CONTOS

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Marzo 2.020  nº 29

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AL SERVICIO DE LA PAZ Y LA CULTURA HISPANO LUSA

 

A MESA ESTÁ PRONTA
Um conto de João Coelho dos Santos

Lourosa, próspera e bem cuidada aldeia da Beira Litoral, tinha uma extensão de muitos quilómetros e era atravessada pela movimentada estrada nacional Nº1, onde circulavam carroças de tração animal (burros, cavalos e bois), bicicletas, algumas poucas motas, automóveis, camionetas de carga e de passageiros. Próximo do seu extremo norte, existia uma garagem de uma empresa rodoviária de transporte de passageiros, conhecida por a carreira, com percursos à Feira, ao Porto e a Espinho.

Bem próxima da garagem terminal, erguia-se uma ampla moradia com dois pisos, propriedade de um simpático e muito estimado casal, o “ti” Albertino Tavares e a “ti” Rosa de Jesus Fernandes. Ele era um senhor, bem letrado, que até estudara latim, sempre de sorriso aberto, afável, educado e gentil. Tinha um bigode não muito comprido e sempre bem aparado. Ela, uma mulher pequenina, vaidosa de sua beleza, sempre muito bem vestida, na sua simplicidade. A tudo dava a mão e a todos ajudava em trabalho e dinheiro.

No piso inferior funcionava, com uma boa clientela, a sua mercearia muito bem apetrechada em géneros alimentares frescos ou de conserva e artigos de higiene e de limpeza. Seria como que um misto de mercearia e drogaria. Porque toda a gente tinha a sua hortinha, não vendia hortaliça, batatas, cebolas, alhos, ou fruta. A clientela procurava café, pirolitos, cevada, arroz, farinha, açúcar, feijão, castanhas, amendoins, nozes, tremoços. E havia sempre um grande frasco com rebuçados, atração irresistível para os mais pequeninos. Também se vendiam fósforos, cordas, velas, sovela, sabão, vassouras, mata-moscas em fita, petróleo para candeeiros e fogões.

Na horta era vulgar ouvir-se um murmúrio de águas de rega.

A 2ª Grande Guerra, em que Portugal não participou, tinha terminado e a recuperação económica e o reabastecimento de bens fazia-se sentir lentamente.

Fora do balcão, algumas mesas para os fregueses menos apressados, sobretudo para os que gostavam de tomar o seu copito de branco ou tinto e de jogar dominó ou cartas. O vinho que era servido saía diretamente das respetivas pipas.

Havia um pequeno quintal ajardinado, uma bomba manual de água de poço e uma fossa tapada por questões de segurança e de cheiro.

Acedia-se ao primeiro piso por uma escada de pedra com cerca de vinte degraus. A casa, bastante ampla, bem cuidada e arejada, tinha muitos quartos, pois que os filhos foram onze. O soalho era de tabuado de madeira, longo e sempre muito bem encerado. O papel da parede da sala principal era verde com doiradas flores-de-lis.

O rapazinho, tudo observava com atenção. Gostava de fazer essa visita, que acontecia de vez em quando, com seus pais e irmãos. Não eram muitas as vezes, pois a casa paterna, a sua casa, era em S. João da Madeira, importante vila industrial a vários quilómetros de distância.

Com alegria ouvia, à hora do almoço ou do jantar, a voz maviosa da avó Rosa: “a mesa está pronta!”

Naquele fim do dia 4 de Abril de 1950, já com cheiro a primavera e jardins repletos de flores, o sol não brilhava. Aguardava-se o regresso das andorinhas e das fantasias. O menino descarnado e esguio, loiro e sardento, trajava calções pretos, camisa e soquetes brancos e um casaquinho escuro para agasalhar. De mão dada a sua Mãe, subia lentamente a longa escadaria exterior, até ao piso da habitação, quando, a par de choros e lamentos de carpideiras, ouviu: – “A mesa está pronta!”

Seus quatro irmãos vinham um pouco mais atrás com o Pai, que ficou a fechar o carro, o seu imponente Chevrolet.

Um grupo de homens, mudos, de semblante fechado, e de mulheres encobertas por compridos xailes negros que só deixavam os olhos a descoberto, movimentou-se, saiu da primeira e maior sala e passou a outra mais interior onde, em várias mesas, se encontravam pratos, copos, comida e bebidas.   

