CONTOS

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Julio 2.020  nº 33

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AL SERVICIO DE LA PAZ Y LA CULTURA HISPANO LUSA

TUDO PASSA
Por: Vera Lucia Magalhães de Araujo

     Acordara com o gosto amargo da derrota anunciada na TV. Vestiu a túnica e foi caminhar na praia. O frescor da areia úmida na sola do pé. Cheiro de maresia na brisa vinda do mar. Marcas de outros pés que ali passaram. Tentava adivinhar de quem seriam. Pelo desenho esculpido na areia pareciam de homem. Percorreu toda a orla e depois voltou pelo mesmo caminho, mas não podia encaixar seus pés nas pegadas deixadas na ida. Sulcava a areia escaldante pelo sol a pino. Novos passos, outras pegadas.  Pensava mil coisas: nos afazeres do dia, no Cd que ouviria à noite antes de dormir, nos livros de Freud que ainda não lera, na programação do festival de cinema em cartaz, no curso indicado pela amiga, nas reuniões do comitê, na necessária resistência.

     Conhecia aquela paisagem há quarenta anos. Cada coisa no devido lugar, mas nem tudo estava disposto como antes. As nuvens teciam figuras: um velho chinês de barba comprida, um carneiro com chifre retorcido, os seios de uma mulher, a cara de uma águia. No emaranhado de nuvens, ela ia tentando dar significado àquelas imagens. Era uma distração imaginar uma pequena história para aqueles desenhos traçados no céu.

     Estava quase chegando ao ponto inicial da caminhada. A maré enchera e a espuma das ondas espalhava renda na areia apagando as pegadas que havia deixado na ida. As do homem desconhecido também não mais existiam. As nuvens deslocaram-se, as figuras se desfizeram, o ritmo cardíaco acelerado, a respiração ofegante e algumas gaivotas agora plainavam no céu. Num outro céu. Seu pensamento desviou da paisagem e fixou-se no seu íntimo, no que ela trazia envolto no seu ser. Sentiu um prazer imenso por respirar, por conhecer o mar e sua magia, por sentir a quentura do sol na pele, no afundar dos pés na areia a cada passada. Ouvia o som das ondas que se quebravam e se dobravam para depois se espalharem na praia.

     Abandonou as pegadas na areia seca e começou a andar na areia molhada, experimentando nova sensação. A cada onda que refluía, milhares de buraquinhos se abriam na areia encharcada por onde tatuís afoitos se enterravam. Teve o ímpeto de pegá-los, mas eram muitos e ligeiros. E num piscar de olhos a areia já se mostrava lisa. Outras ondas, outros incontáveis tatuís. Incontáveis também os fragmentos de seu pensamento. Pequenos buraquinhos que foram se formando ao longo de sua existência; alguns se fecharam pela ação do tempo, vários duraram por causa da intensidade dos dramas, mas todos foram se desfazendo, como na areia. Estar viva era a condição para reconstruir caminhos e atravessar pontes, desvencilhar-se do passado, reciclar rumos seguindo a direção dos ventos, da mudança das marés e das fases da lua, dias e noites se alternando em seus mistérios, deixando a vontade fluir na pulsão dionisíaca, concebendo novas formas de amar na passagem do tempo.   

     Estava de volta ao ponto de partida. O sol já ia alto. Mergulhou no mar e saiu com o corpo salgado e a alma mais doce. Um dia de cada vez nos passos da história que vem e que passa. Sempre. 

 

 

Viagem de encantação
Conto de Vera Lucia Magalhães de Araujo

Nasci programada para ser árvore. Fui me entediando do ar úmido e sombrio da floresta. Ansiava pelo sol e queria conhecer o roteiro dos rios. Rompi com as minhas raízes ao me deixar cortar por um homem até então ordeiro e previsível. Virei madeira de lei e adquiri a forma de canoa. Estava pronta para iniciar a viagem de encantação.

Aquele homem calado me pôs no rio e eu me pus a sonhar com meu casco abrindo o caminho em direção a um mundo ainda por descobrir. Tornamo-nos cúmplices na ausência de rota, com a única certeza de que não haveria volta. Apartado daquelas pessoas sem rosto, isolado no meio do rio, o canoeiro condenou-se a ser só e livre.

Passaram-se dias com sol abrasador, chuvas torrenciais e, impulsionados pelo vento, eu e o canoeiro seguíamos entre as margens do rio Lamancha. Ele remava e pegava um peixe aqui, outro acolá, o bastante para se alimentar. Eu era o seu leito e no meu regaço o canoeiro fitava as estrelas na noite escura. Ele pensava. Cada dia mais magro, a pele ressequida, cabelos e barba compridos, unhas grandes, roupa em frangalho, foi perdendo o aspecto de homem. Nem bicho nem coisa, apenas um outro ser, que perdia de vista a sua antiga aldeia mergulhada em sombras.

O olhar do canoeiro substituiu o brilho inicial da contemplação pelo ensimesmar-se e dava para perceber o vácuo instalado dentro de si transbordar-se na secura dos olhos. Não, não era saudade, nem remorso, nem vontade de voltar. Era a dor do desmoronamento, era a sua alma exposta à luz solar, deixando secar o mofo acumulado. Aos poucos, meu canoeiro começava a respirar e podia vislumbrar o princípio de tudo, o belo, o bem, o justo, a morte. Despido das sensações mundanas, ele estava agora mais próximo da terceira margem do rio, onde sua alma poderia, enfim, repousar no Absoluto e conhecer a verdade.

Era chegado o momento de nossa despedida. Eu queria a aventura de viver e segui desgovernada navegando ao sabor dos ventos e dos sonhos, sempre em direção ao horizonte, cruzando com outros rios, misturando-me em novas águas, sendo empurrada pela força das correntezas, dos redemoinhos, despencando-me em quedas dágua, rompendo por diques e represas, arrastada pelas águas barrentas que avançavam sobre as margens, inundando campos, plantações, cidades, me esfolando entre as pedras, que arrancavam pedaços de mim, até que cheguei ao mar e pude conhecer o sal, as ondas e os peixes.

Singrando na estrada prateada da lua em noite escura, flutuei na espuma, livre dos turbilhões, tempestades e ventania, curada da dor da travessia. O rio que passava pela minha floresta agora era mar, para contemplar as tardes e os gemidos do azul-oceano-profundo. Ouvi um canto, um doce acalanto, na voz da sereia. Não me fiz de surda e me entreguei ao seu encanto, fazendo-me cama para amá-la. Estava diante da terceira margem da vida.

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