CRÓNICAS, ARTÍCULOS Y ENSAYOS EM PORTUGUÉS

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O ALTAR DA MINHA CRUZ
Eugénio de Sá
Sintra, 23 de Outubro de 2017

   Somos donos de um feixe de nervos, e, talvez por isso, embora apregoemos que buscamos a tranquila mansidão dos dias, só nos sentimos realmente vivos quando se tece em nós uma teia de emoções. E essa ânsia, essa necessidade, acaba por se tornar num vício que procuramos alimentar de exercícios espirituais sempre vez mais intensos

   Daí, a tal solidão de que falamos quase como cousa almejada, pois só no isolamento a que nos votamos logramos enlear-nos na tal teia de emoções. E essa solidão não significa que tenhamos de estar fisicamente sós; pode haver gente à nossa volta, que a sempre esperada evasão espiritual nisso não encontra obstáculo.

   E é nesses momentos em que o tempo parece suspender-se, nesses momentos em que nos encontramos numa espécie de êxtase, que sentimos o impulso de escrever, de expor a alma à brancura da tela, que se nos oferece,  virgem, à voragem dos dedos que querem teclar sobre ela as palavras que exigem por ser escritas.

   É desse intimo “feelings storm”, onde se debatem ideias e sentimentos, que acaba por brotar, espontânea, a nossa poesia, fundada na metáfora que cavalga a nossa expressão criativa.

Corre dentro de nós todo um processo de exacerbação de sentidos; são as estridências da lenha que crepita numa lareira, é o uivar do vento entre as enxárcias de uma nave, são os latidos dos cães que alertam os caçadores, é o rebentar do mar nas rochas alcantiladas de uma penedia, é o manso pranto de alguém em luto pelo ente querido…

   E então enchemo-nos de ruídos, de fantasias, de frases soltas…de histórias por contar.

   Respeitamo-nos, e sabemos que podemos contar com o respeito de quem partilha connosco a sua vida, com a compreensão das pessoas que amamos e que nos amam. É tudo uma questão de uma assumida separação de águas, como as de dois rios que correm paralelos até à foz sem que os seus leitos se misturem precocemen-te.

   E a vida vai correndo na bonomia da aceitação deste convívio inteiramente isento de crueldade. Quem nos conhece, aceita-nos como somos; às vezes evadidos da presença física que prova que ali estamos, mas só na aparência, porque o nosso espírito voga quiçá por outras latitudes onde até os horizontes são quiméricos.

 

Revolução Industrial
Rejane Machado (Brasil)

Antes eles vinham: Luizita, Chiquinho e suas eternas calças molhadas, Zé Candinho, até, embora fosse maior, e mal, muito mal disfarçasse um interesse que lhe fazia brilharem os olhos, de expectativa, às passagens mais emocionantes. Por último, não se continha: – E então, vó?

Sorria manso, compreensiva, deliciada: Então, meu filho, os espiões seguiram-no até o beco escuro, eu disse…

Chiquinho  cabeceava-lhe  nos braços. De longe, o rumor indistinto das vozes dos que jogavam cartas, excitados: par de ases!  canastra!

-Bem, aí… aí… -Acomodava o pequenino no côncavo do colo, dava duas ou três balançadas na cadeira, encostava a cabeça à palhinha, enquanto ninava-o  sem música, sem canto, apenas um tchii …tchii  ritmado, para que ele não acordasse.

Zé Candinho não se aguentava, na semiobscuridade os olhos chamejavam, enormes, espelhando toda a preocupação pelo continuar da narrativa. Gozava a excitação do neto mais velho: um menino tão inteligente, sabido e conversador, tanto entendendo sobre constelações, planetas e astronautas, a sofrer por um episódio capa-espada. superado, impossível, ultrapassado. Joãozinho esperava, a roer as unhas. Tinha que interromper a história, vez por outra, para lembrá-lo do perigo dos dedos sujos na boca.

À última frase, tudo terminado bem, os meninos ainda se demoravam a rememorar os detalhes melhores da história, degustando, encantados, revivendo a tão próxima .emoção.

-Mas ele foi bem esperto, não, vó?- Zé Candinho não escondia agora, a satisfação que lhe provocava a narrativa, e remoía, gostosamente, as peripécias do herói espadachim.

