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Tenhamos medo de quem quer parecer que não tem medo!

Uma Crónica de Eugénio de Sá

Neste mundo carregado de ameaças de toda a ordem, quem de si se quer dar esta imagem é porque algo de errado se passa com ele; ou está louco varrido, ou é inconsciente, e, se tem poder para tal, submete quem pense contrariá-lo a um clima de coacção, pelo receio do que lhe possa acontecer, a si, a aos seus familiares mais próximos. Refiro-me aos perigosos ditadores que assim subsistem, a despeito do que pensa deles toda a comunidade internacional representada da ONU.

Um exemplo desses a quem me refiro é Kim Jong-un,  um nome repetido à exaustão nos tempos que correm. Meios de comunicação de todo o mundo a ele se têm referido, usando todos os epítetos para o qualificar, perante a agressividade das suas acções de natureza belicista e ameaçadora sobre quantos elege como seus inimigos, ou inimigos do povo que representa; o norte coreano.

Perante os constantes desafios deste ditador asiático, as mais altas patentes militares das nações mais poderosas da terra adiantam que uma solução militar na Coreia seria “horrível” para as populações mas deixar Pyongyang desenvolver uma arsenal nuclear seria “inimaginável”.

“Caso a Coreia do Norte ameace os Estados Unidos, estes responderão com “fogo e fúria como o mundo nunca viu”, referiu Donald Trump, discursando há dias no seu clube de golfe.

Entretanto, Vladimir Putin avisa que um ataque contra a Coreia do Norte pode levar a uma hecatombe. Censurando, embora, os ensaios ditos nucleares da Coreia do Norte., acrescenta que o uso da força militar contra aquele país, que qualifica com sendo “um caminho para parte alguma”, conclui que esta iniciativa pode conduzir a uma catástrofe global.

A proposta da China e da Rússia para lidar com a Coreia do Norte é “um insulto”,

dizem os Estados Unidos.

A embaixadora dos Estados Unidos no Conselho de Segurança da ONU, Nikki Haley, criticou a proposta feita pela Rússia e pela China para conter as provocações da Coreia do Norte. Segundo ela, o governo de Kim Jong-un está “pedindo uma guerra”.

“A guerra nunca é algo que os Estados Unidos queiram”, disse Haley, “nós não queremos isso, mas a paciência do nosso país não é ilimitada”. Continuando; “chegou a hora de esgotar todos os nossos meios diplomáticos antes que seja tarde demais. Agora devemos adoptar as medidas mais fortes possíveis. Somente as sanções mais fortes nos permitirão resolver esse problema através da diplomacia”.

Coreia do Sul,  Japão, e Guam são os alvos mais próximos e os dois primeiros preparam a defesa contra qualquer ataque com origem em Pyongyang e executam exercícios conjuntos com EE UU em passo acelerado enquanto reforçam os seus arsenais bélicos. A ilha de Guam, em pleno Pacífico, é território americano e, como tal, os seus habitantes esperam o socorro da pátria mãe atempado e eficaz.

A loucura do “carocha atómica” preocupa Pequim

É um imponderável de risco para os chineses confrontarem o “carocha atómica”. Eles estão perplexos e amedrontados com as suas diatribes e ameaças, pois temem a implosão do país. Acredita-se que Xi Jinping, o secretário-geral do partido comunista da China, ficou realmente muito preocupado com as ambições de Kim Jong-un quando o seu regime foi bem sucedido com um teste balístico intercontinental, e mais ficará se for realizado um novo teste com bomba nuclear, nesse caso, o sexto.

O fato, é que Kim Jong-un continua a ensaiar testes à paciência da a comunidade internacional. Não sabemos exactamente até onde ele está disposto a ir, assim como os principais actores internacionais, a destacar obviamente os EUA, pois a urgência de solução para o desafio norte-coreano torna-se cada vez mais urgente.

