ARY FRANCO

ARY MENDES FRANCO (Ary Franco – O Poeta Descalço) é natural da cidade do Rio de Janeiro, nasceu em 25 de novembro de 1933 e reside atualmente no município fluminense de Miguel Pereira, Rio de Janeiro, Brasil. Teve um único emprego na vida, na empresa «The Yorkshire Ins. Co. Ltd.», do ramo de seguros, onde começou  como  «office-boy» em 01/05/1949 (com a idade de16 anos incompleos) e ali permaneceu até os 60 anos, quando já ocupava o cargo de Superintendente do Grupo. Casado há sessenta anos, é pai de três filhos que lhe deram quatro netos, que lhe deram dois bisnetos.

Frequentando cursos noturnos e sempre levando a sério os estudos, tornou-se bacharel em Letras. Na vida profissional de único emprego, antes de atingir a Superintendência (com sede no Rio de Janeiro) foi Chefe de Seção (no Rio) e Gerente da Sucursal de Belo Horizonte (MG). É um compulsivo «devorador» de livros e até hoje, com 83 anos bem vividos, tem sempre um deles em sua mesinha de cabeceira. O gosto pela leitura fez do leitor contumaz um poeta, pensador e escritor de crônicas e contos

SOB  O  GUARDA – CHUVA
Ary Franco – (O Poeta Descalço )

Saí com ela na chuva a passear,
Tínhamos apenas um guarda-chuva.
Aproveitei para a ela me agarrar.
Senti que ia perder a compostura…

Tomara que continue a chover,
Que nosso passeio acabe jamais.
Vou beijá-la, haja o que houver !
Sinto seu calor, tá bom demais !

 Querida, meu ombro está molhado,
Faz de conta que sou teu namorado.
Sei que mal acabei de te conhecer,
Mas amar não tem hora pra acontecer !

Paramos de andar, tomei-a nos braços,
Perdemos-nos em beijos e abraços.
Foi assim que nosso amor começou.
E o guarda-chuva ? O vento levou !

A ROSA ENGANADA
Ary Franco (O Poeta Descalço)

Acabara de nascer, era ainda um botão.
Lugar lindo onde estava. Era um jardim.
Sempre um moço vinha cuidar de mim.
Por ele nutria uma apaixonada gratidão.

Pelas manhãs, antes mesmo do sol raiar
trazia alguma água para me borrifar.
Adubava e afofava a terra de minha roseira.
Sorria pra mim de uma delicada maneira.

Cresci feliz em meio a tanto amor.
Ficava mais vermelha pelo rubor
daquele desvelo a mim dedicado,
até que um dia tive meu galho podado.

Foi tão triste, aconteceu tão de repente…
Fui colocada numa caixa para presente,
ofertada a uma moça, sua namorada.
Ao ver-me, pareceu-me ficar encantada.

Acabei meus dias esquecida em um jarro,
chorando pelo meu destino tão bizarro.
Resisti com minh´alma alquebrada
até a última pétala despencada…!

A VOLTA DO PESCADOR
Ary Franco (O Poeta Descalço)

Vento que leva meu barco, enfunando-lhe a vela.
Cabe a mim apenas manter mãos firmes no leme,
Singrando no rumo certo, retornarei até ela.
Graças ao teu sopro, dispensável que eu reme.

Continues forte, assim chegarei mais rápido.
Meu peito está ardente, flechado por Cupido.
Quero de imediato aportar em meu destino.
Cobrir de beijos meu amor, em doce desatino!

Céu estrelado. Minha rota é iluminada pelo luar.
Brisa suave em meu rosto, sigo a rasgar o mar.
Já vejo as luzes da praia no horizonte distante.
Nesse aproximar, tenho o coração palpitante.

Pouco pescado. Só trago no peito muita saudade.
Mas, quando em seus braços, cessará esta ansiedade.
O frio da noite me açoita, mas logo com ela estarei
E, no aconchego dos seus carinhos, me aquecerei!

VIDA CEIFADA
Ary Franco 

(O Poeta Descalço)

Em meio à floresta vejo uma árvore caída no caminho.
Era grande, muito grande… foi abatida a machadadas.
De seus cortes ainda recendia a dor do ato mesquinho.
Que mal haveria feito, para ter sua vida assim ceifada?

