ENTREVISTA COM LUIZ POETA

GRANDE ENTREVISTA

Eugenio de Sá entrevista a Luiz Gilberto de Barros ( Luiz Poeta )

 

Luiz Gilberto de Barros (Luiz Poeta), é brasileiro, carioca, e um dos príncipes da poesia de língua portuguesa que muito têm contribuído para enriquecer a cultura lusófona.

Ele é verbete do Dicionário Antônio Houaiss de MPB, foi recentemente presidente da Academia Pan Americana de Letras e Artes do Rio de Janeiro, e é Académico e Membro Honorário do Instituto Brasileiro de Culturas Internacionais, da Confederação Brasileira de Letras, Ciências e Artes da Academia de Letras do Brasil (Mariana-Minas Gerais).

É um escritor assaz premiado, tendo recebido comendas, outorgas, menções, diplomas, certificados, troféus e medalhas de grande mérito literário e cultural de muitas das mais significativas

e prestigiadas instituições brasileiras, entre Autarquias, Associações, Clubes, etc, de grande abrangência social e cultural.

Tenho a felicidade e a honra de o tratar (e o sentir) como irmão de coração e de letras, porque ambos nos identificamos com o verdadeiro “espírito do poeta”, o espírito da solidariedade e do amor pelo próximo, da compaixão, do perdão e da conciliação, os mor-valores a privilegiar e cultivar numa sociedade cada vez mais deles esvaziada.

FILOSOFOME
Luiz Poeta ( sbacem-rj ) – Luiz Gilberto de Barros
4 de Maio de 2007 do Rio de Janeiro

Quem filosofa sobre a fome, não conhece
A verdadeira dimensão do sofrimento,
Só fotografa a visão que o apetece,
E só registra o instantâneo de um momento.
Quem sente a fome no instante em que observa
Um infeliz morrendo à míngua, abandonado,
Sabe que a dor do desamor é que conserva
A solidão em seu olhar desesperado.

Certas pessoas se alimentam de vaidade,
De arrogância, covardia e falsidade,
E o poeta mostra…em sua poesia…

Que os indigentes infelizes passam fome
E o egoísta é um bicho que só come
A sua própria solidão… e hipocrisia.

São estes os sentimentos verdadeiros do nosso entrevistado, que mostram, à saciedade, o carácter de um homem bem formado e imbuído de uma real vontade de intervir na sociedade, usando para isso das múltiplas vertentes do seu talento, já que para além de professor de Literatura Portuguesa e Brasileira, e de Poeta, ele ainda é violonista, guitarrista, compositor e artista plástico.

Mas vamos deixar que ele nos conte de si na entrevista que gentilmente aquiesceu em conceder-nos.

ES:

Luiz, queres começar por nos falar de ti enquanto menino; das tuas inclinações, como vias então o teu futuro, e como acabaste por te decidir pelo ensino, como profissão?

LP:

Amado irmão Eugénio de Sá… honrado e agradecido por esta generosa oportunidade de falar um pouco sobre mim, e emocionado com este expressivo momento, informo o seguinte, retomando a pergunta que o inicia:

Tenho certeza de que, como tu, possuo o DNA dos sonhadores e sempre me considerei um menino diferente dos demais. Apesar de ser um bom canceriano ( 21 de Julho ) voltado naturalmente para o passado ( costumo dizer que “ Quando eu morrer, será inevitavelmente de saudade “ ) sempre estive à frente dos garotos da minha faixa etária: joguei bola de futebol e de gude,  rodei pião, soltei pipa,  brinquei de bandeirinha, carniça. Saltei o muro dos vizinhos para pegar frutas, brinquei de “pera, uva ou maça” ( ansioso por dar um beijinho nas meninas ) enfim, fiz tudo que um pequenino feliz e inocente faz… entretanto, sempre reflecti liricamente sobre o amor de maneira adulta e enquanto alguns amiguinhos preocupavam-se em zombar ou fazer brincadeiras sem graça para ridiculizar os outros,  eu me atinha às líricas  trocas de olhares e às sedutoras  cartas de amor.

