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AMADOS ANIMAIS

Ary Franco (O Poeta Descalço)

 

         Pelo menos uma vez por semana levo minha filha na loja veterinária do Dr. Júlio, especializada na venda de rações para animais (cães, gatos, pássaros, coelhos…), vacinas, banho & tosa, casinholas, caminhas, brinquedinhos para mascotes, coleiras,  etc… Essas nossas idas semanais são forçadas para compra de ração e biscoitos para a Bella, nossa cadela Rottweiler adotada por nós a 6 anos.

         Enquanto minha filha faz as compras, normalmente fico sentado ao volante do meu Rolls Royce (modelo Gol – ano 90), bem na frente da loja apreciando a passarada e alguns filhotes caninos expostos à venda na calçada. Despertou-me a curiosidade um casal de calopsitas que “copularam” empoleirados, numa ampla e exclusiva gaiola pendurada na entrada da loja. Prisioneiros mas felizes em seu amoroso colóquio, mostravam-se indiferentes aos transeuntes que por eles passavam.

         Minha atenção foi desviada para um carro de luxo que estacionou ao lado do meu. Dele saiu uma elegante senhora carregando uma gaiola vazia e, antes de entrar na loja, parou junto ao casal de calopsitas e começou a enfiar o dedo entre as grades da gaiola e a falar com eles. Demonstrou-me sentir amor e que iria levá-los numa compra evidentemente planejada. Talvez já estivessem até reservados para ela.

         Pareceu-me que o imaginado por mim estava ocorrendo, pois um empregado veio apanhar a gaiola e levou-a para dentro da loja. Acertei, ela iria levá-los! No entanto, entrei em pânico! O empregado voltou para pendurar a gaiola no lugar de origem, com apenas uma das calopsitas. ELA SEPAROU O CASAL condenando-os a um aprisionamento mais hediondo ainda, na solidão de uma triste separação.

         Saí do meu carro, esperei e dirigi-me à senhora quando voltava para o carro com sua recente compra.

__ Bom dia, senhora. Desculpe-me a intromissão, mas a senhora comprou apenas um dos pássaros. Por que não levou o outro também?

__ Bom dia, é que eu gostei mais deste.

__ A senhora sabe que acaba de separar um casal, condenando-os ao isolamento até o fim de suas vidas?

__ Como é que o Sr. sabe disso?

         Aí, contei-lhe em sutis detalhes o que acabara de presenciar de dentro do meu carro e ela pareceu ficar abalada com o que estava fazendo inconscientemente.

__ Ai meu Deus! Eu amo animais, não posso fazer isso! Vou levar o outro também!

__ O que a senhora irá levar agora é a namorada deste que está em sua gaiola.

__ Ah! Moço, como eu lhe agradeço! Que coisa monstruosa eu ia fazer. Obrigado!

         E voltou para a loja. Minha filha finalmente retornou, explicando o porquê da sua demora.  O computador tinha “travado” e não pôde emitir a nota para ela assinar (nossas compras são acumuladas e pagas no final de cada mês). Não obstante, Da. Magda (gerente da loja) deixou que ela trouxesse as compras em confiança. Pedi que ela esperasse um pouquinho,  sentada no carro comigo.

__ O que foi papai? O que é que você está aprontando?

         Antes que eu pudesse responder, a senhora saiu da loja com o casal de calopsitas e levantando a gaiola, mostrou-os para mim. Saí do carro e, com os olhos umectados, beijei-lhe a mão.

__ Obrigado, madame!

__ Eu é que agradeço, moço. Agora estou duplamente feliz. Tenho um enorme viveiro arborizado no meu sítio e eles vão se sentir felizes para o resto de suas vidas.

         Voltei para o carro, e minha filha, sem entender nada, interpelou-me.

__ Papai, posso saber o que está acontecendo?

__ Pode! No caminho te conto…

PODER E COBIÇA

Autor: Edweine Loureiro

Gordon Gekko, o personagem celebrizado por Michael Douglas nos ainda promissores anos oitenta, costumava dizer que “a cobiça era boa”. Concordo. E muito boa, acrescento. Afinal, onde estaríamos se o homem das cavernas não tivesse cobiçado a produção excedente do vizinho? Provavelmente, ainda nas cavernas (o que, vendo o mundo como está, talvez não tivesse sido a pior das decisões).

Mais: estaríamos ainda utilizando paus e pedras contra rivais e transgressores, em atos públicos de linchamento ― e isso não acontece em sociedades civilizadas, não é mesmo? Principalmente nas evoluídas sociedades capitalistas…

Sim, senhor: abençoado Capitalismo. Entre outras vantagens que possui, um perfeito cavalheiro: dado a jantares em restaurantes e roupas caríssimas. E de fato: o Capitalismo veste-se muito bem. Até quando nos assalta, o traje é a rigor.