Nenhum! Em seus fortes galhos ainda haviam ninhos.
Sobrevoando à sua volta, choravam vários passarinhos.
Pelo verdor de sua folhagem, achei que ainda respirava.
Sofrendo, mantinha-se viva no estertor que lhe restava.

Imaginei o gemido do estalar de seu tronco ao desabar.
Lânguido e dorido choro que pela floresta se fez ecoar.
Por quantas décadas deste sombra ao viajante cansado?
E agora terminas teus dias pelas mãos de um desalmado!

Meus Deus! Juro-te que tento amar meus semelhantes,
Mas alguns tornam-se desse meu amor, tão distantes…
Perdoai-me se Te desobedeço abrindo alguma exceção.
O autor desse crime não tem, igual a mim, um coração.

O que faz com que um filho Teu maltrate um animal?
O que o leva a dizimar florestas? Com pode ser tão mau?
Secam rios, poluem lagos, aviltam a sagrada natureza.
Sei que um dia pagaremos caro por isso. Tenho certeza!

SE O ANIMAL HOMEM NÃO INTERFERIR,
“TODAS AS ÁRVORES MORRERÃO DE PÉ!”

AS ROSAS NÃO FALAM MAS CONSOLAM

Acompanhei-te desde que eras um viçoso botão.
Em pouco tempo desabrochaste numa linda flor.
Sorrindo pra mim, perfumavas meu triste coração.
Ouvinte de meus monólogos, sobre um ido amor.

Poucos dias gozei do consolo de tua companhia.
Começaste a murchar e o viço a te abandonar.
Era o princípio do fim, logo percebi, eu já previa.
Quando a primeira pétala caiu, comecei a chorar.

Deixaste no chão um tapete, na tua despedida.
Era sublime, formado de lindas pétalas amarelas,
Como que a prestar-me uma homenagem sentida…
Que eu fosse ao que de ti restou, nessa passarela.

Não o fiz, catei com carinho, cada parte de ti caída;
Como recordação de nossos doces instantes vividos,
Comigo guardados, assim ficarão por toda minha vida.
São pedaços meus, contigo compartilhados e sofridos!

 

NUMA NOITE FRIA

Ary Franco (O Poeta Descalço)

            Fiz serão e fechei o escritório por volta das 20:00h.

            Aqui fora o frio é intenso obrigando-me a levantar a gola do grosso sobretudo que me agasalha e faz-me caminhar com as mãos enfiadas nos bolsos. A neve que cai confunde-se com meus cabelos grisalhos, tornando-os mais alvos do que são mais acentuadamente nas têmporas. Ficaram assim precocemente mesclados, antes de alcançar meus quarenta anos. Chequei a pensar em tingi-los mas parece que esse “distúrbio capilar” agradou mais ao sexo oposto e acomodei-me ao bem vindo fenômeno.

            Por ser sexta-feira  achei cedo para retornar à solidão do apartamento vazio que me aguardava. Sem desviar-me do caminho, dirijo-me ao aconchego do restaurante Refúgio já meu conhecido, onde serve uma boa comida e pode-se dançar, quando acompanhado, até quase o amanhecer, se o fôlego o permitir.

            Na soleira da porta de vidro, aberta pela gentil recepcionista, dispo meu casaco e o deixo na chapelaria, indo direto ao toalete pentear-me e enxugar a neve reminiscente que camuflou-se derretida entre as ondas de meus cabelos. Voltando ao salão, escolho uma das mesas vagas servidas pelo meu amigo Nilo, o melhor dos garçons. Quase que imediatamente ele me traz o cardápio acompanhado de seu cordial e solene boa noite.

            Antes de escolher o prato, dou uma afrouxada no nó da gravata e, de soslaio, observo na mesa vizinha uma linda e elegante morena saboreando uma sopa de aspargos, especialidade da casa. Nilo já voltava com meu tradicional aperitivo e, com tom de voz levemente mais alta que a normal, pedi-lhe como entrada uma sopa de aspargo. A morena dirigiu-me seus olhos verdes acompanhados de um discreto sorriso.