Quanto à escolha das profissões, por ser um menino nascido – honradamente – num morro da Zona Norte do Rio de Janeiro ( no bairro de Bangu ) onde residiam pessoas muito humildes – e felizes, sem afectações intelectualoides – cujas profissões eram subservientes ( minha mãe lavava e passava roupas para fora e meu pai era operário de uma fábrica de tecidos ) como pedreiros, lavadeiras, agricultores, diaristas e afins, nunca esperei muita coisa da vida, pois sempre a olhei com naturalidade, todavia,  ainda menino, queria ser marinheiro ( veja só ! ) mais pela fantasia do mar e do céu do que pela  ousadia dos desbravadores ante o  perigo das procelas ( risos ). Capinei os quintais dos vizinhos, encerei ( com “esfregão” e vermelhão ) as salas das suas casas e, depois, já adolescente, fui vendedor de livros, Enciclopédia Barsa e outras  

( adoro o cheiro de livro novo ) fui cobrador de lojas de móveis e outras actividades similares.

Certa vez, quando estava empinando pipas no meu terraço ( isto já no bairro de Marechal Hermes, para onde me mudei por conta de uma separação dos meus pais, morando já com nova família ) minha mãe interpelou-me com uma frase que foi a melhor que já ouvi: – Vai trabalhar, seu vagabundo!…fosse hoje, certamente iria tentar curar-me com um psicólogo ( risos ). Confesso que chorei um pouco, mas quando arranjei um emprego de verdade e ganhei meu primeiro salário digno, a coisa mudou e comecei a conhecer a importância da palavra liberdade e a valorizar a sabedoria de uma mãe. Sou quem sou graças – indubitavelmente – a ela.

Sobre a docência, tornei-me professor porque Deus quis. Ele me deu o dom de ler, de escrever e de criar ( já no ginásio, aos  13 anos, fui premiado com a melhor produção literária da escola – ganhei uma medalha que tenho até hoje – daí não parei mais de escrever).

Fui Técnico de Contabilidade, Auxiliar e Técnico de Enfermagem ( nestas últimas,  trabalhei por 27 anos ). Mas o que me  levou mesmo ao magistério foi ter desistido do jornalismo e ingressado na Literatura, mas isso daria muitos panos pra manga.  

ES:

Antes de entrarmos no “plat de resistence”; a poesia, gostava que nos falasses da música, outra das tuas facetas artísticas, tanto mais que é também a cantar que te expressas em poesia. Além de dominares vários instrumentos também compões as tuas músicas.

Conta-nos como tudo isso começou e como hoje faz parte da tua vida.

LP:

Infelizmente, pouco sei da capacidade artística dos meus ancestrais, principalmente em relação à música, contudo,   meu pai tocava flauta de bambu. Era um homem sensível que, embora brasileiro, tinha aquele jeitão português de reagir intempestivamente contra idiotices ou hipocrisias, mas, por outro lado, era capaz de chorar ouvindo uma canção, por isso acho que herdei, dele, essa minha sensorial relação com a música, entretanto, busco ser diplomata diante de qualquer argumentação polémica e opto pelas ponderações mais reflexivas.

Quanto à outras modalidades artísticas, entendo que as “pessoas pobres já nascem inventando alegrias”, por isso são mais espontâneas no que produzem da maneira mais natural possível.  Aprendi com minhas tias, modelar bonequinhos de barro. Lembro-me de que, na escola primária, fiz um indiozinho montado num cavalinho e a minha professora convocou minha mãe para que lhe dissesse onde eu havia estudado aquela técnica ( risos ) “ É a técnica do morro “ – minha mãe respondeu.

Numa ocasião, já mais crescidinho, fiz um curso de “ Desenho Artístico e Publicitário “. Certo dia, o mestre chamou minha mãe e lhe disse: “ Tire o seu filho das aulas de arte “ – Por quê ? – indagou ela.  “Porque ele tem personalidade – respondeu o mestre – e seus desenhos e telas são muito pessoais. Aqui ele só vai perder tempo. Daí pra frente, tornei-me autodidata praticamente em tudo: música, poesia e artes, em geral.

