EL MAR EM PORTUGUES

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O MAR ESTÁ-ME NAS VEIAS
Eugenio de Sá ( Portugal)

   Desde sempre que a solidão é tida como algo que ninguém deseja, que a todos faz infeliz. Assim a cantam os poetas, assim dela falam os grandes prosadores. Não sou uma excepção à regra, mas há momentos que todos gostamos de os viver a sós. Bastam-nos para nos sentirmos felizes. No meu caso, falo do mar e dos momentos únicos, inesquecíveis que, a sós com ele, pude desfrutar plenamente.

   Lembro-me das manhãs gloriosas de sol vividas a bordo do meu pequeno barco, deslumbrado com a luz “única” da minha Lisboa projectada nas águas do Tejo e os olhos postos no horizonte onde se mostrava, esplendoroso, o Atlântico um par de milhas à proa.

   E a minha gratidão à vida era então tanta que me perguntava se alguns dos nossos sonhos não os herdaremos nos genes e os trazemos no código do nosso ADN.

   A minha fixação por barcos, pela navegação, pela pesca, é antiga e foi desperta numa primeira vez quando um dos meus tios me convidou para um passeio numa velha canoa à vela que o seu pai, meu avô, mantinha há muito na praia de Algés. Foi um passeio um tanto conturbado, confesso, porque o meu tio dominava mal as técnicas de velejar, e no Tejo sempre se levantam nortadas lá pelas três horas da tarde. Mas aquele marulhar da água no casco e a brisa suave a acariciar-me a face fizeram com que ficasse desde logo apaixonado pelo mar.

   Anos depois, já homem, comprei o meu primeiro barco. Passava horas mirando-o e remirando-o, dando-lhe retoques na pintura azul e branca, inventando detalhes para o tornar mais confortável, mais vistoso. Depois comprei-lhe um motor, e tive o cuidado de que à marca correspondesse uma cor que fosse bem com o azul e branco.

   Por fim, já de posse da ‘carta de marinheiro’, fui pescar com ele, mas sempre soube que tudo o que fizera era o pretexto para voltar ao mar, para lhe sentir e respirar a maresia, para relembrar o marulhar na água no casco, para partilhar com as gaivotas toda aquela beleza.

   Tempo correu, e eu voltei ao mar muitas mais vezes, com barcos diferentes mas sempre com a mesma paixão a mover-me em busca daquela desejada e falsa solidão. Sim, porque a companhia do mar não é imaterial; há algo naquela massa de água viva que dialoga connosco, os que a amamos. E depois, o mar de Portugal que se confunde com o belo recorte da costa lusitana é um deslumbramento!

   Hoje já não saio do cais pela manhã, com brumas ou sem elas. Já não desfruto mais daquela falsa solidão de que vos falei, mas ainda vivo, em espírito, as memórias desse mar que ainda canto em muita da minha poesia.

   Agora vocês sabem porque o faço.

HÁ, UM  RIO  INVISÍVEL..Lobato de Andrade

Apraz-me o marulho do teu manancial
No ocaso da vazante da maré
Perpassando o Solar do Caeté,
Num diapasão de canto espiritual.

Vem-me nostalgias das velas aos ventos,
Soam cantilenas moucas aos ouvidos
Em forma de ecos incompreendidos,
Que correm no leito de aiar e lamentos.

São murmúrios das tuas águas vazantes
De um rio mudo caudal de saudade
Dos náufragos que clamam por piedade;

São nêmias das almas agonizantes
Afogadas com voraz velocidade,
Em assomo ao enlevo à eternidade.

O MAR
Gabriela Pais ( Portugal )

Vastidão que me fazes meditar
na acalmia temperada de sal,
sonho que vou em batel a navegar
lançando ondas d’espuma no areal.

Sentada na areia de olhos fechados
vislumbro um imenso mar que se espelha,
pedaços de esplendores prateados,
por onde a mente procura e aconselha.

Mar palco das meditações enreda,
quer em marés de torpor ou revolto,
um primor e autêntica labareda.

Na brisa do vento divagas solto,
jogando na bruma flechas em queda,
na penumbra, agrides em tempo morto.

Hoje voltei ao mar
e no entanto…
( Eugénio de Sá )
 
Hoje voltei ao mar e no entanto…
A despeito dos cheiros de maresia
E da espuma que a onda desfazia
Já das sereias não lhes ouço o canto!

Repetem-se as marés lambendo a praia
As brumas são iguais às que os meus olhos
Viram cobrir falésias e escolhos
Como toalhas finas de cambraia

Sei que é o mesmo mar e no entanto,
A despeito das estrelas que o decoram
Fazerem parte deste mesmo manto…

Diferenças há subtis no seu encanto
Serão os urubus ou as gaivotas
Hoje voltei ao mar e no entanto…

P’ra além do mar, a saudade
Eugénio de Sá

Continuo dormente no meu canto
Esperando ouvir os salmos das sereias
Mas de que serve esperar nestas areias
Se sei que já não cantas o meu canto?

Só Deus conhece esta triste amargura
No sofrimento que calo sozinho
Ao ver por terra todo este carinho
A perder-se nos ventos c’o a ventura.

E o pior que posso perceber
Do gosto acre do fel desta saudade
É que a saudade dá-me a entender
Que um destes dias posso não ter saudade!

O MAR
O mar mantêm o cerúleo,
mesmo quando rezingão,
como verdadeiro hercúleo,
quebra qualquer coração.

Gabriela Pais (Portugal)