CONTOS

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enero  2.020  nº 27
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AL SERVICIO DE LA PAZ Y LA CULTURA HISPANO LUSA

 

 

Ostracismo
Belvedere Bruno

Aurora   sempre vivera ligada à família. Aos amigos, falava sobre a união e o amor existentes naquele núcleo.  Era grande o seu afeto por todos, não se importando com retribuições. Era intensa em seus sentimentos.
 Na juventude, nada lhe dava mais prazer do que estar entre as crianças.   Gostava de cuidar delas, mimá-las.   Penteava, fazendo cachinhos em algumas, tranças em outras, criando inusitados adereços para depois cair na risada com os pequenos. Alegrava-se com as brincadeiras: cabaninhas, pique-esconde, quitandinhas.  Esmerava-se nos doces sortidos no intuito de ver a gulodice da gurizada.   Diziam adorar seu rocambole de goiaba.
 Sempre que perguntavam sobre namoro ou casamento, dizia que era feliz e realizada, pois sua profissão de educadora fora a melhor escolha da vida.  E brincavam dizendo: “ficou pra titia, hein?”. Quando parentes mostravam-lhe fotos das festas de aniversários para os quais nunca era convidada, admirava-se com a beleza e originalidade das temáticas.
Certa feita, comprou uma bicicleta, último modelo, para a sobrinha mais velha, que faria quinze anos. Tempos depois, abrindo um jornal de bairro, surpresa, viu fotos da festa, realizada em prestigiado clube, estampada na coluna social. Dizia para si mesma que as coisas estavam diferentes, fruto da modernidade.
 E o tempo voou.
 No outono da vida, despertou para a realidade acerca do desamor. Sequer um telefonema, uma visita, um gesto amigo. Nem mesmo suas datas festivas sensibilizavam aquelas pessoas. Preparava mesas para receber visitas que nunca chegavam. Comprava presentes que se iam acumulando e acabavam sendo doados.  Aurora tentava, em vão, encontrar desculpas para tamanho distanciamento. Um dia despertou para a dura realidade, conhecendo o sentido da palavra ostracismo. Sentiu uma fisgada no peito.
O sentimento que passou a envolvê-la , surpreendentemente,  não era mágoa, tampouco tristeza, mas uma espécie de desapego que nem ela conseguia dimensionar.
 “Era uma casa /Muito engraçada/ Não tinha teto /Não tinha nada/ Ninguém podia/ Entrar nela não” –  ouvindo Toquinho, cantarolava acompanhando a melodia.
Finalmente, compreendera que aquela vida havia sido, de fato, uma fantasia. O roteiro fora apenas dela.  Precisava daquilo para expandir sentimentos.   Sorriu com a leveza que apenas os amorosos conseguem sentir em plenitude.

3 comentarios en “CONTOS”

  1. Que texto maravilhoso! Um personagem que você, como autora, não deixou que passasse desapercebido. Talvez a solidão dela não seja maior do que a solidão daqueles que ela amou, buscando coisas passageiras, buscando um amor que sempre tiveram.

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