Adoro tocar um instrumento sem compromisso com nenhuma estética e sou muito feliz assim, abençoando e sendo abençoado pela  alegria; nunca fui  desses que ficam decorando técnicas, mas amo ver e ouvir os que tocam divinamente. Observo o mínimo possível dos melhores e tiro deles apenas um pouquinho. O resto, faço do meu jeito. Gosto principalmente de músicas tranquilas, como a bossa-nova e o fado, por exemplo, entretanto, o ritmo do samba é incontestavelmente sinestésico em todos os sentidos. Quanto a mim como instrumentista, toco, na verdade, violão, guitarra e contrabaixo e costumo dizer que “sou melhor que uns e pior que os outros – graças a Deus “.

ES:

Sei que tens uma linda família e que és um homem dedicada aos teus, como o és também com os teus alunos e os teus amigos, e como isso te ajuda a ser um homem feliz.

Não te peço pormenores íntimos, obviamente, mas porque não nos deixas aqui o teu depoimento sobre a forma de um breve resumo de vida, a vida cheia que viveste até agora. A pergunta parece-me, além do mais, oportuna, uma vez que estás em vias de te aposentar.

LP:

Apesar de barbudo ( sou assim desde a década de 60 ) nunca fui nenhum “ riponga “( é a nossa corruptela genuinamente carioca para hippyes obsessivos ) sou um cara que procura preservar os valores familiares e tento ensinar dignidade aos meus filhos. Sempre digo para eles: “ Se você errar, não bote a culpa em mim, porque eu nunca acusei a sua avó ou seu avô pelos meus deslizes ou defeitos “. Ensino o que sempre entendi como certo  e fico irritado quando vejo a juventude ser adotada pela TV ou pelas besteiras que dizem certos  internautas filosofoides, viralizando literalmente a imbecilidade.

No magistério, sempre procurei interpretar os textos que lia ( sou professor de literatura ) de maneira artística ( com emoção mesmo ) e meus alunos também o faziam a meu pedido ( e eu vibrava com a performance deles ). Usei violões e até guitarras e teclados na sala de aula e pedia a eles que trouxessem também seus instrumentos. Foram aulas memoráveis das quais jamais esquecerei e tenho certeza de que eles também jamais olvidarão ( eram momentos nada didáticos, de puro artesanato pedagógico, sem tecnicismos, mas com agradáveis embevecimentos de ambas as partes ).   

ES:

Como sói dizer-se; todos nós somos a soma do que aprendemos ao longo da nossa existência, dessa existência que acabaste de nos contar em síntese. Ao longo dela formulamos desejos e estabelecemos objectivos. Consideras-te, por isso, um homem realizado quanto no que te possível concretizar face ao que sonhaste?

LP:

Curiosamente, apesar de ser um sonhador contumaz, percebo que alguns desejos antigos fragilizaram-se gradativamente, embora o tempo e a experiência induzam-me, no momento,  à aceitação do imutável, limitando-me a fazer da fantasia uma transcendental e anímica mola propulsora dos meus mais afectuosos voos sobre as planícies de mim mesmo.

Gosto de voar… e mesmo dentro de uma aeronave real, realizo voos que transcendem meu amor pelos seres alados. Quando pouso em mim mesmo, o que é físico sofre a metamorfose dos anjos que sonham, em homens que almejam. Agora, por exemplo, Portugal está deixando de ser gradativamente um sonho: passou a ser um  lírico desejo de beijar o seu chão e reverenciar os que de lá vieram para formar, aqui, as famílias Barros, Lobo, Monteiro, Ventura, Sousa ( com “s” e com “z” )Ferreira e Arouca que originaram esse Luiz Poeta que vos fala. 

Luiz Gilberto de Barros, o poeta

ES:

Chegamos agora ao ponto crucial da nossa entrevista:

vamos falar de poesia!

« A riqueza vocabular da sua linguagem, a profusão temática e as brilhantes construções metafóricas, recorrentes na sua poesia, mostram, à evidência, um homem culto, amoroso, sensível e preocupado com a justiça numa sociedade com que convive, e conhece, como conhece a complexidade dos sentimentos humanos e os procura entender, exaltando uns e indultando outros, menores, com uma filosofia que lhe é muito própria.»

Foi assim que me referi à poesia de Luiz Gilberto de Barros no prefácio que escrevi para a sua nova obra a lançar brevemente; “Sonet…Ânsias”.  

O soneto é realmente a forma poética clássica que privilegias, embora saiba que dominas, com igual à vontade, qualquer outra.