Noutras noites eram escapadas sensacionais de ataques de selvagens em pleno “coração da África misteriosa”- por que misteriosa, hem, vó?- e de animais famélicos,´ ferozes, que, uma vez provando sangue humano tornavam-se insaciáveis; ou emboscadas: ou de árabes fanáticos, seguidores de um implacável Maomé – ou Mafoma, filho! que embora saudando-se  entre si: Alah seja convosco! – que diziam Salam!- ao beberem o vinho da amizade, desejando saúde e paz a todas as gerações do hóspede “com o coração, com a palavra e com o pensamento”- tocavam respectivamente no peito, na boca e na cabeça- antes de atravessá-los com uma agudíssima adaga. É sim, Chiquinho!

Em tardes de chuva não se poderia correr lá fora, e por isso ela teria que começar mais cedo. A umidade não permitia mais que uma ligeira caminhada para facilitar a digestão, fazia um pouco de frio, e que delícia, nas ruas ainda meio molhadas, a visão dos jardins embalsamados de perfume, todos querendo lhe dar as mãos, e muitas vezes uma lua imensa vinha surgindo e…parem, meninos! Olhem bem, imaginem se estivéssemos na Idade Média. Não haveria luz nas ruas. Pois foi mesmo numa noite assim

UMA JANELA PARA TOQUIO
Edweine Loureiro (Japón)
Tóquio: cidade-solidão.

Será que existe o termo? Se inexiste, não importa! Pois é assim que a sinto agora! Vendo, da janela de meu quarto, essa vastidão de luzes… Não um caos de néon, tão comum nas grandes cidades. Mas sim de luzes simetricamente dispostas.Um espetáculo visual. Mais uma prova da infinita capacidade japonesa para construir com eficiência e organização! Prédios erguidos em menos de uma semana (lembro de ter passado ali somente há alguns dias e ― juro! ― não havia nada além de materiais empilhados em um terreno baldio! E agora, o que há? Um gigante de concreto que toma a forma e o tamanho… de um prédio habitacional). O segredo? O trabalho em grupo. A capacidade japonesa para organizar-se e cumprir ordens para um fim comum. De unir-se para o trabalho. E, talvez, somente para o trabalho! Sim, caros leitores: uma união que, infelizmente, não se estende às relações pessoais. Porque, agora mesmo, observando uma cidade cujo silêncio é quebrado somente pelo barulho dos trens, vejo também uma cidade de portas fechadas. Como que anunciando: “Yamete! (pare!) Não invada minha vida!…” E, todas as manhãs e noites, encontrando pessoas no elevador a quem saúdo sem obter a contrapartida, pergunto-me sobre o porquê deste mau humor.

Mas estarão mesmo mal-humorados? Ou sou eu que não os compreendo, cego que estou por minha arrogância ocidental?

Seja como for, neste fim de noite, tão sozinho, as luzes de Tóquio incomodam-me.

 

A Organização do Tratado do Atlântico Norte, conhecida pela sigla OTAN, enfrenta uma crise existencial. 

O Sr. Pipes (DanielPipes.org, @DanielPipes) é o presidente do Middle East Forum. © 2017 por Daniel Pipes. Todos os direitos reservados.

Não, não se trata de fazer com que estados membros façam a sua parte no tocante aos dispêndios em defesa. Ou encontrar uma função após o colapso soviético. Ou fazer frente ao desafio de Vladimir Putin. Melhor dizendo, trata-se de Recep Tayyip Erdoğan, o governante ditatorial islamista da Turquia, cujas políticas ameaçam solapar esta singular aliança de 29 países que já dura quase 70 anos.

Criada em 1949, o princípio fundador da OTAN ambiciosamente determinou o objetivo da aliança de «salvaguardar a liberdade, o patrimônio que os países têm em comum e a civilização dos povos dos estados membros, fundamentados nos princípios da democracia, liberdade individual e estado de direito». Em outras palavras, a aliança existe para defender a civilização ocidental.

Em seus primeiros 42 anos até a colapso da URSS em 1991, isso significava conter e derrotar o Pacto de Varsóvia. Hoje significa conter e derrotar a Rússia e o islamismo. O islamismo é a ameaça mais importante e mais duradoura, calcado não na personalidade de um único líder e sim em uma ideologia extremamente poderosa, que de fato tomou o lugar do fascismo e do comunismo como grande desafio radical utópico do Ocidente.