            Aproveitei para educadamente perguntar-lhe:

__ Ele não veio?

__ Ela, apenas limitou-se a responder-me com um meigo sorriso.

__ A sopa está gostosa? É minha preferida…

__ Novo sorriso discreto, afirmando com a cabeça que sim.

__ Que tal quebrarmos nossa solidão? Também estou só. Ela não veio… (menti!).

            Dessa vez ela falou: esteja à vontade e apontou para a cadeira vazia à sua mesa.

            Peguei meu aperitivo e apresentando-me à Consuelo pedi permissão para sentar-me. Nilo ficou meio desnorteado quando viu minha mesa vazia, mas logo se recompôs ao me localizar. Após servir-me, desejou-me bom apetite e eu agradeci citando seu nome.

__ Obrigado, amigo Nilo.

            Consuelo pareceu-me mais confiante, ao identificar-me como um habitué do restaurante. Saboreamos as sopas trocando amenidades e falando sobre nós dois. Eu, advogado criminalista, ferrenho solteirão, obstinado por liberdade e vivendo a vida da maneira mais prazerosamente possível. Ela, médica oncologista, acabada de sair de um noivado frustrado e turbulento procurando adaptar-se a uma vida a sós, decidida ao celibato em consequência da desilusão amorosa recentemente sofrida.

            Terminada a sopa, já sabíamos nossas idades, afinidades pelo teatro, autores preferidos de livros, poetas, viagens, etc… Parecia um espelho meu.

__ Antes de pedirmos nosso segundo prato, você aceitaria dançar?

__ Não sou exímia dançarina, mas aceito.

            De imediato levantei-me, e ajudei-a a levantar-se puxando suavemente sua cadeira.

__ Consuelo, façamos um pacto. Eu também não sou bom dançarino, então vamos combinar de não nos pisarmos – OK?

            Numa discreta e alegre risada observei seus lábios entreabertos emoldurando lindos e alvos dentes. Boca sensual como que a espera de um ardente beijo. Será que pela vez primeira Cupido iria me flechar? De mãos dadas fomos para a pista de danças. Naquele contato senti algo eletrizante percorrer-me o corpo. Ao tomá-la em meus braços, decretada foi minha irremediável e embrionária paixão à primeira vista.

            Dançamos de rosto colado e ela confidenciou-me que mentiu para mim quando insinuou que esperava  alguém. Eu falei que também menti mas que estava a procura de uma pessoa muito especial. Ela afastou seu rosto do meu e fitando-me nos olhos, perguntou:

__ Quem?

__ Você!

            Novamente colamos nossos rostos e flutuamos em nuvens pelo salão. Meu coração pulsava num compasso nunca dantes sentido, sonhos jamais sonhados nasceram em minh’alma, embriaguei-me no olor desprendido de seus cabelos, acalentei-me no calor emanado de seu corpo. Estava amando!

            A orquestra parou e voltamos para a mesa de mãos dadas. Ajeitei a cadeira para ela sentar-se e comentei:

__ Até que não dançamos mal. Pelo menos seus pés saíram ilesos.

            Novamente aquele sorriso sensual despontou em seu lindo rosto, realçando o verde de seus olhos, sua tez sedosa… Nilo interrompeu meu admirar, indagando se já tínhamos escolhido o menu. Passei o cardápio para Consuelo mas ela pareceu-me em dúvida e ofereci-me para fazer uma sugestão para nós ambos. Ela aquiesceu e eu pedi salmão ao molho branco e uma garrafa de vinho branco Morada Chardonnay.

__ Espero que você goste de peixe.

__ Adoro! Mas vou beber pouquinho pois tenho que dirigir.

__ Fique tranquila que eu me encarrego de beber a sua parte (rimos).

__Você tem seu próprio consultório médico?

__Sim, mas dedico a maior parte do meu tempo ao Hospital do Cancer Infantil. Luto contra a interrupção de vidas recém-chegadas

            Aquela dedicação altruísta aumentou ainda mais minha admiração por Consuelo. Ela era linda externa e internamente!

            Nilo chegou com o vinho e duas taças para degustarmos. Depois de servir-nos, esperou nossa aprovação e, após brindarmos a algo maior que uma simples amizade, aprovamos e ele retirou-se para trazer o nosso salmão.