Diz-nos, Luiz; o que te anima a prosseguir escrevendo, com a versatilidade temática que te conhecemos, esta poesia que nos varre alma? –  Quais os “pontos de apoio” de que te serves, e quais as influências que subjazem na tua veia criativa?

LP:

Meu amado irmão Eugénio de anímicas viagens poéticas… sempre digo que meus pés são dodecassilábicos e às vezes me pego fazendo um soneto cuja métrica maior  ultrapassa os umbrais dos decassílabos camonianos ( risos ) e o faço instintivamente. Quando a ideia me vem ( e nem sempre o é em dez sílabas  ou mesmo em redondilhas maiores ou menores, deixo-a atomizar-se. Às vezes temo o épico, pois minha compulsão é tão grande, que me torno prolixo ( como estou sendo agora – risos ) e o que seria, por exemplo, uma lírica alegoria, passa a ser um enredo com direito a passistas, adereços e afins, enfim, tudo se torna um desfile que ocorre principalmente quando reajo ante as injustiças sociais e faço disso, minha guerrilha pessoal. 

Sempre disse para os meus alunos que “ Quem é igual não ocupa vagas “ , mas não tento ser diferente; sou quem sou, com minha marca própria que, de verdade, será minha até o voo derradeiro. Trabalho em todas as áreas literárias. Quando sou poeta, assino Luiz Poeta; quando prosador, faço-o como Luiz Gilberto de Barros.

ES:

Quero agora colocar-te a pergunta que fiz ao nosso saudoso amigo comum, o grande poeta teu compriota Humberto Rodrigues Neto, quando ainda recentemente o entrevistei:

« Em Portugal são em reduzido número, mas no teu país existem múltiplas Academias Literárias, e outras similares instituições. Nalgumas das vossas principais cidades, as respectivas cadeiras são ocupadas por escritores e/ou poetas ditos “consagrados”. Concordas com as regras dessa selecção? Consideras justos os critérios vigentes, ou achas que tudo se faz de acordo com base em escolhas que podem qualificar-se (pelo menos) de duvidosas? »

Uma vez que ainda há pouco tempo estiveste à frente de uma destas instituições, porventura das mais conceituadas, diz-nos de tua justiça o que pensas da questão que levanto, uma vez que tu próprio – e tu sim, por inteiro mérito – pertences aos quadros de Académicos de algumas.

LP:

No Brasil Literário ( ou artístico ) actual, o que vejo são compadres no lugar de confrades. Conheço algumas pessoas com funções acadêmicas relevantes, que sequer escreveram um trabalho digno de aplausos. Limitam-se a julgar os demais, achando-se superiores aos próprios, mas não entram em concursos “ sérios “ de literatura e nem submetem seu trabalho a uma crítica literária competente.

Autodenominam-se isto ou aquilo pelos títulos que recebem e vão galgando ( sem duras penas ) os seus patamares de suposta competência. Alguns nem conhecem a palavra imparcialidade num julgamento que fazem a convite de quem pensa que os conhece como escritores e os títulos que recebem ou dão, são normalmente políticos e não pela grandeza da obra.

Claro que há exceções e alguns escritores notabilizam-se pelo que produzem e quem os lê, sabe do que são capazes como artistas lusófonos, todavia muitas entidades perdem o seu caráter acadêmico em decorrência do despreparo ou da politicagem que inevitavelmente é observada pelos demais.

A quebra de protocolos passou a ser midiática e determinados “responsáveis” por ( in ) certas academias –  ideólogos da autopropaganda –  deixam de lado o caráter cívico que resgata uma história acadêmica, trocando-o por uma verdadeira “festa na floresta”.

Quando presidente, sempre busquei respeitar os estatutos, como também os meus antecessores, Jamais tentei apagar os rastros que deixaram, principalmente quando foram mais semeadores do que viajantes eventuais.

Quando edito uma obra – qualquer que seja ( e graças a Deus, são muitas ) não omito o nome da entidade à qual sou filiado, pois valorizo-a valorizando-me. É uma troca  onde a reciprocidade deve  ser sempre o núcleo  evolutivo dos que fazem da arte a sua maneira mais sensível de celebração da vida.