Muita gente prefere tratar o tirano atómico como uma espécie de vilão de história de quadra-dinhos. Existe até a ideia de que seu arsenal exibido em paradas militares seja como uma alegoria de Carnaval. Mas é loucura encarar essa ameaça com soberana indiferença, porque a realidade é que os norte-coreanos são capazes de pulverizar Seul, a capital da Coreia do Sul, usando exclusivamente artilharia convencional.

Na transição de poder, Barack Obama alertou Donald Trump que o seu desafio geopolítico mais ingrato seria a Coreia do Norte. E esse perigo do nuclear parece estar agora está nas mãos deste neófito presidente, que pode recorrer a acções unilaterais para lançar o caos, pois todos sabemos que, com Trump, as soluções podem ser sempre piores que os problemas. Todavia, a expressão vale também para a Coreia do Norte, que desencadeou, e continua a alimentar, uma crise sem perspectivas de solução sensata, pelo menos à vista.

Sintra, 6 de Setembro de 2017

Não é tarde demais

Rejane Machado (Brasil)

Observou da janela: ele entrou como um foguete, correndo, saltando sobre os vasos de plantas que estavam na varanda, uma cena inabitual. Devia ser alguma coisa importante, pois sabia muito bem que não havia permissão para estas diabruras. Dotada de toda a paciência do mundo, sabia entender que um momento ou outro, vá lá…, mas assim, sem propósito! faltava-lhe compreensão para essas expansões explosivas. Ou uma certa impaciência, natural de quem já não participa dessas coisas…|tudo tem a sua hora, o seu tempo…. Certo, ninguém precisaria lembrar-lhe que a culpa era só dela, pois talvez tivesse errado em sonhar com uma criança – naquela idade! – um filho, quando suas companheiras de infância já eram avós. E a olhavam de viés, como que censurando-a. Tinha que policiar-se constantemente, e não ficar irritada quando as amigas estavam tricotando para os netinhos que viriam, e ela desfilando com aquela barriga indecente. Curiosos olhares, recomendações que lhe pareciam eivadas de ironia, e alguma palavra solta, inadvertida, logo seguida de desculpas…- tudo aquilo a tornava desconfiada, introspectiva, até que, numa consulta de rotina, encontrou uma alma-irmã naquele médico tão novo, – poderia ser seu filho, ainda cumprindo os últimos meses da Residência, atendendo às clientes do velho Dr. Sinfrônio que sofrera uma indisposição qualquer e mandara em seu lugar seu jovem assistente, muito jeitoso, psicólogo nato. Que percebera seus questionamentos íntimos e provocara confidências. Não sabia explicar porquê confiou nele, e falou livremente sobre seus constrangimentos: casara-se tarde e conformara-se: jamais seria mãe. Não acreditara quando aqueles enjôos a forçaram fazer exames e se confirmara a gravidez. O marido não demonstrou alegria: respeitou-lhe o estado, mas não estava preparado para ser pai, portanto a surpresa não lhe trazia nenhum sentimento, não tinha com quem falar e o vazio se instalara na alma. Já perdera sua mãe, as duas irmãs morando longe juntaram-se aos maridos e filhos divertindo-se com “o lado cômico”- meu Deus, cômico, por quê? Qual a sua culpa, se a Natureza resolvera pregar-lhe aquela peça, um filho aos 45 anos?

Revelou-se, finalmente, o motivo da correria do menino. Aos seis anos a urgência comanda os nossos gestos. Doutor Luíz Fernando, apesar de solteiro ainda, portanto inexperiente de aspectos práticos da vida, fizera-a compreender isto e outras coisas mais. Fortalecera-lhe a confiança em si, o desafio ao encarar as pessoas – que se acostumavam, aos poucos, certamente, – o mundo caminha assim, tudo na vida tem o seu ritmo. Em outras culturas é comum que as pessoas optem por se estabelecerem com segurança na vida- dissera-lhe ele, – e prefiram criar sua família mais tarde. E ficasse ela sabendo: há prós e contras. Mães muito novas, em geral não sabem o que Deus lhes colocou nas mãos. Pessoas experientes valorizam muito mais o inusitado da vida. Desconhecesse comentários maldosos, afinal, ser mãe àquela idade, era uma glória! E o seu aspecto era o de uma pessoa feliz. Pior seria se não o tivesse, um garoto sadio, “levado da breca”, inteligente, que cresceria ao seu lado e a amaria sempre.