Alguns expoentes da OTAN entenderam essa transição quando do colapso soviético. Já em 1995, o Secretário-Geral Willy Claes observou com presciência que «o fundamentalismo é no mínimo tão perigoso quanto foi o comunismo». Com o fim da Guerra Fria salientou: «a militância islâmica emergiu, ao que tudo indica, como a singular gravíssima ameaça tanto para a aliança da OTAN quanto para a segurança do Ocidente».

Em 2004 José María Aznar, ex-primeiro-ministro da Espanha, alertou que «o terrorismo islâmico era uma nova ameaça propalada de natureza global que coloca em risco a própria existência de membros da OTAN». Ele defendeu que a OTAN se concentre no combate ao «jihadismo islâmico e à proliferação de armas de destruição em massa», conclamando, pediu para «colocar a guerra contra o jihadismo islâmico no centro da estratégia dos Aliados».

Mas, em vez de uma OTAN robusta baseada no modelo de Claes-Aznar que liderava a batalha contra o islamismo, foi internamente obstruído pela oposição de Erdoğan. Em vez de se posicionar pela luta contra o islamismo, os demais 28 membros consternadamente cederam ao islamista em suas fileiras.

Os 28 se calam em relação ao que está próximo de uma guerra civil que o regime turco trava contra seus próprios cidadãos curdos no sudeste da Anatólia. O surgimento de um exército privado (chamado SADAT) sob exclusivo controle de Erdoğan parece não incomodá-los.

Na mesma linha, parece que eles estão alheios à inesperada limitação imposta por Ancara ao acesso à base da Otan em Incirlik, as obstruintes relações com países amigos como a Áustria, Chipre e Israel e o malévolo antiamericanismo simbolizado pelo prefeito de Ancara, que torce para que haja mais furacões com mais catástrofes e prejuízos infligidos aos Estados Unidos.

O abuso imposto aos cidadãos de estados membros da OTAN pela Turquia de maneira alguma incomoda os caciques da OTAN: não os perturba a prisão de 12 alemães (como Deniz Yücel e Peter Steudtner), nem a tentativa de assassinato de turcos na Alemanha (como Yüksel Koç), também não os incomoda a detenção de cidadãos americanos na Turquia que nada mais são do que reféns (como Andrew Brunson e Serkan Gölge), nem a recorrente violência física perpetrada contra americanos nos Estados Unidos (como a que ocorreu no Brookings Institute e no Sheridan Circle).

A OTAN parece não se preocupar com o fato de Ancara fornecer ajuda ao programa nuclear do Irã, de desenvolver um campo petrolífero iraniano e de transferir armas iranianas para o Hisbolá. As conversações de Erdoğan sobre se juntar à Organização para a Cooperação de Xangai, controlada por Moscou/Pequim causou um ligeiro mal-estar, bem como exercícios militares conjuntos com os russos e os chineses. A compra pelos turcos de um sistema de defesa de mísseis russo, o S-400, é lida mais como provocação do que motivo de ruptura. O fim mútuo na emissão de vistos dos EUA e da Turquia não desconcertou ninguém.

A NATO está diante de um dilema. Ela pode, na esperança de que Erdoğan nada mais seja do que uma dor de barriga passageira e que a Turquia irá voltar para o Ocidente, continuar com a política atual. Ou ela pode considerar a OTAN um patrimônio importante demais para sacrificar sua aliança a essa possibilidade especulativa e tomar medidas contundentes no sentido de botar no freezer a República da Turquia impedindo-a de participar das atividades da OTAN até que ela volte a se comportar como aliada. Dessas medidas poderão fazer parte:

Retirar as armas nucleares de Incirlik
Fechamento das operações da OTAN em Incirlik
Cancelar a venda de armamentos, como o Caça F-35
Excluir a participação turca do desenvolvimento de armas
Não compartilhar informações sobre inteligência
Não oferecer treinamento a soldados ou a marinheiros turcos
Impedir que o staff turco ocupe cargos na OTAN
Uma postura unificada contra a ditadura hostil de Erdoğan permitirá que a grande aliança da OTAN redescubra seu nobre propósito de «salvaguardar a liberdade, o patrimônio comum e a civilização» de seus povos. Ao confrontar o islamismo, a OTAN voltará a vestir o manto que deixou cair lá atrás, nada menos do que defender a civilização ocidental.

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