Alguns megalomaníacos obsessivos ficam notoriamente loucos por uma vaga numa das cadeiras na Academia Brasileira de Letras, enquanto outros, como Quintana (  um dos nossos mais sublimes escritores brasileiros  )   simplesmente imortalizam-se com versos do tipo: “ Eles passam…eu, passarinho “…Luiz Poeta, meu irmão Eugénio…  etereamente voa.    

ES:

Aqui chegados, faço um reparo à tua resposta anterior, onde afrontas com frontal sinceridade o que se passa nas “Academias de Poesia e Literatura do país, o que aliás é muito próximo do que se passa no meu.

Passamos agora à pergunta que sempre se impóe fazer a um poeta: fala-nos da tua bibliografia, do que já editaste, e dos teus projectos futuros.

LP:

Comecei a escrever muito cedo e não parei mais. Tenho muito mais obras rascunhadas, datilografadas e digitadas do que em livros de capa dura ou virtuais. Em 1980, possuía, impressas ( mesmo artesanalmente – e contados a dedo ) mais de dez mil textos que incluíam crônicas, peças teatrais, ensaios, contos, romances, trovas, poesias etc. Hoje, temo tentar recontá-las. A cada ano, preencho uma agenda com textos inéditos, digito e publico alguns e deixo os demais em stand by. Minhas agendas jamais são desprezadas e volta e meia recorro a elas para ver, pela leitura, se são interessantes para uma nova edição e até mesmo para ver quem fui nessa ou naquela época, pois “ a história torna-se literatura quando se emociona “ ( LP) Catalogo os textos digitados em pastas e por datas, mas tenho diversos trabalhos compilados em gráficas,  em capa dura,  em caixas, pois não há lugar para eles nas estantes onde também repousam livros dos meus  amigos.

Agora, quanto à minha produção literária “ impressa “ mesmo

( antologias, revistas, jornais e livros ) tenho mais de 100 publicações ( pensei que era menos, mas assustei-me com o que possuo: em cada uma delas, tenho de 1 a 10 poemas ou textos em prosa, exceptuando naturalmente os livros-solo onde, naturalmente, tenho muito mais. Tenho antologias de poesias, aldravias, contos, crônicas e tantos outros, além de ser prefaciador, apresentador  e revisor de algumas  obras relevantes de expressivos autores brasileiros. Multiplicando todo o meu “ arsenal “ estou sendo metafórico e não hiperbólico, perco a conta.

Tenho, ainda, CDs, fitas de vídeo e de áudio e  DVDs de shows ou trabalhos lítero-musicais que já realizei.

Sou, como vês, compulsiva e eletricamente produtivo ( entendo isto como uma sublime doença que meu coração recusa-se a não ter ).    

ES:

E para concluirmos, meu caro Luiz; dá-nos a tua visão da Poesia e, se quiseres, da Literatura que se escreve no teu país e na restante geografia lusófona, e das tuas expectativas no que concerne ao futuro em matéria de hábitos de leitura na sociedade.

Peço-te que tenhas em conta os alunos que já formaste e o que certamente lhes auspicias como homens e mulheres preparados para o futuro que aí vem.

LP:

Nas antologias que me publicam honradamente junto a uma admirável plêiade de escritores brasileiros, percebo que uma parte razoável deles, por não dominarem as técnicas de um poema clássico como o soneto, optam pelo verso livre.

Fazem-no, creio, por não terem outra alternativa criativa e, infelizmente, equivocam-se e acabam realizando um texto que mais parece uma trôpega narrativa (deixando até de usar os ingredientes metafóricos que o possam embelezar ).

Noto até mesmo nos concursos, que há uma verdadeira aversão à poesia rimada, pois os seus promotores, quando da escolha dos vencedores, notoriamente sempre deixam de lado a preciosidade de uma obra com essas características, parecendo desprezar até os seus conteúdos, tal a fobia descabida à preciosidade artística.

Acho tudo isto lamentável. Poder-se-ia fazer um concurso só de versos livres… assim se evitaria esse comportamento sonetofágico

( risos ) e, como não faço apenas versos rimados ( embora este seja, ainda, o meu forte ) testaria novamente a minha própria capacidade criativa, já que nos tempos universitários, produzi intensamente essa modalidade estilística.