E a sua vida mudara, desde então. O velho médico não se recuperou – coitado, tão bom que era! E sua morte não foi nenhuma surpresa. O jovem assumiu as clientes dele e todos estavam satisfeitos. Mostrava-se muito amigo, interessado nas atividades das suas pacientes. Revelou-lhe gostar muito de crianças e de flores. Por ocasião do aniversário dele, o que ficou sabendo pela indiscrição da enfermeira, levou-lhe um vaso de violetas rosadas, o mais bonito do seu jardim. Ele agradeceu como se tivesse recebido uma joia de alto preço. E profeticamente aconselhou-a observar com “bons olhos” as atitudes misteriosas do marido, coisa que a preocupava, porque ele não parecia, como os outros pais, ser muito apegado ao filho. Devia ser, disse ele, enquanto acariciava as flores, algum condicionamento causado pela aceitação da criança, passaria logo!- devido à reação das pessoas da cidade que ainda faziam comentários jocosos e inadequados. Deveria desconhecer estranhezas, aceitar o fato que não era de modo nenhum tão raro, a ponto de causar constrangimento, que bobagem! Observasse sem preconceito as reações dele que precisava de algum tempo a mais para se acostumar e se sobrepor à realidade.

Resolveu seguir à risca os sábios conselhos de quem demonstrava tanta maturidade.  Naquela mesma tarde algo diferente lhe aconteceria.

E realmente assim foi. Descobriu, encantada, todo o mistério que envolvia o comportamento misterioso do marido. Aquela sala trancada, desde alguns dias, na qual ele entrava, fechando-se com uns estranhos pacotes, certamente que lhe espicaçara a curiosidade, mas aguardou, não quis ser indiscreta. Certa noite seguiu-o pé ante pé, e semi-escondida, assistiu a uma cena inusitada: sentado à beira da cama do filho, livro colorido na mão, contava-lhe uma história! Ele chegara na véspera, de uma longa viagem, e abraçara o menino, colocara-o no colo, procedimento incomum. E agora sorria ao vê-lo correr e entrar em casa daquela maneira precipitada, para ajudá-lo com os pacotes que trouxera, mas não lhe permitira abri-los, o que causou uma cena a que não se convertera. Engoliu sua vontade de interferir, de pedir que deixasse a criança satisfazer sua curiosidade, o que é perfeitamente natural, mas reprimiu seu desejo. Como lhe fora aconselhado: encarar com naturalidade, aceitar o inusitado!

E agora, vendo a alegria do menino que ajudava seu pai a enfeitar uma árvore de Natal, sentiu os olhos se apertarem com desconhecida emoção e uma espécie de júbilo de que não se lembrava mais. Ou então este sentimento ficara muito ao longe, no passado, quando criança como seu filho. O pequeno batia palmas, pulava, numa alegria ruidosa, e perguntava se Papai Noel lhe traria mesmo, a bicicleta que tanto almejava. Lógico que sim! -o pai estivera com ele e a promessa seria mantida. Rigorosamente na noite de 24 para 25 de dezembro, mas nem pensar em ficar acordado! E ele mandara dizer que os meninos já crescidinhos não deveriam pular em cima das plantas do jardim das mães!

Não houve palavras, só gestos nervosos, risadas, gritinhos de alegria, enquanto atendia ao convite de juntar-se a eles. Sentiu a diferença no modo como o homem mantinha sua mão presa na dele, e percebia a maciez através das calosidades. Trabalho quase pronto, faltava apenas colocar as pequenas lâmpadas que tornariam mais vivas as luzes das bolas coloridas que rivalizavam com o brilho dos seus olhos molhados.