            Durante todo o tempo apreciava minha Diva. Fala macia, elegância, finura, beleza irretocável, atraente,,,

__ Por que você me olha tanto?

__Você acredita em hipnose, magnetismo ou algo maior? É isso que você me desperta.

__Também vejo em você muitas qualidades…

__Por favor não me deixe ruborizado. Não estou muito acostumado a elogios.

__Usando de sinceridade, acho você muito galante, educado, bonito…

__Pare! Estou quase chorando. Acabo de chegar às nuvens, ouvindo de seus lábios tanto carinho.

__Mas é pura verdade! O que sinto costumo dizer; jamais guardo pra mim!

__Consuelo, posso esperar de você algo parecido com um terno amor? Juro que não irei decepcioná-la!

__Experimentemos, quem sabe dará certo?

__Então brindemos a isso!

            Ao terminarmos nosso delicioso salmão, estiquei meu braço sobre a mesa em direção a ela, com a palma da mão para cima. Ela pousou a sua sobre a minha e novamente senti aquela transmissão de uma indescritível empatia. Realmente tinha achado minha metade! Queria possuí-la em meus braços e convidei-a para novamente dançarmos. Ao pisarmos no tablado, num impulso incontido, abracei-a e trocamos um beijo apaixonado.

__Desculpe-me, não me controlei!

__Está desculpado! (E ofereceu-me novamente seus lábios de mel)

            Tornei a beijá-la e um casal próximo a nós aplaudiu nosso idílio.

            Quantos anos passei em minha vida fugindo do amor! Mal sabia eu que ele viria ao meu encontro quando menos esperasse e que seria de forma inapelável! Enquanto dançávamos com rostos colados, sussurrei-lhe: Seria precipitado, se a pedisse agora em casamento? Sem responder-me ela riu, parecendo-me feliz.

            Duas danças depois, voltamos à mesa e pedimos mousse de chocolate para sobremesa e arrematamos nosso jantar com um licor de drambuie.

            Ela pediu-me licença para ir ao toalete e nesse hiato pedi a conta ao Nilo, pagando-a com cartão, já incluída a gorjeta do meu amigo.

            Em seu retorno trocamos os números de nossos telefones, peguei na chapelaria meu sobretudo e o casaco de minha querida namorada, coloquei-o sobre seus ombros, vesti o meu e esperamos o manobrista trazer o carro dela. Já sentada ao volante novamente nos beijamos e eu terminei minha caminhada para casa a pé, um quarteirão apenas de distância. Sentia a neve mais suave e segui aquele curto trajeto cantarolando como o homem mais feliz do mundo.

            Abreviando o “happy end”, quero dizer que nos casamos oito meses depois. Até hoje, quando tenho tempo disponível, vou ao hospital em que minha amada esposa trava sua gloriosa luta e divirto as crianças “carequinhas”, colocando no nariz uma bola vermelha e passando tinta no rosto. Cada gargalhada que ouço daqueles anjos, ecoa no mais recôndito imo de meu coração e gratificam as lágrimas que brotam de meus olhos, manchando a maquiagem deste emocionado palhaço.

 

Conto dramatizado baseado em fato acontecido décadas atrás Ary Franco ( O  poeta descalço )

Em uma cabana no meio da floresta vivia um ancião, tendo por única companhia sua cadela de estimação. Por muitos anos recebia visitas esporádicas de caçadores que levavam-lhe mantimentos em troca de eventuais pernoites.Certa vez um dos caçadores encontrou o idoso morto em seu catre e ao seu lado a cadela velando seu corpo. Condoído com a cena, juntou-se com outros amigos e providenciaram o funeral sepultando o corpo do velhinho no cemitério mais próximo.Ninguém prestava atenção à cadela esquálida que acompanhava o féretro até a sepultura onde foi enterrado o corpo de seu amado dono.

Terminadas as exéquias e, com a sensação do dever cumprido, cada um retornou às suas casas mas a cadela aboletou-se sobre a lápide sepulcral dia após dia, noite após noite. Afinal ela sabia que ali embaixo, sete palmos de terra cobriam o corpo do seu dono. Aqueles que trabalhavam no cemitério, principalmente os coveiros, sensibilizados com a fidelidade e desprendido amor da cadelinha, adotaram-na levando-lhe alimento e água diariamente.