A sala principal, donde havia sido retirada a ampla mesa, tinha uma estampa emoldurada com a Última Ceia de Cristo, um quadro do Sagrado Coração de Maria, uma cristaleira, um louceiro, diversos bibelôs, várias cadeiras e um sofá. Estava decorada, como sempre, com vasos a encimar várias colunas de madeira. Destacava-se nessa sala um muito antigo móvel de relógio pendular. Tudo sempre arrumadíssimo, como numa Exposição. As portadas das janelas, semicerradas, mal deixavam passar a luz do exterior que as cortinas brancas, bordadas e os reposteiros de veludo filtravam. Pelo chão, a acolher mais silêncio, várias carpetes. A noite aproximava-se, serena e fria.

O senhor Prior, trajado com a sua batina, retirava a opa e sussurrava diversos “até já!”

Alguém insistiu delicadamente: – “Vá lá, senhor Prior, um pastelinho de bacalhau, um rissol e um copinho de vinho fino!”

– “Não me posso demorar, já volto, mas aceito. Obrigado!”

E provou… para não ser indelicado.

Na sala maior, repleta, melancólica e compassadamente, rezava-se o terço. Alguns cochichavam segredos. Ouviam-se ais. Ais cansados e arrastados que aliviam tristeza e dor.

Alguns minutos depois, na sala de refeição junto à cozinha, com fogão a lenha, comia-se caldo verde com chouriço. Ser cristão também é ser fraterno e solidário.

O tom da conversa foi-se normalizando e, aos poucos, subindo de tom. Quanto mais se dava ao dente, mais se dava à língua. Era o sentido da irresponsabilidade coletiva em que a formalidade e silêncio de há pouco eram esquecidos.

A um canto alguém, de copo na mão, contava uma qualquer peripécia que provocava hilaridade, ao pequeno grupo. Sempre houve quem tem a seu cargo ser a “alegria dos funerais”.    

Já poucos se preocupavam com o que acontecia na sala ao lado, onde, por detrás de um véu de saudade, o menino e sua Mãe permaneciam em recolhido e emocionado silêncio. Na face da Mãe rolavam lágrimas muito amargas. Despido de maldades, seu adorado Pai partira para a eternidade que não tem ruídos nem cores, nem fomes nem dores. O tempo o devastara.

Ainda assim, mais vida pedira à vida. Mas a vida não o atendeu! Encostou seu rosto ao de seu Pai e sussurrou a palavra que antes não lhe disse.

Quase todos os avós são velhos. O avô Albertino, bonito, com um ligeiro sorriso nos lábios, muito chique com o seu melhor fato, gravata e sapatos pretos, jazia na urna, sem mais nada de seu. Celeste ajoelhou trémula e muito dorida, segurando-lhe uma das mãos que beijou terna e demoradamente. O menino foi erguido para dar um beijinho último na testa, ao avozinho. Que sensação de frio e morte! Foi a primeira vez que viu um morto. E logo o seu avô…

Ouvia dizer que partira para a eternidade. Mas o que é a eternidade? O princípio ou o fim, o sempre ou o nunca mais?

Alguns escondiam lágrimas. As carpideiras deixaram de carpir e foram também matar a fome e a sede.

Mal pareceria que, nesse ano de 1950, em qualquer funeral de não indigente, se não proporcionasse um aconchego nada frugal para os estômagos que teriam de estar preparados para longas vigílias de velório, que não eram feitas na igreja, mas sim na casa do defunto.

Homem muito crente e devoto, as suas últimas palavras terão sido: – “ Agora que vou morrer, o fim do mundo vai acontecer. Não adiem minha morte. Estou pronto a galgar abismos. Vou ao encontro do Senhor, que me espera!”

Quando entrava mais alguém, com melancólico sorriso apresentava condolências à viúva Rosa, às muitas filhas e filhos, às noras, genros, pequenos netos e netas. Alguns depositavam raminhos de flores.

No aperto de um abraço de agradecimento, lá vinha a informação: – “a mesa está pronta!”

Continuamos a escutar vozes que se calaram.

Saiu a lua de seu quarto e subiu, subiu, escondeu-se por detrás de uma nuvem… e desapareceu.

 

1 comentario en “CONTOS”

  1. «A Mesa está pronta!» Um relato marcante, de um funeral, que reporta ao passado e trás consigo, muitas lembranças!
    João Coelho dos santos, escreve com detalhes e transmite ares de saudosismo…encanta pelos detalhes que descreve.
    Prende a atenção sobre um temo distante, o modo de vida e os costumes da época, enquanto nos falados preparativos
    do funeral e reporta ao título bem dentro do contexto: «A mesa está pronta!»Parabéns João Coelho!

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