A VERDADE A QUE MUITOS TEMEM ADERIR
Sebastian Vilar Rodriguez ( España)  
 sexta-feira, 18 de agosto de 2017 16:58

 Não necessita de muita imaginação para associar a mensagem ao resto da europa, possivelmente ao resto do mundo.
O que realmente morreu em Auschwitz?

Percorrendo as ruas de Barcelona, de repente descobri a terrível verdade – a europa morreu em Auschwitz…
Matámos seis milhões de judeus e substituímo-los por 20 milhões de muçulmanos.

Em Auschwitz queimámos uma cultura, pensamento, criatividade, talento. Destruímos o povo escolhido, verdadeiramente escolhido porque produziram grandes e maravilhosas pessoas que mudaram o mundo. A contribuição dessas pessoas é sentida em todas as áreas da vida: ciência, arte, comércio internacional e, acima de tudo, como consciência do mundo. Estas foram as pessoas que queimámos.

E sob a presunção de tolerância e porque quisemos provar a nós mesmos que estávamos curados da doença do racismo, abrimos as portas a 20 milhões de muçulmanos que nos trouxeram estupidez e ignorância, extremismo religioso e falta de tolerância, crime e pobreza, devidos à relutância em trabalhar e orgulhosamente sustentar as suas famílias.

Eles explodiram os nossos comboios e mudaram as nossas belas cidades espanholas para o 3º mundo afogando-as em imundice e crime.
Fecham-se em apartamentos que recebem grátis do governo, planeando a matança e destruição dos seus ingénuos anfitriões.

E isto, para nossa desgraça, trocámos cultura por inimizade fanática, habilidade criativa para habilidade destrutiva, inteligência para a regressão e superstição.

Trocámos a procura da paz dos judeus da europa com seu talento para um futuro melhor para seus filhos, o seu determinado apego à vida porque a vida é sagrada, pelos que procuram a morte para pessoas consumidas pelo desejo da morte para si mesmos e para os outros, para as nossas crianças e para as deles. Que erro terrível foi feito pela pobre europa.

Recentemente, a Grã-Bretanha debateu a remoção do holocausto do currículo escolar porque ofende a população muçulmana que pretende que nunca tenha existido. Por agora ainda não foi removido. No entanto é um presságio assustador do medo que está a dominar o mundo e de quão fácil se está a tornar cada país ceder a esse medo.

Passaram cerca de setenta anos depois da segunda grande guerra. Este mail está a ser enviado como uma corrente em memória dos seis milhões de judeus, vinte milhões de russos, dez milhões de cristãos e mil e novecentos padres católicos que foram assassinados, violados, queimados, mortos à fome, espancados, feitos cobaias para experiências e humilhados.

Agora, mais do que nunca, com o Irão entre outros negando o holocausto, que dizem ser um mito, é imperativo fazer “que o mundo nunca esqueça”. Este mail pretende atingir 400 milhões de pessoas. Seja mais um elo na corrente de memória e ajude a distribui-lo pelo mundo.

Quantos anos passarão depois do ataque ao “World Trade Center” até dizerem que nunca aconteceu porque ofende muçulmanos nos Estados Unidos?

Se a nossa herança judaico-cristã ofende os muçulmanos, está na hora de fazerem as malas e mudarem-se para o Irão, Iraque ou qualquer outro país muçulmano.

Por favor não destrua esta mensagem; só levará um minuto para repassar.
Temos de acordar a América(e o resto do mundo…) antes que seja tarde demais.

NUMA NOITE FRIA

Ary Franco (O Poeta Descalço)

            Fiz serão e fechei o escritório por volta das 20:00h.