Bem junto ao túmulo havia uma frondosa árvore onde no início ela buscava abrigo durante as intempéries e ao abrasador sol. Apesar de não haver registro da existência de qualquer parente do falecido, a notícia da perene vigília canina se espalhou e a sepultura passou a ser a mais visitada pelos curiosos que lá afluíam, admirando aquele exemplo de fidelidade, jamais igualado ao de qualquer ser humano.

Aproveitando, oravam pela alma do desconhecido ali sepultado. Durante as noites que se seguiam o vigia já se acostumara aos lânguidos uivos da cadela que os fazia com a cabeça erguida para o alto como que suplicando aos céus a volta de seu amo.Pouco a pouco a cadela começou a saciar seu apetite com pouquíssima comida, abstendo-se finalmente da alimentação. Poucos dias depois, durante uma violenta nevasca, a cadela sucumbiu sobre a lápide, vencida pela irracional saudade, e o corpo dela foi enterrado junto à árvore que tantas vezes lhe serviu de abrigo e bem próxima do seu amado dono.

MEU AMOR PELOS ANIMAIS

Ary Franco (O Poeta Descalço)

            Desde pequenininho sempre tive um amor enorme por animais, inclusive insetos. Relutava em matar moscas ou baratas, ajudava cães abandonados na rua livrando-os da “Carrocinha da Prefeitura”, alimentava gatos dos vizinhos, tive porquinho da índia, cágado, hamsters  (aqueles que ficam brincando numa rodinha giratória), mas o mais excêntrico de todos foi o “Tilico”.

            Não muito distante de onde eu morava, existia uma granja e fiquei sabendo que eles botavam no lixo pintinhos machos, sem não antes torcerem seus pescoços. Sempre que voltava do colégio, saltava do bonde um ponto antes e visitava o latão de lixo da granja. Lá estavam eles às dezenas, mortos após um simples sopro entre as patinhas que os identificasse como não fêmeas.

            Isso repetiu-se durante semanas, até que um dia eu vi no latão um pintinho vivo! Ele estava se mexendo!!! Apanhei-o como quem rouba um anel de diamantes e corri, corri com a pasta batendo em minha costas como que a empurrar-me, incitando-me a um galope desenfreado até adentrar em casa.

            Mamãe, preciso ir na venda do “Seu Carlos” comprar farelo e milho picado. Olha o que eu achei! Esvaziei uma caixa de sapatos e com um conta gotas, dei um pouco de água ao “Tilico” goela abaixo. Deixei-o aos cuidados da mamãe e fui comprar a ração para ele. Tudo fiz correndo, de uniforme do colégio; apenas me desvencilhei da pesada pasta nas costas.

            Uma lâmpada acesa próxima à caixa de sapatos dava ao meu adotado o calor suficiente como as asas de sua mamãe. Ele beliscava o farelo e os pedacinhos do milho picado. Chorei de alegria. Estava salvo o meu mais novo “bichinho de estimação”. Dormiu no meu quarto com a lâmpada acesa.

            Por sorte, dia seguinte era um sábado e não tive aula. Dediquei tempo integral ao meu amado pintainho. Retirei-o da caixa e deixei que passeasse pela sala, tendo cuidado para minha cadela não querer comê-lo. Dias depois já estavam amigos e “Diana” até deixava-o encostar-se nela quando estivesse deitada. Papai aprovou a minha mais nova adoção e eu estava feliz! Ele até trazia diariamente do moinho em que trabalhava, uma caixa de clipes cheia de insetos que lá infestavam os sacos de milho.

            “Tilico” já reconhecia a voz do papai quando chegava do trabalho e ia correndo ao seu encontro para comer os carunchos trazidos especialmente para ele. Os insetos, uma vez com a caixa aberta, começavam a se espalhar e o “Tilico” não deixava escapar um, ficando com seu papo estufado. Era uma farra!

            Ele cresceu e já era um frango da raça Legorne. Um dia voou para cima do muro divisório com a casa vizinha e eu atraí-o de volta espalhando milho no quintal. Quando papai chegou do trabalho, disse-me que teria que cortar um pouco das penas da asa esquerda para impedi-lo de novas travessuras.

