CARTAS EM PORTUGUÉS

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Enero  2.020  nº 27
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AL SERVICIO DE LA PAZ Y LA CULTURA HISPANO LUSA

CARTA PARA MINHA NETA NAIARA

Desde faz mais de seis meses que em casa se vive o tempo ao revés. Marquei os calendários e sincronizando os relógios para levar a conta dos dias que nos separam de teu nascimento. Não nasceste ainda e, no entanto, já não é possível imaginar-nos sem ti.

Enquanto, teus pais, avôs, tios, e eu nos conformamos com observar-te e jogar a interpretar até o mais imperceptível de teus movimentos. Tratamos de adivinhar, por exemplo, o que queres dizer com cada contorsión de teu corpo, com cada chute, como se nelas tivesse cifrada uma clave que só a nós nos está permitido compreender. “Quer ..se move” , diz-me orgulhosa tua mãe e, para corroborá-lo, coloca minha mão sobre ti. Então eu assento convicta, porque sei que ninguém te conhece melhor do que ela. Depois de

tudo, tua mãe é o único universo que conheces por agora, essa borbulha maravilhosa que te contém e te protege: é dela o coração que bate mais cerca de ti. Suponho que também ela é a explicação genealógica desse instinto veemente que te impulsiona a procurar uma comodidade impossível. Do outro lado dessa fronteira, esta teu pai.., um embelesado observador, iludido com a idéia de que possas reconhecer sua voz, ou pelo menos o eco de sua voz, e estou segura de que já a conheces Falta já pouco e começo a sentir de perto a urgência de preocupações irresueltas que, suspeito, me acompanharão pelo resto de minha vida. Porque ao igual que teus pais, me agradaria proteger-te de tudo…

Assim que por agora, prefiro pensar em ti e confiar na força que levas dentro, nesses latidos tão nítidos, em teu semblante que imagino exultante e feliz. Quisesse desejar-te tantas coisas: que vivas tua vida com valentia mas com compaixão, que sejas decidida mas tolerante, respeitosa e honesta, que aprendas a escutar, que possas chegar a ser livre. Acima de tudo, desejo-te que sejas livre: para formar tuas opiniões, para liberar-te de preconceitos, para defender tuas convicções, para expressar teus sentimentos e, em especial, para querer. Tem confiança em ti mesma e na certeza de que não existem limites para o que podes fazer, se realmente o desejas e entregas o melhor de ti. Conhece o mundo, percorre-o com os poros abertos quê-lo. Mas nunca te permitas esquecer de onde vens. Atesora a teus amigos, mas elege-os bem. Ama os livros, a música e a arte em general : Marca-te metas e consegue-as…Finalmente, desejo-te que nem tão temporão nem tão tarde possas experimentar a alegria incomparável de esperar um filho, o privilégio, exclusivo de uma mãe, de sentir o latido de um coração ao lado do teu.

A lista está inconclusa e está bem que seja assim. A vida que começa é tua e só te corresponde a ti vivê-la plenamente. Ser pai é uma decisão; ser filho não o é. Mas ambos reclamam exercícios constantes de tolerância e, por isso, antecipo-me ao que chegará: sei que meus conselhos poderão ser imperfeitos, também minhas idéias, mas nunca meu amor por ti. Quero-te sem limites, tua avó Eunate

 

O Homem, o projeto do mundo    
SUA VIDA EM SUAS MÃOS
Marise Marquesi de Toledo (Brasil)

No auge de seus cinquenta anos, ela percebeu que lhe faltava algo, mas era tão distante, tão desconhecido…

Foi dando passos sem grandes expectativas, mas como não tinha um projeto de vida claro, o seu pai – com personalidade muito forte – foi ditando normas do tipo: que suas filhas, nascidas na década de 1960, não deveriam ter preocupações com estudos, apenas com o básico; deveriam, sim, prepararem-se para o casamento e cumprirem bem os papéis de esposa, dona de casa e mãe. Ela obedeceu ao papai. O que não poderia imaginar é que havia dentro de si uma pressa em ver as coisas acontecerem e que a sexualidade nela seria bem aguçada na adolescência. Por isso, foi cumprir seu papel buscando o amor de amante para dar início à sua realização. Isso foi aos onze anos, e papai disse “não – é muito cedo!”.

Cedo? E o que fazer até chegar a idade certa? Esporte, ele dissera que tornava a mulher menos delicada; as meninas já não bordavam mais seu enxoval, e ela não tinha habilidade para trabalhos manuais. Não foi possível esperar, começou a olhar para os rapazes até eleger seu companheiro, e, aos dezesseis anos, estava casada, com o primeiro filho no colo. Que projeto foi esse? As coisas foram caminhando de forma ‘natural’, isto é, como deveria ser. Mas ela não sabia explicar, não tinha consciência de que não tirava tempo para se olhar, para esboçar um projeto para sua vida…

Eis que vieram as enxaquecas, hipotensão e, muito mais tarde, o diagnóstico de disautonomia postural ortostática, depressão, insônia. A aparência que dava era de uma família feliz, visto que se casou com o homem que escolheu, tinha filhos perfeitos, uma vida tranquila. Mas, nas mãos de quem ela colocara o projeto de sua vida? O que o mundo ganhava com sua passagem?