Por isso mesmo detesta ser visto na companhia da Igualdade e da Fraternidade ― ambas tão vis.

E, para finalizar: não o procurem após eleições; pois é quando o Capitalismo costuma viajar. Para praias muito distantes. Sempre ao lado da Cobiça e, se puder, com o Dinheiro Público.

Para um ménage à trois ― tudo, claro, dentro das regras do cavalheirismo.

Sentimentos perigosos
Rejane Machado ( Brasil)

Todos sentimos em algum momento reações desconfortáveis sobre pessoas a quem amamos. Parece que não administramos bem o fato de reconhecer que são humanos, que têm defeitos, que, em suma, não são perfeitos. Notamos em alguns uma certa inveja de alguém por não contar com alguns dons que o outro esbanja: simpatia ou charme, alegria contagiante, algum dom especial, algo assim; ou pode ser mais grave; uma certa má vontade quando em presença de quem desfruta uma posição de mais prestígio num grupo, ou por ser mais bem-dotado, ter uma situação melhor, enfim, para quem está sujeito a estes sentimentos qualquer mínima diferença será motivo para censura, má vontade, mal-estar na presença. Aí costuma-se criar uma situação de estranhamento que cresce com o tempo, e que pode não ter consistência ou motivos fortes para isso, mas provoca um afastamento definitivo tornando-os indiferentes um ao outro. Em família se notam desses casos que não apresentam nenhuma razão pertinente ou que justifique a antipatia e segregam pessoas sem um motivo justo ou razoável. O ciúme costuma realizar grandes e negativos males. Inclusive provoca uma espécie de cegueira derivada da injustiça que torna incapaz a visão real das coisas, isto quando não provoca o desenvolver de mágoas profundas.

Mas nossa experiência recomenda um pouco mais de tolerância, e o experimentar de certas técnicas para superar problemas que muitas vezes não serão tão graves, mas que a nossa impaciência ou incompreensão fazem parecer muito piores do que na verdade são. Uma boa medicação será analisar bem o problema. Olhar-se ao espelho, procurar sentir o mais claro possível se há, realmente, um problema ou se estamos a ver fantasmas; se sofrendo perseguição, implicância de alguém que exibe uma deficiência que pode ser contornada, se a reação é causada por um motivo sério, por questão de hierarquia, se existe algum complexo de inferioridade por parte daquele que nos torna a vida mais difícil. Avaliar com sensatez todos as possíveis causas do mal-estar entre nós e aquela pessoa. Procurar saber com espírito desarmado se a ofensa não partiu de nós.

Primeiramente a fórmula mágica que serve a todas as situações: contar até dez. Não responder à provocação, ao contrário, desconhecê-la. Grande parte das pessoas não consegue engolir um insulto, mas é necessário, imprescindível fazer de conta que não houve dolo algum. Muitos dirão: se não reajo ele vem com tudo e faz uma ofensa maior, porque imagina que está tratando com um covarde, com um medroso, poltrão. O ofensor não admite sua honra maculada, e basta uma pequena reação da outra parte para que o incêndio se instale, o que não acontece quando a parte ofendida cala e se faz de desentendida, afastando-se normalmente sem pânico. Nessa hora a “surdez” é um elemento valioso, a “debilidade mental” mais ainda. Se eu não ouvi a palavra ofensiva, ou não sei o significado dela, a serenidade não se altera, e o ofensor em geral se recolhe à sua insignificância. É necessário resguardar-se de um perigo, uma tentação, nesse caso: evitar a ironia que pode ofender mais do que as vias de fato.

Dificil, sabe-se, fazer-se de alienado ou deficiente de audição. Mas vale a pena passar por idiota, evitando de provocar um mal pior.

Se o silêncio não resolver, o melhor é evitar aquela presença, mas não ostensivamente. Agir com serenidade e sobretudo naturalidade, não deixando que fique no coração alguma semente ou resíduo negativo. Se puder sentir pena, melhor; raiva nunca. A mágoa faz mal à saúde do corpo e sobretudo à alma. Como ainda não somos perfeitos, e não sabemos amar a quem nos ofende, procuremos não revidar ás ofensas, para não descer ao patamar inferior de quem tenta nos agredir. E com a calma virá a reflexão. Não vale a pena “perder a linha”e enveredar por um caminho sem volta.

