CONTOS

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Junio  2.020  nº 32

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AL SERVICIO DE LA PAZ Y LA CULTURA HISPANO LUSA

O DERRAMAR DE TRISTEZAS
Por: Belvedere Bruno

Norma não nutria expectativas em relação à vida após inesperada separação. De nada adiantava lhe falar sobre possibilidades. O que desejava era a volta de Felipe. O casamento durara exatos 25 anos, comemorados com festa em prestigiado clube da cidade. Uma noite, ele, abruptamente, disse-lhe que não havia nada mais que justificasse a relação.

Norma era atriz e escritora e, por conta da separação, abandonara ambas as atividades. Aos que perguntavam sobre a falta de uma reação mais condizente com uma pessoa de seu nível, ela dizia que, se escrevesse, derramaria tristezas. Faltavam-lhe alvoroços. Sobravam melancolias.

Nuvens cinzas e espessas acentuavam sua sensação de desviver. Catava seus cacos, tentando  não  se despedaçar em meio à agonia.

Se tentasse encenar, tudo soaria dramático demais.

Teria congelado a alegria dentro das fotos dos seus inúmeros porta-retratos?

O som de um piano chegava até ela. Melodia de um tempo de quaresmeiras, doces colheitas, ânsias de paixão. Cores. Hoje, sua vida era

um filme noir. Lágrimas, partidas e saudades.

Da janela, observa um  navio que  desliza sobre o oceano.  Decerto carrega milhares de ilusões. Quisera ser uma das passageiras! – reflete.

Haveria, ainda, esperança? – indaga a si mesma, ao mesmo tempo  que balança a cabeça negativamente. Com um copo de uísque na mão, constata que sua única certeza é quanto à fidelidade do álcool.

Consciente de que os dias passarão e que não haverá mudança no cenário emocional, esfrega as mãos nervosamente, vai à janela e cai num choro convulso, murmurando: Quisera, ao menos, voltar a sonhar colorido!

O voo das gaivotas ausentes
Por: Vera Lucia Magalhães de Araujo
Brasil

Minhas gaivotas não vieram, mas é certo que voltarão. Foram em busca de outros céus mais azuis e de ares mais quentes. Contemplo o céu iluminado por um sol tímido e nele posso vê-las passando em câmara lenta na tela de meus olhos onde antes elas deixaram fragmentos de suas asas cintilantes, de seus bicos agudos, de seus movimentos ondulares.

Absorta nessa contemplação do vazio onde não há a representação das gaivotas é que melhor me comunico com elas. Na graça do seu voo invisível capto o mistério que não está nas asas nem no movimento, mas no imponderável, na beleza daquilo que não se corporifica porque o voo está dentro do olhar que o vê, como a beleza do amor não está no objeto do desejo, mas no coração de quem o sente.

O mar ronca e o estrondo das ondas batendo na praia faz o coro nesta sinfonia nostálgica de uma manhã sem gaivotas. É Mahler impregnado nos ouvidos que distinguiram na trilha sonora de “Morte em Veneza” a estonteante representação do belo. O mar executa a dança das gaivotas ausentes e, nessa partitura feita de notas contrastantes entre sol menor e dó maior, a arte resvala para os labirintos cavernosos, pois sem a dor, a beleza não se mostra.

A caminhada é longa com o frio nas costas e os pés afundados na areia úmida enquanto os olhos vagueiam no azul do céu salpicado de asas cada vez mais próximas, mais nítidas, mais perfeitas. Os violinos plangem no Adagietto da 5ª Sinfonia de Mahler e meu coração clama pela volta das gaivotas, nem que seja por uma só, desgarrada de seu bando, solitariamente perdida no céu de águas.

A voz rouca do mar cada vez mais grave e soturna anuncia o Rondo Finale. É hora de partir, sair, despedir, fugir. É hora de libertar as gaivotas da retina para que elas se soltem à procura de novos saberes em outros céus. Talvez demorem a regressar, talvez voltem mais velhas, menos afeitas a voar sobre as cordilheiras, mas sempre serão livres para decidir rumos e, se voltarem, terão histórias de agonia ou de folia para contar aos olhos de quem pacientemente vive em seu afã de encontrar a beleza, seja na arte, seja no amor.    

1 comentario en “CONTOS”

  1. Belvedere Bruno : «DERRAMAR DE TRISTEZAS»: Uma narrativa que desperta curiosidade…
    curta e bem descrita
    E termina comuma justificativa séria e um desejo…provavelmente impossível!
    Parabéns, um conteúdo sério e realista!

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