Tudo começou com o diagnóstico da tal disautomia, até curioso, pois ela não tinha autonomia física, segundo a Medicina, nem pessoal, já que confiara seu projeto de vida a seu pai, e sua felicidade estava depositada naquilo que seu esposo e filhos eram capazes de lhe oferecer.  Tudo terceirizado, prático, confortável e sem responsabilidade própria. Mas, então, por meio da disautomia, iniciou-se um processo de retrocesso em direção ao seu Eu. Um reconhecimento de si mesma. Um olhar devagar para si. Começou a se reencontrar no divórcio, pouco antes de sua quase morte. Estava pronta para morrer. ‘O divórcio era loucura’, poderia ela mesma dizer. Sim, uma loucura sadia. O divórcio foi, em primeiro lugar, um susto para ela, pois uma coisa ela havia feito a vida toda: defender o casamento e a família “perfeita”. Foi também um susto para os que a olhavam como se ela fosse a prometida para ser eternamente pacífica. Foram lançados muitos olhares de espanto, de inveja por sua coragem (como ela ouviu isto!) e de indignação. Não pôde mais olhar para trás, sabia exatamente o que não se encaixava naquela nova fase, e ganhava forças para esboçar o projeto de sua vida, podendo deixar para o mundo à sua volta a mensagem de que é preciso olhar-se devagar. É preciso olhar devagar para as pessoas à sua volta. É preciso respeitar-se. Ela entendeu que não precisava estar num lugar que não fosse bom para ela, e que coisas ruins acontecerão de tempo em tempo, mas ela encontrará no seu projeto pessoal o meio de enfrentá-los.

Aos cinquenta anos, coube em seu projeto fazer sua primeira faculdade e, depois de dois anos, permitiu-se, e a vida lhe permitiu, decretar ano sabático, tempo em que viajou e escreveu.

Em suas viagens, o que deixou nos portos? Pessoas que não foram capazes de acompanhá-la, que “ficaram zonzas e tiveram enjoos com seu novo roteiro de viagem pela vida”.  Paciência. Ela está fazendo o próprio itinerário e nem todos estão aptos a entender e a curtir as paisagens. Compete a ela, que gosta de escrever, contar o que lhe encanta nesta vida, e remeter-se àqueles que deixam saudade diária já que não embarcaram mais em seu passeio…

Por ironia da vida, foi a partir do seu diagnóstico de disautonomia que passou a reconquistar sua própria autonomia. Tendo, finalmente, a vida em suas mãos, abandonou os remédios para dormir e para mantê-la acordada; todos aqueles de que precisou um dia para ter condições de estar diante das pessoas… deixou-os em algum lugar do passado – já não fazem parte do seu projeto de vida atual.

Segue sua viagem em boa companhia, a dela mesma, e com os que estiverem dispostos a seguir em frente.

Afinal de contas, o primeiro passo para melhorar o mundo, é cuidar de si.

Cartas não enviadas
Sinto muito
Marise Marquesi de Toledo
(Brasil)

Sinto tanto por você não me querer por perto.
Sinto muito, chego sentir o que sentes quando me descartas de sua vida.
Sinto o medo que tens de seus sentimentos.
Sinto a culpa que carregas por agir assim.
E sinto por nada poder fazer senão rezar e esperar.
Esperar por milagre? Por que não?
Eu creio em milagres.
Mas ao mesmo tempo venho me preparando para aceitar esta situação como definitiva.
Por que comigo não pode acontecer? Tantas pessoas rompem com as outras…
Tantas pessoas se despedem…
Houve uma época que minha crença em Deus virou um toma lá dá cá. Foi por inocência sim. Foi até por me encantar com Deus tão poderoso que pensava que se fizesse meu papel direitinho ficaria imune situações como esta, seria questão de tempo.
Mas o tempo está passando…
Amadureci.
Daí decidi deixar Deus ser Deus. Cada um desempenhando seu papel. Eu criatura, Ele Criador. Eu apresentando minhas preces e Ele atendendo no Seu tempo o que deve ser atendido. Mesmo porque tem a questão do livre arbítrio…
Mas sinto, sinto saudade do tempo que te busquei e você se esquivou, e para mim parecia brincadeira. Nada que me preocupasse, havia dentro de mim força e amor suficiente para nos manter próximos. Sabe quando se fala de afinidade? Parecia isso – apenas não tínhamos afinidade.
Hoje não quero me aprofundar para não afundar de vez.
Decidi entregar a situação.
Seja o que Deus quiser e nada de tristeza que me paralise. Nada a temer. Apenas entregar o que sinto, o que sentes.
Sinto muito.

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