Há, no meu país, um grupo muito forte na produção e divulgação da trova ( quadra ) que é a União Brasileira de Trovadores… nos seus concursos, só trovadores podem concorrer ( há, inclusive, um decálogo que rege esse tipo sedutor de composição literária ). No dia 17 de Março deste mês, receberei duas menções honrosas em Taubaté, São Paulo. Noutro deles, existe o concurso dos “ 50 Melhores Sonetos “ ( que têm que ser obrigatoriamente decassilábicos – é indubitavelmente um resgate) . A aldravia é outro estilo interessante ( o mais contemporâneo deles ). Criado em Mariana, Minas Gerais, foi  publicado já em Portugal e Espanha ).Eu diria que tem o DNA dos poemetos e do haicai ( compoõe-se de 6 palavras-verso metonímicas, escritas sempre na vertical ). Embora alguns puristas sejam implacáveis na rejeição às aldravias, entendendo-as – equivocadamente – como um simples pensamento de seis palavras , noto  que a maioria deles o faz por não saber realizá-las ( simples assim ) .   Já participei de 5 antologias aldravianistas, sintetizando, nelas, meu menor discurso ( amo fazê-las ). O cordel é mais uma  modalidade bastante interessante, cujos declamadores abusam do talento ao apresentá-los em público.

Outrossim, os chamados “ rapers “ brasileiros,  na carona dos nossos maravilhosos  cordelistas, repentistas e criativos intérpretes do famoso “partido alto “ carioca,  valeram-se da ideia da composição literária cantada e se transformaram, a exemplo das nossas cantigas portuguesas medievais, nos criativos cultores filológicos da periferia da linguagem popular brasileira, usando, para atingir a massa, não apenas a crítica social mas também um dialeto próprio, repleto de gírias e neologismos informais. Como a TV os ama, publica-os, mostra-os e vale-se deles para enriquecerem seus produtores.  

Em contrapartida, há belíssimos declamadores em ação nos saraus académicos, capazes de embevecer até mesmo os seus iguais. Alguns concursos literários valorizam a poesia falada, julgando previamente os poemas inscritos e, depois, o seu conteúdo interpretado normalmente por actores.

Como sabes, na Unidade Escolar onde leciono ( Escola Municipal Evangelina Duarte Batista ) há uma Sala de Leitura que leva o meu nome: Sala de Leitura Luiz Poeta – Professor Luiz Gilberto de Barros.

Nesse templo sagrado de educação, ávidos por aprenderem e adquirirem novos conhecimentos, nossos educandos lêem, declamam, participam de jograis e oficinas literárias e tomam   por empréstimo, obras que vão desde os clássicos até os escritores contemporâneos.

Nossos corpos docentes de todo o país são fundamentais  para este processo evolutivo porém, embora os governantes brasileiros nunca se tenham interessado verdadeiramente pela educação, o professor continua sendo, como um poeta, um ser que se sublima quando cria no que produz e vê, no sucesso do seu aluno, a resposta para sua incansável dedicação.  

ES:

Sempre me é um grato prazer dialogar contigo, Luiz, seja em poesia, seja noutra forma dialéctica, embora a distância de um oceano nos impeça de o fazermos olhos nos olhos, como os irmãos – ainda que só de coração, como nós – gostam de conversar, partilhando o que lhe vai na alma.

E assim, quero agradecer-te a pronta disponibilidade com que aquiesceste ao meu convite e de Eunate para nos concederes esta entrevista, que, tenho esperança, será lida com sumo interesse por quantos nos honram com a sua leitura.

Obrigado, Luiz. Bem hajas, meu amigo, meu irmão.

LP:

Agradeço-te, meu irmão Eugénio de Sá, irmão que amo, respeito e admiro, e com quem sempre tive a alegria de compor tantos duetos marcados pela sensibilidade e  pela reciprocidade, como também a ti, querida hermana de páginas, pautas e telas,  Eunate Goikoetxea, que tens o dom de te eternizares no meu coração, pela honra que foi participar de uma entrevista tão bem dirigida e  abençoada pela fraternidade que une ao mundo, três luminosos países: Portugal, Espanha e Brasil.

Deus vos abençoe com o meu melhor afecto.

Luiz Poeta – Luiz Gilberto de Barros – Rio de Janeiro – Brasil, 28 de Fevereiro de 2018.

