seus livros chegou de surpresa, como o Nobel de Literatura, que nunca acreditou ganhar, não por falta de capacidade, mas por ser mulher. Alice é muito sincera com as suas colocações, franqueza que não está manchada pelo status das classes sociais, da academia, nem pelas loas do mundo artístico. 
Alice, por essa razão, é uma mulher insurgente, porque se atreveu a romper com o protótipo da esposa e mãe que deve se dedicar de corpo e alma ao seu esposo e seus filhos, e deixar de viver para viver por eles, através deles, esquecendo de si mesma. 
 É uma insurgente que com sua resistência como escritora deixou um legado às gerações de mulheres que, como ela, são esposas e mães, e as convida a não desistir, chama-as a atrever-se, a sonhar, lhes dá a mão e as convida a caminhar em busca de outros horizontes para sua realização pessoal. Fala a todas nós sem distinção alguma.
 Convida-nos à expressão, a sair do silencio, do fastio. Nos apela para nos pronunciarmos das formas que encontremos para nosso próprio desafogo. Não tem que ser com a escrita, mas tem que sem, sim. Devemos revelar-nos, devemos levantar-nos.
 Alice é a mulher comum vivendo uma vida comum, que escreve na linguagem habitual da qual falam Grace Paley e Paule Marshall, que decidiu fazer algo fora da norma como o fez Toni Morrison, para poder respirar e buscar sua própria felicidade. Felicidade que ela descreve muito bem neste trecho:
“A questão é ser feliz. A todo custo. Tente. É possível, e logo se faz ainda mais fácil. Não tem nada que ver com as circunstâncias. Você nem pode imaginar até que ponto funciona. Aceitam-se as coisas e a tragédia desaparece. Ou pesa menos, em todo caso, e de repente você descobre que está em paz com o mundo”.

Falemos do teatro da vida
Uma Crónica de Eugénio de Sá
Nesta época dita da comunicação, somos quotidianamente tomados de assalto por todos os meios que difundem noticias e actualizam toda uma vasta panóplia de matérias cuja absorção inconscientemente limitamos ao consumo do que consideramos essencial.
Ouvimos, vemos, lemos muita coisa de muita gente; repórteres, governantes, cronistas e pretensos formadores de opinião com variadas visões sobre a sociedade e os seus mecanismos técnicos, sociais e culturais, religiosos, etc. Enfim; tudo o que à vida diz respeito.
O curioso é que nos esquecemos de comunicar connosco próprios, de conhecer o que sentimos e sobretudo o que sentimos sobre o “outro”; o nosso irmão, o nosso vizinho, o nosso companheiro(a).
Em segundo plano, vamos colocando o humor, a fantasia, enquanto subalternizamos a verdadeira cultura, na qual se inclui a boa leitura, a poesia e o teatro, tão importantes no equilíbrio de um espírito saudável e de um carácter bem formado.
Assumimos os nossos papéis ao ponto de os auto teatralizar, de tal modo que depois nos esquecemos do ser quem realmente somos, ou seja; de gerir, com realismo, as nossas próprias emoções. E o pior é que nos esquecemos também de tentar entender o “outro”, com consequências muito negativas em termos da nossa intervenção na comunidade a que pertencemos fisicamente, mas sem nos envolvermos em termos sensoriais e intelectuais, e até deixamos cair sentimentos como os da verdadeira amizade, da partilha, do altruísmo, da solidariedade, ou mesmo os de um sincero amor.
Hoje em dia fala-se muito em “presentismo”, termo inventado que pretende significar o estar-se fisicamente presente, mas sem o estar realmente de espírito pleno. Refiro-me à vida familiar, social, e ao próprio emprego, onde se espera de nós a disponibilidade de todas as nossas capacidades mentais e caracteriais, e, naturalmente, o nosso justo e total empenho.
O fenómeno tem tanto mais razão de ser quanto é verdade que o nosso cérebro absorveu demasiada informação para cuja adequada gestão não está, obviamente, preparado.

Parece que assim estaremos a pôr “a carroça à frente dos bois”, o que decididamente não nos leva a lado nenhum, a não ser a um perigosa anarquia de sentidos potenciadora de perigosas patologias do foro neurológico.
Contrariar este processo que ameaça tornar-se irreversível, não é fácil, mas é forçoso que o tentemos, sobretudo a bem dos mais jovens, que contam que sejamos os seus heróis, as suas referências, tal como nós contámos com os nossos progenitores e outros familiares.
Talvez uma boa terapia seja mesmo a de ir ao teatro, e, uma vez lá, deixemo-nos penetrar pelo mundo encantado, esse sim; do faz de conta. Mas, uma vez de volta à vida real, sejamos autênticos num mundo que bem precisa do nosso realismo.

2 comentarios en “CRÓNICAS, ARTIGOS E OUTROS TEXTOS”

  1. » AS INSURGENTES»:
    Gostei muito do que li! Seria monótono se todos fossem iguais na maneira de relatar… Concordo e acho muito especial sua narrativa : ALICE, faz lembrar que escrever é maravilha, que realiza sonhos. O texto me prendeu ao Tema, do começo no meio…
    e no final, que ficou especial! Prabéns Olivia…eobrigada!

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  2. » FALEMOS DO TEATRO DA VIDA»:
    Para mim comunicação é como uma Roda Gigante, que nos faz girar em altos e baixos de diversas maneira, entre elas, a «Cronica»! Lendo ou ouvindo, vamos tendo uma visão geral sobre o tema proposto! Dá vontade de escrever também!
    A leitura de uma crônica, é atraente pelo conteúdo, geralmente intenso e condensado.
    Nessa Roda Gigante, ventos às vezes interferem, mas cabe sempre ao escritor dosar, o conteúdo da melhor maneira
    possível no sentido de manter o interesse no leitor. Gostei da crônica sobre o teatro da vida, que precisa tender para o
    realismo do qual muitas vezes temos que enfrentar além de, ventos e tempestades! Belo e assertivo trabalho,Parabéns!

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