          Aqui fora o frio é intenso obrigando-me a levantar a gola do grosso sobretudo que me agasalha e faz-me caminhar com as mãos enfiadas nos bolsos. A neve que cai confunde-se com meus cabelos grisalhos, tornando-os mais alvos do que são mais acentuadamente nas têmporas. Ficaram assim precocemente mesclados, antes de alcançar meus quarenta anos. Chequei a pensar em tingi-los mas parece que esse “distúrbio capilar” agradou mais ao sexo oposto e acomodei-me ao bem vindo fenômeno.
           Por ser sexta-feira  achei cedo para retornar à solidão do apartamento vazio que me aguardava. Sem desviar-me do caminho, dirijo-me ao aconchego do restaurante Refúgio já meu conhecido, onde serve uma boa comida e pode-se dançar, quando acompanhado, até quase o amanhecer, se o fôlego o permitir.
            Na soleira da porta de vidro, aberta pela gentil recepcionista, dispo meu casaco e o deixo na chapelaria, indo direto ao toalete pentear-me e enxugar a neve reminiscente que camuflou-se derretida entre as ondas de meus cabelos. Voltando ao salão, escolho uma das mesas vagas servidas pelo meu amigo Nilo, o melhor dos garçons. Quase que imediatamente ele me traz o cardápio acompanhado de seu cordial e solene boa noite.
            Antes de escolher o prato, dou uma afrouxada no nó da gravata e, de soslaio, observo na mesa vizinha uma linda e elegante morena saboreando uma sopa de aspargos, especialidade da casa. Nilo já voltava com meu tradicional aperitivo e, com tom de voz levemente mais alta que a normal, pedi-lhe como entrada uma sopa de aspargo. A morena dirigiu-me seus olhos verdes acompanhados de um discreto sorriso.
            Aproveitei para educadamente perguntar-lhe:
__ Ele não veio?
__ Ela, apenas limitou-se a responder-me com um meigo sorriso.
__ A sopa está gostosa? É minha preferida…
__ Novo sorriso discreto, afirmando com a cabeça que sim.
__ Que tal quebrarmos nossa solidão? Também estou só. Ela não veio… (menti!).
            Dessa vez ela falou: esteja à vontade e apontou para a cadeira vazia à sua mesa.
            Peguei meu aperitivo e apresentando-me à Consuelo pedi permissão para sentar-me. Nilo ficou meio desnorteado quando viu minha mesa vazia, mas logo se recompôs ao me localizar. Após servir-me, desejou-me bom apetite e eu agradeci citando seu nome.
__ Obrigado, amigo Nilo.
            Consuelo pareceu-me mais confiante, ao identificar-me como um habitué do restaurante. Saboreamos as sopas trocando amenidades e falando sobre nós dois. Eu, advogado criminalista, ferrenho solteirão, obstinado por liberdade e vivendo a vida da maneira mais prazerosamente possível. Ela, médica oncologista, acabada de sair de um noivado frustrado e turbulento procurando adaptar-se a uma vida a sós, decidida ao celibato em consequência da desilusão amorosa recentemente sofrida.
            Terminada a sopa, já sabíamos nossas idades, afinidades pelo teatro, autores preferidos de livros, poetas, viagens, etc… Parecia um espelho meu.
__ Antes de pedirmos nosso segundo prato, você aceitaria dançar?
__ Não sou exímia dançarina, mas aceito.
            De imediato levantei-me, e ajudei-a a levantar-se puxando suavemente sua cadeira.
__ Consuelo, façamos um pacto. Eu também não sou bom dançarino, então vamos combinar de não nos pisarmos – OK?
            Numa discreta e alegre risada observei seus lábios entreabertos emoldurando lindos e alvos dentes. Boca sensual como que a espera de um ardente beijo. Será que pela vez primeira Cupido iria me flechar? De mãos dadas fomos para a pista de danças. Naquele contato senti algo eletrizante percorrer-me o corpo. Ao tomá-la em meus braços, decretada foi minha irremediável e embrionária paixão à primeira vista.
            Dançamos de rosto colado e ela confidenciou-me que mentiu para mim quando insinuou que esperava  alguém. Eu falei que também menti mas que estava a procura de uma pessoa muito especial. Ela afastou seu rosto do meu e fitando-me nos olhos, perguntou:
__ Quem?
__ Você!