__ Papai, ele vai sentir alguma dor?

__ Não, é só as pontas das penas para desequilibrá-lo, caso queira voar novamente.

            Em pouco tempo tornou-se um belo galo e, aos domingos, nós o levávamos à Quinta da Boa Vista (morávamos pertinho dela) para brincar no gramado. Aí aconteceu o que mudou o destino do “Tilico”. Logo ao clarear ele começava a cantar “cócóricóóóó!!!” e os vizinhos (morávamos em uma vila com casas juntinhas, umas das outras) sutilmente reclamavam do “importuno despertador”. Desesperado eu o trancava no banheiro da empregada, mas o canto dele ultrapassava as barreiras do som. Colocava esparadrapo na ponta do bico quando ia dormir, mas assim que retirava o “cala a boca” pela manhã, antes de ir para o colégio,  ele desandava a cantar.

            Papai me convenceu a dar o “Tilico” para um fazendeiro que comprava ração para o gado, lá no moinho. Quando chegou o derradeiro dia, eu mesmo levei meu galinho e entreguei-o (chorando) ao “Seu Valadão”, fazendo-o jurar que não iria matá-lo.

__ Pode ficar sossegado menino. Ele vai adorar ficar num galinheiro cheio de galinhas para “cobrir”.

            Não entendi muito bem e perguntei se ele iria “casar” com elas e ele disse-me que sim. Voltei pra casa triste e me agarrei à Diana que aguardava minha volta.

            Esta é a história do “Tilico” e nunca mais fui olhar no tal latão de lixo da granja, com medo de achar outro pintinho e que tudo recomeçasse e triste ficasse no trágico final de uma próxima adoção.

CRÔNICA SAUDADE!

Ary Franco (O Poeta Descalço)

         Começo a escrever esta crônica não querendo escrevê-la. Movido por uma força estranha que manifesta-se inquieta em minhas entranhas, tal como um sentimento de que não posso deixar pra lá, que recusa-se ao simples virar de uma página.

         Sou criança na Internet com apenas uma década incompleta de convivência com meus pares = leitores, escritores (cronistas, contistas, críticos…), pensadores, formatadores, poetas, etc. Nessa minha caminhada vários conhecidos encontrei que, por empatia e/ou afinidades recíprocas, transformaram-se em meus Amigos unidos por sólidas amizades.

         No repente do inesperado, do difícil de ser pacificamente aceito, esses Amigos nos são arrancados para sempre. Partem sem adeus e nos deixam entregues à dor sufocante de uma insuportável ausência. Ausência em que os fazem mais presentes do que dantes, quando aqui conosco estavam.

         Com mão trêmula de emoção retiramos seus nomes da lista de contatos e, no ato, lágrimas furtivas ofuscam nossa visão. Do fundo de nosso peito vem um triste e incontido soluço e custamos a recuperar o equilíbrio necessário para continuarmos em frente. O desânimo nos convida a parar…

         A cada derradeira despedida,  em noites enluaradas, procuro e acho no firmamento mais uma estrela a brilhar e sorrindo para ela aceno aqui de baixo dando-lhe um até breve. Consola-me saber que não foi uma estrela que se apagou e sim uma nova que ganhamos em nossa constelação virtual da Internet.

         Deixo de citar os nomes dos que se foram, por ser uma dolorosa e insuportável  tarefa. Que cada um  busque em seus corações e lá acharão os nomes guardados para todo o sempre.

QUANDO ME FOR, QUE POSSA REVÊ-LOS!
Nota: Leia-se «Crônica» no sentido duplo e amplo da palavra.
CARLOS RENI
ROBERTO ROMANELLI
TERE PENHABE
MARLY CALDAS

2 comentarios en “ARY FRANCO”

  1. Meu querido amigo, nobre poeta Ary Franco!
    Estou feliz por encontrar você entre os grandes escritores da net,
    e embevecida com sua excelente prosa, com seu talento de escritor, mesmo o conhecendo há tempos,
    sinto-me como se nunca o tivesse lido.
    Seus poemas cheios de glamour, traz-nos a beleza e o encanto, em todas as suas variáveis .
    PARABÉNS! Que continue encantando!
    Abraços poéticos!
    Rita Rocha

    Responder
  2. Até quando puder, esforçar-me-ei para que um dia venha a ser merecedor das palavras e carinhos a mim dispensados.
    Enquanto isso, agradeço de coração para corações os incentivos diuturnamente recebidos.
    Queiram aceitar meus cordiais e fraternos abraços,

    Responder

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