 

8 comentarios en “ENTREVISTA COM LUIZ POETA

  1. Agradeço a Aristos Internacional, na pessoa da sua fundadora e editora, a minha ilustre amiga Drª Eunate Goikoetxea,
    a oportunidade de apresentar aos leitores a personalidade de um grande poeta brasileiro, que muito aprecio e estimo; Luis Gilberto de Barros (Luiz Poeta).
    Eugénio de Sá

  2. Uma boa entrevista a um grande poeta. Concordo com o que refere sobre os versos livres, talvez sejam mais fáceis de elaborar e alguns até são belos, mas gosto mais dos poemas com métrica. E sempre achei que no Brasil valorizam bastante esta modalidade. Grata à Revista Aristos Internacional e sua notável editora.

  3. Encantei-me — e muito aprendi — com a entrevista! Luiz Poeta e Eugénio de Sá são dois Mestres! E o que eu poderia esperar de um processo de perguntas e respostas que tem Eugénio de Sá, de um lado e nas perguntas, e, de outro, Luiz Poeta nas respostas? Confesso que aprendi com as indagações de Eugénio e, claro, com os retornos de Luiz. Meus aplausos a entrevistado e entrevistador! Como dizemos no Brasil: Valeu!

  4. Os meus Parabéns a estes dois grandes “SENHORES” da Poesia! Bebo sempre com muita emoção qualquer trabalho que surja assinado por Eugénio de Sá ou por Luiz Poeta . Nesta entrevista muito bem pensada e levada a cabo por Eugénio de Sá, tivemos o privilégio de conhecer quem é o Homem, que também foi menino, quem é o lutador que não se deixou vencer pelos corredores da vida e num crescendo intelectual, é hoje um grande SENHOR das Letras e um Princípe da Poesia! Um Professor de Literatura….!
    Nós aqui em Portugal costumamos dizer ; É DESTA MASSA QUE ELES SE FAZEM! É sem dúvida com esta vontade de aprender, indo sempre mais além que se conseguem vencedores como Luiz Poeta a quem rendo a minha homenagem, E AQUEM ADORO LER! VIRGÍNIA BRANCO

  5. Agradeço, carinhosamente, os generosos comentários dos nobres interlocutores desta entrevista tão bem elaborada pelo genial escritor e sublime irmão de letras lusófonas Eugénio de Sá, realizados pelos eminentes artistas literários Gabriela Pais, Humberto Soares Santa, Ógui Lourenço Mauri e Virgínia Branco, enviando-lhes, além do meu melhor afeto, o desejo de que o Criador os abençoe rica e abundantemente, possibilitando-lhes transformar, cotidianamente, seus dons em talento e seu talento em arte, como também o faço, direcionando meu carinho à sublime irmã de pautas, telas e páginas, Eunate Goekoetxea e todos os ilustres membros desta insigne revista, cujo convite permitiu-me falar um pouquinho sobre mim e minha vida literária. Honra-me honrá-los, meus irmãos. Deus os abençoe sempre. Luiz Poeta – Luiz Gilberto de Barros – Rio de Janeiro – Brasil.

  6. Me he solazado con la inteligente y exhaustiva entrevista que Eugenio Saa le hace al distinguido poeta y artista brasileño Luiz Gilberto de Barros, en un recorrido desde su infancia hasta la actualidad. Dos potentes personalidades dialogan sin soslayar ningún aspecto o circunstancia que haya marcado la vida de Luiz para convertirlo , sumado a sus dones naturales en un multifacético artista y maestro destacado, orgullo de las letras brasileñas. Destaco fundamentalmente la voz de su madre que supo señalarle el camino del esfuerzo y el trabajo superador. La alegría y el disfrute en sus creaciones es un rasgo distintivo que Eugenio ha remarcado en esta amena y gran entrevista. Felicitaciones a ambos escritores!

  7. Gracias, gracias, gracias, amada hermana de pájinas y alma literária Teresita Morán Valcheff por tu jenerosidad, cuando hablas sobre mi trabajo y de todos los hemanos que bendeneciran, como tu, este momento tan sublime. Dios te bendiga, hermana. Gracias, gracias, gracias ! Viva la arte !!! – Luiz Poeta – Luiz Gilberto de Barros – Rio de Janeiro – Brasil.

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