      Novamente colamos nossos rostos e flutuamos em nuvens pelo salão. Meu corao pulsava num compasso nunca dantes sentido, sonhos jamais sonhados nasceram em minh’alma, embriaguei-me no olor desprendido de seus cabelos, acalentei-me no calor emanado de seu corpo. Estava amando!
            A orquestra parou e voltamos para a mesa de mãos dadas. Ajeitei a cadeira para ela sentar-se e comentei:
__ Até que não dançamos mal. Pelo menos seus pés saíram ilesos.
            Novamente aquele sorriso sensual despontou em seu lindo rosto, realçando o verde de seus olhos, sua tez sedosa… Nilo interrompeu meu admirar, indagando se já tínhamos escolhido o menu. Passei o cardápio para Consuelo mas ela pareceu-me em dúvida e ofereci-me para fazer uma sugestão para nós ambos. Ela aquiesceu e eu pedi salmão ao molho branco e uma garrafa de vinho branco Morada Chardonnay.
__ Espero que você goste de peixe.
__ Adoro! Mas vou beber pouquinho pois tenho que dirigir.
__ Fique tranquila que eu me encarrego de beber a sua parte (rimos).
__Você tem seu próprio consultório médico?
__Sim, mas dedico a maior parte do meu tempo ao Hospital do Cancer Infantil. Luto contra a interrupção de vidas recém-chegadas
            Aquela dedicação altruísta aumentou ainda mais minha admiração por Consuelo. Ela era linda externa e internamente!           

Nilo chegou com o vinho e duas taças para degustarmos. Depois de servir-nos, esperou nossa aprovação e, após brindarmos a algo maior que uma simples amizade, aprovamos e ele retirou-se para trazer o nosso salmão.
           Durante todo o tempo apreciava minha Diva. Fala macia, elegância, finura, beleza irretocável, atraente,,,
__ Por que você me olha tanto?
__Você acredita em hipnose, magnetismo ou algo maior? É isso que você me desperta.
__Também vejo em você muitas qualidades…
__Por favor não me deixe ruborizado. Não estou muito acostumado a elogios.
__Usando de sinceridade, acho você muito galante, educado, bonito…
__Pare! Estou quase chorando. Acabo de chegar às nuvens, ouvindo de seus lábios tanto carinho.
__Mas é pura verdade! O que sinto costumo dizer; jamais guardo pra mim!
__Consuelo, posso esperar de você algo parecido com um terno amor? Juro que não irei decepcioná-la!
__Experimentemos, quem sabe dará certo?
__Então brindemos a isso!  Ao terminarmos nosso delicioso salmão, estiquei meu braço sobre a mesa em direção a ela, com a palma da mão para cima. Ela pousou a sua sobre a minha e novamente senti aquela transmissão de uma indescritível empatia. Realmente tinha achado minha metade! Queria possuí-la em meus braços e convidei-a para novamente dançarmos. Ao pisarmos no tablado, num impulso incontido, abracei-a e trocamos um beijo apaixonado.
__Desculpe-me, não me controlei!
__Está desculpado! (E ofereceu-me novamente seus lábios de mel)
            Tornei a beijá-la e um casal próximo a nós aplaudiu nosso idílio.
            Quantos anos passei em minha vida fugindo do amor! Mal sabia eu que ele viria ao meu encontro quando menos esperasse e que seria de forma inapelável! Enquanto dançávamos com rostos colados, sussurrei-lhe: Seria precipitado, se a pedisse agora em casamento? Sem responder-me ela riu, parecendo-me feliz.
            Duas danças depois, voltamos à mesa e pedimos mousse de chocolate para sobremesa e arrematamos nosso jantar com um licor de drambuie.
            Ela pediu-me licença para ir ao toalete e nesse hiato pedi a conta ao Nilo, pagando-a com cartão, já incluída a gorjeta do meu amigo.
            Em seu retorno trocamos os números de nossos telefones, peguei na chapelaria meu sobretudo e o casaco de minha querida namorada, coloquei-o sobre seus ombros, vesti o meu e esperamos o manobrista trazer o carro dela. Já sentada ao volante novamente nos beijamos e eu terminei minha caminhada para casa a pé, um quarteirão apenas de distância. Sentia a neve mais suave e segui aquele curto trajeto cantarolando como o homem mais feliz do mundo.