A palavra ofensiva, uma vez saída, ninguém pode imaginar que caminhos excusos tomará. Como crescerá, que consequências desastrosas provocará, que incêndios acenderá. E a coisa pode tomar um rumo incontrolável. Tornar-se uma nódoa eternamente viva. Ao passo que se há calma, se não se revida, se a gente faz de conta que não entendeu, o ofensor se desarma, percebe que perdeu o seu tempo, tem ocasião para refletir e reconhecer que exagerou na reação.

O pensador Emmanuel nos ensina que há muito mais coragem em não revidar a um insulto do que em respondê-lo.

E do lado de cá teremos evitado muitas dores de cabeça. Porque deixamos que se esgotasse a irritação do outro, tirando de nós o peso de um remorso futuro de ter cometido uma injustiça, ter dado importância demais a um questionamento que tem a mesma existência concreta de uma bolha de sabão.

Com uma diferença: a bolha de sabão reflete a luz e as cores bonitas da Natureza, é um momento de uma ilusão bonita, que faz bem à vista e ao ânimo. ao passo que a palavra ofensiva deixa no coração um peso mau, desagradável, uma sensação de infelicidade que se espalha e provoca consequências, sabe Deus de que tamanho!

PROVAVELMENTE
Eugenio de Sá

Provavelmente, os pais destes meninos  irão votar num país onde o voto é obrigatório mesmo. Isto é estranho, já que, como é sabido, a normal conduta numa verdadeira democracia considera o voto unicamente como um direito e um dever cívico. Mas continuemos;  provavelmente os pais destes meninos serão levados a votar contra os seus próprios interesses e os dos seus filhos, iludidos pelas palavras doces que lhes prometem um qualquer cestinho de compras mensal, ou outro logro parecido. Se a isto juntarmos o induzido resultado dos (maus) exemplos que vêm na televisão, ou mesmo ao vivo, vindos de quem veio do povo a que eles pertencem e que hoje tem posição relevante, temos aí os ingredientes suficientes que podem justificar uma má – se não mesmo péssima – opção.

Vejamos; sem educação não há discernimento correcto e, não o havendo, qualquer ser humano assim (im)preparado fica sujeito a toda a casta de manipulações perpetradas por gente ambiciosa, sem escrúpulos e faminta de poder, que precisa dos seus votos para levar por diante projectos que negam qualquer doutrina verdadeiramente empenhada em melhorar a existência dos que os puseram no poder, mormente a obrigação de lhes dar a educação que lhes falta.

Tais manipuladores, falam, gritam mesmo as mentiras que mais lhes convêm, porque sabem que, se levassem a cabo um verdadeiro programa de ensino, alargado aos mais remotos recantos da pobreza, ainda e sempre maioritária, isso iria promover o seu próprio “hara-kiri” político a médio prazo, o que lhes frustraria as intenções de se perpetuarem no poder, e depois deles os seus designados delfins.

Numa verdadeira democracia não se prometem “esmolas” enganadoras indiscriminadamente; estudam-se e conferem-se apoios a quem prove que realmente deles necessita e que os merece, por serem vitimas das circunstâncias cujas causas lhes são alheias.

Esses meninos, tal como tantos outros,  irão assim manter e engrossar as estatísticas dos (dóceis) iletrados, ou pouco mais que isso, e o pior é que, provavelmente,  irão ver num curto futuro as suas liberdades coartadas por governos que se encaminham para um autoritarismo caduco, cuja (alegada) inspiração marxista vai agonizando numa ilha que todos conhecem e que, na realidade, morreu de podre faz tempo, na sua pátria natural; a ex-União Soviética. Há mesmo quem afirme que se hoje Karl Marx fosse vivo não seria marxista, simplesmente porque as realidades são bem diferentes das vividas então.

Esses meninos que aí vêm podiam ter sido fotografados num qualquer moceque ou favela dos arrabaldes de Quito, de Caracas, do Rio ou da Baía, de La Paz ou de Manágua, por exemplo. Sobre eles pairam idênticas ameaças, a juntar à sua desgraça natural; a endémica miséria, semelhante em todo o mundo, esvaziada de esperança e onde é negada a justa e merecida educação a povos inteiros.  Porque, nos países geridos por uma verdadeira democracia, não se condenam ao ostracismo e ao consequente desespero as novas gerações.

Na realidade, onde impera a verdadeira democracia  os orçamentos de estado continuam, de uma forma crescente, a considerar elevadas percentagens do PIB justamente para a educação, porque ela é considerada factor primordial para o desenvolvimento dos povos.

Provavelmente, a grande maioria dos destinatários úteis deste e de outros alertas publicados na internet a eles não terão acesso e, mesmo que alguns o tenham, provavelmente não os vão entender ou, entendendo-os, decidirão fazer-lhes orelhas moucas. Mas, mesmo assim, vale sempre a pena continuar a cruzada  pela educação.