            Abreviando o “happy end”, quero dizer que nos casamos oito meses depois. Até hoje, quando tenho tempo disponível, vou ao hospital em que minha amada esposa trava sua gloriosa luta e divirto as crianças “carequinhas”, colocando no nariz uma bola vermelha e passando tinta no rosto. Cada gargalhada que ouço daqueles anjos, ecoa no mais recôndito imo de meu coração e gratificam as lágrimas que brotam de meus olhos, manchando a maquiagem deste emocionado palhaço.

SARARIMAN

Edweine Loureiro ( Japón)

A origem, claro, vem da palavra inglesa salaryman. Em bom português, “o homem do salário”, o que por sua vez significa, mais especificamente, assalariado. A palavra é inglesa, mas creio que não há país mais apropriado para seu uso que o Japão.

Não é segredo para ninguém que o japonês vive mais para o trabalho que para a família. E isso deve ser herança do shogunato, cuja devoção ao dever levava, literalmente, à morte. Hoje em dia, o feudo só trocou de nome. Chama-se kaisha (traduzindo: empresa). Mas a devoção ― principalmente por parte dos senhores, os jovens nem tanto ―, continua intacta. Mudar de família, é aceitável: de empresa, JAMAIS! Ser demitido, então, equivale à pena de morte. Uma vez que ― e esta é uma triste realidade dos finais de ano japoneses ―, é grande o número de suicídios de trabalhadores ao serem demitidos. De tal modo que, em todos estes anos no país, não foram raras as vezes em que testemunhei a parada do metrô porque alguém havia se atirado aos trilhos.

E o não é somente a demissão: há também o estresse, provocado pela pressão, pelo cansaço, por sua vez oriundos das excessivas horas de trabalho. Sim, porque o chamado sarariman, aquele tipo que usa paletó e camisa sempre da mesma cor (respectivamente, preto e branca), este é o símbolo do trabalhador japonês que prefere ficar treze, quatorze horas, na empresa, do que em casa ― ainda que o trabalho de fato resuma-se a, quando muito, três horas ao dia.

Porém, leitor, não se iluda achando que os nipônicos trabalham como loucos  ao longo dessas treze ou quatorze horas supracitadas, que passam na empresa (mesmo porque seria humanamente impossível!). Na verdade, o sarariman passa mais tempo perambulando pela empresa do que realmente trabalhando (sim, eles também têm suas malandragens) ― por exemplo, são inúmeras as reuniões durante o dia (inúteis, sempre), horas e horas saindo para fumar, encontros com clientes que duram duas horas para um assunto que em regra resolver-se-ia em cinco minutos etc etc. Mas o importante ė estar lá com os colegas (voltar à casa para quê?) e, de preferência, ser o último a sair, quase à meia-noite.

Uma obsessão cultural, enfim, que não cabe mais na realidade econômica dos dias atuais ― que preza mais pela eficiência do que pelas convenções. Porém, os velhos e ultrapassados chefes que aqui comandam ainda insistem nessa filosofia, fazendo com que muitos de seus empregados acabem tendo uma crise nervosa e, consequentemente, jogando-se debaixo do trem, do metrô, do prédio… ou do diabo! Vejam: comecei a ter um ataque de nervos e já nem sei mais sobre o que estava falando…  Opa! Lá vem o metrô!

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